A casa da minha infância – Luis Nassif

February 23rd, 2009 § 0

Acabei de ler o último livro de contas do Luis Nassif, A casa da minha infância (Ed. Agir, 264 pág.), e a impressão que eu tive foi parecida com a de muitos outros livros de contos e crônicas que eu tenho lido nos últimos anos.

Não sei se, dado o evento dos blogues, os textos produzidos e lançados na ionosfera – me recuso a chamar esse agrupamento de textos eletrônicos de blogosfera – tendem paulatinamente a serem rasos, fracos, curtos na personalidade e na memória. Não me excluo disso, absolutamente, mas conto nos dedos de um maneta os blogues que me deixam boas impressões ditas literárias.

Até porque literatura não é blogue nem vice-versa. Ou não.

Reconheço a importância da mídia em si. O do it yourself literário é uma revolução que meus netos conseguirão avaliar, assim como o jazz para os da minha geração. No caso do proto-jornalismo, ou o jornalismo autônomo, eu nem entro em discussão. Até porque os blogueiros ditos jornalistas mantém a tradição do texto pobre, raso e insípido que é norma vigente desde que as fotos dos famosos passaram a valer mais que as “letrinhas” que as acompanhavam.

Mas tergiverso do tema. Li o livro do jornalista e blogueiro Luis Nassif mas acho que ele padece – ao mesmo tempo – do mesmo problema que os colegas de publicação digital e do de coletânea de crônicas/contos. No primeiro caso, ele apresenta seguidamente boas idéias que se perdem com a urgência do texto. Dá sinal que o send ou o publish falaram mais alto que o carinho com as palavras, com as sentenças. Há até erros crassos, como um parágrafo inteiro sem um verbo na crônica que trata do Sivuca. E não se tratava de recurso lingüístico, mas de urgência em contar uma história de que – acima de tudo – merecia um pouco mais de esmero. No segundo caso, apresenta-se a papa-fina logo no início, para cativar o leitor de pé de livraria e fazê-lo correr para o caixa. Não é coisa incomum, apresentar os textos que bambeiam as pernas nas vinte primeiras páginas e “A casa da minha infância” não faz diferente.

A casa da minha infância – Luis Nassif

A casa da minha infância – Luis Nassif

Óbvio que isso é preciosismo da minha parte e é óbvio que o livro não é despido de emoção ou profundidade. Por exemplo, quando li da morte do seu Oscar ou da transcrição da entrevista de Natalício Moreira Lima bate aquela vontade de ler mais e de carregar consigo os personagens da história. De fazer parte daquela família, de querer ter sido testemunha das desventuras do índio. Mas é onde a emoção e jeito gostoso de contar história falam mais alto, é que se esconde a decepção do ponto final.

E isso é mais porque o todo não acompanha os pedaços que falta de talento ou técnica. Uma pena.

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September 10th, 2005 § 0

Embalou a câmera com carinho e cuidado. Colocou-a na bolsa conferindo as pilhas. Quatro recarregáveis do lado de fora, quatro embarcadas e um pacote de alcalinas para qualquer emergência. Conferiu a impressora portátil que custara quase o preço da câmera. Conferiu cabos, adaptadores de tomada, cartuchos de tinta especial e papel fotográfico cortado em tamanho certinho para os namorados da orla de Copacabana.

Na primeira parada: Cervantes, balcão da Barata Ribeiro. Quinze minutos, três chopes de pé. Precisava de coragem para virar a noite com equipamento tão caro, a pé, de bar em bar. Olhou para a clientela em busca de alguém que quisesse uma foto.

“Mas não é assim que as coisas deveriam ser? As pessoas se reúnem em torno de um interesse em comum, se juntam para fazer uma coisa em prol de um ideal maior.” “Como comer a maior quantidade de gente possível, né?” “Não porra! Como criar espaço para a sua produção, para a sua necessidade de se expressar!” “Expressão de cú é rola!” “Porra! Vocês só pensam em cú e buceta!” “Eu não! Eu gosto de boquete também!” “Caralho! Não agüento mais isso, cacete… to falando uma coisa séria. Todo mundo aqui reclama que não consegue espaço para criar, para escrever, que não dão valor às coisas boas, que o povo só consome merda, novela das 5, das 6, das 7, das 8. Só escuta lixo, lixo de axé, lixo de pop, lixo de MPB, lixo de samba, lixo de rock…” “Mas rock é só lixo mesmo!” “… lixo de tudo! Porra, e quando alguém vem pelo menos tentar levantar a média, vocês mesmo vêm tacar pedra, julgando fulano e beltrano como se esperassem os novos Camus, Joyce, Guimarães Rosa em cada grupinho literário! PORRA! Meia dúzia se juntam para tentar fazer algo e vocês que deveriam ser os primeiros a dar força, dão as costas!” “Mas sarau é um saco mesmo!” “Deve ser, cara, deve ser. Mas pelo menos os putos lá, pedantes, cacetes, com cara de conteúdo – que vocês me disseram, né – estão tentando fazer alguma coisa. Enquanto isso, eu, você e você estamos aqui bebendo no Cervantes e olhando bunda de puta de 50 reais.” “Cinqüenta não! O programa aqui é mais caro, fofo!”

Desistiu de tirar a câmera da bolsa e saiu dali um pouco mais bolado que antes. Havia desistido de tudo em prol de uma promessa babaca. Jurara para si mesmo que não deixaria qualquer legado, quaisquer heranças. Que seria mais uma sombra, passaria à margem do mundo, das pessoas. Juntara o suficiente para comprar um quitinete em Copa (luxo dos luxos), um bom computador e outras coisinhas.

Desceu a Princesa Isabel ignorando as putas e as boites. Não acharia trabalho ali. Chegou à praia e partiu em direção ao Leme. No primeiro restaurante encontrou três casais diferentes e fez as fotos. Entrou no restaurante. Pediu para usar a tomada e imprimir as fotos. O gerente olhou torto, mas deixou. Pediu um chope e deixou um troco na caixinha dos garçons. Entregou as fotos. “Twenty reais, mister. And I can send it to you by email, If you want.” “Thanks. That’s my card!”

Voltou para dentro, pediu um sanduba e mais um chope.

“Não consigo entender, cara. Não mesmo. Ela nunca me reclamou de porra nenhuma. Sempre tava feliz do meu lado, sempre me procurava para a cama. Fazia planos, dizia que queria ter filhos comigo e tudo.” “Mas é assim a vida, cara. Uma hora ela te quer porque você é inteligente, culto, educado. Outra ela quer um cara marombado que anda armado pra cima e pra baixo, que vai dar porrada nela assim que descobrir que ela vai dar pro outro que é músico e cantor de samba péla-saco que vai escrever uma canção quando ela o trocar por um professor de capoeira. É assim a vida. Só nos resta chorar os amores quando eles se apresentam para gente.” “Tem razão! AMEI ESSA MULHER E A LEMBRANÇA DESSE AMOR É SÓ MINHA!” “Isso aí. Agora vira essa cachaça que eu te levo em casa.” “Mas queria que ela me ligasse… só mais uma vez.” “Esquece, cara. Vai ser melhor. Haverão outras, mais belas que te amarão mais e melhor!” “Como na canção do Chico, né?” “Exatamente!”

Olhou os amigos saírem bêbados, abraçados e se lembrou dos amigos. Não ligava para algum fazia meses, ainda que lhe mandassem emais ou papeassem pelos instant messengers da vida. Uns lhe xingaram, outros lhe deviam dinheiro. Sabia que iria esperar que eles os colocassem num backlog emocional e só lembrassem dele em eventos como o aniversário de um ou quando estivessem sem grana.

Encarou mais um chope, a conta, e seguiu para o resto da noite no rumo do Meridien e de Copacabana novamente. Veio caminhando vagarosamente, ente as putas, os taxistas, os turistas, as diversas criaturas da noite que estranhavam aquele homem pequeno com uma mochila à frente, como um coala mãe carregando o filho.

Ficou cansado antes de chegar ao Othon, parou no Cabral 1500, contou o dinheiro. “Foi uma boa noite. 600 reais, trinta fotos vendidas.” Subiu a Bolívar até a Barata Ribeiro, entrou em casa. Ligou o computador, baixou as mais de seiscentas fotos tiradas naquela noite para o computador. Ligou o processador de textos e escreveu mais um conto que não seria lido.

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