October 19th, 2009 §
Eu não gosto de Jazz. Minto. Adoro Jazz. Não gosto é de quem arrota Jazz como se fosse atestado de nobreza urbana ou de quem diz que adora o estilo e vomita nomes, discos, movimentos e músicas como se mijasse uma linha intelectual que separa os geniais e a mediocridade mundana média regular. Obviamente, se colocando no lado de lá. É o mesmo povo que gosta de desbancar os standards, os gênios consagrados apenas pelo choque ou para se destacar da “massa ignara” ou da massa de manobra cultural.
Se confundem a esses os “apreciadores de charutos cubanos” que gostam de ostentar os caros cilindros de tabaco enrolado em locais inusitados, como botecos apertados e caixas de supermercado, ignorando que há local, hora e sentido para prazeres caros e que os maiores e mais deliciosos tendem a ser praticados no isolamento de seus lares, sem atentar ao acinte que é brandir para um transeunte – normalmente um empregado do recinto – uma fortuna virando fumaça ante os olhos tristes de quem ganha o bom e velho salário mínimo.
Não gosto de Jazzistas, de charuteiros, de enólogos, cinéfilos, teóricos de teatro, críticos de cinema, de teatro, de tevê, publicitários, marqueteiros, fãs de quadrinhos, de errepegê, de mídas sociais, de internet e nerdices, de filmes de animação, de mangazeiros, fanzineiros, não gosto, não gosto, desgosto.
Essa gente toda que deveria sair de casa num sábado e caminhar na chuva de verão, andar descalço no chão molhado, chapinhando a sola do pé no asfalto que transpira a água recém-chegada ou correr até se estabacar na grama úmida, ensopada de tanto céu na terra. E depois se levantar sorrindo, dos arranhões no joelho e vendo que a vida é feita de dor e de cheiro de ozônio e de cabelos desgrenhados e suor, muito suor, e com as Quatro Estações, de Vivaldi, como trilha sonora.
Na verdade, na verdade mesmo, eu não gosto é de gente que não anda de bicicleta com medo de cair.
O resto é rabugice minha.
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December 2nd, 2008 §
Através do blogue do Alex Castro fiquei sabendo que a Triibuna da Imprensa para de circular hoje.
Só posso lamentar a perda do espaço e a restrição cada vez maior para os profissionais da imprensa na cidade que outrora foi um farol de cultura e civilidade nos trópicos.
E não estou falando de Buenos Aires.
Segue, após o link, a última coluna de Hélio Fernandes, na sua íntegra. » Read the rest of this entry «
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July 11th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Hoje eu li em um blogue de uma amiga (http://simsenhoras.blogspot.com/2008/07/quero-namorar-o-wall-e.html) que ela não vê mais as pessoas simplesmente dando as mãos por aí. Que no arsenal da conquista não se usa mais o singelo gesto de procurar a mão da menina e segurar os dedos entre os dedos num enlace quase que obsceno, mas mais singelo que os olhares que enrubescem. Que não vê mais o gesto em si mesmo gerando o momento mágico.
Eu sou uma criatura de “grude”. Gosto de tocar, abraçar de dar beijos e tal em quem tenho carinho e afeto. Obviamente já passei da fase adolescente onde os futuros adultos arrumam n desculpas para se jogar uns em cima dos outros ou se amontoarem pelos cantos. Algo a ver com os hormônios em ebulição ou uma desculpa esfarrapada para pré-sexo. Dito isto, acho que poderão entender melhor o caso que tenho para contar.
Pois bem.
Um dia, numa das minhas idas profissionais à cidade do dinheiro e à terra da fortuna, eu saí com uma conhecida para podermos materializar o nosso conhecimento mútuo. (Não me entendam mal! A frase anterior é só uma forma pernóstica de dizer que fui conhecer de fato uma pessoa que conhecia pela Internet. É que às vezes conheço mais de fato quem nunca vi de perto. E às vezes conheço menos de perto quem já vi de fato. Fato.) Fomos a uma pizzaria numa praça que só recentemente voltei – e gravei o nome. E obviamente me esqueci novamente, a ponto de não ter sequer referência para citar nessa crônica de quarenta linhas.
A pizzaria era modernosa, com uma decoração bem interessante. Como bom carioca, sempre achei que pizza boa era a que era servida rapidamente. Ali fui introduzido à grande arte de ser fazer Pizzas em Sampa.
Antes mesmo de fazermos o pedido, senti que havia algo no ar. Uma atração definitiva. Da minha parte, claro, por minha amiga. As pizzas não tinham nada a ver com a história. A moça era bonita, charmosa, interessante mesmo. E tinha bom gosto. Afinal de contas, sabia escolher a companhia para o jantar.
Durante o evento inteiro eu não conseguia desgrudar os olhos dos olhos da moça e “dava um jeito” de fazer as mãos delas encontrarem as minhas. Quando ocorria, parecia que eu estava segurando o braço de uma cadeira ou apenas uma maçaneta. Nada. Nem uma fisgada, nem uma alteração na voz da moça. Nadica de nada. Um suspiro ou uma pausa ao menos? Não.
Obviamente achei que não tinha logrado sucesso e tal. Mas são coisas da vida. Se todas as mulheres desejassem todos os homens (e vice-versa), não haveria agenda que desse jeito para tanta fornicação. Ou romance. Fica no teu critério. Fato é que não funcionaria de forma alguma. Há de se ter a rejeição por bem da humanidade.
Mas, como a vida sempre surpreende e desconstrói as primeiras impressões, na saída, a moça me permite um beijo. Obviamente voltei pro Rio sem entender coisa alguma.
Quando mudei em definitivo para Sampalândia, eu entendi que havia um tipo de gente que não se toca, a não ser na intimidade. Que um abraço pode ser sinal de posse e que um pegar em mãos pode ser ostensivo, declaratório e íntimo demais para duas pessoas que apenas se flertam.
Da pior forma, entendi que esse não era o meu tipo de gente.
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July 4th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Uma anedota costumeira entre escritores e jornalistas é sobre o writer’s block.
Dizem que, quando um cronista está com bloqueio, ele costuma buscar esse mesmo tema para cumprir a sua quota semanal. É um velho clichê falar da incapacidade de escrever. E já cansamos de ver Veríssimos e Jabores dissertando sobre “o bloqueio de escritor” da “falta de inspiração” do “processo criativo interrompido” ou, como eu prefiro: o coitus interruptus para cumprir o seu espaço no jornal daquela semana.
Gosto da imagem do coito interrompido porque encaro a atividade de escrever como uma trepada com uma amiga querida. Ou com um encontro com a mulher da minha vida. É um flerte que começa numa manhã ou no meio de um texto de outrem. Daí levo esse flerte para casa, durmo com ele e deixo-o amadurecer em algum nível de consciência. Dias depois vem a cantada derradeira e, para coroar a ação: o coito, digo, o texto. Obviamente, nem preciso dizer que estou passando por um processo desses aí. Não o coito. Infelizmente.
Há semanas, quem acompanha minha coluna ou meu blogue está careca de saber que nada que preste tem saído dessa cabeça distópica. É sempre um “mais do mesmo” que você, caríssimo e raro leitor, encontra aqui.
Pois bem.
Isto posto, resolvi escrever algo diferente. Ou seja, resolvi escrever o que todos escrevem quando estão com essa válvula criativa enferrujada. Escrevo sobre o ofício de escrever
“O ofício de escrever é um sacerdócio”, diria algum escritor pernóstico que se acha tanto e muito só porque tem a habilidade – e a obrigação – de dominar minimamente a língua que fala e consome diariamente. Ao meu ver, o ofício de escrever é tão e somente o ofício da escrita. Assim como alguns têm habilidades e obrigações a se resolver com planilhas eletrônicas, ou com linhas de programas para a internet, a rede mundial dos computadores, outros têm com as letras e palavras da língua portuguesa.
Por um outro lado, há um quê de abnegação na escrita. É um derramar dos saberes e dos fazeres em forma de coerência e estilo que tentam levar a quem lê uma mensagem que já nasce perdida. Não há como se precaver se aquilo que é dito é de fato entendido por quem está do outro lado. Pior, não há como saber se aquilo que se pretendia dizer sequer foi feito com competência. Até que seja tarde demais.
Por exemplo, eu quis escrever sobre bloqueios e sobre a incapacidade de derramarmos sobre o papel – com tinta cada vez mais metafórica – as idéias e os assuntos que pensamos durante o dia. Na verdade quis dizer que a incapacidade de escrever estava diretamente ligada à incapacidade de reter o que nos vêm pela cabeça, porque criamos as mensagens e os textos a todo momento, nós que nos predispomos a dominar esse ofício de alinhar símbolos inteligíveis a quem possa os decifrar.
Por fim, só sei que quarenta linhas foram preenchidas e nelas pincelei sobre sexo, coito interrompido, capacidade criativa e função da mensagem. Sem nada dizer.
Definitivamente, um bloqueio.
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June 18th, 2008 §

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April 11th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa.
Vira e mexe, Helena dormia suada sobre o meu braço direito. E eu reclamava.
“Não faz isso. Eu tenho bursite, você sabe.”
E ela trocava de lado por cima de mim. Às vezes, quando nua, trocava, parava, não trocava, ficava. Sorria lasciva. Às vezes ela apenas dava as costas e voltava a dormir, e era um convite para eu enconchá-la. E eu sabia que ela estava sorrindo do lado direito da cama.
Quando isso ocorria, eu gostava de ouvir a respiração de Helena. Cantava desafinado alguma música de Jeff Buckley. Ou dos Beatles. Ou dos Bee Gees. Ou do Chico, a qual eu não desafinava tanto, mas ele, sim. E ela não gostava e me mandava calar a boca ou contar uma história de dormir. E eu contava histórias picantes de fadas, gigantes, gnomos e de jogos on-line em que tínhamos de derrotar todos esses seres fantásticos para ganhar pontos e nos tornar guerreiros ou magos mais eficientes nesses brinquedos de internet. Obviamente ela não passava da sexta frase do que eu dizia — não importasse quão emocionante fosse a minha aventura digital — e ferrava no sono.
Helena também dormia sobre minha barriga. E eu reclamava.
“Não faz isso. Me dói o diafragma, e eu não consigo respirar direito.”
Helena saía da minha barriga contrariada. Ou descia animada buscando algo que podia estar de prontidão, que deveria estar de fato, mas ultimamente não. Ou era a mente que viajava nos problemas de ontem, ou a vontade que sumia nos problemas de amanhã por desculpa ou motivo. Não fazia diferença.
Helena não desistia de mim. A não ser nos dias que desistia de si. E, nesses dias, Helena cerrava o cenho e não dava nem beijo nem palavra. Nem nada. E se deitava no meu ombro e era expulsa quando era o ombro direito. Mas quando não, falava obscenidades no meu ouvido. Colocava um disco do Pearl Jam — que eu particularmente odiava — e me dizia que, com raiva, eu ficava mais sensual. E eu era mais sensual só para ela, naquela hora, com aquele disco que eu amava odiar.
Nos últimos tempos, Helena me apertava o nariz quando nos beijávamos no pós-coito. E eu reclamava.
“Beija do lado esquerdo. Eu só respiro por uma narina. Você sabe…”
E ela olhava para mim, triste. Triste de “só queria ver você feliz, você sabe disso”, e eu triste de querer ser feliz ali ao lado dela mas não conseguindo achar a felicidade que era para estar ali, nos lençóis e nas coisas bobas que os amantes têm de falar entre si. E eu triste de dizer que a queria muito, mas muito. Mas o corpo cala e não tem palavra que diga “eu te amo” quando os olhos só dizem “eu te quero bem”. E eu queria ouvir Vinícius cantado por Tom e Toquinho e queria que Helena fosse o peso que carrego no ombro direito, a falta de ar no nariz tapado ou do diafragma apertado. Queria que Helena me pesasse sempre os ombros, as pernas. Que me fosse cada dor física que me deixava quando deixávamos a alcova.
Só não queria que ela se tornasse o vazio insistente do lado esquerdo da minha cama que existe desde que me entendo por gente. Um vazio que não se vai. Esse vazio que é só meu e que me define desde que aprendi a desamar.
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March 8th, 2007 §
Sei que hoje é dia da mulher e que deveria colocar aqui o último texto que publiquei na Tirbuna da Imprensa, mas um fato mais importante faz-se mister ser comunicado.
Segue o texto do G1:
Capitão América, herói dos quadrinhos, morre aos 89 anos

NOVA YORK – O Capitão América, o herói das histórias em quadrinhos com uma predileção por roupas justas nas cores vermelha, branca e azul – as mesmas da bandeira americana – morreu aos 89 anos, baleado em Nova York, sem deixar esposa ou filhos.
A revista em quadrinhos contando o trágico destino do super-herói da Marvel chegou às bancas nesta quarta-feira (07). Depois de mais de 65 anos lutando contra bandidos, o Capitão América foi derrubado por um franco atirador na escadaria da Corte Federal de Manhattan.
“Urgente: poucos detalhes são claros no momento, mas a cena em frente à Corte Federal de Manhattan é um retrato do caos e da confusão depois que um ex-super-herói foi baleado”, anuncia a Marvel em seu site na internet.
Nascido em 4 de julho

O Capitão América era, na verdade, Steve Rogers, nascido em 4 de julho de 1917, no Dia da Independência americana. Ele foi criado em 1941, mas sem ter superpoderes, parecia pouco equipado para lutar contra o mal em comparação com outros super-heróis como o Superman.
Vestido nas cores da bandeira americana, com um enorme “A” na máscara e um escudo que também servia de disco, o Capitão América era parte do esforço de guerra americano, criado apenas meses antes do ataque japonês a Pearl Harbor.
A primeira capa da revista dedicada às aventuras do personagem o mostrou acertando um soco no rosto de Adolf Hitler. Ele “viveu” seu período áureo depois que os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, mas perdeu popularidade depois da guerra e foi aposentado nos anos 1950, retornando nos anos 1960. Seus gibis venderam mais de 210 milhões de exemplares, em mais de 70 países.
No entanto, assim como a volta do Superman, depois de ter sido morto em 1993, nada impede que o Capitão América volte à cena.
Um de seus criadores, Joe Simon, de 93 anos, disse ao jornal “New York Daily News” ter ficado triste com o falecimento do personagem. “É um momento péssimo para que vá embora. Nós realmente precisamos dele agora”, afirmou.
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February 8th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa.
Diariamente recebo diversas tranqueiras digitais. Normalmente enviadas por amigos que acham interessante abarrotar a caixa postal de outrem com apresentações malfeitas, com música irritante e imagens mal digitalizadas. Ou então é um parente que envia os mesmos arquivos ou piadas que já circularam na internet seis anos atrás. Pior, quando um texto de origem desconhecida – ou, pior, de um conhecido seu – chega no seu inbox como se tivesse sido escrito pelo Jabor, Veríssimo ou Ubaldo.
Todas têm destino certo: o oblívio digital da minha lixeira.
Eventualmente uma dessas mensagens tem uma sobrevida de segundos. É o tempo suficiente para eu ler o texto, ou passar os olhos nas imagens, pensar se vale a pena registrar a informação e, em seqüência, apagá-la. Recentemene me peguei assistindo a um vídeo edificante e de alto valor moral que me chamou a atenção por mais que os costumeiros dez segundos.
Primeiro, porque era bem editado e com trilha sonora bem arranjada. Segundo, porque o tema me é caro: a insignificância humana perante a grandiosidade do universo. Esse vídeo nos colocava no devido lugar de macacos pelados que pensam que não são macacos. A priori, nada de mais, já que filmes foram feitos sobre variações desse mesmo tema e Gilles Deleuze nunca se preocupou em repensar linhas filosóficas por conta disso. Mas ficou o registro mental.
Ontem, estava eu representando na vida real mais um dos personagens do Woody Allen quando me perguntei: “caramba, trinta e seis anos na cara e parece que aprendi porcaria nenhuma.”
Duas coisas a partir disso: a primeira é o caso ridículo de onde gerou essa minha auto-análise que pode ser acompanhada nos textos do meu blogue. A segunda é um questionamento da real necessidade da experiência. O quão valorizamos essa característica humana e o quão dependentes disso nos tornamos quando envelhecemos. Eu, ao menos, o sou.
De certo deixamos de ser macacos reativos ao meio ambiente e passamos a ser pró-ativos – odeio esse termo – quando conseguimos passar a experiência acumulada dos indivíduos e da coletividade para frente, criando cultura. Esse é o primeiro diferencial. Aquele papo do cru e do cozido que os antropólogos e sociólogos podem dissertar melhor que eu.
De fato, esse tipo de experiência é imprescindível.
Agora, existe a experiência pessoal emotiva que também pode ser chamada de inteligência emocional, maturidade, compostura, etc. Algumas pessoas se vangloriam da experiência acumulada ao passar dos anos. Engraçado que eu mesmo caio nessa armadilha diariamente.
Digo armadilha pois ela só ensina a o que fazer quando erramos e exatamente nos mesmos erros do passado. Quando nos deparamos em situações parecidas com as já vividas – trocando-se apenas os personagens e o cenário – e agimos pensando que não erraríamos de novo, lá vem a vida nos pregar mais uma peça e vermos que ou não aprendemos a lição direito ou aquela experiência seriviu de nada.
Se eu fosse seguir pela primeira via, me consideraria um imbecil; na segunda, um idiota.
A essa altura da minha meia-vida, tiro para mim que as desventuras pelas que passo diariamente são fontes de boas histórias, de causos para fazer rir os colegas da mesa de bar, esperando que eles vejam os faróis traseiros de minha vida e decidam que caminho tomar nas suas próprias encruzilhadas.
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February 1st, 2007 §
André Dahmer escreveu no seu blog, e dou o meu modesto apoio daqui.
RIO BODY COUNT
Inspirado no Iraqbodycount, estou abrindo com meu amigo de fé Vinicius Costa um portal para reportar incidentes violentos no Rio de Janeiro. Como devem imaginar, não terei condições de noticiar toda a violência com apenas dois caras trabalhando no projeto. Por isto, estamos recrutando voluntários cariocas que saibam escrever e estejam boa parte do dia conectados na internet. Conheçam então o Riobodycount, este projeto feito por pessoas que amam o Rio. Cariocas que acharem a tarefa importante, que participem conosco deste esforço, deste grito de alerta. Amigos de internet e blogueiros, divulguem este nobre projeto em seus sites.
ANDRE DAHMER – Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007
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January 25th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Eu simplesmente detestei a minha adolescência. Feio, chato e nerd, só não era um fracasso no colégio por conta do meu humor sarcástico e quase non-sense. E também por uma mania suicida que eu tinha de criticar os professores em plena sala de aula.
Isso garantia a minha sobrevida à violência dos recreios.
Música? Não consigo ouvir por mais de dez minutos o que eu escutava à época. Há exceções, é claro. Scorpions (Virgin Killer e In Trance ainda são os melhores discos deles), alguma coisa do Ira, Legião, os roqueiros de Brasília e Sampa em geral, The Cure (Pornography ainda comanda o batatal).
O que sinto saudades mesmo é de ficar nerdando nas lojas de discos da Tijuca e de Copacabana. Principalmente na Sub Som, onde vira e mexe tinham discos bootleg (comprei um do U2 e me arrependo de não ter comprado o picture disc triplo do último show do Led Zeppelin). Bootleg, para quem não sabe, eram os “discos piratas” da época. Eram gravações não-oficiais de shows ou takes de estúdio que eram abandonados pelos artistas e os fãs coletavam. Aquelas lojas eram a internet da minha época. Chegava sempre um maluco com uma fita cassete de uma banda desconhecida e dizia que era o último som do momento. E colocava para todos ouvirem na loja.
Saudade de ficar nerdando na biblioteca da escola e ler toda a coleção de Asterix pela décima vez. E de descobrir “Eu Robô” do Asimov numa estante, de ler “Fundação” sentado no chão do corredor, de passar pelos clássicos de aventura, anotar o nome e depois comprar baratinho nos sebos do centro da cidade. “Moby Dick”, “Da Terra à Lua, todos HG Wells, todo Monteiro Lobato, Kafka. Tenho, em verdade, é saudades de ter tempo de fazer isso. De ter toda uma quinta-feira à tarde para ficar ali lendo.
E as meninas… Queria poder dizer que tenho saudades delas, mas acho que sempre preferi as mulheres feitas. Nunca gostei dos joguinhos de flertes da adolescência. Prefiro a praticidade moderna, madura e adulta… peralá… se bem que muitas mulheres nunca deixam de fazer esses jogos, não é? Mas tenho saudades das minhas paixões platônicas, tão fatais, derradeiras e eternas que só os adolescentes podem ter. Essas eu cultivo com carinho, como quem cuidasse de um filhote perdido. Duas, em especial, me alentam quando estou desesperançado do mundo. Olho algumas fotos e encontro o fiapo de luz escondido no meio do core me dizendo: “Ei, cara. Você pode! Você consegue!”
E os sonhos adolescentes? Mudar o mundo, enriquecer, ser um rock star tupiniquim. Ainda bem que eles se foram. Daí ficaram mudar o próximo pelo seu próprio exemplo, saber o real valor das coisas, ser lembrado pelos amigos e pelas pessoas que te amam. Mais modestos os sonhos, eu sei, mas me dão mais tranqüilidade e acho que consigo viver bem com essas pequenas ambições. Afora isso, uma televisão de plasma de 42″, um LightSaberFX, um iPhone, um MacBook novo e um PCzão da Alien, são gêneros de primeira necessidade, né?
Acho que a única coisa que eu tenho real saudade é da possibilidade de ter tempo jogado fora.
Chegando à beira dos quarenta anos, não tenho tanta nostalgia. Tenho é uma bela coleção de arrependimentos catalogados organizados e que visito regularmente. Uma verdadeira História E Se. E se eu tivesse ficado de boca calada, e se eu tivesse beijado a menina logo de cara, e se eu tivesse tido culhões e peitado o chefe da mesma forma que eu peitava os professores, e se eu tivesse fugido de casa e bancado a minha ida pra Sampa nos idos de 88?
Pra mim, tenho poucas metas até os quarenta anos. Poucas para fazê-las todas.
Uma delas é morar só. Me envergonho de ainda depender de família para teto e sustento básico. Vergonha mesmo. Não tenho mais idade para isso e nem falo do conforto ou (falta de) privacidade mas de hombridade. A cada dia que passo sob o teto de outrem, me sinto menos homem. Emasculado. Tenho de dar um jeito nisso. Ontem.
Outra é começar a juntar algum dinheiro. Não dá mais. A cada hora um aperto aqui, uma coisa inesperada ali, uma festa, uma viagem e pronto. Me ferro sobremaneira no banco, no meu orçamento pessoal. E não consigo alugar o meu apê. Então tá decidido. Vou começar a juntar uns caraminguás regularmente. Só não sei quando começo.
Mais uma é me apaixonar menos. É outra coisa que já deu. Sei que ser blasé é totalmente demodê, mas não tenho mais saúde para essas montanhas russas emocionais. Não nego uma paixão ou um amor, mas menos. Bem menos. Não passar a quarta logo de cara.
A última é me calar mais. Não na mesa de bar, a tagarelice vadia, o conversar de várzea, o papo moleque, a conversa-arte, mas me calar sobre coisas que sei que não serão bem recebidas ou compreendidas de prima. Em síntese: ter menos opinião ou expressá-la da forma veemente que me é habitual. Não sei se isso será possível, dada a minha natureza ariana, mas me evitaria confusões que não me acrescentam em nada. Nem é pelos problemas gerados. Quem me entende sabe como sou, quem não, não me interessa. Mas pelo esforço em domar as paixões.
Aos quarenta, se completados os passos, poderei começar a preparar o meu sossego.
Afinal, nunca achei que chegaria tão longe.
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