Felicidade

October 26th, 2009 § 3

Ele: Você se arrepende de algo? já pensou em desistir?

Ela: Não. Nunca!

Ela olha pros olhos tristes e desanimados dele. Ele está caçando algo entre os pés. Brinca com os dedos na mesa e encara o café como se alguma resposta estivesse misturada entre o açúcar e o creme. Talvez a borra… talvez a fumaça lhe trouxesse uma resposta.

Ela: E você? pensa?

Ele: Sempre. Todo o tempo. Todos os dias. O tempo todo.

Ela: Por quê?

Ele: Porque eu sou eternamente insatisfeito. O que tenho hoje não me contenta. Não me basta. Não acho que tenha nascido para ser realizado de qualquer forma. Fico comparando o agora com o que poderia ser, com o que jamais será.

Ela: E daí?

Ele: Não me arrependo. Nem desisto. Só não sei se as coisas são para sempre. Ou se deveriam ser assim. Para sempre.

Ela: E o que eu faço com isso?

Ele: Não sei. Não é justo, fato. Algumas coisas não deveriam ser ditas ou insinuadas.

Ela: E por que você veio com o assunto à tona?

Ele: Porque isso tem de ser dito.

Ela: Você me ama?

Ele: Amo.

Ela: Você ainda me quer.

Ele: Sempre.

Ela: Então, qual o problema?

Ele: Isso aí, o que temos. Tenho medo de que seja felicidade.

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Jazz, charutos cubanos e Vivaldi

October 19th, 2009 § 5

Eu não gosto de Jazz. Minto. Adoro Jazz. Não gosto é de quem arrota Jazz como se fosse atestado de nobreza urbana ou de quem diz que adora o estilo e vomita nomes, discos, movimentos e músicas como se mijasse uma linha intelectual que separa os geniais e a mediocridade mundana média regular. Obviamente, se colocando no lado de lá. É o mesmo povo que gosta de desbancar os standards, os gênios consagrados apenas pelo choque ou para se destacar da “massa ignara” ou da massa de manobra cultural.

Se confundem a esses os “apreciadores de charutos cubanos” que gostam de ostentar os caros cilindros de tabaco enrolado em locais inusitados, como botecos apertados e caixas de supermercado, ignorando que há local, hora e sentido para prazeres caros e que os maiores e mais deliciosos tendem a ser praticados no isolamento de seus lares, sem atentar ao acinte que é brandir para um transeunte – normalmente um empregado do recinto – uma fortuna virando fumaça ante os olhos tristes de quem ganha o bom e velho salário mínimo.

Não gosto de Jazzistas, de charuteiros, de enólogos, cinéfilos, teóricos de teatro, críticos de cinema, de teatro, de tevê, publicitários, marqueteiros, fãs de quadrinhos, de errepegê, de mídas sociais, de internet e nerdices, de filmes de animação, de mangazeiros, fanzineiros, não gosto, não gosto, desgosto.

Essa gente toda que deveria sair de casa num sábado e caminhar na chuva de verão, andar descalço no chão molhado, chapinhando a sola do pé no asfalto que transpira a água recém-chegada ou correr até se estabacar na grama úmida, ensopada de tanto céu na terra. E depois se levantar sorrindo, dos arranhões no joelho e vendo que a vida é feita de dor e de cheiro de ozônio e de cabelos desgrenhados e suor, muito suor, e com as Quatro Estações, de Vivaldi, como trilha sonora.

Na verdade, na verdade mesmo, eu não gosto é de gente que não anda de bicicleta com medo de cair.

O resto é rabugice minha.

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Perdas e ganhos

September 29th, 2009 § 6

tirei daqui.

Outra coisa que não entendo é esse medo bobo de perder alguém antes mesmo de começar alguma coisa com ela. Algumas amigas se queixam que não entram em um relacionamento porque têm medo de se machucar, que podem se ferir muito no processo e preferem abrir mão disso. E quem disse que relacionar-se tem algo a ver com cintos de segurança, air-bags e limites de velocidade? quem quer segurança, que fique comendo pipoca na frente da TV enquanto sonha com os romances pré-fabricados de Hollywood.

A vida, querida, queridas, é feita de cuspe, sangue, porra, suor e dor. Quem quer se apaixonar tem de ter coragem para levar porrada na cara de quem mais ama. Pior, de quem não ama, mas deseja com um tesão de largar a família e morar no mato. Tesão de abrir mão de emprego, comida na mesa e roupa lavada. De querer morar na rua com esse indigente sentimental por quem você – tadinha, tão princesinha – se apaixonou e se entesou.

A vida, minha amiga, é foda.

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O possível provável e o provável possível

September 9th, 2009 § 5

Sou um chato. Meus amigos, colegas de trabalho e conhecidos podem atestar isso veementemente e com exemplos eternos, infindáveis. Sou chato com as músicas que ouço, com o que calço, com os meus perfumes (desodorante com cheiro? NUNCA!), com o que resolvo comer, com o(s) meu(s) computador(es) e com os amigos. Especialmente com os amigos.

Estou na idade que não posso ser visto com qualquer pessoa em público. Imagine só eu ser visto do lado de pessoas bonitas, chiques, alegres, descoladas, tatuadas, inteligentes, cultas, famosas, poderosas, absolutas e colocadas? Que sujeira eu faria à imagem delas, não é mesmo? “O que esse velho bundão está a fazer com as meninas bonitas e com os rapazes ‘da hora’?” Mas quem disse que eu consigo? sou atraído como mariposa para a luz e confesso que todos os meus amigos são exponencial e potencialmente mais interessantes e divertidos que eu.

Fazer o quê? sou chato com meus vícios. Tenho poucos, mas de estimação. São meus e só eles me entendem nos momentos de solidão. Abro a garrafinha de coca-cola como quem sabe que virará a noite matando pessoas digitais em algum reino perdido da digesfera. Como toneladas de paçoca como quem espera encontrar o cupom dourado do Willy Wonka em cada um deles. Tudo para me entreter quando estou comigo mesmo.

Sou chato com a minha solidão. Não gosto de ninguém intervindo nela. Gosto de estar só, mas morro de medo de ficar só. Por isso falo pelos cotovelos, dialogo insistentemente com o outro, idependente da vontade do outro me escutar e refalo o que disse quantas vezes sinta necessidade para preencher o vazio que existe entre mim e a alma do outro. Falo para me acostumar com minha voz. Porque gosto da minha voz. Porque é isso que me resta nos dias que não consigo me ver como um entre muitos e principalmente quando me vejo como mais um entre muitos.

Sou um velho chato e implicante com a linguagem. Especialmente com a linguagem dos outros. A minha não, que não sou suficientemente humilde para apontar os meus próprios defeitos. Não na frente de platéia. Afinal, o destino (ou a genética, não sei ver a diferença entre eles) já foi suficientemente sacana comigo me dando essa cara de woodyallen tupiniquim e uma conta bancária eternamente negativa, além de uma incapacidade patológica de conduzir um automotivo.

Talvez por tudo isso acima eu implique sobremaneira com quem confunde probabilidade e possibilidade. Porque, apesar de ser muito improvável, eu morro de medo da possibilidade de morrer só.

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Miss Once

August 29th, 2009 § 3

Você me falou de Once um tempo atrás e enrolei até hoje. Eu entrei num ônibus que saiu com os costumeiros dez minutos de atraso e já era sábado, meu hoje é um caminho entre duas cidades, você sabe bem disso, já viveu isso um pouco entre idas e vindas, e eu ainda carrego um sabor amargo de umas conversas amigas que revelam partes de mim que não gosto de olhar e de saber que existem.

Você me contou que assistiu Once tempos atrás, uma cidade e meia atrás, e eu enrolei até hoje para assistir. Cada coisa tem o seu momento, seu talento, seu sentimento.

Eu sou uma pessoa de promessas adiadas. Já disse isso antes e não canso de repetir a quem não quer ouvir: sou uma pessoa de promessas adiadas. Tenho medo do fim, de subir a escada até o último degrau e olhar o mundo do alto da escada, do último degrau da escada. A escada que eu recuso a subir.

Você me falou de Once, me falou da Billy Holiday, me falou de amores irrealizáveis e eu procrastinei tudo isso. Arranco os pelos da minha barba como punição, sabe? Quando alguém me chama na sala, acho que é para ser punido por algo que deixei de fazer. Tenho medo de broncas, de pessoas bravas, de quem parece ser mais forte do que eu e, acima de tudo, da vida. Tenho medo da vida.

Nunca gostei de ir ou voltar. E, definitivamente, odeio fins.

Você me falou de Once, o filme, uma vida atrás. Hoje, assisti, contive os soluços no ônibus e pedi ajuda uma derradeira vez.

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condomínio

May 18th, 2009 § 3

A casa da minha alma é pequena. Nela, cabem umas poucas lembranças, um cálice vazio e um farrapo de vontades gastas pelo tempo. A alma ocupa um canto iluminado pelos sóis de inverno. Tem janela para um quintal de grama verde, onde ela pode se deitar e brincar de desenhar nuvens. Por vezes, cochilar na rede que prende às paredes. É onde ela se lembra de onde veio e para onde irá.

A casa dos meus sonhos é um campo aberto. Não é casa ou teto, mas horizonte infinito, sol a pino e nuvens escarradas no ciano cinzento. A casa dos meus sonhos tem um vazio ensimesmado, um nada indefinido, uma ausência de ser. Ela se insinua, mas inexiste. Como um desenho abandonado. Ninguém mora lá.

A casa dos meus desejos é um pássaro migratório. Mora em calendários, pousa em meses, cria ninhos em semanas, cisca nos dias, come nos feriados vermelhos. Ele existe no ir e vir, sempre em movimento. É filho das horas e das efemérides. Eu o alimento com os segundos que roubo do relógio.

A casa do meu futuro foi erigida em nuvens sem pé de feijão. Ela é feita de desenhos animados e de cores acachapantes. Os amigos do futuro são caricaturas de gente e eu os conheço vidas a fio. Eu acredito em suas histórias que me são enviadas em cartas de tarô. Desenho a casa em mapas astrais e traço seus contornos em trígonos, quadraturas e sextis.

A casa do meu exílio tem verão todo dia e inverno para o sono. Tem uma cama quilométrica e uma rede com paisagem de concreto e luzes. Uma lua safada me visita quando chego do trabalho e me ilude com promessas de carinhos. O exílio não é local de carinho.

A casa do meu trabalho é vizinha da alma. Sólida como chumbo, negra como o medo, fria como o beijo de quem não te ama mais. Não tem portas. Não tem janelas. Não tem saídas. Ela é carregada como um casco, uma corcova de gente. Meus dias se passam ali dentro. Algumas noites também.

A casa da minha mãe tem a mãe da mãe e a filha do filho. Já teve minhas lembranças, meus prazeres e o meu acalanto. Hoje tem conversas e uma longa espera pelo fim. É uma casa de cura, ainda que essa venha de forma inesperada. É onde podemos dormir à tarde e sabemos que alguém nos guarda à porta. Ninguém fica com fome na casa da minha mãe.

A casa da minha esposa tem o meu nome prometido e a promessa de um futuro. É feita de paredes arranhadas e a derradeira tentativa de felicidade. Sair dali é entregar-me àquilo que não quero mais ser. Toda semana parto com a esperança de retorno. Toda semana volto com a esperança de ficar.

A casa das minhas casas tem chaves gigantes, seis cores de duração e uma sombra eterna.

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Do que são feitas as estrelas?

March 25th, 2009 § 5

Sou um possuidor de um coração vagabundo. Desses desclassificados mesmo. Nunca tive medo de me atirar ao chão e pedir carinho, fingir de morto, virar a barriga para cima, olhar com orelhas caídas e olhos grandes para quem queria/fingia me dar afeto. Certa feita, menina me subornou com um beijo se fizesse eu uma cena em plena Praça Saens Peña. Não fiz a cena por vergonha – esse sentimento estúpido e inútil, especialmente a vergonha alheia – e fiquei sem. Acho que ali tracei uma linha no chão e me recusei a cruzar.

Obviamente, com a idade, as vergonhas tendem a deixar de travar a mão. Mas essas trocam de nome e passam a se chamar de “conveniência”. Pois, como se diz no mundo da moda, tudo pode, mas nem tudo convém.

Estava no chope, conversando com amigos e conhecidos (mais desses que daqueles) e, ao voltar para casa, lembrei de pessoas com quem eu queria dividir a noite, seja no papo moleque, na conversa de várzea, no papo-furado arte, ou no aconchego de lençóis da minha cama king size. Tudo armadilha da necessidade de autopsiar a minha própria melancolia. Resultado: muito chope e uma enxaqueca pela manhã.

Passam-se os dias, as inspirações para escrever, as tarefas burocráticas d’A firma, as oportunidades de ficar milionário, os 2,4km que caminho de volta para casa quase que diariamente e eu, preso em uma nostalgia das coisas que deixei de fazer.

Nem São Paulo, com seus céus azuis e seus poentes impossíveis me comovem mais.

Aí, a amiga Mariana Blanc posta no seu perfil do Orkut: “Do que são feitas as estrelas? saudade.” Se for verdade, minha estrela brilha forte, cada vez mais forte.

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quatro questões em moto-contínuo

February 26th, 2009 § 1

sabe qual o pior medo? é o de perder o que se tem.

e a maior frustração? a de ter tido medo de se lançar no abismo.

e o maior cansaço? de ter sucessivas frustrações.

e a maior perda? a de cansar de si mesmo.

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Capítulo 1

October 3rd, 2008 § 7

Deveria falar sobre os que partiram, os que ainda vão voltar, sobre as coisas que não existem, as que vão se inventar. Mas falar disso é fuga, algo que não busco mais pois há muito só faço fugir das sombras projetadas em meus sonhos. Medos transformados em gente, com nome, endereço e documento.

Não penses que tenho culpa de algum crime ou de algum erro imperdoável. Meus crimes, se podem ser chamados assim, são de natureza branda, pequenos diante a cruel realidade que me formou. Culpa, carrego sim, com um peso inenarrável. Me sinto tão culpado de estar vivo que a simples perspectiva de acordar me apavora. Não consigo mais olhar meu rosto no espelho e achar um homem refletido nele.

Vou te falar de culpa, uma culpa ancestral, de medos, de chances perdidas, de um ser humano desprezível que não honra a luz que é consumida quando projeta uma sombra. Falo-te (já deves saber) de mim mesmo.

Perdoa-me, desde já, a linguagem pedante, o estilo forçosamente rebuscado, demonstrando falsa cultura e erudição. É difícil perder o hábito assim, de uma hora para a outra, tentando ser honesto e sincero. Após muito torcer, a mão vicia a escrita.

Pois como pode um adulador profissional, um ser que devotou trinta anos de sua vida a agradar o próximo, a elogiar na hora certa, a se fazer notar sem incomodar, mas causando sempre a impressão de que era necessário, até mesmo fundamental, de uma hora para outra se tornar um homem que honra as calças que veste, que defende idéias próprias, ou melhor, se dá o direito de ter idéias suas, pensadas com sua própria cabeça, e não repetidas de seu superiores ou roubadas de seus assessores.

Quantas vezes deixei um comentário morrer no céu da boca, apenas porque duvidava do agrado do mesmo. Quantas covardias cometi ao me calar ante um impropério, uma calúnia ou mesmo uma piada de mau gosto.

Mas deixa estar, a noite cai em cima dos abandonados, pois para quem tem companhia, luz de lâmpada é dia com mais horas, é convite para os úmidos e entumecidos, é vida de gato. Que sejam sete ou nove.

Para os abandonados, só resta o dia que nasce às quatro e meia da manhã, a hora e meia sacudidas num humilhante, quatro horas de sim senhor, quase hora inteira de bóia e lesmice, mais quatro de não fui eu senhor, duas horas de mais sacudir mais banho e cama desarrumada de ontem, quando não é sexta-feira, que é banho e menos sono por causa da reza dos crentes em frente de casa. Sábado é dia de cuidar da casa que não se cuida só. Domingo é dia de lamento da segunda que se aproxima.

Acordo e não me esqueço da noite de ontem. Drogas e álcool foram inúteis. Teu gosto ainda fica na minha boca apesar das outras. Mas uma felicidade boba e vã insiste em continuar a me perseguir. Pois não sou o tolo a quem gozam os bufões? Não sou o idiota a quem os pivetes, os moleques xingam ao passar na rua? Então, este imbecil aqui procura porque, mas não encontra aonde, motivo do sorriso descarado que exibe na cara rota.

É bem-amado? Pois não, vive de chutes e pontapés das biscas que não recusam a outros. É bem pago? Pois não, para as contas mal dá o salário e sempre sobra mês no fim do dinheiro. É culto? Inteligente? Tampouco, tampouco. Erra os pronomes, mal fala o português que diz falar o “brasileiro”, não soma ou diminui, sequer supõe que as duas operações são a mesma. Como pode um assim ganhar dinheiro que dê para não morrer faminto?

Pobre coitado que nem coito leva para si, nem gripe ou outra doença o atira na cama para que, mesmo febril, consiga descansar um dia ou dois. Pois férias, feriado, não tem que o patrão não assina a carteira que, afinal de contas, aonde um imbecil de pai e mãe conseguiria um emprego tão bom? Aqui, comigo você pode crescer, diz o patrão, mas crescer como, diz o idiota apedeuta, cresce sendo homem de confiança, mas para isso preciso confiar em ti primeiro, diz o explorador, e ganhas confiança trabalhando muito, de sol a sol, termina calando o primeiro. Pois não vive o imbecil. É morto e vivo que perdeu caminho do cemitério nem se encontrando no paraíso, inferno ou purgatório. É fugido do umbral dos homens e dos animais. Entende os aqueles, quando berram, age como estes, passivo.

Mas de onde o estúpido arrumou o sorriso? Pois não compraria prazer nem em Vila Mimosa aonde o amor é barato e se compra com todos os tipos de papéis. Tampouco arrumou caridade com moça ou mulher, pois é feio de trocar de calçada os marginais. Que raios de sorriso é esse? Seria dos tolos que, sem saber que males existem em volta de si, se regozijam em torno de cerveja, carne e batuque? Seria dos desesperados que encontram em palavra forte de pastor e mímicas de demônios expulsos acham-se mais amados pelo divino que o seu vizinho? Seria de uma fumaça ou erva que abobalha os sentidos e estampa uma fome no ventre? Seria de um outro bobo que, em sua bobice, divertiu o cretino que agora sobe a ladeira de sua favela. Passa pela vala negra, que ajuda a cumprir os escritos sagrados na bíblia das moscas: “Crescei, multiplicai e repeti tudo de novo”, com uma indiferença que só cabe aos que nasceram e foram criados perto de valas negras. Entra em casa sua alugada de outro e vê no espelho rachado que fica em cima da pia um sorriso que nunca foi seu. Deste momento em diante, não é mais bicho-homem. É homem.

Só o homem ri.

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Carta a uma futura adulta

September 17th, 2008 § 7

Minha menina,

Um dia acordei com um mau-humor mais terrível que o costumeiro. Ele me acompanhou pelas avenidas dessa cidade-monstro, nos lanches e nas conversas com os colegas, no almoço, nos interlúdios de trabalho e nas linhas dos emails enviados. Ele também esteve no meu cangote na hora que voltei para casa, no jantar à frente do computador e deitou-se comigo como uma sombra que me cobria, aninhava e reconfortava.

No meio da noite, essa sombra cobrou o seu preço e foi-se com todas as outras sombras nas primeiras horas da manhã, deixando um vazio frio e perturbador.

Nessas horas de desespero que bate à porta, lembro-me sempre dos seus abraços e de seu sorriso moleque e me atenho ao fato que esses momentos são cada vez mais raros. Ainda assim, a lembrança que nunca será apagada desses pequenos gestos, para mim são o alento que me mantém a vontade de levantar diariamente apesar das cobertas que insistem em retirar o pouco brilho que ainda mantenho nos olhos.

Meu maior medo é que ao apagar das luzes eu deixe pouco mais que uma impressão digital na tua vida porque eu queria ter deixado para você um mundo com mais verde entre nós, e menos cinza, com mais brincadeira de rua, e menos vídeo-game, mais céu azul e vento fresco e menos mormaço. Mas minha vida tomou curso diferente do que eu tinha planejado e meus amigos, pares, contemporâneos juntaram-se a mim em não fazer nada a respeito disso. E eu queria ter deixado um mundo mais justo e honesto, com maior divisão de riqueza e menor sacrifício diário, mais compreensão e entendimento. Mas tudo isso é sonho, não é mesmo? Então queria deixar esses sonhos para você, embrulhados no papel de pão que te espera quente com leite achocolatado e que você pode comer a hora que quiser.

Ou deixar quieto na mesa.

Então o que eu lhe legaria? Eu poderia tentar te ensinar o que aprendi, mas não sou culto ou inteligente o bastante para te passar algo diferente do que os livros que você lerá e que teus professores lhe ensinarão. Talvez consiga te passar a única coisa que aprendi com as salas de aula: pense diferente e discorde sempre. Confrontar o que lhe é ensinado é a única forma de reforçar o que se aprende ou de aprender algo novo. Ou de ensinar. Fuja de quem te pede para decorar. Abrace quem te deixa pensar. Abrace duas vezes quem briga contigo para que você entenda, aprenda, discuta, pense. Pense. Pense muito. Pense mais.

Mas não acho que isso seja o suficiente. Provavelmente você encontrará um professor ou um amigo que lhe ensinará a mesma coisa e, bem ou mal, repito apenas o que ouvi antes de mim e que se repte desde os gregos filósofos.

Acho que o meu legado, a minha herança, vai ser algo mais sutil mesmo e não tem jeito. Nenhuma frase de efeito, nenhum piquenique onde ganharíamos todos os prêmios ou um roteiro de filme de sessão da tarde. Tudo bem. No fim, não importa o que deixarei para você. O que importa, de fato, é que eu te deixo para ti. Você é a senhora do seu nariz e tenho certeza que escreverá uma história mais bela e relevante que qualquer uma que eu conseguisse escrever, sonhar, ser.

Menina, o meu legado é o amor.

Do teu saudoso pai.

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Where Am I?

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