Rapidinhas

April 24th, 2009 § 3

Me considero um cara desapegado da vida. Não me entendam mal: não é que eu não goste de viver com conforto, de comprar livros, CDs, DVDs, comer bem (ou bem mal) e consumir produtos divertidos, mas me desapego deles na memsa medida que eles deixam de significar algo.

Se aquele gibi (ou livro, ou revista) me fez encarar o mundo de uma forma diferente, que ele seja passado para frente e -talvez- comova o próximo. Mas isso não me faz me livrar dos gibis do Sandman que guardo há mais de dez anos, ou dos álbuns de luxo do Watchmen. Não por enquanto.

Sou desapegado com a matéria sim e em muitas formas, com as pessoas também.

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Às vezes eu tenho vontade de fechar todas as portas e passar a chave na fechadura, dar as costas ao que passou e só andar na direção do sol nascente.

Talvez porque eu não consiga ficar imóvel e, contudo, ainda não tenha aprendido a dar os movimentos corretamente, ainda acho que é preferível caminhar sem destino que esperá-lo bater à porta, com o chá à mesa.

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Tenho pensado em me fechar digitalmente: matar o blogue, matar os flogs, os álbuns de fotos, os tuíteres, listas de discussão, instant messengers e afins. Pela primeira vez penso seriamente em fechar tudo mesmo e cuidar dos meus.

Mas acho que esse é um desapego que ainda não sou capaz de fazer. Não por enquanto.

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Escrevo menos e menos a cada dia aqui. Não é que tenha desistido de escrever, muito pelo contrário. Participo de um velho hábito digital de discutir em listas de (dã!) discussões. Ali tergiverso sobre política, ciência, filosofia, música, fotografia.

Falo pouco sobre o que sei e muito -muitíssimo- sobre o que sei que não sei. Escrevo tanto que daria para encher uns livros só com a quantidade de asneira petulante destilo nos emails.

Ainda bem que por ali fica, por ali morre. Contexto é tudo.

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Não me canso de olhar para os céus de São Paulo. Já escrevi sobre isso e não me repetirei.

Não por enquanto.

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That´s life

September 10th, 2005 § 0

Embalou a câmera com carinho e cuidado. Colocou-a na bolsa conferindo as pilhas. Quatro recarregáveis do lado de fora, quatro embarcadas e um pacote de alcalinas para qualquer emergência. Conferiu a impressora portátil que custara quase o preço da câmera. Conferiu cabos, adaptadores de tomada, cartuchos de tinta especial e papel fotográfico cortado em tamanho certinho para os namorados da orla de Copacabana.

Na primeira parada: Cervantes, balcão da Barata Ribeiro. Quinze minutos, três chopes de pé. Precisava de coragem para virar a noite com equipamento tão caro, a pé, de bar em bar. Olhou para a clientela em busca de alguém que quisesse uma foto.

“Mas não é assim que as coisas deveriam ser? As pessoas se reúnem em torno de um interesse em comum, se juntam para fazer uma coisa em prol de um ideal maior.” “Como comer a maior quantidade de gente possível, né?” “Não porra! Como criar espaço para a sua produção, para a sua necessidade de se expressar!” “Expressão de cú é rola!” “Porra! Vocês só pensam em cú e buceta!” “Eu não! Eu gosto de boquete também!” “Caralho! Não agüento mais isso, cacete… to falando uma coisa séria. Todo mundo aqui reclama que não consegue espaço para criar, para escrever, que não dão valor às coisas boas, que o povo só consome merda, novela das 5, das 6, das 7, das 8. Só escuta lixo, lixo de axé, lixo de pop, lixo de MPB, lixo de samba, lixo de rock…” “Mas rock é só lixo mesmo!” “… lixo de tudo! Porra, e quando alguém vem pelo menos tentar levantar a média, vocês mesmo vêm tacar pedra, julgando fulano e beltrano como se esperassem os novos Camus, Joyce, Guimarães Rosa em cada grupinho literário! PORRA! Meia dúzia se juntam para tentar fazer algo e vocês que deveriam ser os primeiros a dar força, dão as costas!” “Mas sarau é um saco mesmo!” “Deve ser, cara, deve ser. Mas pelo menos os putos lá, pedantes, cacetes, com cara de conteúdo – que vocês me disseram, né – estão tentando fazer alguma coisa. Enquanto isso, eu, você e você estamos aqui bebendo no Cervantes e olhando bunda de puta de 50 reais.” “Cinqüenta não! O programa aqui é mais caro, fofo!”

Desistiu de tirar a câmera da bolsa e saiu dali um pouco mais bolado que antes. Havia desistido de tudo em prol de uma promessa babaca. Jurara para si mesmo que não deixaria qualquer legado, quaisquer heranças. Que seria mais uma sombra, passaria à margem do mundo, das pessoas. Juntara o suficiente para comprar um quitinete em Copa (luxo dos luxos), um bom computador e outras coisinhas.

Desceu a Princesa Isabel ignorando as putas e as boites. Não acharia trabalho ali. Chegou à praia e partiu em direção ao Leme. No primeiro restaurante encontrou três casais diferentes e fez as fotos. Entrou no restaurante. Pediu para usar a tomada e imprimir as fotos. O gerente olhou torto, mas deixou. Pediu um chope e deixou um troco na caixinha dos garçons. Entregou as fotos. “Twenty reais, mister. And I can send it to you by email, If you want.” “Thanks. That’s my card!”

Voltou para dentro, pediu um sanduba e mais um chope.

“Não consigo entender, cara. Não mesmo. Ela nunca me reclamou de porra nenhuma. Sempre tava feliz do meu lado, sempre me procurava para a cama. Fazia planos, dizia que queria ter filhos comigo e tudo.” “Mas é assim a vida, cara. Uma hora ela te quer porque você é inteligente, culto, educado. Outra ela quer um cara marombado que anda armado pra cima e pra baixo, que vai dar porrada nela assim que descobrir que ela vai dar pro outro que é músico e cantor de samba péla-saco que vai escrever uma canção quando ela o trocar por um professor de capoeira. É assim a vida. Só nos resta chorar os amores quando eles se apresentam para gente.” “Tem razão! AMEI ESSA MULHER E A LEMBRANÇA DESSE AMOR É SÓ MINHA!” “Isso aí. Agora vira essa cachaça que eu te levo em casa.” “Mas queria que ela me ligasse… só mais uma vez.” “Esquece, cara. Vai ser melhor. Haverão outras, mais belas que te amarão mais e melhor!” “Como na canção do Chico, né?” “Exatamente!”

Olhou os amigos saírem bêbados, abraçados e se lembrou dos amigos. Não ligava para algum fazia meses, ainda que lhe mandassem emais ou papeassem pelos instant messengers da vida. Uns lhe xingaram, outros lhe deviam dinheiro. Sabia que iria esperar que eles os colocassem num backlog emocional e só lembrassem dele em eventos como o aniversário de um ou quando estivessem sem grana.

Encarou mais um chope, a conta, e seguiu para o resto da noite no rumo do Meridien e de Copacabana novamente. Veio caminhando vagarosamente, ente as putas, os taxistas, os turistas, as diversas criaturas da noite que estranhavam aquele homem pequeno com uma mochila à frente, como um coala mãe carregando o filho.

Ficou cansado antes de chegar ao Othon, parou no Cabral 1500, contou o dinheiro. “Foi uma boa noite. 600 reais, trinta fotos vendidas.” Subiu a Bolívar até a Barata Ribeiro, entrou em casa. Ligou o computador, baixou as mais de seiscentas fotos tiradas naquela noite para o computador. Ligou o processador de textos e escreveu mais um conto que não seria lido.

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