Sobre Watchmen, o filme, e a violência do ser humano

April 7th, 2009 § 2

Hoje eu li um texto de um amigo que normalmente escreve umas boas piadas que me pegou na virada da esquina. Normalmente ele disserta sobre política, futebol e nerdices afins com uma verve de humor rara. Sarcasmo e ironia de primeiríssima qualidade saem daquelas páginas virtuais e tinta digital.

Mas o puto me manda um texto desconcertante. Uma narrativa inteligente, brincalhona, excepcional e única. O sinal definitivo que o cretino tem um talento inegável e se ele quiser – apenas se ele quiser – se tornará um dos maiores cronistas/contistas/escritores desse país.

É foda ver algo tão raro acontecer ali, na tua frente, na mesa do boteco. Sentir o cheiro da história acontecendo. É de uma violência incomensurável, como se fosse um tapa na cara que ecoasse por meses a vir.

Mas isso até agora não tem nada a ver com Watchmen, exceto o fato que esse mesmo calhorda não tinha lido os gibis até bem pouco tempo – e ele se dizia fã de HQs – mas foi ver o filme com afã de fã, de quem cresceu lendo Alan Moore e tendo sonhos lisérgicos a partir do mofo acumulado em páginas de quadrinhos da Editora Abril e um paralelo forçado que tento fazer.

Quando Watchmen foi anunciado, eu fiquei com os cabelos do pescoço (e até o rego, confesso) arrepiados de expectativa pela estréia. Era um dos meus ícones quadrinísticos migrando de mídia. Já tinha gostado de V de Vingança, mas o tom lírico-anarquista do gibi havia se perdido. Havia amado a versão do Homem de Ferro e gostado muito do novo Hulk (o último filme, o que se passa no Brasil) e achado que finalmente acertaram o tom nos dois Batmen.

Mas treino é treino e jogo é jogo, né? Watchmen e The Dark Knight Returns são quadrinhos-marco da arte seqüencial e, mesmo tendo outras obras que inovaram mais, tiveram melhores roteiros, melhores artes, venderam mais e etc., essas duas sintetizam tudo aquilo que os quadrinhos deixaram de ser nos anos 80 e passariam a ser nos anos seguintes (até voltarem a ser o que eram nos anos 70, mas isso é outro assunto, outro texto, outro blogue).

Quando um quadrinho (ou peça, ou romance, ou canção) migra de mídia e vira filme/série de televisão/desenho animado é esperado que haja concessões na história, no visual e no ritmo da coisa. No caso, comprimiu-se material suficiente para uma minissérie da HBO em quase três horas de filme e – na minha modesta opinião – tivemos um resultado espetacular.

Humor na hora certa (na mais ridícula possível), referências quadrinísticas mantidas e respeitadas, personagens reconhecíveis até na sombra e o grau de suspensão de realidade necessária para o tema. Mas isso não torna o filme genial ou brilhante. O Watchmen, the movie é apenas um puta filme de heróis que tentam salvar o mundo. As discussões, as viagens, os conflitos emocionais, as nuances suaves? Que fiquem no papel, onde funcionam bem melhor que na tela.

O paralelo? Ah! É quando uma pessoa sai da caixinha para fazer algo diferente corre seus riscos. Corre o risco de ser genial.

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Which Superhero are you?

November 17th, 2006 § 1

Oba!

Your results: You are Spider-Man

Spider-Man
80%
Catwoman (??)
70%
Iron Man
70%
Supergirl (???)
65%
Green Lantern
60%
The Flash
60%
Hulk
60%
Robin
55%
Wonder Woman
45%
Superman
45%
Batman
30%
You are intelligent, witty,
a bit geeky and have great
power and responsibility.

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O sexo é o alento

October 12th, 2005 § 0

Burro chegou com uma novidade: “Comi gente ontem!”

Os dois olharam com a cara de tédio habitual e, antes de fazerem a pergunta default, ele sacou: “E não paguei por isso!”

Com o interesse dos amigos ativado, ele se derramou em longuíssimas narrativas de como conduzira o flerte por meses a fio, como evitara as tradicionais armadilhas de seduções baratas, como envolvera e seduzira a menina até obter “os favores da linda e querida flor.” “Flor? Porra! Você comeu gente ou um brócolis?” Gordo com sua delicadeza habitual cortou o longo, elogioso e enfadonho relato de Burro.

Ofendido, mas não abalado, Burro revelou: “Eu a chamo de Minha Flor!” Explode uma gargalhada entre copos de chope consumidos no Devassa do Leblon. Grande não se conteve. Com dedo em riste, olhos em lágrimas, tenta falar alguma coisa mas só consegue aumentar os soluços de Gordo que quase desmonta a mesa de tanto se contorcer. “Essa é a coisa mais engraçada, ever!” Conseguiu dizer ao domar os risos e as lágrimas. “Cara, você me deu duas semanas terapia agora! Putaquepariu! Que coisa foda! ‘Minha Flor’ é foda, cara!”

Abalado e ofendido, Burro saca do palmtop as fotos que tirara da menina. Linda, linda! Aliás, lindíssima! Morena, olhos negros e fundos, rosto delicado, corpo de vespa. Acintosamente exibe as dos dois se beijando e pára ante o olhar estupefato dos amigos. “Pois é. Mó gata!”

“Qual o preço? É. Quanto você tá pagando para a menina posar de sua namorada.” Pergunta, impromptu, Grande. “Não estamos namorando. Não quero relacionamento sério.” “Ah! Qualé! Mó gatinha e você não vai amarrar com chave de pica?” “Pois é. Você vai ver. Se a minha teoria estiver certa, vou ficar cercado de mulheres maravilhosas em pouco tempo.”

Dali a dois meses, os amigos mal conseguram ver Burro. Ou ele saiu com Sicrana ou com Beltrana ou com ambas ao mesmo tempo. Ou era uma terceira, quarta. Já tinham perdido a conta. Só sabiam do histórico porque Burro informava-os religiosamente das novas conquistas. Foto, dados cadastrais, breve histórico da conquista. Gordo já contava para os seus amigos paulistas o orgulho que tinha do amigo nerd e comedor. Grande se calava e matutava.

Finalmente combinaram de se encontrar no Belmonte para chope e pastel de camarão. Gordo chegara antes e saúda o Burro ao entrar. “Como é que tá essa vida de pica-doce?” “Tá ótima! A merda é que não dá para comer todo mundo. Não dá tempo. Ou como ou trabalho, né?” “E tu vai largar o emprego?” Burro ficou tenso. “Nunca!” “Qual foi cara? Você odiava o emprego…” Soltou Grande, já puxando uma cadeira e pedindo um chope e uma Coca-cola. “Conta aí a teoria que transformou um nerd magrelo, antipático e mal-vestido em um comedor de primeira linha.”Fui promovido a Gerente Sênior de Marketing n’A Empresa.” “Porra cara! Parabéns! Parabéns mesmo, mas o que isso tem a ver com aumentar a densidade de mulher boa ao teu redor.” “Cara, mulher sente o cheiro do poder à distância. Sabe que cara com cargo bom dá segurança e estabilidade.” “É. Quem gosta de pica é veado. Mulher gosta é de dinheiro.” Gordo ri, meio que acabrunhado, dessa afirmativa. “Não vou discordar. Mas qual era o lance da primeira menina?” “…” “Fala negão! Conta aí…” “Prometi uma promoção à ela…” “NÃO ACREDITO! TU É UM FILHO DA PUTA!” Grande realmente ficou preocupado “Pois é. Isso vai dar merda, cara. E se a menina te processar por assédio?” “Ela já tem a promoção. Já tava certo. E foi para Curitiba. Eu só me aproveitei disso.” Gordo explode novamente: “NÃO ACREDITO! TU É UM GRANDISSISSIMO FILHO DA PUTA!” “Nâo nego. Vi a ficha dela aprovada e só precisava de um OK meu. Nunca negaria, claro. Mas ela se insinuou cheia de charme me pedindo a aprovação: ‘Ah, chefinho… eu faria qualquer coisa para ter esse ok.’ Paguei para ver né?” “Tu é um merda mesmo!” Grande ficou puto. “Tu foi é assediado, mané! Gravou a conversa dela ao menos?” Burro apontou pro PDA e tocou um MP3 de lá. E não é que o viadinho não tava mentindo? Ouviu-se com clareza a voz da menina se insinuando. “O que importa é que fiquei com fama de comedor e bom partido. Sei que isso não vai durar, mas vou aproveitar.” “E Vênus, cara?” Soltou Gordo sem pensar duas vezes. “Como é que fica?” “Não fica. Ela não me quer. Se pedir para mim, caio de quatro aos pés dela, mas não vou ficar esperando o tempo passar. E tá divertido para caralho!”

Grande olhou meio de rabo de olho, pediu um caldo verde entre um “suco de pica de Hulk”, “sopa de radiação gama” e outras piadas de cunho nerdístico e comeu em silêncio, ouvindo as peripécias sexuais do Burro. Pra si, matutou: “vai dar merda” e pediu a conta. Foram todos para casa cedo.

Daí a mais duas semanas, foi Burro que chamou os amigos para ir ao Stephanio’s.

“Tô na merda, galera!”

Sempre que o Burro propunha o Stephanio’s, tinha alguma merda para contar. Ou uma dor de corno ou uma desilusão, ou um pé na bunda ou um fora hercúleo. Mas de certo era papo de mulher. Era assim que ele funcionava: Stephanio’s: problema de mulher; Adega da Velha: problema em casa, família; Siri da Barra: problema de trabalho.

Os três se encontraram e de pronto reclamaram entre si da música ao vivo. “Porra! Não sei porque insiste em vir aqui. Samba, cara! Que merda!” “Porra Gordo! O bolinho de bacalhau daqui é simplesmente sensacional.” “Gordo, senta. Burro, abre o bico. Garçom: duas Bohemias e uma Coca-cola. Quatro copos. Uma porção de bolinhos de bacalhau. Não deixa as Bohemias secarem. Fala, Burro. Qual o galho?” “Cansei.” “Como assim? Cansou? Cansou de que?” “Cansei de putaria. De saco cheio de olhar para o lado e não querer acordar junto daquela mulher. Quero alguém para acordar para sempre. Mais ou menos o que o Garcia Marquez dizia: ‘o sexo é o alento de alguém que ainda não encontrou o amor’. Saca?”

Beberam até amanhecer e até cantarolaram um sambinha ou dois.

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