September 15th, 2008 §
Eu gostava de me imaginar velho, quando novo. Nunca tive sonhos de uma juventude imorredoura. A velhice me dava um alento de realização que sempre achei muito mais interessante que a energia difusa e desfocada da adolescência. Sou atípico, fato, mas acho que não sou único. Me precede Nelson Rodrigues e tantos outros antes dele.
O que me encantava – encanta – na visão projetada da velhice é a sensação da realização sem a penúria e o esforço do erigir. Era saber que teria uma história que me precederia antes de eu entrar numa sala. Já imaginava as pessoas cochichando: “Olhe lá! Aquele é o Zander Catta Preta! O autor de vinte livros, fala doze línguas e doutor em filosofia. E um gato, no alto dos seus cento e doze anos!”
Mas me enerva ter de gramar por tanto tempo e por tanto nada e por tantas vezes. Sinto-me um jumento mascando a grama da vida a cada dia, sem entender que deitar e rolar na relva úmida de orvalho dá mais prazer que a barriga cheia de celulose e clorofila que sou obrigado a deglutir diariamente. Se a bosta que sai desse processo tivesse serventia, ainda que esse excremento adubasse algo a mais que mais grama, eu ficaria feliz de ser parte do processo de grama-bosta-grama-bosta-grama.
Nesse caso, eu zurraria ao mundo que a grama é boa. “A grama é boa!” E comeria tufos seguidamente e ofereceria mais quantidades aos outros companheiros dizendo que “a grama é boa!” e que “bela bosta” teríamos produzido ao fim de cada dia. Ao cair da noite, me recolheria ao estábulo onde, ainda cansado de tanto gramar, dormiria um sono exausto, suado e sem sonhos.
Mas – o horror! o horror! – por vezes a própria merda que é o que é consumido e com beiços lambidos. Mas aí já não é minha culpa, apenas a desculpa de medíocre ambulante que teima em ser “diferente” da massa que zurra em uníssono comigo. Me porto como quem grasna descontroladamente no meio do quintal verde, cheíssimo da mesmíssima grama. Ali, eu finjo caçar vermes e abano asas inúteis que não me voam e estico o pescoço para grasnar: “A grama é uma merda! A grama é merda!” e bato no próprio peito como se houvesse orgulho em continuar no processo com a revolta juvenil renovada no peito. Mas até isso cansa e volto a abaixar as minhas orelhas, desemplumando-me.
Dado o percurso até aqui, não me surpreendo que, num futuro bem próximo, eu seja olhado com desdém por alguém que se porta como ganso que aponta na coluna da vida os derrotados, os mal-ajambrados, os losers, como se ele próprio se arrolasse entre os winners. Daí, na mesa do boteco semi na moda, ele falaria ao ver o velho passar na Ladeira da Memória: “Olhe aí! O Zander quase tropeçou em você. Bêbado, mal-ajambrado e frustrado, até que está bem para os seus setenta e dois anos.” “Ele tem quarenta, rapaz. Quarenta.” “Que vida de merda, né?”
Ainda assim espero desalentado o júbilo que o anonimato me reserva.
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April 5th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Inicialmente preciso dizer que odeio correntes. Não pelo aspecto social ou de replicação da interconexão dos pontos de propagação desses memes em si, mas por preguiça pura mesmo.
Quando minha mãe recebia aqueles envelopes com cartas abençoadas por Santa Edvigies, Aquerupita ou Efidálzia, ela prontamente sentava-se à máquina de escrever e copiava copiosamente os textos mal-redigidos que prometiam fortuna eterna ou danação em sete dias, caso não fossem enviadas no menor tempo possível para centenas de pessoas. Hoje, cá com os meus botões, eu daria um emprego ao marqueteiro que bolou esse viral para a ECT.
Rabugices à parte, essa corrente dos livros me cativou na hora que recebi. E o que me animou nem foi tanto a corrente em si, mas saber que quem me enviou é uma consumidora voraz de livros. Ou seja, vindo de quem veio, eu não tinha como recusar. Muito obrigado, Giseli. Vai ter troco!
Bom, vamos aos livros bons:

1. Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer, conta a história de Oskar Schell, inventor, entomologista amador, francófono, escritor de cartas, pacifista, percucionista, romântico, explorador, joalheiro, detetive, vegetariano e colecionador de borboletas e um menino de nove anos. É apenas a melhor coisa que li nos últimos anos.

2. Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios, de Marçal Aquino, traz-nos uma aventura de sexo, vingança e violência no interior da Amazônia. Não bastasse ser sensacional, apenas pela história em si, é uma coletânea de citações dignas de Bernard Shaw ou de Ambrose Bierce. Vale nem que seja para aumentar o repertório de cantadas.

3. O Berro Impresso das Manchetes, de Nelson Rodrigues. Me diziam que Deus está morto e sua palavra chegou até nós. Eu não acreditava, mas agora sou o seu maior discípulo, apóstolo e profeta. Deus – em pt_BR – chama-se Nelson Rodrigues e o cabra é simplesmente o ponto mais alto que eu consigo imaginar na narrativa em língua portuguesa. Não que ele seja perfeito, mas quem quer um Deus literário perfeito? Já temos Shakespeare e Camões ocupando esse posto letra-a-letra. Mas essa coletânea de crônicas me faz torcer por uma peleja de futebol como nunca dantes. Aliás, nunca havia gostado de futebol até ler a palavra de Deus.

4. Encyclopedia of Things That Never Were, de Michael Page e Robert R. Ingpen. Não é um livro para se ler de cabo a rabo, mas para se deitar na rede da casa, sentir a brisa do outono trazendo a noite e a chuva fina enquanto se sente o cheiro do bolo de chocolate solado saindo do forno, um leite gelado com café e manteiga derretida em cima de pães de queijo. Depois, arruma-se tudo no centro da sala com a tevê ligada em algum desenho animado o qual você não prestará atenção. E, súbito, você estará em terras distantes, entre pessoas que nunca existiram. É dos livros que mantêm a criança viva dentro de ti. É alimento para a alma.

5. Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach. Li quando criança. Reli quando adolescente. Re-reli quando adulto. Não é um exemplo de texto, de mensagem, de qualquer outra coisa mas tenho uma memória afetiva muito boa com esse livro. Li todos os outros do Richard Bach até ele embarcar numa viagem mística muito chata. Fica a lembrança boa de lágrimas molhando os olhos no balançar do ônibus para a escola.
Agora vem a parte mais desagradável. O livro ruim. Desagradável porque são tantos, mas tantos, que eu geraria uma legião de ogres ensandecidos que viriam à minha casa com archotes me martirizar. Ou não.

6. Urbanóides, de Zander Catta Preta (http://casadozander.com/urbanoides). É uma obra menor, corrida, mas feita com coração. Baixem. É de graça. Ao menos nenhuma árvore precisa morrer para vocês lerem-no.
Passo a corrente para Gabi, Eric, Júlio, Júnior e Lia (que provavelmente não a repassarão para ninguém).
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February 16th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Nunca mais olhei a pequena com os mesmos olhos. Eles não cabiam mais em mim e a imagem da criança de cabelos encaracolados tampouco cabia nela. A menina, já pré-adolescente, tinha o seu próprio mundo, cercado de nomes que eu não entendia, músicas que eu curtia, maneiras que eu estranhava. E eu, acima de tudo, um estranhamento típico de quem envelhece e não se dá conta disso.
Sentamos na cadeira do shopping center – essa praça moderna – e tomamos um sorvete vadio, um picolé de várzea, um ato cada vez menos urbano e mais confinado. Eu observava a indiferença da pequena ao mundo que a cercava e tinha certeza: havia ali um cínico se desabrochando.
Sabemos todos que o cínico não se faz, é descoberto. Algo entre os dez e os dezoito anos desperta junto com os hormônios e transforma o mais feliz e iludido dos infantes num inexorável e inamovível adulto. Afirmo categoricamente que todo adulto é um cínico.
Mas não é a modorrenta maturidade que me assombrava ali, naquele momento, mas o desabrochar do cinismo e – por que não dizer – do deboche adolescente que jorrava pela boca e pelos olhos daquela criaturazinha que mal ultrapassava os meus ombros no alto dos seus dez anos recém-completados. Eu reparei que ela não se encantava mais com as coisas. E entendi que o cinismo era exatamente isso: a morte do encantamento.
Não confundamos alhos com bugalhos agora. O encantamento pode – e deve – ser um processo bem racional e consciente. Como não se admirar do fato de tudo e todos termos a mesma origem no mesmo evento singular de quinze, dezesseis bilhões de anos atrás. Ou de termos a certeza racional que somos senhores de nós mesmos, com a responsabilidade moral, ética e concreta que isso traz às nossas vidas, sem termos de depositar essas cargas em algo divino.
Mas nada é tão belo quanto o encantamento infantil. Porque ali, as coisas tomam um sentido próprio, o do descobrir os sentido nas coisas ensimesmadas. Nelson Rodrigues escreveu que “aos três anos o sujeito começa a inventar o mundo” e nessa invenção há um deslumbre que não se renova nunca mais na vida. Ok. Talvez quando alguém escute uma determinada musica de uma banda que lhe fará comprar uma guitarra ou uma pintura que lhe convide a sentar horas e horas a fio à sua frente.
Já eu precisei mudar de cidade e encarar um pôr do sol na Lagoa Rodrigo de Freitas para me relembrar encantado com o mundo.
Eu acredito piamente que o homem quando descobre-se cínico, perde a capacidade desse deslumbre primário. Um sorvete passa a ser apenas um sorvete; uma praça, a mesma praça e nada mais que isso. Nós, os adultos, já vimos tanto do mesmo que perdemos a noção da coisa e – tragédia! tragédia! – mantemos a lembrança do deslumbre. Pois o que é essa nossa busca pelo novo, senão um desesperado apelo à memória do universo encantado que nos fora apresentado quando tínhamos menos de um metro?
Ali, na praça do shopping center, os sorvetes derreteram goela abaixo, pegamos as compras e partimos rumo ao dia seguinte.
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March 31st, 2007 §
Publicado por Pedro Doria | 31/03/07 00:01 | No Mínimo
Quando Carlos Lacerda começava a falar, todo mundo escutava. Ele às vezes era rábico, alguns sugeriam até que desequilibrado. Mas se Lacerda falava, escutava-se. Governador da Guanabara, sozinho, dentro do pátio, impôs ordem num presídio que se rebelava. O homem, durante anos, encarnou a direita tupinambá.
Teve uma boa gente, uma gente respeitável, esta direita. Roberto Campos, por exemplo. Sujeito astuto, inteligente, de idéias claras. Podia-se discordar de tudo o que dizia, mas lá estava Bob Fields com seu sorrisinho ligeiro de quem se julga superior. E, bem, eram poucos que conseguiam argumentar com ele. Na imprensa, havia Paulo Francis, culto até dizer chega, por vezes leviano, um homem sensível e, para os de coração fraco, insuportável.
A seu modo, não faz muito, a direita brasileira contava com homens brilhantes. É verdade que havia aqueles generais – mas, mesmo dentre eles, sempre se podia pinçar um Golbery, o ‘gênio da raça’ como genialmente sugeriu Glauber Rocha. (Pois é: seus filmes podem deixar a desejar, mas era um grande frasista; também a esquerda teve homens melhores.)
Sobrou o quê?
Uma das qualidades da boa direita brasileira era que, dentre outras coisas, era cética. Não é preciso muito para imaginar prazenteiramente a piada que Francis escreveria se alguém lhe perguntasse o signo. Ou se sugerisse compor seu mapa astral. Mas é uma das modas correntes na direita tupinambá. São, como pode, astrólogos.
E, como astrólogos, têm sérios problemas com a ciência. Se uma turma da esquerda gosta de fazer pseudo-discursos que parecem – e não se sustentam além da aparência – sofisticados que envolvam mecânica quântica, a nova direita olha Einstein com assombro. Acreditam na bomba atômica mas acham o Big Bang esquisito. Gostam de dizer que Darwin ‘é só teoria’. E alguns, às vezes parece, acreditam mesmo que a Evolução é dúvida. Se o assunto é aquecimento global, então, aí é festa. A nova direita tem certeza de que o aquecimento global é coisa de comunista.
(Como sente falta dos velhos inimigos, os comunistas, a nova direita.)
Direita anti-ciência sempre houve. Era aquela turma mais tacanha, preconceituosa e, em geral, muito católica. Faz tempo. Hoje eles não são mais a classe-média que marcha com Deus pela liberdade. Hoje são libertários.
Não que sigam à risca o credo libertário, o laissez-faire deles tem limite. Pois, veja bem: liberdade para todos? Claro. Mas casamento homossexual é um pouco demais. Liberdade? Evidentemente. Mas aborto, de jeito nenhum, a mulher não manda em seu corpo e a vida é inviolável. Inviolável? Em termos, compreenda-se, nalguns casos o Estado pode decidir matar quem aprontou.
Timidamente, lá consigo, a nova direita quer o Estado mínimo (não tem dúvidas a este respeito) mas se a Igreja puder dar um jeitinho nas leis, assim de leve, bem que ajudava na lida com estes sem vergonhas.
A direita velha tinha uma qualidade excepcional que o velho Nelson Rodrigues incorporava como ninguém: o sarcasmo. Esta é uma qualidade que a nova direita manteve. Aquilo que a velha direita tinha e a nova não tem é a habilidade de rir-se de si mesma. Paulo Francis não escrevia tanto por convicção; escrevia pelas reações que sabia que despertaria dos bobos que o levavam a sério. A nova direita é sarcástica mas convicta de suas razões.
A turma convicta de que está certa é sempre a mais chata. Gente que não muda de idéia raramente tem algo a dizer.
A nova direita é tão incrivelmente triste que, fora uma meia dúzia de seguidores que amealha, não consegue qualquer representação política. Verdade: os seguidores falam alto; continuam poucos. E, cá entre nós, é só olhar em volta: a esquerda no poder é tão ruim que não deveria ser difícil desbancá-la em dois tempos. O povo brasileiro é conservador. Pintasse um novo Lacerda, seguiam rapidinho.
Mas Lacerda não há mais.
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