cinco livros bons e um nem tanto assim

April 5th, 2008 § 17

publicado na Tribuna da Imprensa

Inicialmente preciso dizer que odeio correntes. Não pelo aspecto social ou de replicação da interconexão dos pontos de propagação desses memes em si, mas por preguiça pura mesmo.

Quando minha mãe recebia aqueles envelopes com cartas abençoadas por Santa Edvigies, Aquerupita ou Efidálzia, ela prontamente sentava-se à máquina de escrever e copiava copiosamente os textos mal-redigidos que prometiam fortuna eterna ou danação em sete dias, caso não fossem enviadas no menor tempo possível para centenas de pessoas. Hoje, cá com os meus botões, eu daria um emprego ao marqueteiro que bolou esse viral para a ECT.

Rabugices à parte, essa corrente dos livros me cativou na hora que recebi. E o que me animou nem foi tanto a corrente em si, mas saber que quem me enviou é uma consumidora voraz de livros. Ou seja, vindo de quem veio, eu não tinha como recusar. Muito obrigado, Giseli. Vai ter troco!

Bom, vamos aos livros bons:

Extremamente Alto e Incrivelmente Perto - Jonathan Safran Foer

1. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, conta a história de Oskar Schell, inventor, entomologista amador, francófono, escritor de cartas, pacifista, percucionista, romântico, explorador, joalheiro, detetive, vegetariano e colecionador de borboletas e um menino de nove anos. É apenas a melhor coisa que li nos últimos anos.

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios - Marçal Aquino

2. Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino, traz-nos uma aventura de sexo, vingança e violência no interior da Amazônia. Não bastasse ser sensacional, apenas pela história em si, é uma coletânea de citações dignas de Bernard Shaw ou de Ambrose Bierce. Vale nem que seja para aumentar o repertório de cantadas.

O Berro Impresso das Manchetes - Nelson Rodrigues

3. O Berro Impresso das Manchetes, de Nelson Rodrigues. Me diziam que Deus está morto e sua palavra chegou até nós. Eu não acreditava, mas agora sou o seu maior discípulo, apóstolo e profeta. Deus – em pt_BR – chama-se Nelson Rodrigues e o cabra é simplesmente o ponto mais alto que eu consigo imaginar na narrativa em língua portuguesa. Não que ele seja perfeito, mas quem quer um Deus literário perfeito? Já temos Shakespeare e Camões ocupando esse posto letra-a-letra. Mas essa coletânea de crônicas me faz torcer por uma peleja de futebol como nunca dantes. Aliás, nunca havia gostado de futebol até ler a palavra de Deus.

4. Encyclopedia of Things That Never Were, de Michael Page e Robert R. Ingpen. Não é um livro para se ler de cabo a rabo, mas para se deitar na rede da casa, sentir a brisa do outono trazendo a noite e a chuva fina enquanto se sente o cheiro do bolo de chocolate solado saindo do forno, um leite gelado com café e manteiga derretida em cima de pães de queijo. Depois, arruma-se tudo no centro da sala com a tevê ligada em algum desenho animado o qual você não prestará atenção. E, súbito, você estará em terras distantes, entre pessoas que nunca existiram. É dos livros que mantêm a criança viva dentro de ti. É alimento para a alma.

Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach

5. Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach. Li quando criança. Reli quando adolescente. Re-reli quando adulto. Não é um exemplo de texto, de mensagem, de qualquer outra coisa mas tenho uma memória afetiva muito boa com esse livro. Li todos os outros do Richard Bach até ele embarcar numa viagem mística muito chata. Fica a lembrança boa de lágrimas molhando os olhos no balançar do ônibus para a escola.

Agora vem a parte mais desagradável. O livro ruim. Desagradável porque são tantos, mas tantos, que eu geraria uma legião de ogres ensandecidos que viriam à minha casa com archotes me martirizar. Ou não.

6. Urbanóides, de Zander Catta Preta (http://casadozander.com/urbanoides). É uma obra menor, corrida, mas feita com coração. Baixem. É de graça. Ao menos nenhuma árvore precisa morrer para vocês lerem-no.

Passo a corrente para Gabi, Eric, Júlio, Júnior e Lia (que provavelmente não a repassarão para ninguém).

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pós Elvis Costello

Estavam as três sentadas em torno da mesa de jantar entre excitadas e divertidas, a Ruiva, a Loira e a Morena. A proposta era meio inusitada. Iriam participar de um tipo de jogo novo, um Imagem e Ação® de experimentação sensorial. Ele iria fazer pratos inusitados e elas diriam suas impressões. À mesa: copos d’água gelada, pães (ciabata, de gergelim, integral e o bom e velho francês) e quatro pratos para cada uma (entrada, consomé, prato principal e sobremesa). Todas tinham sido suas amantes em alguns momentos da vida dele e faziam parte das vidas umas das outras desde então.

À cozinha, ele finalizava a entrada: massa de panqueca temperada com pimenta do reino servindo de base para um molho de iogurte integral que fixa alface, cebola, tomates picados, rúcula e agrião. Temperando, ele usa vinagre balsâmico, azeite virgem, sal marinho e uma pitada leve de pimenta branca moída.

“É para dar o duplo contraste do ardido.” “Mais ou menos como você fazia comigo, ao parar logo antes do gozo.” Disse a Ruiva. “Nem tanto. Mas é essa a intenção. Quando o gosto de uma coisa se precipita sobre o todo, interrompe-se. E o limiar torna-se o real prazer.”

Ele as serve igualmente: a panqueca montada diretamente no prato de salada. Panqueca, creme, salada temperada, salpica-se sal e pimenta. Comem e se servem de água no fim.

“Poxa… um vinho cairia bem! Você tem um tinto aí?” Sugere a mais nova delas, a Loira, no que é ratificada pelas outras duas. “Não! Vinho entorpece o sabor. Comam e anotem mentalmente o que sentiram em cada garfada. Tentem perceber a textura com a boca. Sintam a ardência da pimenta passar por toda a língua. Aspirem o cheiro do vinagre misturado com o agrião e a rúcula. Lembrem-se: isso não é para matar a fome. É um exercício do prazer.”

Ele volta para a cozinha enquanto elas comentam a experiência. “Não gosto de rúcula” Disse Morena, “não gosto da textura, do gosto, do amargor.” “Eu adoro. Me lembra algo que vem de dentro, algo biliar.” Diz Loira. “É um prazer amargo. Eu bem queria uma cerveja.”

Chega o consomê. Uma sopa forte e escura, mas de cheiro forte. Um pedaço de carne de sol com um ovo misturado.

“Sopa de legumes – abóbora, cenoura, batata e beterraba – com carne de sol e ovo cozido no caldo. Receita velha, mas com um ingediente a mais. Descubram o que é.” “Alecrim.” De pronto, Morena adivinhara. Sabia dessa nova paixão dele pelo alecrim e fora fácil acertar. As outras olharam com um pouco de incômodo. Parecia que ela tentava se exibir diante das outras. Era recém-chegada ao “clube” e mal tinham dois meses juntos. Mal o conhecia. Ele assentiu à resposta correta com um olhar frio e pediu que todas terminassem o prato. Ruiva, ao terminar, descobriu que o ovo era de pata e que tinha conhaque no caldo, mas preferiu calar-se. Sabia que aquilo era um recado para ela. Durante sua enfermidade tinha de tomar gemadas de ovo de pata com conhaque regularmente. Uma receita caseira que dera certo. Só faltava a canela, mas ele odiava o gosto de canela na comida.

Levantou-se e foi servir o prato principal.

“Macarrão fio de ovos integral – ou pasta em fio de ovos, como dizem os Gourmets – em manteiga de cabra, alho e cebola secos. Três molhos à sua disposição: requeijão integral com curry, molho de tomate com carne de sol e tabasco e molho branco especial. Qual deles vocês querem? Escolham um e apenas um.”

As três logo concordadam com o molho branco especial que de especial pouco tinha. Creme de leite salgado, cebola seca, farinha. Insosso. Inhonho. Uma merda.

Ficaram meio constrangidas quando provaram. Loira mal conseguira tocar no molho e se serviu mais do macarrão puro. Morena terminou o prato, mas se serviu de pão para retirar o gosto e descobriu que o molho combinava bem com o ciabata. Ruiva abandonou a tarefa na segunda garfada. Serviu-se de água como quem queria afogar alguma lembrança ruim. Mal continha o nervoso do rosto.

Antes de servir a sobremesa. “Isso vai demorar um pouco mais. Não terminei o prato e ele tem de vir quente para a mesa. Me dêem uns trinta minutos, por favor. Depois de comermos, podemos beber vinho, pão e queijo se quiserem.”

Levantaram-se todas e foram à saleta, sentar-se nos sofás.

“E se fizéssemos uma brincadeira enquanto esperamos? Que tal listarmos os três melhores homens de nossas vidas?” Loira propôs no que foi seguida pelas outras duas. Citaram os nomes dos homens, contaram suas vantagens e defeitos e umas duas histórias engraçadas. Morena falou do trabalho, que anda difícil e escasso. Ruiva falou dos filmes que assistira e das peças de teatro que talvez participasse num futuro póximo. Loira falou do doutorado e de Física Quântica. Nenhuma mencionou o nome dele vez sequer.

Morena propôs um novo jogo mas foi interrompida pelos barulhos na mesa de jantar. Ele estava retirando os pratos e as travessas antes de servir o dessert.

Três pratos envoltos em papel laminado como se fossem surpresas prateadas e doces.

“Abram, comam e me contem o que acharam.”

Era uma receita nova: rodelas de abacaxi assado no sal marinho, coberto por calda e sorvete de chocolate amargo com uma pimenta vermelha espetada bem no centro.

Todas comeram como se não houvesse uma outra chance delas na vida.

“Estávamos fazendo uma enquete. Quais as nove coisas que você gostaria fazer antesde morrer?” Disse Ruiva, com interesse e afetação e sem pensar muito entre o olhar de reprovação das outas duas.

“Fácil. Ver meus filhos irem dormir e acordar; ver o sol nascer em Copa e se por em Ipanema; escrever um conto – que eu sei que não dará tempo –; assistir Manhattan, do Woody Allen; ver a mulher que eu sempre amei pela última vez; e preparar um jantar para quem mais me amou nessa vida.”

Antes de irem embora, Ruiva, que estava ameaçando uma lágrima, disse: “Me desculpe. Por vezes me esqueço” “Não há problema. É sinal que estou fazendo a coisa certa!”

Constrangidas, as três saíram do apartamento na Bulhões de Carvalho e o deixaram morrer em paz.

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Dois velhos bêbados

October 1st, 2005 § 0

O mais novo chegou no Belmonte às três da tarde. Ficara jogando peteca na praia desde às onze da manhã e estava com fome e sede. Já era uma espécie de rotina: acordar às cinco, comprar pão, manteiga, presunto e queijo; tomar café da manhã com a esposa e o neto encostado pela Aeronáutica às sete. Às oito, banho tomado e academia: correr uma hora e malhação e hidroginástica. Às dez de volta em casa para um lanche rápido e colocar a sunga para a praia. Morava na Atlântica, perto da Bolívar, num prédio antigo, um dos primeiros de Copacabana.

E era isso: praia e depois chope no Belmonte. Costumava chopear no Cabral 1500, mas esse bar novo tinha pastéis de camarão sensacionais e empadas memoráveis e resolvera trocar local do almoço desde a sua inauguração. Não se arrependera.

Estava lá, nessa quarta-feira, lendo o jornal que o garçom havia pegado e notou que tinha uma outra cabeça branca observando-o. Havia sentado na mesma mesa sem pedir licença ou se apresentar. Não precisava.

“O senhor é uma vergonha! Não honra as próprias calças!” Olhou para o mais velho que estava vermelho em fúria contra ele. “Nunca vi homem que dignasse o próprio nome fazer tal coisa! O senhor desonra seu nome, tua família, teu posto e tua farda!” “Não uso farda há mais de duas décadas.” “Não interessa! O senhor tem um nome a…” “Um nome a zerar!” E riu sozinho.

Fazia uns cinqüenta anos que os dois se conheciam. Desde o primeiro momento antipatizaram um com o outro. O mais novo, recém ingresso à AMAN; o mais velho, no penúltimo ano. Competiam em tudo. Notas, esportes, oratória. E empatavam nas graduações. Só que o mais novo tinha uma vantagem que nunca seria superada. Era muito mais bonito e tinha o dom da sedução, o sex appeal inato que dava larga vantagem numa área onde o velho nunca conseguiria competir.

Antipatia que se tornou guerra pessoal. Um era comunista histórico. Amigo de Prestes e de Teotônio. Outro, simpatizante do Integralismo, seguidor de Plínio Salgado, adesista de primeira hora no golpe/revolução de 1964. O primeiro perseguido e torturado, depois exilado. Outro, diretor da Light e aposentado aos cinqüenta e cinco. Sempre se encontraram em todas as quinas de suas próprias histórias. Estavam lá em cada momento decisivo, em cada dor, perda ou escolha. Uma vendetta branca tão marcada em suas personalidades que já não fazia mais diferença os motivos, as ideologias, os partidos, as causas ou conseqüências. Já estavam velhos demais para a beleza de um ou outro fazer diferença. Os filhos já haviam vindo e ido, deixando alegrias e desgostos que usavam para ofender um ao outro. Filhos, netos, política, economia, futebol e, principalmente, mulheres. Qualquer coisa que desse uma oportunidade para o outro espezinhar era motivo suficiente. Desta vez era o turno do mais velho, no seu motivo preferido.

“É deprimente que o senhor ainda se arraste por rabos de saia que têm menos da metade da tua idade! Sei que é adepto desses remédios que garantem a virilidade momentânea! Vê-se que já sofre os efeitos colaterais! Não se enxerga mais!” “Inveja! A mais doce das infâmias que poderia lançar sobre mim. Não consegues te acertar com tua prótese, então ficas difamando os que…” “Calúnia! Não existe implante algum em mim!” “…os que ainda despertam algum interesse nas mulheres ainda em plena atividade e prática sexual. Mas te garanto, meu caro, que não sei do que falas. Sabes bem que desde a morte do meu primeiro filho, me assossego em casa, não tenho mais dessas aventuras.”

O velho sentou-se à mesa, pediu um chope curto e comeu um dos pastéis. O novo pediu mais um chope para si e um “refil” nos pastéis. Ficaram ali, em silêncio, se estudando como se fossem dois samurais esperando a reação um do outro para sacar a lâmina de sua bainha e cortar a moral do outro.

O novo faz o primeiro movimento: “Do que falas, afinal?” “Dessa mulher que o senhor tem freqüentado às quartas-feiras.” “Não é isso que pensas.” “Como não? Sei muito bem como o senhor se coloca frente às mulheres, enganando-as, seduzindo-as.” “Há muito te expliquei que não somos nós que as seduzimos, muito pelo contrário: elas que nos convidam e dão o seu aceite. Se brincam de serem cortejadas, é porque lhes é conveniente. A sedução vem delas para nós, não o contrário.” “Mas meninas, que mal sabem o que é a vida?” “Tu sabes que, hoje ou em mil novecentos e sessenta, as meninas deixam de ser meninas aos vinte. São mulheres em plena flor da idade. Não há meninice nisso. Tu, que casastes com uma de quinze, deverias ter mais noção disso que eu.” “Não menciona o nome dela assim! A boca do senhor não é limpa o suficiente para mencionar Gaia.” “Gaia. Eu pensava que era Géia o seu nome. Já é o tempo me tomando as lembranças.” “O tempo toma tudo, sei disso.” “Não tenho dúvidas. Mas sempre te surpassei, não? Sempre estive um passo à sua frente.” “Nem sempre.” “Justo. Tem coisas que tirastes de mim que não há como devolver.” “Fi-lo pela pátria.” “Ou por vingança, ou por ódio, ou por perversão, sei lá. Não me interessa mais. É passado e é história. Teve a tua cota de vingança e de sangue e eu também. Somos agora dois velhos a nos cutucar enquanto o mundo nos esquece.”

O golpe fora certeiro. O novo sempre fora muito melhor na oratória, mas dessa vez vinha carregada de alguma coisa mais forte. Ele estava com a guarda aberta. Via-se nos olhos que não estava estudando o que falava. Era um homem de setenta e poucos anos, lúcido, saudável que admitia para o seu nêmesis que tudo aquilo que basearam a sua relação de ódio e vingança havia caído por terra, perdido a importância. Era apenas uma birra de dois velhos bêbados. E que isso era um laço mais forte que muita amizade sincera aberta e verdadeira.

Os dois viram os rostos para a menina que se aproximava e que pedia licença para sentar à mesa. Menina não. Uma linda mulher.

Ela se senta entre os dois, à cabeceira da mesa. Ajeita a saia rodada branca e coloca o chapéu, a bolsa e os óculos escuros numa cadeira vazia. Olha lentamente para o mais velho e com desleixo para o novo. “Parece que vocês chegaram num campo comum, não é mesmo? Se acertaram?” “Não existe acerto entre mim e o velho. Mas acho que estamos colocando os pesos corretos na nossa guerra.” “É verdade. Então é a senhorita a mulher que o novo visita às quartas?” “Sim” Disse Luna, com o olhar incapacitado. Sabia que era poderosa e maravilhosa, que era a segunda da lista, mas sabia que, de perto, os dois eram maiores e mais poderosos que todos os outros. À exceção de Hélio, ou Hélius, nunca se lembrava. Ela ficava diminuída perto dos dois.

O velho dirige um olhar meio envergonhado, meio compreendendo o mais novo. Pede mais um chope e uma caipirinha de tangerina para Luna que não conseguia manter o porte altivo e imponente. Sentava-se como uma menininha entre dois gigantes.

“Quando partes?” “Não sei mais se parto ou se fico. Tudo é muito confuso para mim agora.” “Sabes que tem alguns de nós com quem não deves brincar. Creio que já falastes com todos? Ou não? Existem aqueles que são mais velhos e mais distantes e que não tens acesso. Não deves procurá-los. Tua jornada não se expande mais.” “O novo fala a verdade. A senhorita tem de saber o seu lugar. Ande à luz do Sol, se quiseres, mas tem de ter o limite das coisas.” Ela escutava, discordando mas incapaz de se defender. Sabia que o seu tempo ali havia terminado.

E partiria para São Paulo ainda hoje.

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Desaprendendo

September 11th, 2003 § 0

Não existe pesadelo que a realidade não devore,
sonho que o gozo não banalize,
medo que o sol não dissipe,
desejo que a realização não descolore.

Tudo é mais rico e vívido quando na mente,
nos olhos que não vêem.

Desaprendemos o gosto do pão com manteiga,
mas nos dá água na boca o comercial da tevê.

O nosso dia a dia é tão insípido que precisamos das fantasias para nos animar a acordar,
a tomar o café da manhã, a almoçar uma comida diferente a cada dia.
A fartura da sociedade moderna nos impele a consumir sem degustar, a aprender sem recordar.

Ou seria apenas eu que desaprendi o que é a paixão.

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