A menina fugiu das gotas grossas, se esquivando de poças d’água ardilosas, dos canos que transformam marquises em cataratas e dos rios gorgorejantes das sarjetas. Passou por todos como se corresse risco de perder a vida, ou a escova progressiva. Chegou na salvadora marquise do shopping center aliviada por ter escapado incólume desses perigos urbanos. Era mais uma vítima da massacrante ditadura da estética à qual as mulheres de trinta e muitos anos se submetem para ainda atrair um macho incauto, imaturo e disponível. Lipo, silicone, remoção de estrias e a malfadada chapinha diária. Luzes, esmalte e depilação semanais.
Ele não teve tanta sorte. Viu que seria impossível evitar a água e encarou de frente. Fazia isso com a vida, afinal de contas. Nunca titubeou ante o desconhecido. Daí foi direto para o bar onde haviam marcado o encontro. Sentou-se ensopado e pediu guardanapos, chope e um cardápio.
Ela chegou no tempo certo. Ele já tinha enxugado as partes mais graves (rosto, mãos, suvaco) e confiou na bravura em enfrentar as intempéries como um charme adicional ao de jovem senhor maduro descasado com emprego fixo. Ela, se notou, ficou indiferente. Dois chopes à mesa, já tinham um acordo fechado, mas ainda não declarado. Seis chopes e duas idas ao banheiro, já estavam se atacando no canto do boteco.
Daí a moça vai retocar a maquilagi e ele consulta o celular para ver se havia algum motel na região. A moça, ao voltar, foi certeira: “A duas quadras daqui tem um. É bem barato e bem agradável.” O moço não negou a formação média do homem heterossexual masculino praticante e adicto: se a menina é reconhecível como da espécie humana, é aparentemente saudável e dá intenção de cópula, é de obrigação moral do rapaz conferir o ato.
A chuva não arrefecia. Parecia que o Atlântico estava querendo trocar de endereço naquela hora e escolhera a Tijuca como endereço para a nova moradia. As ruas, como sempre, começaram a encher de tudo que é líquido e sujo, trazendo à tona os restos das histórias dos moradores do entorno da praça Saens Peña e os dois, tesos e com cara de “e agora?” ficaram ali tentando se manter quentes e dispostos. Duas horas e oito chopes depois, eles se atiraram dentro de um carro de praça que deu mole na região e conseguiram chegar no motel.
A chuva, essa maldita chuva, não parara a noite toda e serviu como música de fundo para as patéticas cenas de lascívia e luxúria dos dois e pela manhã, meio envergonhados pelo testemunho da água incessante, os dois estranhos inventaram algumas desculpas esfarrapadas, criaram mentiras novas e prometeram coisas que nunca cumpririam. Exceto o compromisso de se perpetuarem patéticos, solitários, carentes e secos.
Ela me vê e vem correndo com um sorriso dissimulado. Está de pijama ou de roupas de casa ou com unhas pintadas de cores descombinadas ou fez chapinha e levou bronca ou está com mais um furo na orelha ou está macambúzia com as notas baixas ou chororô com o show que não irá. Mas está honestamente feliz, não duvido, e quer um abraço forte, um beijo carinhoso e um presente. Eu dou tudo o que me pede, já que sou dono e responsável por esse vazio impossível. Logo depois volta pro quarto para ver as séries descerebradas ou ficar “papeando”com as amigas pelos tuíteres da vida.
Já pensa em meninos, mas não creio que tenha beijado algum (ao mesmo tempo, acho difícil essa minha crença, mas insisto como dogma inquebrantável). Meu ciúme é só dela. Linda, puxou o que há de melhor da mãe e dos meus pais. Do meu acervo pessoal, só a indolência e a vontade de nada fazer. Quer uma festa do pijama esse ano. Dou graças porque é bem mais em conta.
Pediu um contrabaixo no natal passado. Comprei. Lembrei que precisava de uma capa para proteger o instrumento, de um cabo extra, de um amplificador, de uma faixa para segurar o bicharoco. Ela só se preocupava se ele era bonito ou não. Tonta, pensei. É preto e bonito. Ela ficou feliz. Tonto, todos pensaram.
Cheguei em casa e perguntei do teclado, que havia dado dois anos antes, ela disse que a mãe guardou no alto do guarda-roupas e que ia pedir para ela baixá-lo. Duvidei. Quebrei a cara e ela já está tirando músicas no teclado semi-pro que comprei numa loja do entorno da Galeria do Rock. Disse que ela precisa começar a ouvir a linha de baixo das músicas, para ver onde que entrava o instrumento que ela (e meu eu adolescente!) quer tocar. Ela disse que já fazia isso, há tempos, pai. Sempre ouço a linha de baixo. Por isso quero aprender a tocar. Eu consenti com a cabeça. Ela tem algo meu, afinal de contas.
Levei o lapetope velho, que eu usava até antes do Natal, para ela. Zeradin zeradin de tudo, o bicho deve ter ainda mais uns dois, três anos de vida, se ela souber cuidar. Duvido. O iMac já está com teclado e mouse mortinhos da silva e o monitor mal se vê que está ligado. Não é à toa que ela se atracou com o lepetope e ele virou amigo inseparável. Levo nesse fim de semana um teclado e mouse novos. Se o iMac morrer, o MacBook herda.
Estou devendo uma ida ao cinema com ela.
E um all star.
E uma ida à Paris, França.
E ser um pai melhor.
Recebi, ano passado, um cartão de dia dos pais. “Papai Zander”. Morri naquele momento. Não sou o único pai, né? Tem o padrasto que bem que podia ser um babaca, mas é um cara ótimo, carinhoso, atencioso, inteligente. Talvez melhor pai que eu jamais conseguisse ser. Quiçá, melhor ser humano até. Fazer o quê?
Só consigo ser o melhor zander possível. Nem mais. Nem menos.
Minha relação com ela é sublinhada pelos presentes, pelos gastos, pelos não-ditos, não-feitos. E pela certeza que serei um coadjuvante na sua história, um personagem menor.
Ela já é uma pessoa inteira e tudo que eu posso fazer de hoje para todo o sempre é imaginar como teria sido. Ela já não é mais a minha menina, o meu bebê, a minha criança das histórias. É do mundo. Daí o meu ciumes, o meu pranto. Daí eu ser incapaz de negar alguma coisa – qualquer coisa – que esteja ao meu alcance. É o gesto desesperado de comprar o afeto da – talvez – única coisa que eu tenho certeza que fiz de certo na vida.
Eu gosto de pensar que a vida é cíclica, que as coisas funcionam de acordo com alguma ordem pitagórica, arcana, e eu costumo ver (ou imaginar) uma repetição em alguns padrões.
Com as fodas, eu gosto de imaginar os ciclos em três noites, três eventos, três coitos.
A primeira foda é a da descoberta. Não tem aviso: nunca se sabe se a moça está de fato a fim de praticar o arcaico esporte bretão ou não. Se é daquelas que sabe bem que sexo é divertido, atlético, lúdico ou se é uma das que gosta de romance, de olhinhos virados pro alto quando o moço diz que escreve poesia e que pinta aquarelas.
Normalmente, essa foda é urgente, desesperada. É pura explosão, desastre, acidente, gozo desvairado, afobado, dedos intrometidos, nãos ditos com vontade de sins, bocas arritimadas e uma sucessiva quebra dos protocolos de decoro público.
Normalmente é maravilhosa ou ridícula. Dificilmente fica no meio-termo.
A segunda trepada (se houver) é aquela combinadinha. “Eu te ligo e depois esticamos” ou “passa aqui em casa, estou meio com preguiça de ir para a rua” ou ainda “eu fiz um prato sensacional hoje, pensei em você para jantar comigo”. Todos ali já sabem o que irá acontecer e a coisa flui num outro ritmo.
A segunda é uma coisa de língua exploradora, mão precisa, toques estratégicos, paciência até chegar ao quarto, dedos melhor colocados, músicas no fundo do ambiente, convesas durante todo o tempo que se consegue articular algo.
Obviamente eles ficam pelados na maior parte do tempo e são discretos até os berros e gemidos exagerados, ao gosto de cada um.
Na terceira é que se decide se haverá a segunda novamente ou não. É a “prova final” do relacionamento que se rascunha. Mas, na norma, é expectativa da próxima vez de um lado, e olhar triste de “finitum est” do outro.
Eu não gosto de Jazz. Minto. Adoro Jazz. Não gosto é de quem arrota Jazz como se fosse atestado de nobreza urbana ou de quem diz que adora o estilo e vomita nomes, discos, movimentos e músicas como se mijasse uma linha intelectual que separa os geniais e a mediocridade mundana média regular. Obviamente, se colocando no lado de lá. É o mesmo povo que gosta de desbancar os standards, os gênios consagrados apenas pelo choque ou para se destacar da “massa ignara” ou da massa de manobra cultural.
Se confundem a esses os “apreciadores de charutos cubanos” que gostam de ostentar os caros cilindros de tabaco enrolado em locais inusitados, como botecos apertados e caixas de supermercado, ignorando que há local, hora e sentido para prazeres caros e que os maiores e mais deliciosos tendem a ser praticados no isolamento de seus lares, sem atentar ao acinte que é brandir para um transeunte – normalmente um empregado do recinto – uma fortuna virando fumaça ante os olhos tristes de quem ganha o bom e velho salário mínimo.
Não gosto de Jazzistas, de charuteiros, de enólogos, cinéfilos, teóricos de teatro, críticos de cinema, de teatro, de tevê, publicitários, marqueteiros, fãs de quadrinhos, de errepegê, de mídas sociais, de internet e nerdices, de filmes de animação, de mangazeiros, fanzineiros, não gosto, não gosto, desgosto.
Essa gente toda que deveria sair de casa num sábado e caminhar na chuva de verão, andar descalço no chão molhado, chapinhando a sola do pé no asfalto que transpira a água recém-chegada ou correr até se estabacar na grama úmida, ensopada de tanto céu na terra. E depois se levantar sorrindo, dos arranhões no joelho e vendo que a vida é feita de dor e de cheiro de ozônio e de cabelos desgrenhados e suor, muito suor, e com as Quatro Estações, de Vivaldi, como trilha sonora.
Na verdade, na verdade mesmo, eu não gosto é de gente que não anda de bicicleta com medo de cair.
A música ainda ressoava nos tímpanos quando ele resoveu ligar para a moça. Os The Beatles sempre foram o seu oráculo pessoal quando se tratava de flertar ou não com a colega da faculdade, mandar ou não flores para amiga por quem sentia um tesão especial ou ligar para a ex-foda-fixa que tinha descartado no mês passado.
Bastava ouvir os acordes de “I want you (She’s So Heavy)” que entumecia-se todo ao se lembrar de Marcela. Entumecia-se mesmo. Não tinha nada de paixão ou amor ou de carinho ali. Era um tesão animal, descontrolado. Mas só quando ouvia os mesmos acordes finais da guitarra, baixos, cadentes, marciais e o John falando “she’s so heavy. heavy.”
Ele se lembrava no mesmo momento de calcinhas no chão, de cheiro de perfume caro, de camisinhas apressadas e encaixar coxas à sua cintura. Sentia a umidade permissiva na hora que ouvia as linhas de baixo do Paul e a canção tinha a duração correta para o coito inteiro. Do “oi, tudo bem” ao “deu deu, acabei”. Sete minutos e quarenta e sete segundos. O suficiente para o rapaz ver a menina virar os olhos cheios de desprezo e dizer “nunca mais, viu? nunca mais”.
Aí passava-se mais uma semana, um mês, quarenta e cinco dias, no máximo. Ele colocava Abbey Road no tocador de emipetrês e pronto. Mais uma vez, mais uma vez.
Não havia um dia que ele não se lembrasse dela e que não relembrasse as caminhadas no calçadão de Copacabana, os beijos ardentes nos bancos da praça do parque Garota de Ipanema e os baseados na Pedra do Arpoador. A história dele estava tão encruada naquelas ruas que os prédios pareciam dizer “você nasceu aqui”, “aqui você amou pela primeira vez”, “aqui você viveu pela primeira vez o prazer de uma mulher”, “aqui você amou para sempre”.
Mas tudo tem o seu fim. É a lei natural das coisas e é mais natural e lei quando se tem dezesseis anos. O Arpoador ensinou ao rapaz que o desamor dói e dói mais quando é o outro que desama. Principalmente quando é o outro.
A menina não deu explicações, não contou histórias. Apenas chegou com um “não quero” no bolso e entregou para ele na Gomes Carneiro. Ele sentou no canteiro e chorou as derrotas de adolescente desencantado. Não sabia a menina que o que se faz nessa idade, grava na alma. Como o cenário de um romance, como uma música que se escutava quando aprendemos a sorrir, como um ato sem motivo.
Sou um chato. Meus amigos, colegas de trabalho e conhecidos podem atestar isso veementemente e com exemplos eternos, infindáveis. Sou chato com as músicas que ouço, com o que calço, com os meus perfumes (desodorante com cheiro? NUNCA!), com o que resolvo comer, com o(s) meu(s) computador(es) e com os amigos. Especialmente com os amigos.
Estou na idade que não posso ser visto com qualquer pessoa em público. Imagine só eu ser visto do lado de pessoas bonitas, chiques, alegres, descoladas, tatuadas, inteligentes, cultas, famosas, poderosas, absolutas e colocadas? Que sujeira eu faria à imagem delas, não é mesmo? “O que esse velho bundão está a fazer com as meninas bonitas e com os rapazes ‘da hora’?” Mas quem disse que eu consigo? sou atraído como mariposa para a luz e confesso que todos os meus amigos são exponencial e potencialmente mais interessantes e divertidos que eu.
Fazer o quê? sou chato com meus vícios. Tenho poucos, mas de estimação. São meus e só eles me entendem nos momentos de solidão. Abro a garrafinha de coca-cola como quem sabe que virará a noite matando pessoas digitais em algum reino perdido da digesfera. Como toneladas de paçoca como quem espera encontrar o cupom dourado do Willy Wonka em cada um deles. Tudo para me entreter quando estou comigo mesmo.
Sou chato com a minha solidão. Não gosto de ninguém intervindo nela. Gosto de estar só, mas morro de medo de ficar só. Por isso falo pelos cotovelos, dialogo insistentemente com o outro, idependente da vontade do outro me escutar e refalo o que disse quantas vezes sinta necessidade para preencher o vazio que existe entre mim e a alma do outro. Falo para me acostumar com minha voz. Porque gosto da minha voz. Porque é isso que me resta nos dias que não consigo me ver como um entre muitos e principalmente quando me vejo como mais um entre muitos.
Sou um velho chato e implicante com a linguagem. Especialmente com a linguagem dos outros. A minha não, que não sou suficientemente humilde para apontar os meus próprios defeitos. Não na frente de platéia. Afinal, o destino (ou a genética, não sei ver a diferença entre eles) já foi suficientemente sacana comigo me dando essa cara de woodyallen tupiniquim e uma conta bancária eternamente negativa, além de uma incapacidade patológica de conduzir um automotivo.
Talvez por tudo isso acima eu implique sobremaneira com quem confunde probabilidade e possibilidade. Porque, apesar de ser muito improvável, eu morro de medo da possibilidade de morrer só.
Me considero um cara desapegado da vida. Não me entendam mal: não é que eu não goste de viver com conforto, de comprar livros, CDs, DVDs, comer bem (ou bem mal) e consumir produtos divertidos, mas me desapego deles na memsa medida que eles deixam de significar algo.
Se aquele gibi (ou livro, ou revista) me fez encarar o mundo de uma forma diferente, que ele seja passado para frente e -talvez- comova o próximo. Mas isso não me faz me livrar dos gibis do Sandman que guardo há mais de dez anos, ou dos álbuns de luxo do Watchmen. Não por enquanto.
Sou desapegado com a matéria sim e em muitas formas, com as pessoas também.
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Às vezes eu tenho vontade de fechar todas as portas e passar a chave na fechadura, dar as costas ao que passou e só andar na direção do sol nascente.
Talvez porque eu não consiga ficar imóvel e, contudo, ainda não tenha aprendido a dar os movimentos corretamente, ainda acho que é preferível caminhar sem destino que esperá-lo bater à porta, com o chá à mesa.
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Tenho pensado em me fechar digitalmente: matar o blogue, matar os flogs, os álbuns de fotos, os tuíteres, listas de discussão, instant messengers e afins. Pela primeira vez penso seriamente em fechar tudo mesmo e cuidar dos meus.
Mas acho que esse é um desapego que ainda não sou capaz de fazer. Não por enquanto.
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Escrevo menos e menos a cada dia aqui. Não é que tenha desistido de escrever, muito pelo contrário. Participo de um velho hábito digital de discutir em listas de (dã!) discussões. Ali tergiverso sobre política, ciência, filosofia, música, fotografia.
Falo pouco sobre o que sei e muito -muitíssimo- sobre o que sei que não sei. Escrevo tanto que daria para encher uns livros só com a quantidade de asneira petulante destilo nos emails.
Ainda bem que por ali fica, por ali morre. Contexto é tudo.
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Não me canso de olhar para os céus de São Paulo. Já escrevi sobre isso e não me repetirei.
Eu tenho uma letra horrorosa, quando escrevo com pressa. Para falar a verdade, tenho uma letra horrorosa quando não uso uma “máquina de escrever” o que, para mim, remonta à tenra idade de oito anos, quando ganhei a minha Olivetti Portátil de natal.
Não era um presente usual, eu sei, mas minha mãe não tinha achado o “avião que dava mil piruetas” para vender (o que era bem provável, já que ele só existia na minha imaginação) mas tinha se virado em seis para comprar o “robô que dava cambalhotas”, o “carro que bate-e-volta” e a indefectível bicicleta de rodinhas.
Fato é que não posso me queixar de presentes quando criança. Não mesmo. Já quando adolescente, a história era outra e fica para outra história.
Mas eu falava da minha letra horrorosa – tão feia que nem eu mesmo consigo lê-la quando tento rever minhas anotações – e da minha mania de comprar cadernos e blocos e canetas e lápis. Acho que a minha letra é a minha primeira frustração.
Todos em casa tinham uma letra desenhada. Minha tia até hoje tem uma caligrafia personalíssima e inteligível à distância. Minha mãe tem um traço firme e nervoso, mais parecido com caminhos de formiga. Ainda assim, legível até no escuro. Do meu tio mais velho só lembro dos números, das contas. Precisas, calaras. Dos tios mais novos, não lembro nada.
Fiz caligrafia por um tempo, mas desistia como bom preguiçoso do signo do porco. Dava trabalho e eu escrevia melhor e mais rápido na Olivetti. Pena que era muito pesada para levar à escola. Pena que não dava para escrever com ela nas provas e nas redações.
Um pouco mais tarde, ganhei meu primeiro computador – um TK85 – seguido logo, logo, do segundo – um Hotbit/MSX – que veio a ser o centro da minha primeira “estação de trabalho”: computador, monitor (uma TV), impressora matricial de oitenta colunas e um disk drive de 5 ¼ polegadas. Com a chegada da impressora, a caligrafia há muito abandonada foi de vez para as cucuias. Com o micro, as minhas outras frustrações ficavam mais patentes.
O bichinho “tocava” música, se eu o programasse, e eu sabia ler um pouco de notação musical. Então lá ia o pequeno Zander programar no computador as partituras que ele não conseguia – nem tentava muito – tocar no violão. “Afinal de contas, eu queria um baixo!” – era a minha desculpa – “E nem para ganhar presente direito!” – eu completava com a malcriação típica dos quinze anos. Amava música (se é que punk rock pode ser chamado de música) e não tocava patavinas. O mesmo se aplicava para as meninas: amava-as e necas de pitibiriba de descolar umazinha que fosse.
Obviamente tudo era desculpa para uma falta de empenho meu. Se eu quisesse comprar um contrabaixo, que eu economizasse nos gibis e livros, né? Ou que eu deixasse de comprar tanto vinil, ou que eu vendesse o meu super-hiper-som modular da Philips e fizesse mais umas aulas de violão para eu mostrar que me empenhava em alguma coisa de verdade, que não me viesse fácil. Reclamar da vida sempre fora mais fácil que fazer o meu desejo virar a verdade.
Acho que ouvi uma vez alguém dizer que amadurecer é colecionar frustrações.
Falo disso tudo porque, vira e mexe, me acho uma farsa. Uma farsa no trabalho, com os amigos, com a família, com os amores. Não tenho metade da inteligência que presumo ou apresento, um terço do talento que me atribuem, um décimo da capacidade que vendo, um centésimo da compreensão e da tolerância para os meus entes queridos e um milésimo da capacidade de amar que qualquer ser humano merece.
É como me sinto nas noites insones de calor do Rio de Janeiro. Como uma farsa de mim mesmo, esboço de alguém que eu nunca poderei ser plenamente apenas porque escrever as letras de forma legível dá mais trabalho que inventar o texto do meio dos meus garranchos.
Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu
Esfregando a pele de ouro marrom
Do seu corpo contra o meu
Me falou que o mal é bom e o bem cruel
Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu
Ela me conta sem certeza tudo o que viveu
Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis
E hoje dança no Frenetic Dancin’ Days
Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão
As garras da felina me marcaram o coração
Mas as besteiras de menina que ela disse não
E eu corri pra o violão num lamento
E a manhã nasceu azul
Como é bom poder tocar um instrumento