A ruiva e o lobo mau

September 12th, 2009 § 0

Era uma menina que não devia ter mais de que dezesseis anos. Curvas perfeitas, pele rosa e cabelo ruivo loiro, daquele raro, que só uma ou outra atriz de Hollywood ainda ostenta. Naturalmente loiro-ruivo, pelo jeito, já que o rabo de cavalo deixava à mostra as raízes, o couro cabeludo. Olhos impossivelmente verdes e uma boca criminosamente rosa. Usava uma roupinha casual de quem saiu do curso noturno, pós expediente em loja de varejo. Soutien à mostra, reaçando, emoldurando e vulgarizando na medida exata aquele projeto de afrodite, apontando os seios semi-virginais para a lua. Devia estar cursando administração, comunicação social ou direito, esses cursos que quem não sabe o que irá fazer no futuro cursa. Aliás, devia é ter matado aula. Nem caderno, fichário ou livro na mão. Só um jeito rosa de olhar pro rapaz que fitava o seu rebolado ao descer a estação de metrô.

Era um rapaz nos seus vinte e poucos anos, moreno, comum. Apaixonou-se da menina na mesma hora que a viu. Cercou lourenço de longe, como quem anda de macio na floresta e não quer assustar a corça. Aquela corcinha tão bela, tão tenra e que deveria gemer e berrar e dar na sua cara quando estivesse de calcinhas arriadas e sendo comida como se não houvesse amanhã. Entrou no mesmo vagão e com uma dissimulação digna de criança cagada, sentou-se do lado da presa. Deu uma de Vitor Fasano e bancou o besta, lequeando um livro de bolso de um autor que só ele e mais cinco pessoas na América do Sul conheceriam. Ante a indiferença da moça, sacou os olhos de lascívia e comeu a menina sem abrir a boca.

Ela sorriu. Ele, estupefato, perguntou o nome dela. Ela, disse boa noite, sou Verônica. Ele, disse boa noite, sou Carlos e quero casar com você. Ela riu, gargalhou e disse você é engraçado. Ele dise você é linda e eu quero de fato casar contigo. Duas horas mais tarde ela disse que tinha um namorado e que nunca tinha transado com alguém que conhecera no metrô. Ele disse dificilmente você fará isso de novo.

No dia seguinte, as manchetes do jornais berravam: Canibal Pego com a Boca na Botija.

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condomínio

May 18th, 2009 § 3

A casa da minha alma é pequena. Nela, cabem umas poucas lembranças, um cálice vazio e um farrapo de vontades gastas pelo tempo. A alma ocupa um canto iluminado pelos sóis de inverno. Tem janela para um quintal de grama verde, onde ela pode se deitar e brincar de desenhar nuvens. Por vezes, cochilar na rede que prende às paredes. É onde ela se lembra de onde veio e para onde irá.

A casa dos meus sonhos é um campo aberto. Não é casa ou teto, mas horizonte infinito, sol a pino e nuvens escarradas no ciano cinzento. A casa dos meus sonhos tem um vazio ensimesmado, um nada indefinido, uma ausência de ser. Ela se insinua, mas inexiste. Como um desenho abandonado. Ninguém mora lá.

A casa dos meus desejos é um pássaro migratório. Mora em calendários, pousa em meses, cria ninhos em semanas, cisca nos dias, come nos feriados vermelhos. Ele existe no ir e vir, sempre em movimento. É filho das horas e das efemérides. Eu o alimento com os segundos que roubo do relógio.

A casa do meu futuro foi erigida em nuvens sem pé de feijão. Ela é feita de desenhos animados e de cores acachapantes. Os amigos do futuro são caricaturas de gente e eu os conheço vidas a fio. Eu acredito em suas histórias que me são enviadas em cartas de tarô. Desenho a casa em mapas astrais e traço seus contornos em trígonos, quadraturas e sextis.

A casa do meu exílio tem verão todo dia e inverno para o sono. Tem uma cama quilométrica e uma rede com paisagem de concreto e luzes. Uma lua safada me visita quando chego do trabalho e me ilude com promessas de carinhos. O exílio não é local de carinho.

A casa do meu trabalho é vizinha da alma. Sólida como chumbo, negra como o medo, fria como o beijo de quem não te ama mais. Não tem portas. Não tem janelas. Não tem saídas. Ela é carregada como um casco, uma corcova de gente. Meus dias se passam ali dentro. Algumas noites também.

A casa da minha mãe tem a mãe da mãe e a filha do filho. Já teve minhas lembranças, meus prazeres e o meu acalanto. Hoje tem conversas e uma longa espera pelo fim. É uma casa de cura, ainda que essa venha de forma inesperada. É onde podemos dormir à tarde e sabemos que alguém nos guarda à porta. Ninguém fica com fome na casa da minha mãe.

A casa da minha esposa tem o meu nome prometido e a promessa de um futuro. É feita de paredes arranhadas e a derradeira tentativa de felicidade. Sair dali é entregar-me àquilo que não quero mais ser. Toda semana parto com a esperança de retorno. Toda semana volto com a esperança de ficar.

A casa das minhas casas tem chaves gigantes, seis cores de duração e uma sombra eterna.

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Lua

March 4th, 2009 § 2

teste do tripé da máquina.

Lua

Lua

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Tarô do dia

December 12th, 2008 § 0

A Lua – A importância de aquietar-se e fazer silêncio

Arcano 18 - A Lua

Arcano 18 - A Lua

Neste momento, Zander, em que o arcano XVIII brota como carta conselheira, a recomendação veemente é a de que você procure se aquietar e não realizar movimentos. Existem fases em que a vida praticamente exige que “tiremos o nosso time de campo”, a fim de avaliar as coisas com maior inteireza e sagacidade. Você não está enxergando as coisas com clareza neste momento e, por isso mesmo, é melhor não agir do que tomar atitudes tolas que depois lhe conduzirão ao arrependimento.

Procure investigar seus sonhos e dar mais atenção à sua voz interior. Evite o contato com conselhos de outras pessoas, tente, ao menos por um tempo, voltar-se para o mais profundo de sua alma. Você poderá evitar muitos problemas futuros, a partir desta atitude. Na dúvida, afinal, o melhor é não agir.

Conselho: Momento de recuar.

do Personare

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sobre oráculos que dão certo

July 17th, 2008 § 3

Odeio o Personare.

Sol na casa 6, lua na casa 12
16/07 (ontem) às 3h20 a 18/07 às 14h45

Lua Cheia, Zander! Os momentos cheios da Lua tendem a ser fases particularmente instáveis, num sentido emocional. Neste momento em particular, em que ela atua sobre sua Casa 12 astrológica (enquanto que o Sol atua na sexta casa), convém tomar um cuidado especial com doenças. A doença é, muitas vezes, uma mensagem que o inconsciente tenta nos transmitir, portanto convém dar atenção aos sinais que o corpo lhe dá. Não é absolutamente obrigatório que você adoeça, portanto procure descansar, recolher-se, evitar farras e festas. Entre 16/07 (ontem) às 3h20 e 18/07 às 14h45, você estará vivendo uma fase fisicamente delicada. Repouse!

Merda de gripe!

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Sol na casa 1, lua na casa 10

January 29th, 2008 § 5

29/01 (hoje) às 1h a 31/01 às 19h

Eis que, entre os dias 29/01 (hoje) às 1h e 31/01 às 19h, a Lua entra em seu quarto-minguante. O conflito aqui envolve carreira versus anseios pessoais. É bem provável que você, Zander, venha a perceber de uma maneira bastante clara todas as coisas que lhe incomodam em seu trabalho ou estudos. A idéia do momento envolve a percepção da defasagem entre o ideal e o real. Há também um choque entre quem você é de verdade e aquilo que a sociedade exige que você seja.

Como a fase envolve um conflito, é bem provável que você sinta suas energias vitais em baixa, portanto não é recomendado que você abuse nestes dias, se alimente direito e durma bem, caso contrário pode sentir fraqueza e alterações fortes de humor.

do site personare

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Chico Buarque – Olê, Olá

October 19th, 2007 § 1

Chico Buarque – Olê, Olá
Chico Buarque

Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar

Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar

Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar

Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir

Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar

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tarô de hoje – 3 de Copas

March 16th, 2007 § 1

Arcano 25

Abra-se ao prazer!

Que tal se permitir ter mais prazer neste momento, Zander? Há quanto tempo você não faz coisas de que gosta? Que tal relaxar e curtir mais a vida? O 3 de Copas surge aqui como arcano conselheiro, pedindo-lhe que permita abrir-se ao prazer, para que ele flua na direção do mundo e este lhe atenda, possibilitando situações felizes, festas, namoros (ainda que não necessariamente sérios), em suma, coisas que lhe distraiam e lhe permitam ter dias agradáveis, ao redor de quem você ama. Saia com os amigos, conheça novas pessoas, permita-se rir, conversar, conhecer os outros… estar no mundo! Você sentirá sua alma mais leve e perceberá as coisas a partir de uma perspectiva mais ampla.

Conselho: Deixe o prazer fluir!

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Réquiem de foliões

February 23rd, 2007 § 3

publicado na Tribuna da Imprensa

“Mas eu não entendo o porquê de você ficar assim tão macambúzio, rapaz. Afinal de contas, é Carnaval!”

Bruno deixou escapar um sorriso amarelo e, dentre os dentes, respondeu que estava de ressaca da noite anterior. O Carnaval para ele era apenas mais um feriado quente no início do ano e que, eventualmente, coincidia com o Ano Novo chinês. Inclusive, era esse o caso.

De certa forma, podia-se dizer que ele estava enchendo a cara desde o ano passado. Achava um saco essa coisa de desfile de escolas de samba e só tinha simpatia pelos blocos que ficam só na “concentração”. Como eram poucos – e bons – o seu circuito carnavalístico era bem limitado.

Anderson já era o oposto. Só parava no boteco para recarregar as baterias e colocar em dia a lista de foliãs abatidas pelos amigos. Já estava se preparando para levantar e partir pro Bip-bip quando viu que Claudinho se aproximava.

Alan era um moderado. Não dispensava uma farra, mas não morria de amores pelas aglomerações que o Carnaval estimulava. Decerto, as fêmeas em fúria uterina e a cerveja farta eram atrativos que o mantinham na atividade, a despeito do calor senegalês que o Rio de Janeiro é submetido no fim do verão.

“Desce uma gelada, Juvenal. Qual é o babado, rapaziada? Bruno, que cara de cu é essa? Ainda com dor de corno?”

Dessa vez ele engoliu o sorriso amarelo para mostrar os dentes brancos bem desenhados. Custaram uma fortuna, dissera uma vez, mas derretem o coração de qualquer menina desavisada do canalha devorador de gente que morava atrás da arcada.

“Dessa vez, não. Chicão nos dará a honra da sua presença? Ou está enrolado com uma qualquer por aí?” “Provavelmente, cara. Aliás, decerto”. “E Claudinho, Alan? Ainda em lua-de-mel com Elisa? E os nerds dos infernos? Quais as novas da galera?” “Sem novas. Sim, Claudinho tá lá marcando o território. Gordo foi pra França, Burro tá trabalhando”. “Se ferrou o mané!”. “Pois é, Bruno. E o Grande tá em Petrópolis. Eu, dado o interesse manifesto de vossas senhorias, estou em guerra ampla, geral e irrestrita”.

Os três riram e brindaram aos amigos ausentes. Aos “vencidos” na batalha dos sexos, aos que partiram do exército dos solteiros e se alistaram na tropa dos casados, enrolados, amarrados e afins. Fizeram um brinde, mais tímido, aos que “trocaram de time” efetivamente, aumentando as chances de cada macho disponível e praticante do heterossexo de, de fato, fazê-lo.

Bruno, findas as libações, cerrou o cenho novamente e se fechou em copas. “Bruno, o que há?” Olhou para a cara de Alan. Olhou para o relógio. Lembrou das bebidas da noite passada e lembrou que a única ressaca que tinha, naquele momento, era a moral. Virara a madrugada entre as pernas de uma menina quinze anos mais nova e, apesar do troféu conquistado, sentia-se impuro. Como se tivesse cruzado uma linha amoral.

“Qual a idade da menina, afinal?” “Vinte e um, Anderson. Vinte e um aninhos.” “Já era mulher?” “Sim, e como.” “Então? Qual o problema?” “Eu nunca mais terei vinte e um. É esse o problema.”

Dito isso, olhou novamente para o relógio e viu que uma linda moça, de cabelos negros, olhos amendoados e verdes – sempre os verdes olhos – se aproximava. Se beijaram. Os colegas saudaram a chegada da beleza que a Quaresma anunciava.

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Linda garota de Berlim

January 28th, 2007 § 6

publicado na Tribuna da Imprensa

“Que cara é essa, lindinho?” “Cara de cu. Sério, não tô bom para papo-chamego hoje não, Vivien.” “Ih… O que aconteceu agora? Acordou de ovo virado de novo?” “Antes fosse.” “Com essa cara, já sei que é coisa de mulher. Tem alguma sirigaita te enchendo. Alguma lurker nova deixando recados escrotos no teu blogue?” “Nada disso.” “Então está assediado por uma legião de bacantes enlouquecidas no cio que querem copular ensandecidamente até você cair morto?” “Não. Antes fosse.” “Qual foi, Bruno, se abre aí.”

Bruno se recostou na cadeira dura do boteco. Levou o chope quente à boca e sentiu voltar tudo . Não apenas o almoço errado de hoje cedo – ovos coloridos, lingüiça na cachaça e azeite, sanduba de carne assada – voltavam as recordações das noites passadas e uma inquietude que ele achava que tinha enterrado fazia uma década.

Olhou pra Vivien novamente. Ela estava sempre disposta a dar um chamego e chamá-lo para a terra quando ele teimava em surtar com o trabalho, a casa, os amigos e os amores. Era o seu porto seguro desde que se entendia como homem feito, dono de seu nariz. Só que agora uma vergonha impedia de contar tudo assim, de prima. Tinha de fazer um preâmbulo que não era de seu feitio.

Virou o resto do copo. Curvou-se com o estômago em fogo. Era o corpo pedindo o sossego que a alma de Bruno não dava.

Tudo começou numa quinta-feira. Um email de fotos da filha recém-nascida de uma amiga de colégio e várias pessoas respondendo, parabenizando-a. Carlinha estava na lista e ele não conseguiu deixar de notar. Reuniu toda a sua força de vontade e segurou longamente – sete minutos – a vontade de mandar um email. Já tinha se arrependido ao apertar o “enviar”.

Carlinha era a sua primeira paixão. A primeira namoradinha. Só que, nessa estranha relação, só ele namorava Carlinha. Ela o ignorava. Ou assim ele pensava.

Tá certo que eles iam sempre juntos para a escola. Que ela ia sempre à sua casa aos sábados para ouvir um disco novo que ele tinha comprado. Ou para estudarem matemática, ou geografia. Ou para comer bolo de chocolate quente com um copo de Nescau gelado. Ou para ficar de papo pro ar vendo tevê.

Normal que ele se apaixonasse por ela. Os hormônios, a proximidade e tal. Normalíssimo.

O problema é que ela andava mais na linha que bonde de Santa Teresa. Só ia namorar depois dos quinze anos, se namorasse alguém antes de entrar na faculdade. E era um tal de “para com isso” dali, e “tira a mão daí” de lá, um “deixa de ser bobo” daqui, ou um”assim não ando mais com você” de cá . O fato é que, por mais que ele tentasse se aventurar um pouco além, havia um medo de perder o pouco que já tinha.

Ele se contentava com bem pouco. Bastava ver aquele par de olhos azuis – sempre olhos claros – naquela moldura de cabelos loiros entrar na sua casa sem mesmo se anunciar.

Daí ele arrumou uma namoradinha adolescente e Carlinha deixou de fazer parte do seu dia-a-dia.

O tempo passou, ele tomou pau – duas vezes – na escola, trocou de turmas, voltaram a se ver quando tinham trinta e muitos anos. Ela deixou escapar que achava que o tinha namorado na escola. Bruno ficou de cara na mesma hora. O sonho dele era ter namorado Carlinha. Aquele namorico de adolescente onde as coisas eram todas implícitas, mas nunca executadas. Onde o sarro era o ápice sexual da relação. O soutien um alvo inatingível pelas mãos afoitas e famintas de gozo. Pensou melhor e, de repente, na cabeça de Carlinha talvez eles tivessem namorado mesmo. Talvez aquilo fosse o mais próximo de um namoro que ela jamais poderia se permitir aos doze anos.

Então ele viu o email de Carlinha e resolveu puxar assunto. Ela se confessou apaixonada por ele à época do colégio. Que a maior – ou a primeira – decepção amorosa dela fora ele ter começado a namorar a Dani.

Para Bruno aquilo fora um choque.

De certa forma sentia que aí era a principal raiz do seu maldito platonismo. Não arriscar o pouco que tinha em prol de algo que realmente queria. Entendeu que ficar na zona de conforto lhe custava caro, no fim das contas. Caiu a ficha de que ele era, de fato, um miserável emocional. Um muquirana afetivo. Um Tio Patinhas da paixão. De certa forma, fez bem pra seu Ego. Afinal de contas, nunca insistira no assunto porque sabia-se feio, nerd, pobre. Não via em si atrativo algum, apenas que estava do lado errado do espelho.

Vinte e muitos anos mais tarde, já sabia se relacionar com o próximo de uma maneira mais “real”. Ou quase isso. Dependia de mensageiros instantâneos, emails, blogues, flogues, para despertar o interesse no próximo. Olhava-se diariamente no espelho e via apenas um patético arremedo de ser humano. Nunca aprendeu a se amar. Obviamente era também um fracasso em amar o próximo. Quase que chegava às vias da misoginia. Ainda assim apostava nas estatísticas. Havia mais mulheres disponíveis que homens no Rio de Janeiro e algo acabava sobrando para si.

“Você é um bobo. É um homem interessante e sabe disso.” “Só você acha isso, Vivien. Quem eu quero não me quer. E quem me quer, me cansa.” “Maldita Vênus em Peixes.” “Maldito Marte em Capricórnio na doze e com quadratura com Sol e Lua que empata as minhas fodas inexistentes.” “Ha ha ha ha! Só você mesmo para fazer piada com o próprio mapa astral. Se eu tivesse uma combinação dessas, me matava.” “Por isso que eu aposto na Megassena.” “Como assim?” “Se eu ganhar a bolada principal, acerto a vida dos meus familiares e dos amigos mais queridos. Daí pego o que sobrar, me mudo para um puteiro e vivo uma versão pornô de ‘Leaving Las Vegas’” “Bobo. Mas conte mais. Você descobriu que ela era apaixonada por ti e…” “E nada. Ela tá casada – com um ariano! – e está feliz da vida lá. Eu é que não vou entrar numa história de mulher casada. É espeto!” “É batata!”

Ambos riram do sarcasmo que ele conseguia destilar nessas horas. Afora do drama – Bruno era uma verdadeira Drama Queen – ela sabia que ele era centrado o suficiente para não surtar com os desencontros e desamores. Já estava calejado. O problema é que ele não conseguia moderar a casca dura com a abertura para arejar os sentimentos. E tome chope quente em frente ao Tio Sam.

Na sexta, Bruno fui a uma festa. Show de rock numa casinha nova, uma alternativa à Lapa e ao circuito da Matriz. Uma banda instrumental só com baixo e bateria chamou a sua atenção. E a morena de olhos verdes que acompanhava as suas amigas também.

Já tinha sido advertido que ela era linda, simpática, inteligente, esperta e agradável. Só não tinham advertido ao rapaz que ela era apaixonante. E lá foi o babaca ficar de calças arriadas, fingindo ser blasé. Tipo menino que fez merda e disfarça demais.

“E daí, Bruno?” “Daí que me peguei fantasiando. Coisa que não fazia desde…” “Desde semana passada, né?” “É. Maior merda. Tentei abstrair. Tentei me embriagar, mas faltou uma projeção orçamentária para isso.” “Mas você tentou algo, ao menos?” “Obviamente não. Ela era linda, Vivien, e eu velho, pobre, feio, meio burro, desajeitado e barrigudo.” “E então…” “Bom, como dizia um amigo meu: ‘se você não faz, tem alguém que fará por ti.’”

E eles ficaram ali, no boteco, pensando na vida e na morte da bezerra. Que tinha olhos verdes, claro.

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