September 4th, 2009 §
Apesar de ser uma pessoa de epifanias, me encanto sobremaneira pelos momentos fugazes, mundanos, repetitivos. Adoro observar as pessoas ao caminhar nas ruas. Amo ver a espuma do café girar na mesma direção que o movimento feito pela colher e observar os grãos de café sobreviverem segundos poucos antes de mergulhar no creme marrom. Poderia passar horas só olhando esse café se não fossem os horários que me são impostos e a língua inquieta que me faz falar mais que a palavra.
E é no detalhe que eu percebo que a minha felicidade verdadeira não está em realizações olímpicas, mas em pequenenezas diárias. Está no esparramar-me na minha cama sem fim, em esticar mais dez minutos e mais dez e mai dez e mais dez até o atraso costumeiro para o trabalho. No observar o vai-e-vem de pernas nas calçadas e – prazer que tenho me negado desde que mudei para a selva de concreto e asfalto sem fim – deitar na grama sob o sol frio de inverno e olhar as nuvens displicentes desafiar a minha capacidade de ficar acordado.
Existem outros prazeres óbvios que me encantam. Todos mundaninhos, normaizinhos e que vão-se em poucos minutos.
Por um outro lado, os grandes assombros me assustam. Não que tenham me gerado desconforto imediato, pelo contrário, mas a simples ciência que eles jamais se repetirirão me perturbam avassaladoramente. O fato que serão únicos, impossíveis de serem replicados por mais que tentemos me desespera. A mega-sena emocional me aterroriza. Sem dúvida por conta do potencial de vício que eles potencializam. As marés de dopamina que poderiam – podem, poderão – destruir a minha fé na mediocridade derrubam tudo que planejo para mim daqui a dez, vinte, cem anos.
E é isso mesmo. A Grande Paixão Humana é o epitáfio para o velho rabugento, tabagista, bibliófilo, pernóstico, prolixo e promíscuo que encomendei para mim mesmo. Já as pequenas paixões, os amores miúdos, os quereres ligeiros, me cativam e aninham. A Grande Paixão merece ser emoldurada e colocada em local de destaque na galeria da vida e deixada de história para milhões que seguirão o meu exemplo. A Grande Paixão é digna de um martírio, de um legado de legiões, de epopéias e fortunas.
Mas me cansa essa grandeza impossível. Sou apenas um humano, mais um humano, outro humano e eu não espero deixar outra herança – já disse, sou repetitivo, repito – além da minha memória e meu nome.
Que paulatinamente, arraso.
Textos relacionados
January 23rd, 2009 §
Olho pro lado e os papos são de como ganhar dinheiro sem trabalhar. Ou como ficar rico com o mínimo de esforço. Ou ainda da sorte que temos de ter para que a fortuna nos abra o sorriso de dentes de ferro e que não sejamos devorados.
Não sei se é devaneio meu, mas nõa entendo o que há de errado com o trabalho. O simples fato de trablahar de sol a sol e garantir o pão por conta do suor, da dor extrair a gordura e a carne e do risco, o doce.
Aliás, entendo sim. Disse há pouco que saberia o que fazer no evento da mega-sena (ou será megassena?) e que tinha tudo planejado. Mentira. Tenho é a vontade inexorável de largar tudo e trbalhar em algo que me dê sentido e prazer. Todos os dias.
Não me reconheço no que faço.
Textos relacionados
December 19th, 2008 §
Mais um ano termina e a sensação é – de novo – um milk-shake de alívio com sensação de tempo perdido. Nesse ano que passou a vida me trouxe algumas surpresas. A maioria realmente muito boa, o restante ainda está sob análise da distância emocional que só o tempo dá.
Vocês já conhecem a velha história, né? O amor que deu errado abre as portas para uma felicidade mais ampla, plena e absoluta (para ambas as partes); o emprego que te dispensou gerou uma reinvenção da maneira que você se colocava perante o mundo; os amigos que te humilharam no passado te fizeram escolher e entender melhor a humanidade.
Tudo isso só se dá com o passar do tempo.
Viver do passado é a essência da condição humana, racional. É através desse arremesso para o ontem que conseguimos ter certeza que haverá um amanhã. É paradoxal que só consigamos projetar o futuro através do seu oposto mas é assim que o homem funciona. É assim que gosto de ser.
Num papo de almoço dessa semana, falávamos sobre a vida e a morte e o que acontece nesse ínterim. Independente da fé e religião de cada um, a única coisa que me parece certa é que estamos sempre pendendo sobre um enorme abismo que nos devora dia-a-dia, comendo com fastio a essência criativa, a fagulha primeira, mas que é o responsável por nessa geração. É um Urano devorador de sonhos e gerador de monstros bípedes pensantes. Um senhor das chances que deu as condições para nos trazer até aqui apesar da improbabilidade da simples existência – da criação do universo até a chance de nossos pais se encontrarem, tudo é muito raro, único, uma loteria química altamente improvável – e apesar dessa mega-sena cósmica, estamos aqui desafiando as certezas e as firmezas do mundo.
Andamos numa corda-bamba de probabilidades entre o caos completo e o oblívio, entre a inércia e a explosão térmica. E nesse fio de existência criamos, construímos, vivemos, nomeamos, destruímos, esquecemos, amamos, desamamos, geramos, exterminamos, nascemos e morremos e crescemos como nossos pais e avós. Cada um de uma maneira única. Pessoal.
Somos improváveis, paradoxais, imprevisíveis, certos e inexoráveis.
Pois o que espero de 2009, é que ele seja mais humano que nunca, que seja paradoxal, improvável, imprevisível (apesar de certo e inexorável) e que me coloque cada vez mais balançando sobre o abismo que é a existência.
Textos relacionados
October 19th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
E foi isso: dois beijos e tchau. Aí ele olhou para ela e pediu o telefone. Ela deu. Ele chegou a pretexto de se despedir novamente sob alguma desculpa esfarrapada deu mais dois beijos. Ali no ladinho, derrapando na curva. Ela retribuiu os beijos com um olhar maroto. Ele saiu achando que tinha de ficar. Tomou caminho de casa com a sensação que algo ficara natimorto.
Abriu o livro que o fazia chorar de saudades de casa e das histórias e terminou-o. Reparou que o cheiro dela ficara na camisa. O cheiro de rosas? Cheiro doce e azedo. Cheiro que ficaria bem se misturado ao suor dele e ao atrito do látex e lubrificantes íntimos. Cheiro que combinaria com lençóis limpos em lavanderias industriais e odorizadores de quartos de hotéis de três estrelas.
Chegou em casa, tirou a roupa e tomou um banho. Tonto, por conta da cerveja forte, lavou-se por mais tempo que precisava. Lembrou-se das histórias que sabia da moça e sabia que era insensato insistir naquele curso de ação. Não era sensato, absolutamente. A história já estava escrita e reescrita e ele já errara suficientemente para saber o que fazer. Demorou-se mais que o necessário no banho. A água quente relaxava as costas tensas das semanas ruins que antecederam o evento. Sonhou um pouco com uma fortuna que nunca viria pela mega-sena. Sonhou mais um bocado com sexo com metade das mulheres bonitas que viu no dia.
Enxugou-se e vestiu o moletom centenário que usava como pijama. Fazia tempo que não tinha companhia feminina regular, daí o acúmulo de roupas que mereciam o oblívio no seu guarda-roupas.
Mandou uma mensagem de texto pro celular dela. “Quero te ver. Beijo.”
Colocou um Bob Dylan para ouvir e deitou-se na cama. O cheiro não sumia. Pode ser a camisa, a calça, as meias, a cueca. Levou-as todas para a máquina de lavar roupas e colocou-as em molho. Voltou para o quarto. Não entendia o que o velho Bob cantava, mas estava confortável e agradável. Pegou um livro do Eco e folheou umas dez páginas. Dormiu.
Acordou com Mr. Tamborine Man e viu que cochilara por dez segundos, ou minutos. Sonhou muito no meio do processo. Descobriu uma animação incomum para uma quinta-feira à noite e tomou outro banho. Bebeu água. Colocou Chet Baker para tocar no lugar. My Funny Valentine. Sentiu vontade de tomar um vinho e comer um pão com queijo. O vinho veio fácil, como água. O pão deu mais trabalho. Desistiu e abriu um pacote de batatas fritas de marca americana. Começou a tocar Billy Paul e ele trocou a música. Lembrava de uma moça que ele queria. E que tinha um perfume igual.
Sabia que não iria dormir. Olhou pro celular esperando uma resposta. “Duvido. Deve estar mais bêbada que eu.”
Era verdade.
Textos relacionados
December 14th, 2006 §
publicado em LIVinRooom
“Te juro, cara. Não tem mais o que fazer. É caso perdido.” “Não fala assim. Dá tempo ao tempo que as coisas se ajeitam.” “Como assim ajeitar? Não tem mais o que ajeitar não.” “Como não? Tu tá aí com a mãe de todas as dores de corno e não tem o que ajeitar.” “Cara, é como ralar o joelho ou quebrar o braço. Dói para caralho, mas é isso aí. Quebrou. Tem que doer mesmo.” “Vamos para a cachaça então. Assim você afoga as dores no fundo do copo e esquece que essazinha te desprezou.” “Eu topo o copo. Mas ela não me desprezou não cara.” “Como não?” “Não mesmo. Ela só aprendeu a se amar.”
Esse papo tinha já dois anos de velhice e ainda ecoava na cabeça de Cláudio.
Quando ele conseguia um momento de repetição automática de tarefas, seja no trabalho ou nas coisas de casa, normalmente ele devaneava com milhões de reais advindos de uma mega-sena oportuna ou de uma fantasiosa aplicação mágica que ele faria com um dinheiro inventado em algum sonho.
De uns tempos para cá, o sonho de riqueza instantânea vinha mesclado com reconciliação. Especialmente com as mulhres que magoara no passado.
Mês a mês, por ironia do destino, ele estava reencontrando as mulheres que tinha amado em maior ou menor escala. Uma a uma. Era um chope marcado para lembrar do passado, um email vadio, um showzinho descompromissado. Ele olhava nos olhos – azuis, verdes, castanhos, cinzas – delas e encontrava diversos sonhos amarrados, histórias interrompidas, frustradas.
Os rostos novos não lhe traziam o desejo que sentia. Parecia que apenas contavam uma história antiga, com novos atores: a menina que morava na cidade distante mas que queria mudar pro Rio de Janeiro; a recém-separada que ainda tinha sonhos românticos; a mãe que não sabia mais o que era ser mulher desde que o marido a deixou; a ex-namorada que estava com saudades de conversar noite afora com ele; a atriz que desistiu do cinismo carnal dos homens. A todas elas ele dava a atenção que mereciam, até flertava com o o seu jeito sacana e direto, ora divertindo-as, ora despertando algo que deveria ficar quieto.
Mas o fato era que se sentia derrotado pela vida.
A gota d’água foi a ex-peguete que deu as caras recentemente. “Sabe… eu estava com umas idéias bobas.” “Essas são as melhores! Conta aê!” “Eu tava conversando com o meu pai e disse a ele que era mais provável que eu trocasse as fraldas de um filho, num futuro próximo, que catasse as cuecas de um marido.” “Epa! Produção independente? Ehheheh.” “Mais ou menos isso. O relógio já avisou que eu passei da época de ser mãe, né?” “Que isso! Você tá nova. Trinta e um anos?” “Trinta e seis. Você sempre gentil, né?” Ele deu aquele sorriso safado e cínico que destruiu diversos corações e abriu centenas de pernas. “Pois é. Vou partir para uma produção independente. E a idéia boba é que eu acho que você daria um ótimo pai pro meu filho. Charmoso, inteligente, com boa genética, né? Carinhoso, gosta de crianças.” “Você tá brincando, né?” “Tô não.” “Mas eu não tô preparado para cuidar de uma criança.” “Ninguém está. Mas não se preocupe. Eu só queria a tua paternidade. Obviamente geraríamos da maneira convencional, né?” “Bom… treinar muito me agrada. Mas sei lá… Não sei se quereria ficar longe de meu filho, sabe?” “Eu disse que era uma idéia boba. Não esquente. Era só um devaneio meu.”
Ele se desarmou ali. Não se via deitando com aquela mulher e gerando um filho. Não se via não acompanhando a gravidez passo a passo, vibrando com cada momento do seu futuro filho, assistindo ao parto, vendo o moleque dar os primeiros passos, ensinando os primeiros palavrões, a torcer pelo seu time de futebol, a levá-lo para a escola, a dar banho, a ser um pai inteiro.
Pior, não se via fazendo isso com uma mulher que não fosse Elisa.
“Deixa que eu pago a conta.” “Nada disso. Não estamos namorando, afinal. A conta vai ser dividida. Que coisa! Machismo de carioca é foda!” “Mas não é machismo.”
Dividiram a conta e caminharam pelo calçadão até o Leme. Deixou-a no hotel e continuou a andar até o Garota do Leme para tomar um suco de manga com maracujá. Encontrou uma outra conhecida com a namorada. Resolveu pedir um chope e ignorou os chamados da amiga que, provavelmente, estava achando a cama do hotel muito grande e fria para dormir só. Preferiu jogar conversa fiada com as duas que o atualizavam do organograma sexual do underground carioca.
Vinte tulipas e seis chamads perdidas depois ele resolve tirar a água do joelho. No caminho viu um casal que o fez recordar que um dia acreditou em amor e paixão. Que um dia não era esse cínico-que-anda. O fez lembrar da urgência que tinha de chegar em casa e pegar o ônibus que o levava até Elisa.
Voltou à mesa calado e revisitou as últimas semanas.
“Ela só aprendeu a se amar.” Fora a última frase que disse a Alan antes de ele entrar na maratona de álcool e sexo que cauterizou as feridas que a própria estupidez e língua grande causaram.
“Quando você vai aprender a gostar de si, Cláudio?” “Não sei, Vivien. Não sei mesmo.”
Textos relacionados
January 31st, 2005 §
“Pois é, lembra daquela menina do 1103, que tinha um irmão mais velho?”
“Quem a…”
“Ela mesma! Aquela loira, com aquele corpo impossível, que só as meninas de dezessete anos podem ter alguma vez na vida…”
“Que delícia. Me lembro que rendi várias homenagens àquelas marcas de biquini.”
“Que marcas? Até onde me falha a memória, ela só transou com três caras na vida: o Alex, o Marcos e o Marcel. E você não é nenhum deles.”
“Marcel? Aquele que saía à noite para pegar os travecos da Atlântica? Aquele que ficou com a índia anã?”
“Pois é. A menina se enrabichou com o puto e já tem dez anos que estão juntos.”
“Puta que pariu! Como é que um viado como o Marcel conseguiu comer a…”
“Eu também não entendo essas coisas da vida. Mas, ainda bem que não tem sentido. Assim ainda posso manter a esperança de ganhar na mega-sena, de ser efetivado na…”
“São essas pequenas mazelas da vida que nos fazem acordar no dia seguinte, achando que o amanhã vai valer a pena.”
“Seu Astério, vê mais duas aqui! Da Original, valeu?”
Textos relacionados
March 3rd, 2004 §
Nada de novo acontece. Continuo no mesmo compasso de espera. Nem projetos, nem a mega-sena, nem a paixão definitiva da minha vida, nem uma aclamação mundial do meu talento.
Talvez porque tenho trabalhado sem foco, não tenho apostado, tenha tido azar com as mulheres (preciso jogar!) e não tenha me dedicado tanto assim às coisas que sinto prazer em fazer.
Textos relacionados
November 6th, 2003 §
Affonso Romano de Sant’anna
Nesta hora, num apartamento em João Pessoa, numa casa em Cuiabá, num condomínio em São Paulo ou numa cidade histórica de Minas, um autor está olhando, desolado, um ou mais livros seus inéditos sobre a mesa. E não passa praticamente um santo ou profano dia em que não encontre autores sobraçando livros inéditos e pedindo que os ajude encontrar um editor que se interesse por eles. Dir-se-ia que isto é normal. Não é, sobretudo, quando muitos desses escritores já são autores de um, dois, três, quatro ou mais livros publicados até com alguma receptividade.
Não são, portanto, principiantes. Não são amadores. São pessoas que resolveram dedicar sua vida à escrita. Ou seja, para eles, escrever é uma opção vital. No entanto, não encontram o caminho da publicação. Alguns dizem que enviaram cópias para várias editoras. Ou não obtiveram resposta ou lhes disseram que seus livros são interessantes, mas não se encaixam na linha editorial, etc. Outros, impacientemente, pensam editar o livro por conta própria ou através de uma fundação, mesmo sabendo que a não-distribuição estrangulará a divulgação. É uma situação injusta, estagnante e produtora de necrose na alma. É desolador. Ver dois, três, às vezes sete ou dez livros inéditos em casa, olhar os suplementos, ver outros autores surgindo aqui e ali, enquanto se permanece no limbo como um estranho no ninho.
Entendam que não estou me referindo a autores ruins, iniciantes desarmados para a vida literária. Refiro-me a escritores que têm noção do ofício e já demonstraram competência.
Daí o que chamo de “livros natimortos”. E isto merece alguns desdobramentos analíticos, antes que, tentando abater a dramaticidade da situação, se diga que sempre foi assim e que em outros países ocorre a mesma coisa.
Pena que não guardei, péssimo arquivista que sou, uma reportagem sobre um fenômeno semelhante na França. Tratando de livros que jamais chegarão aos leitores, a matéria, no entanto, referia-se ao fato que isto ocorria porque a capacidade de absorção do público já estava preenchida. (Digamos que seja um pressuposto ou uma conclusão discutível, pois, pelas leis do mercado e do marketing, você cria novas faixas de consumidores mediante a persuasão publicitária). Mas o fato é que lá existe já uma boa rede de bibliotecas, livrarias e um consistente público consumidor. Contudo, o que nos interessa assinalar na diferença entre o que ocorre na França, Alemanha, Itália, Espanha, Estados Unidos, Canadá, etc. e aqui, é o fato de que, no Brasil, essa montanha de livros natimortos seria terraplanada se houvesse mais livrarias e bibliotecas e mais campanhas sistemáticas de promoção do hábito de leitura.
Editores brasileiros alegam que não podem editar tudo o que recebem, mesmo que o material seja bom. E, de certo modo, têm razão. Livreiros afirmam que se lhes dessem de graça os dois mil livros editados cada mês no país, não teriam lugar para expô-los. Outra verdade irretorquível.
Onde estão os nós da questão que afeta a todos nós? Em que nossa situação é mais patética que a dos europeus? O fato é que, no Brasil, existe um vasto espaço cultural e econômico ocioso. Produz-se para uma faixa mínima de consumidores sem nenhum projeto consistente, e de longo prazo, para alargá-la.
Quando dirigi a Biblioteca Nacional, constatamos que não entrava no orçamento dos estados e municípios qualquer verba para aquisição de livros. Pensava-se, creio, que os livros tinham pernas e sairiam andando das editoras para as estantes das bibliotecas por um heliotropismo literário. Havia, então, uns 3.000 municípios sem biblioteca. E, na maioria dos 3.500 que a tinham, a situação era precária. Portanto, é evidente a conclusão: se houvesse um programa de compra de livros pelas bibliotecas públicas, poder-se-ia dizer que todo livro médio teria esgotado sua primeira edição, geralmente de três mil exemplares. O Instituto Estadual do Livro em Porto Alegre, que edita gaúchos, esgota, só naquele estado, as primeiras edições de seus autores. A Fundação Cultural de Blumenau começa a editar os autores locais e distribui-los nas escolas. E felizmente acabo de saber que em Minas começou um projeto para implantar bibliotecas em todos os seus municípios.
Contudo, há um mistério no Brasil. Há mais editoras que livrarias. Quase o dobro. Agora, imaginem se em vez de apenas 1.500 livrarias (a cada hora surge uma estatística diferente), tivéssemos, pelo menos, 20 mil a 30 mil livrarias? Tenho por hábito perguntar, quando estou numa cidade com 100 mil ou 200 mil habitantes, e que tem faculdades e até universidade, quantas livrarias possuem. Pasmem, às vezes, só há uma livraria ou papelaria, o que torna inexplicável o modo como os alunos estudam, mesmo levando em conta as copiadoras.
Portanto, estamos numa situação patética. Um país de autores sem leitores. Um país em que o livreiro não dá conta da quantidade de livros recebidos, não porque sejam inumeráveis, mas porque a perversidade do modelo econômico está na raiz da dificuldade de acesso aos bens culturais.
Há muitas variáveis nessa questão. A globalização agravou o encantamento que nossa alma índia sente diante de qualquer espelhinho trazido pelo colonizador. Seja como for, há uma anomalia no mercado. Em termos econômicos, fala-se de ?taxa de desemprego?, ?força de trabalho? e ?demanda reprimida?. Deveríamos aplicar isto ao universo simbólico. Há um desperdício da criatividade, como se, por falta de estradas e supermercados, estivéssemos deixando estragar lavouras inteiras de soja, café e cacau. Se na ditadura reclamávamos da repressão ao simbólico, na democracia temos que cuidar da demanda reprimida do imaginário dos criadores que, em última instância, reelaboram a força criativa do povo.
Enquanto isto, num apartamento em João Pessoa, numa casa em Cuiabá, num condomínio em São Paulo ou numa cidade histórica de Minas, um autor está olhando, desolado, um ou mais livros seus inéditos sobre a mesa.
Livros natimortos-II - Publicado em 08 de novembro de 2003
Dos mais reveladores é o e-mail de Carlos Trigueiro que, comentando a crônica da semana passada, lá pelas tantas, diz: “Pasme. Nos últimos quatros anos, acertei na quina duas vezes, mas não consegui publicar três originais (dois romances e uma coletânea de contos). E, do jeito que as coisas vão, qualquer dia acerto na mega-sena! Já disse a alguns editores brasileiros que tenho recursos para montar uma ou mais editoras, porém cairia no fenômeno que você bem cita no seu artigo, e, além do mais, preparei-me para ser escritor e não para editar”.
Ou seja: é mais fácil acertar na loteria que se tornar escritor, social e literariamente, reconhecido. Trigueiro, pelo menos, acerta na loteria de vez em quando. Os outros, nem isto. Brincadeira a parte, sua revelação é intrigante e instigante.
Isto bate com o que Alexandre auto-ironicamente vai dizendo na sua mensagem, ao considerar que já cansou de mandar originais para editoras, por isto pensa que “talvez devesse desistir de escrever e tentar abrir uma pré-agência literária. Seria um local onde avaliaria originais enviando os melhores para as agências literárias. Mas não daria certo. Primeiro porque seria difícil achar uma que levasse a sério minhas avaliações. Segundo porque, se achasse, provavelmente em pouco tempo estaria entupido de originais e teria que começar também a recusá-los, aceitando talvez somente aqueles enviados por uma pré-pré-agência literária cadastrada”. E, dito isto, o leitor-escritor vai explicando que não teria dinheiro para abrir qualquer negócio, pois o que possui não é suficiente “no momento nem para recarregar o cartucho de tinta e conseguir terminar de imprimir as 74 páginas de “A estrada dos andarilhos”. A tinta, vermelha, que é o que ainda tem, acabou na página trinta e quatro”.
Marco Lucchesi, essa alma cosmopolita, comunicou-me que aquela crônica ia “salvar a muitos de se atirar da janela, ou ponte, porque a situação é realmente dramática e quase desesperadora!!!”. Mas Gil Perini, que já teve livro publicado por esses dois heróis da vida editorial Cláudio Giordano e Plínio Martins, além de traçar um pertinente quadro da situação lítero-editorial, lembra que alguém já disse que “todo mundo que lê acha que pode escrever, e um dia teremos um autor para cada leitor, e a Biblioteca acumulará todo o lixo literário do mundo. Talvez, nesse dia, as pessoas receberão ao nascer um livro em branco, que irão escrevendo durante a vida, e que ninguém nunca irá ler”.
São auto-ironias legítimas, permitidas a quem está nessa luta há muito. E o mesmo Gil lembra soluções para o impasse que surgem aqui e ali. Tanto o “micreiro” que com algum rudimento de pagemaker consegue produzir um livro, até aquele senhor em frente à Biblioteca Nacional que vende qualquer livro a dois reais. Mas se alguém quiser ler um deles, basta pagar um real, algo “bem mais barato que uma sessão de cinema”. Ao final, ele se refere a um drama que muitos nem sabem que existe: o livro que morre na segunda edição, o livro que “chorou ao nascer, mas morreu no berçário”. Já Fábio Rocha, na área da poesia diz que resolveu (relativamente) seu exílio de poeta através da internet e com o e-book.
Clivânia Teixeira parte também para a ação, dando exemplo de intervenções “proativas”. Refere-se às rodas de leitura, contação de estórias e formação de hábito de leitura e de pequenas bibliotecas, e cita uma escola que pede de cada aluno dois livros por ano para ficarem na biblioteca: “Não precisam ser novos, basta que estejam conservados para que outras crianças possam lê-los”. Por sua vez, Luiz Faggini diz que se as grandes empresas mantivessem bibliotecas para seus funcionários, já seria uma grande coisa. A idéia tem lá seu peso de verdade, porque está demonstrado que as empresas que desenvolvem programas de leitura com os funcionários melhoram o rendimento e diminuem os acidentes de trabalho.
Já Sheila Soares, bibliotecária e socióloga, lembra que existe um certo desperdício nas ações de compra de livros por parte do governo: “Recebo doações da comunidade de Copacabana, ao fazer uma triagem, num universo aproximado de cinco mil livros, verifiquei que, de cada dez livros desempacotados, seis eram didáticos e pasme- in-to-ca-dos! Imagine isto no país todo. É fácil concluir que o que acontece com esses fabulosos recursos destinados, talvez 60%, à compra e distribuição de didáticos”.
Antônio Olinto, da Academia Brasileira de Letras e responsável pelo setor de bibliotecas da Prefeitura do Rio, conta de suas várias iniciativas criando bibliotecas em comunidades carentes, enquanto, agoniado, lembra que na Zona Norte há imensos bairros do tamanho de cidades sem livrarias e bibliotecas. Mário Pontes, autor, tradutor e editor relata sofridas e esperançosas experiências do Ceará ao Chuí. E, assim, poderia ir citando inúmeros outros e-mails que vão dramatizando a cena cultural brasileira. Experiências e idéias vão pipocando aqui e acolá, tentando minorar as frustrações. O fato é que só conseguiremos modificar esse quadro quando nos convencermos de algumas coisas. Primeiro, carecemos de um projeto sistêmico que a médio e longo prazo desenvolva ações em três direções: o livro, a leitura e a biblioteca. Governo só comprar livros de editoras, não resolve. Editar todo mundo que quer ser editado, não resolve. Desenvolver programas de leitura sem uma rede de bibliotecas e livro, não resolve. As três coisas marcham juntas. E é preciso evitar essa coisa desastrosa que é a descontinuidade administrativa nos órgãos que cuidam disto.
A questão está no ar. Precisa ser discutida. Na imprensa de antigamente dizia-se que certos temas mereciam uma “suíte”. Até quando será mais fácil ganhar na loteria que virar um escritor brasileiro?
Textos relacionados
October 4th, 2002 §
De tanto lutar para sobreviver me esqueci do que norteava a minha vida. Nem digo que estou frustado ou arrependido das coisas que fiz ou deixei de fazer. Acho que todo mundo tem um pouco disso, mas não tenho em mim mais os sonhos. De nada. De ninguém.
Só acho que os sonhos não fazem mais parte da minha vida.
Me mediocrizei, me embundei, me idiotizei.
Tudo porque não consigo mais sonhar.
Todos os devaneios se resumem em buceta ou mega-sena.
Que porra de sonho é esse? Eu tinha em mim uma usina do caos, agora tenho apenas um deserto na alma.
Textos relacionados