I Want You (She’s So Heavy)

September 15th, 2009 § 0

pós The Beatles

A música ainda ressoava nos tímpanos quando ele resoveu ligar para a moça. Os The Beatles sempre foram o seu oráculo pessoal quando se tratava de flertar ou não com a colega da faculdade, mandar ou não flores para amiga por quem sentia um tesão especial ou ligar para a ex-foda-fixa que tinha descartado no mês passado.

Bastava ouvir os acordes de “I want you (She’s So Heavy)” que entumecia-se todo ao se lembrar de Marcela. Entumecia-se mesmo. Não tinha nada de paixão ou amor ou de carinho ali. Era um tesão animal, descontrolado. Mas só quando ouvia os mesmos acordes finais da guitarra, baixos, cadentes, marciais e o John falando “she’s so heavy. heavy.”

Ele se lembrava no mesmo momento de calcinhas no chão, de cheiro de perfume caro, de camisinhas apressadas e encaixar coxas à sua cintura. Sentia a umidade permissiva na hora que ouvia as linhas de baixo do Paul e a canção tinha a duração correta para o coito inteiro. Do “oi, tudo bem” ao “deu deu, acabei”. Sete minutos e quarenta e sete segundos. O suficiente para o rapaz ver a menina virar os olhos cheios de desprezo e dizer “nunca mais, viu? nunca mais”.

Aí passava-se mais uma semana, um mês, quarenta e cinco dias, no máximo. Ele colocava Abbey Road no tocador de emipetrês e pronto. Mais uma vez, mais uma vez.

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Fugaz, mundano e perene

September 4th, 2009 § 0

Apesar de ser uma pessoa de epifanias, me encanto sobremaneira pelos momentos fugazes, mundanos, repetitivos. Adoro observar as pessoas ao caminhar nas ruas. Amo ver a espuma do café girar na mesma direção que o movimento feito pela colher e observar os grãos de café sobreviverem segundos poucos antes de mergulhar no creme marrom. Poderia passar horas só olhando esse café se não fossem os horários que me são impostos e a língua inquieta que me faz falar mais que a palavra.

E é no detalhe que eu percebo que a minha felicidade verdadeira não está em realizações olímpicas, mas em pequenenezas diárias. Está no esparramar-me na minha cama sem fim, em esticar mais dez minutos e mais dez e mai dez e mais dez até o atraso costumeiro para o trabalho. No observar o vai-e-vem de pernas nas calçadas e – prazer que tenho me negado desde que mudei para a selva de concreto e asfalto sem fim – deitar na grama sob o sol frio de inverno e olhar as nuvens displicentes desafiar a minha capacidade de ficar acordado.

Existem outros prazeres óbvios que me encantam. Todos mundaninhos, normaizinhos e que vão-se em poucos minutos.

Por um outro lado, os grandes assombros me assustam. Não que tenham me gerado desconforto imediato, pelo contrário, mas a simples ciência que eles jamais se repetirirão me perturbam avassaladoramente. O fato que serão únicos, impossíveis de serem replicados por mais que tentemos me desespera. A mega-sena emocional me aterroriza. Sem dúvida por conta do potencial de vício que eles potencializam. As marés de dopamina que poderiam – podem, poderão – destruir a minha fé na mediocridade derrubam tudo que planejo para mim daqui a dez, vinte, cem anos.

E é isso mesmo. A Grande Paixão Humana é o epitáfio para o velho rabugento, tabagista, bibliófilo, pernóstico, prolixo e promíscuo que encomendei para mim mesmo. Já as pequenas paixões, os amores miúdos, os quereres ligeiros, me cativam e aninham. A Grande Paixão merece ser emoldurada e colocada em local de destaque na galeria da vida e deixada de história para milhões que seguirão o meu exemplo. A Grande Paixão é digna de um martírio, de um legado de legiões, de epopéias e fortunas.

Mas me cansa essa grandeza impossível. Sou apenas um humano, mais um humano, outro humano e eu não espero deixar outra herança – já disse, sou repetitivo, repito – além da minha memória e meu nome.

Que paulatinamente, arraso.

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Miss Once

August 29th, 2009 § 3

Você me falou de Once um tempo atrás e enrolei até hoje. Eu entrei num ônibus que saiu com os costumeiros dez minutos de atraso e já era sábado, meu hoje é um caminho entre duas cidades, você sabe bem disso, já viveu isso um pouco entre idas e vindas, e eu ainda carrego um sabor amargo de umas conversas amigas que revelam partes de mim que não gosto de olhar e de saber que existem.

Você me contou que assistiu Once tempos atrás, uma cidade e meia atrás, e eu enrolei até hoje para assistir. Cada coisa tem o seu momento, seu talento, seu sentimento.

Eu sou uma pessoa de promessas adiadas. Já disse isso antes e não canso de repetir a quem não quer ouvir: sou uma pessoa de promessas adiadas. Tenho medo do fim, de subir a escada até o último degrau e olhar o mundo do alto da escada, do último degrau da escada. A escada que eu recuso a subir.

Você me falou de Once, me falou da Billy Holiday, me falou de amores irrealizáveis e eu procrastinei tudo isso. Arranco os pelos da minha barba como punição, sabe? Quando alguém me chama na sala, acho que é para ser punido por algo que deixei de fazer. Tenho medo de broncas, de pessoas bravas, de quem parece ser mais forte do que eu e, acima de tudo, da vida. Tenho medo da vida.

Nunca gostei de ir ou voltar. E, definitivamente, odeio fins.

Você me falou de Once, o filme, uma vida atrás. Hoje, assisti, contive os soluços no ônibus e pedi ajuda uma derradeira vez.

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adeus à tribuna… adeus…

December 2nd, 2008 § 4

Através do blogue do Alex Castro fiquei sabendo que a Triibuna da Imprensa para de circular hoje.

Só posso lamentar a perda do espaço e a restrição cada vez maior para os profissionais da imprensa na cidade que outrora foi um farol de cultura e civilidade nos trópicos.

E não estou falando de Buenos Aires.

Segue, após o link, a última coluna de Hélio Fernandes, na sua íntegra. » Read the rest of this entry «

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Pequenas mãos

May 27th, 2008 § 4

publicado na Tribuna da Imprensa

Diz-se das pessoas com mãos pequenas que são habilidosas, dado que portam dedos pequenos, sutis e delicados, propícios para trabalhos idem. Que com leveza e presteza conseguem fazer o que portadores de desajeitados formões cárpicos não logram êxito. Que são sutis e meigas. Que são feitas para se segurar coisas macias e suaves. Ou para amolecer o que é carregado pelas eras e endurecido pelas pressões históricas. Que são sinal de destreza e são boas para a prestidigitação. Que conseguem tocar a alma e os corações por conta disso tudo e muito mais.

As pessoas de mãos mínimas são quase um esboço de gente feita. Enganam o mais cético dos homens-cinza. São crianças com idade de anciãos. Criaturazinhas que saltam dos cantos iluminados de sol dessas tardes de domingos outonais e que vêm recheadas de sorrisos e doces e babas e cócegas e tudo que te faz perder horas de trabalho a fio. Te fazem deixar o almoço esfriando e você esquecer a televisão falando sozinha, isolada. Do jeito que as tardes outonais de domingo deveriam ser.

Sempre.

Diz-se das pessoas com mãos miúdas que são capazes de encantamentos ínfimos, mas poderosos. Elas tiram as coisas dos lugares e as colocam onde deveriam sempre estar. A carta que não deveria ser lida, no lixo. O convite para a festa que seria esquecida, na carteira de dinheiro. O marcador de texto do livro de economia, trocado de volume, marcando a poesia favorita. A poesia que jamais seria relida. Não hoje. Não com essas lágrimas que pontuam a saudade e a vontade de estar do lado de quem você ama de verdade.
Diz-se das pessoas que têm as mãos ínfimas, que têm pés igualmente singelos. Que andam em silêncio e entram nos lugares onde você nunca esperou que alguém voltasse a habitar. Que acendem luzes nas horas que você pedia uma penumbra, que te impedem de chorar de desespero por achar que ninguém mais te escuta nesse mundo de estática e estrondos. Que te faz trocar de faixa do disco que você ouvia porque a música que estava a tocar era a que te lembrava de alguém que não entendeu que o seu amor era (é) incondicional e que te fez pensar se valia a pena se apaixonar novamente e de novo e mais uma vez, num ciclo de paixões e desejos que nunca se satisfaziam, apenas te arrastavam para a próxima e a seguinte. Que te faz olhar para o dia seguinte e pensar que é mais um sol que nasce e não um poente que se anunciará. Que te faz desejar o cansaço do fim do dia, sinal da vontade imorredoura de tornar-se maior que a vida. Tornar-se aquilo que pretendia ser quando eras uma pessoa (quase-pessoa) de mãos pequenas, miúdas, ínfimas, singelas, diminutas.

Queria dizer isso tudo das pessoas que têm as mãos grandes, agigantadas pelos afazeres e labuta diários. Queria dizer isso tudo de mim. Mas só posso falar que tenho um coração diminuto, singelo, ínfimo, miúdo e pequenino. Que só cabe nas mãos de quem tem as mãozinhas pequenininhazinhas. Do tamanho de uma menina de metro e meio de altura.

Diz-se isso tudo das pessoas que têm as mãos pequenas. E muito mais.

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Que 2008 tenha exatos 366 dias

December 25th, 2007 § 8

Pois é de seu direito, como ano bissexto, de tê-los – cada um com um nascer e pôr do sol – e que cada em cada dia seja respeitado o direito cósmico de se ter vinte e quatro horas e que cada hora tenha apenas sessenta minutos.

Já faz tempo que insistimos em ter mais horas que o dia nos dá, mais dias que as semanas comportam, mais semanas que os meses e mais meses que o ano. E cada hora dessas que insistimos em multiplicar diariamente tem de ser cada vez maior e mais extensa, transbordando os sessenta minutos que tradicionalmente lhe cabem. Sem falar nos “minutinhos” que insistem em se transformar em centenas de segundos a fio.

Então esse é o meu desejo para 2008: que saibamos respeitar os limites do tempo e saibamos viver cada minuto, cada segundo da melhor forma possível e não inventemos mais atividades para cada hora que nos tire o sossego e o bater compassado do coração.

Porque cada minuto que se vai, não volta.

Bom 2008 para todos nós com todos os trinta e um milhões e seiscentos e vinte e dois mil e quatrocentos segundos que nos cabem nessa revolução solar.

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Manhã

December 3rd, 2007 § 3

publicado na Tribuna da Imprensa

Nasce o sol.

Sento-me, com esforço, à beira da cama desarrumada, desfeita e ainda úmida da atividade noturna intensa. Das oito horas de sono que a constituição me garante, parece que usufruí menos de cinco minutos. Confiro o relógio. Há doze jazia no leito. A cama, rente ao solo, não permite que as pernas pousem confortavelmente no chão. Volto a deitar-me só. Eu e meus outros eus.

Dobro-me por sobre o meu ventre. Ajoelho no colchão como se pagasse as promessas das vidas alheias. Como se me submetesse a um rei invisível, uma entidade superior e impossível de ser ignorada. Ajoelho-me, tremo, suo como se tivesse corrido a mãe de todas as maratonas. Curvo-me mais, como se fosse possível atravessar as barreiras de carne, pano, madeira, tijolo e cimento que se projetam à minha frente. Que barreiras?

Não há nada sobre meus ombros mas sinto o peso do mundo a vergar-me. A pressão de centenas de vidas, uma dor ancestral, um sofrimento atávico, faz com que eu me humilhe e peça, entre lágrimas que descem sem censura, que tudo acabe logo. Que se encerre esse sofrimento, essa laceração da alma. Que haja um fim, por fim.

Mal entendo meus próprios pensamentos. Tudo que me vem é o meu eu que, de multipartido, se reúne para socorrer minha sanidade. É como se todo o meu corpo falasse ao mesmo tempo. Todas as partes de mim que, diariamente são mudas, agora berram, suplicam a atenção do mundo. Meu corpo fala e a mensagem que carrega não é bonita

O coração ressoa tão alto que se confunde com o meu resfolegar. Sinto-o no pescoço, nos pulsos, na dobra de minhas pernas que começam a se enrijecer e a ficar dormentes. Sinto-o no ventre: no estômago que pinga o ácido venenoso que faria Loki arrepender-se dos pecados contra os Aesires; no fígado que se recusa a regenerar-se e me lembra dos excessos da vida libertina que eu tentei – inutilmente – impingir a mim mesmo por essas décadas a fio; no baço que simplesmente dói a troco de nada; nos rins que me lembram de suas pedras e das refeições hiper-temperadas que comi por todos esses anos; na bexiga que se contrai e faz arder a urina que excreto; nos intestinos que se revoltam e disparam gases e me lembram do que tenho de mais puro e límpido dentro de mim. Sinto-o na gordura do meu corpo, na pele, nos músculos retesados, na fronte do meu rosto, no tremor das minhas mãos. Ele bate como se quisesse pedir demissão do cargo. A caixa peitoral não o contem mais e explode a cada minuto, explodindo em sangue, ossos e pulmões. Confiro, desesperado, se o diabo continua lá. Infelizmente, sim.

Súbito, a agonia se vai e consigo arrastar-me até a sala. Espero hora e meia e durmo no sofá que me recebe como mãe carinhosa, acolhendo e confortando. Ao acordar, o sol já se pôra novamente e o telefone me convida para a vida que multiplica a minha. Estou inteiro, operacional, e já penso nas máscaras que terei de usar àquela noite. Nos sorrisos que desfilarão na minha boca, nas expressões que aprendi a modelar na minha cara para atrair os meus dessemelhantes. Haverá álcool, sexo e música e eu serei mais um ator dessa vida de entretenimento. Antes de voltar para casa, serei centenas de pessoas, compartilharei momentos das minhas vidas e das de outros. Contudo, só reconhecerei no espelho aquele que suava, esperando o último suspiro ressacado.

A dor é a única coisa que traz o homem para a sua unidade.

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Dois beijos

October 19th, 2007 § 6

publicado na Tribuna da Imprensa

E foi isso: dois beijos e tchau. Aí ele olhou para ela e pediu o telefone. Ela deu. Ele chegou a pretexto de se despedir novamente sob alguma desculpa esfarrapada deu mais dois beijos. Ali no ladinho, derrapando na curva. Ela retribuiu os beijos com um olhar maroto. Ele saiu achando que tinha de ficar. Tomou caminho de casa com a sensação que algo ficara natimorto.

Abriu o livro que o fazia chorar de saudades de casa e das histórias e terminou-o. Reparou que o cheiro dela ficara na camisa. O cheiro de rosas? Cheiro doce e azedo. Cheiro que ficaria bem se misturado ao suor dele e ao atrito do látex e lubrificantes íntimos. Cheiro que combinaria com lençóis limpos em lavanderias industriais e odorizadores de quartos de hotéis de três estrelas.

Chegou em casa, tirou a roupa e tomou um banho. Tonto, por conta da cerveja forte, lavou-se por mais tempo que precisava. Lembrou-se das histórias que sabia da moça e sabia que era insensato insistir naquele curso de ação. Não era sensato, absolutamente. A história já estava escrita e reescrita e ele já errara suficientemente para saber o que fazer. Demorou-se mais que o necessário no banho. A água quente relaxava as costas tensas das semanas ruins que antecederam o evento. Sonhou um pouco com uma fortuna que nunca viria pela mega-sena. Sonhou mais um bocado com sexo com metade das mulheres bonitas que viu no dia.

Enxugou-se e vestiu o moletom centenário que usava como pijama. Fazia tempo que não tinha companhia feminina regular, daí o acúmulo de roupas que mereciam o oblívio no seu guarda-roupas.

Mandou uma mensagem de texto pro celular dela. “Quero te ver. Beijo.”

Colocou um Bob Dylan para ouvir e deitou-se na cama. O cheiro não sumia. Pode ser a camisa, a calça, as meias, a cueca. Levou-as todas para a máquina de lavar roupas e colocou-as em molho. Voltou para o quarto. Não entendia o que o velho Bob cantava, mas estava confortável e agradável. Pegou um livro do Eco e folheou umas dez páginas. Dormiu.

Acordou com Mr. Tamborine Man e viu que cochilara por dez segundos, ou minutos. Sonhou muito no meio do processo. Descobriu uma animação incomum para uma quinta-feira à noite e tomou outro banho. Bebeu água. Colocou Chet Baker para tocar no lugar. My Funny Valentine. Sentiu vontade de tomar um vinho e comer um pão com queijo. O vinho veio fácil, como água. O pão deu mais trabalho. Desistiu e abriu um pacote de batatas fritas de marca americana. Começou a tocar Billy Paul e ele trocou a música. Lembrava de uma moça que ele queria. E que tinha um perfume igual.

Sabia que não iria dormir. Olhou pro celular esperando uma resposta. “Duvido. Deve estar mais bêbada que eu.”

Era verdade.

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Orações

August 29th, 2007 § 5

publicado na Tribuna da Imprensa

Diz-se que o corpo do homem é um templo. Mineiramente, nunca discordei nem concordei, muito pelo contrário. O que me irrita nesse lugar-comum inocente é a quantidade de baboseiras que se acrescenta, como se fosse glacê de segunda num bolo de festa de massa sincera, competente e bem razoável. Pior, minha senhora e meu senhor, pior! Usam isso para deixá-lo imaculado, virginal e intocável.

Ora vejam só! O que seria de um templo se a comunidade não o penetrasse para realizar os seus cultos? O que seria do Pantheon se os romanos antigos não celebrassem sua civilização em seu centro, sob a maior abóbada do mundo antigo? O que seria das cidades pequeninas se não cuidassem de suas capelas, de suas pequenas igrejas? Ouro Preto, Sabará, Diamantina são famosas pelas pequenas igrejas tão magnificamente decoradas, pintadas e adornadas.

Daí, cometo mais um desses textos bobos sobre o corpo e as igrejas: afirmo que creio piamente no corpo como templo e creio que toda forma de cultuá-lo é válida, divina e vou além! Creio piamente na Igreja Hedonista, nessa que diz que toda forma de prazer é válida e deve ser o objetivo fim da humanidade. E mais! Ouso afirmar que a maior oração é ser consciente, crítico e racional!

Aparentemente pode ter uma contradição de termos aí, mas explico: apenas mantendo-se são e racional, podemos nos deixar guiar pelos nossos instintos numa relação que não difere muito da de um cego e o seu cão. Então essa oração, essa racionalidade santa, esta consciência transcendental carnal pode se tornar a mais bela de todos os tempos.

Falo isso para provocar, obviamente. Não me interesso pelas igrejas e fés – exceto pelos elementos metafóricos e arquetípicos que brotam de ambas – mas seria interessante ver pastores da carne, freis do ócio, abades do deleite a pregarem as delícias que é estar vivo, consciente e são.

Continuando o exercício, precisaríamos de novas disciplinas para cultuar esse novo deus-homem, que prometeria o alívio após as infinitas jornadas de trabalho, que nos ofertaria o descanso merecido nos fins de semana, ou as férias justas e remuneradas a cada ano – como eu preciso de um deus assim! – ou dos salários justos a cada mês, dos juros justos e dos amores que fizermos por merecer. Quão interessante seria essa igreja da carne.

Diz-se que o corpo de um homem é um templo a ser louvado. Já o meu corpo, tenho certeza, não é um templo, tampouco um local, mas um rosário de carne que é desfiado a cada minuto. As contas desse rosário são as histórias que carrego, as lembranças que me assombram e os rostos que entreguei ao oblívio. O peso deles é a minha cruz diária que tento amenizar com os pequenos contos que escrevo, com os sonhos que macero nas manhãs remelentas ou nas madrugadas insones. Gosto de imaginar que cada conta desse rosário de carne – ou melhor: de sua terça parte – é feita de partes de mim. Esse terço é feito de veias, artérias, sangue e coração que hoje estão frios e gelados.

Meu corpo é um rosário. E eu não rezo suas contas.

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Reencontro

July 31st, 2007 § 4

publicado na Tribuna da Imprensa

Não entendeu quando o telefone foi desligado, lá do outro lado da linha. Ficou um gosto ruim na boca, de algo incompleto. Uma goiabada vencida, sem o catupiry. Não teve opção senão aceitar os fatos e fechar a história. Olhou brevemente para as fotos do criado mudo, repousou o aparelho na baia de recarga e escolheu uma foto aleatória. Não era ela na cena do retrato, mas lembrou-se de quando passearam no parque, juntos, pela primeira vez. Havia um encanto, um élan que não era comum. Eram raros um para o outro e sabiam disso desde o primeiro momento.

Não era o primeiro fora que tomara nem seria o último. Nem por isso o sabor da rejeição estava mais doce. Era fel que lhe vinha à boca quando chegou em casa cansado da viração sem sentido nos bares e boates de Botafogo. Entrara na roda-viva de quem sofria as dores etéreas dos desamores da vida.

Novamente.

O álcool que vomitava em ondas contínuas era o que havia anestesiado o seu choro. E agora, ao vê-lo misturado com a bile negra, ambos expulsos com muito esforço, lembrou-se tristemente que essa seria a última vez que suaria por aquela mulher. Havia dado de si, o esforço do prazer mútuo, tal e qual um guerreiro que enfrentava as legiões por seus generais até o gozo derradeiro da sua amada. Tinha para si o mote que o prazer da parceira era o goal final, o sentido de sua dedicação. No entanto, suava para expurgar a dor e a frustração de um amor defenestrado. Só lamentava que tanto esforço não gerasse um sorriso no fim. Pois não há como sorrir quando o seu corpo expurga tanta dor. Afinal, aquilo não era um parto: era um aborto de um amor.

Passaram-se as semanas e a vida ditou novamente sua monocórdia melodia. As pessoas não tinham mais cores para ele. Eram chatas, medíocres e sem brilho. Mal sabia que ele estava apenas refletindo-se nos outros. Daí veio a chance. A menina estava disponível e queria revê-lo. Contrariando toda a racionalidade e as leis do amor próprio, foi encontrá-la. Nunca poderia dar certo.

Obviamente, não deu.

Chegou uma hora antes do combinado, escolheu a mesa ideal e escondeu a caixa de bombons. Conversou rapidamente com o garçom e já tinha em mente o que iria pedir para comer e beber. Não iria fazer feio. Checou insistentemente no celular chamadas perdidas e mensagens de texto. Faltando quinze minutos para a hora exata, ligou.

“Estou chegando.” Ela disse.

Sonhara meses com aquela voz em diversos tons. Principalmente dizendo uma frase em especial que ele repetira várias vezes, sempre com adendos desnecessários para disfarçar o fato que estava entregue completamente ao sentimento. Era de sua natureza apaixonar-se pela paixão. Não tinha jeito mesmo. Dez minutos de atraso e ela chega. Linda. De vestido vermelho e sandália baixa, de acordo com o figurino em voga na capital do império. Num segundo, ela destrói tudo.

“É estranho isso. Não te cumprimentar com um beijo na boca.” Ela sorri como se tivesse contado uma piada. Ele sorri como se o seu mundo interior tivesse desabado.

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Where Am I?

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