Doze anos

February 6th, 2010 § 22

Ela me vê e vem correndo com um sorriso dissimulado. Está de pijama ou de roupas de casa ou com unhas pintadas de cores descombinadas ou fez chapinha e levou bronca ou está com mais um furo na orelha ou está macambúzia com as notas baixas ou chororô com o show que não irá. Mas está honestamente feliz, não duvido, e quer um abraço forte, um beijo carinhoso e um presente. Eu dou tudo o que me pede, já que sou dono e responsável por esse vazio impossível. Logo depois volta pro quarto para ver as séries descerebradas ou ficar “papeando”com as amigas pelos tuíteres da vida.

Já pensa em meninos, mas não creio que tenha beijado algum (ao mesmo tempo, acho difícil essa minha crença, mas insisto como dogma inquebrantável). Meu ciúme é só dela. Linda, puxou o que há de melhor da mãe e dos meus pais. Do meu acervo pessoal, só a indolência e a vontade de nada fazer. Quer uma festa do pijama esse ano. Dou graças porque é bem mais em conta.

Pediu um contrabaixo no natal passado. Comprei. Lembrei que precisava de uma capa para proteger o instrumento, de um cabo extra, de um amplificador, de uma faixa para segurar o bicharoco. Ela só se preocupava se ele era bonito ou não. Tonta, pensei. É preto e bonito. Ela ficou feliz. Tonto, todos pensaram.

Cheguei em casa e perguntei do teclado, que havia dado dois anos antes, ela disse que a mãe guardou no alto do guarda-roupas e que ia pedir para ela baixá-lo. Duvidei. Quebrei a cara e ela já está tirando músicas no teclado semi-pro que comprei numa loja do entorno da Galeria do Rock. Disse que ela precisa começar a ouvir a linha de baixo das músicas, para ver onde que entrava o instrumento que ela (e meu eu adolescente!) quer tocar. Ela disse que já fazia isso, há tempos, pai. Sempre ouço a linha de baixo. Por isso quero aprender a tocar. Eu consenti com a cabeça. Ela tem algo meu, afinal de contas.

Levei o lapetope velho, que eu usava até antes do Natal, para ela. Zeradin zeradin de tudo, o bicho deve ter ainda mais uns dois, três anos de vida, se ela souber cuidar. Duvido. O iMac já está com teclado e mouse mortinhos da silva e o monitor mal se vê que está ligado. Não é à toa que ela se atracou com o lepetope e ele virou amigo inseparável. Levo nesse fim de semana um teclado e mouse novos. Se o iMac morrer, o MacBook herda.

Estou devendo uma ida ao cinema com ela.

E um all star.

E uma ida à Paris, França.

E ser um pai melhor.

Recebi, ano passado, um cartão de dia dos pais. “Papai Zander”. Morri naquele momento. Não sou o único pai, né? Tem o padrasto que bem que podia ser um babaca, mas é um cara ótimo, carinhoso, atencioso, inteligente. Talvez melhor pai que eu jamais conseguisse ser. Quiçá, melhor ser humano até. Fazer o quê?

Só consigo ser o melhor zander possível. Nem mais. Nem menos.

Minha relação com ela é sublinhada pelos presentes, pelos gastos, pelos não-ditos, não-feitos. E pela certeza que serei um coadjuvante na sua história, um personagem menor.

Ela já é uma pessoa inteira e tudo que eu posso fazer de hoje para todo o sempre é imaginar como teria sido. Ela já não é mais a minha menina, o meu bebê, a minha criança das histórias. É do mundo. Daí o meu ciumes, o meu pranto. Daí eu ser incapaz de negar alguma coisa – qualquer coisa – que esteja ao meu alcance. É o gesto desesperado de comprar o afeto da – talvez – única coisa que eu tenho certeza que fiz de certo na vida.

Amo e levo-te, hoje, um violão.

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Esse é um texto-mulher

November 24th, 2009 § 3

Escrevi hoje cedo que é difícil “levantar é difícil não pelo esforço das pernas, que essas já estão acostumadas ao esforço de carregar o corpo, mas pela vergonha da queda”. Especialmente quando essa dor vem da maior humilhação, daquela que é perpretada diariamente por nós e não nos damos conta até o momento em que deixamos de ser sujeito e passamos a ser o objeto direto.

Tenho amigas que não sabem quando parar de doer uma ferida. Principalmente aquelas que já passaram do prazo. Ser preterido é uma merda, fato. Mas quantas e quantas vezes não fizemos isso com quem passou por nós? pelo carinha que era legal, beijava bem mas era meio mala, meio gosmento. Pelo gordinho que até tinha pegada, mas era flamenguista (ou corinthiano, ou cruzeirense) e ela tinha meio vergonha de ficar com ele na frente dos amigos.

Foda adiada, meu amor, é foda perdida, como diriam os amigos do bas-fond. Aquele amor passado é amor perdido, não tem mais volta. Não com a mesma cara, não com o mesmo fulgor. E quando o rapaz não te quer mais, não adianta ficar cutucando a chaga com cigarro aceso. Não adianta ficar remoendo os momentos ruins, as palavras meio ditas, o “o-que-fiz-de-errado” vivido. É passado já, beibi. Já era.

O lance é chorar a dor do amor verdadeiro, chorar a morte do que foi bom e nunca mais será. Daí é colocar a melhor roupa, chamar as amigas mais periguetes, cair na noite e deixar a vida acontecer.

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I Want You (She’s So Heavy)

September 15th, 2009 § 0

pós The Beatles

A música ainda ressoava nos tímpanos quando ele resoveu ligar para a moça. Os The Beatles sempre foram o seu oráculo pessoal quando se tratava de flertar ou não com a colega da faculdade, mandar ou não flores para amiga por quem sentia um tesão especial ou ligar para a ex-foda-fixa que tinha descartado no mês passado.

Bastava ouvir os acordes de “I want you (She’s So Heavy)” que entumecia-se todo ao se lembrar de Marcela. Entumecia-se mesmo. Não tinha nada de paixão ou amor ou de carinho ali. Era um tesão animal, descontrolado. Mas só quando ouvia os mesmos acordes finais da guitarra, baixos, cadentes, marciais e o John falando “she’s so heavy. heavy.”

Ele se lembrava no mesmo momento de calcinhas no chão, de cheiro de perfume caro, de camisinhas apressadas e encaixar coxas à sua cintura. Sentia a umidade permissiva na hora que ouvia as linhas de baixo do Paul e a canção tinha a duração correta para o coito inteiro. Do “oi, tudo bem” ao “deu deu, acabei”. Sete minutos e quarenta e sete segundos. O suficiente para o rapaz ver a menina virar os olhos cheios de desprezo e dizer “nunca mais, viu? nunca mais”.

Aí passava-se mais uma semana, um mês, quarenta e cinco dias, no máximo. Ele colocava Abbey Road no tocador de emipetrês e pronto. Mais uma vez, mais uma vez.

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Os compromissos com o tempo

September 13th, 2009 § 1

De manhã o senhorzinho cumprimentava o sol já com o café na mesa e o pão sevido. Gostava de acordar antes do dia começar e estar pronto para a vida que se anunciava. Fez disso um costume desde quando tirou férias forçadas. Aposentado, ocupava um lugar que poderia ser preenchido por alguém menos experiente, mas mais barato e produtivo. Aceitou de bom grado o destino contemplativo que lhe arranjavam e, como precisava de bem pouco para viver, o dinheiro miúdo da aposentadoria lhe sobrava.

Não tinha parentes próximos ou proximidade com o que restou da família. Uma filha morava longe, um irmão sem falar há cinquenta anos, um primo intragável a duas horas de ônibus na mesma cidade era a única referência que tinha dos outros. Gostava da vida quieta que levava.

Tinha saudades do tempo em que se deitava com mulheres. Lembrava de algumas, de ex-esposas, de ex-amantes, de paixões passadas. A maioria morta ou não queria saber se ele estava vivo. Com motivos justos, aliás. Nunca fora uma pessoa que deixava os outros chegarem perto de si. Não a ponto de poder chorar no colo de uma ou de achar que sua história juntos duraria para todo o sempre.

Havia amigos. Poucos. Raros. Bons. Uns passavam de tempo em tempo em sua casa. Outros ligavam ou mandavam cartas. Não das antigas, de papel. Mas dessas novas aí. Ainda assim, cartas.

O que restava era a espera do amanhã, as lembranças do passado, a rotina prazeiroza que desenhara para si e os seus livros. Enquanto houvesse um livro para ler, ele saberia que não iria embora.

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Rapidinhas

April 24th, 2009 § 3

Me considero um cara desapegado da vida. Não me entendam mal: não é que eu não goste de viver com conforto, de comprar livros, CDs, DVDs, comer bem (ou bem mal) e consumir produtos divertidos, mas me desapego deles na memsa medida que eles deixam de significar algo.

Se aquele gibi (ou livro, ou revista) me fez encarar o mundo de uma forma diferente, que ele seja passado para frente e -talvez- comova o próximo. Mas isso não me faz me livrar dos gibis do Sandman que guardo há mais de dez anos, ou dos álbuns de luxo do Watchmen. Não por enquanto.

Sou desapegado com a matéria sim e em muitas formas, com as pessoas também.

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Às vezes eu tenho vontade de fechar todas as portas e passar a chave na fechadura, dar as costas ao que passou e só andar na direção do sol nascente.

Talvez porque eu não consiga ficar imóvel e, contudo, ainda não tenha aprendido a dar os movimentos corretamente, ainda acho que é preferível caminhar sem destino que esperá-lo bater à porta, com o chá à mesa.

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Tenho pensado em me fechar digitalmente: matar o blogue, matar os flogs, os álbuns de fotos, os tuíteres, listas de discussão, instant messengers e afins. Pela primeira vez penso seriamente em fechar tudo mesmo e cuidar dos meus.

Mas acho que esse é um desapego que ainda não sou capaz de fazer. Não por enquanto.

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Escrevo menos e menos a cada dia aqui. Não é que tenha desistido de escrever, muito pelo contrário. Participo de um velho hábito digital de discutir em listas de (dã!) discussões. Ali tergiverso sobre política, ciência, filosofia, música, fotografia.

Falo pouco sobre o que sei e muito -muitíssimo- sobre o que sei que não sei. Escrevo tanto que daria para encher uns livros só com a quantidade de asneira petulante destilo nos emails.

Ainda bem que por ali fica, por ali morre. Contexto é tudo.

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Não me canso de olhar para os céus de São Paulo. Já escrevi sobre isso e não me repetirei.

Não por enquanto.

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carta do dia: cavaleiro de paus

April 22nd, 2009 § 1

Aventurar-se é preciso!

conselho: trilhe os caminhos da aventura

O Cavaleiro de Paus como arcano de conselho para este momento de sua vida sugere que é chegado o momento de partir na direção de novas aventuras, Zander. Está na hora de espanar a poeira e deixar o passado para trás! Parta confiante na direção do que você deseja, pois as possibilidades de sucesso são bastante altas. Saiba, todavia, dar-se senso de limites. Diante das vitórias iniciais, não se engane, não caia na tentação de achar que a situação estará para sempre garantida. Afinal, é quando nos vemos em situação vitoriosa que tendemos a abrir a guarda e a cometer atos imprudentes. Você ficará bastante feliz com uma vitória, mas não permita que a alegria elimine o seu poder de planejar. 

O Cavaleiro de Paus informa que este é um momento de mudança: de casa, de emprego, de qualquer coisa que já estava velha e superada em sua existência. Momento de se abrir para o novo, Zander! 

Conselho: Trilhe os caminhos da aventura!

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do jazz e do blues

January 27th, 2009 § 9

Eu já disse que me acho muito velho pro rock e muito novo pro jazz, mas há um quê de imprecisão aí.

Quando ouço a palavra “roque”, saco logo o meu Centrium Silver e fico esperando a legião de barrigudos-pós-cabeludos-quarentões que ainda acham legal se embriagar de cerveja de péssima qualidade, subir em motos esporrentas e que berram “Jim Morrison não morreu!”.

Morreu sim, porra.

Há algo de lamentável nessa busca da adolescência perdida. Não falo isso isento de culpa, mea culpa, mas o limite do ridículo fica ali à beira avisando: “Ó, você tá ridículo com essa camisa do sex pistols. Você não está em 1979. Camisa rasgada com o A de anarquia também não! Tome tento!” Ia falar de géz e acabo falando de roque, né? Pois é.

Da mesma forma, é tão ridículo alguém mandar do nada “vamos ouvir Coltrane e fumar umzinho?” Ou sacar de um cubano no meio do boteco dizendo “essa porra custou mais que teu salário” pro garçom.

Pra mim é coisa de quem precisa mijar em torno de si pro ego dormir mais tranquilo.

Tenho birra com jazz desde que me entendo. Gostava, quando era punk-rocker na idade certa, do Miles Davis e da versão que eu tinha de Stella by Starlight e adorava viajar ouvindo a gravação em K7 do LP da coleção Abril de Jazz.

Coisas do milênio passado.

Já do Blues eu nunca me encantei. Gosto, ouço, curto, mas não me encanta. E blues é muito isso, né? é encanto triste, é o escravo dizendo que sofre para caralho e que a mulher que lhe botou um chifre não merece o homem que tem mas se ela quiser voltar ele tá ali de portas abertas. Ou isso seria o country? Não sei. Para mim é tudo coisa de dor de corno e para isso temos o Chico Buarque que canta tudo isso em “brasileiro” mesmo.

Fico me lembrando do Jim Morrison boiando, azul, em Paris. Tem coisa mais blues que isso?

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do passado

January 22nd, 2009 § 2

A coisa mais interessante sobre o passado é que ele sempre volta. Travestido de lembrança, disfarçado de reencontro, infiltrado num sonho ou num hábito repetido, ele sempre retorna de forma avassalador.

Acachapante, até.

Por vezes, queria que o passado lá ficasse, que o presente sempre me trouxesse o futuro. Ou vice-versa. Por vezes, queria me aninhar lá atrás (engraçado como colocamos o passado atrás da gente, como se fosse a vida, uma estrada ou um rio quando o passado apenas foi-se) e mudar uma A ou B feito. Quase sempre agradeço por ser tudo que fui, não ter sido o que não fui, por cada decisão pensada e errada que tomei e cada desejo certo que cedi. Hoje, agradeço ao passado ter-me batido à porta e dito: “bora aí!”

Engraçado. Hoje, agradeço ao que fui e ao que derramei.

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E eis que 2009 se anuncia (ou Sobre a arte de pender sobre o abismo)

December 19th, 2008 § 2

Mais um ano termina e a sensação é – de novo – um milk-shake de alívio com sensação de tempo perdido. Nesse ano que passou a vida me trouxe algumas surpresas. A maioria realmente muito boa, o restante ainda está sob análise da distância emocional que só o tempo dá. 

Vocês já conhecem a velha história, né? O amor que deu errado abre as portas para uma felicidade mais ampla, plena e absoluta (para ambas as partes); o emprego que te dispensou gerou uma reinvenção da maneira que você se colocava perante o mundo; os amigos que te humilharam no passado te fizeram escolher e entender melhor a humanidade. 

Tudo isso só se dá com o passar do tempo.

Viver do passado é a essência da condição humana, racional. É através desse arremesso para o ontem que conseguimos ter certeza que haverá um amanhã. É paradoxal que só consigamos projetar o futuro através do seu oposto mas é assim que o homem funciona. É assim que gosto de ser.

Num papo de almoço dessa semana, falávamos sobre a vida e a morte e o que acontece nesse ínterim. Independente da fé e religião de cada um, a única coisa que me parece certa é que estamos sempre pendendo sobre um enorme abismo que nos devora dia-a-dia, comendo com fastio a essência criativa, a fagulha primeira, mas que é o responsável por nessa geração. É um Urano devorador de sonhos e gerador de monstros bípedes pensantes. Um senhor das chances que deu as condições para nos trazer até aqui apesar da improbabilidade da simples existência – da criação do universo até a chance de nossos pais se encontrarem, tudo é muito raro, único, uma loteria química altamente improvável – e apesar dessa mega-sena cósmica, estamos aqui desafiando as certezas e as firmezas do mundo.

Andamos numa corda-bamba de probabilidades entre o caos completo e o oblívio, entre a inércia e a explosão térmica. E nesse fio de existência criamos, construímos, vivemos, nomeamos, destruímos, esquecemos, amamos, desamamos, geramos, exterminamos, nascemos e morremos e crescemos como nossos pais e avós. Cada um de uma maneira única. Pessoal.

Somos improváveis, paradoxais, imprevisíveis, certos e inexoráveis.

Pois o que espero de 2009, é que ele seja mais humano que nunca, que seja paradoxal, improvável, imprevisível (apesar de certo e inexorável) e que me coloque cada vez mais balançando sobre o abismo que é a existência.

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Das fases do pré-coito

October 31st, 2008 § 7

onde o autor discorre sobre as técnicas e estratégias
de garantir o coito certeiro com as damas em geral.

fase 1. boca

Muitos falam que o beijo é a ante-sala do sexo. Nada mais falso. O beijo é muito mais e maior que o sexo em si. Na verdade, há mais intimidade num beijo -ainda que dado numa micareta, ainda que não se saiba o nome de quem se beijou- que no sexo anal, por exemplo. O beijo é o caminho da expressão da alma. É a fala de quem deseja, de quem quer comer o outro.

Literalmente.

O cavalheiro que sabe realizar a sala, que prepara o terreno para a ação intencionada, prepara a dama para o devir lascivo. No beijo, se tem o gozo antes do gozo, a vontade expressa e explícita em hálitos trocados. É a lingerie antes da nudez.

E nisso há muito mais significado e desejo que dois corpos suando em ritmo cadenciado.

O cavalheiro que sabe preparar o terreno para o coito ininterrupto que se anuncia, promete no beijar que tirará o fôlego da dama até que ela esqueça que está em algum lugar. Em qualquer lugar, pois a tontura que toma conta da moça -parte pela falta de oxigenação, parte por conta da libido que é despertada- atiça tudo aquilo que porventura estava pronto para escapar, os pêlos de ambos se ouriçam, os ferormônios são liberados e a umidade relativa do ar aumenta. 

Ao menos entre o casal.

fase 2. encoxada

Descrição: o cavalheiro põe a mão direita enlaçando a cintura da dama. Posiciona a sua perna direita pra fora da dama e a perna esquerda por dentro, entre as coxas da moça. É uma dança invertida. Uma dança errada. Enquanto isso, a mão esquerda segura a nuca e pega a base do couro cabeludo com firmeza, mas sem machucar. Sem machucar, por enquanto.

Ainda não é hora.

Conseqüência: a dama esquece que há chão e a perna esquerda do cavalheiro -simulacro de membro- vira o seu universo. Torna-se seu centro e sustentáculo primeiro. É o encosto simulado do sexo insinuado que desmonta qualquer máscara de resistência. É o anúncio -prenúncio- daquilo que espera o casal noite afora.

fase 3. o espaço entre os dois.

Apesar de ser um pós-coito, não existe preparação pré-próximo-coito melhor que o desprezo, a distância, o não-te-ligo. Daí o cavalheiro enlouquece a dama em banho-maria. Ela sobe pelas paredes, se enfurece, odeia os homens, o mundo e o sexo e te agarra com ódio quando do retorno e acena para a lembrança do que houve. É a ausência que torna a lembrança indelével. Ninguém se lembra do passado quando ele é presente.

Daí é só beijo, encoxada e a noite dividida novamente

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Where Am I?

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