Aprendi hoje que, na tradição judaica, a mulher é quem materializa os sonhos do homem. É uma capacidade feminina fazer do ideal, do imaginado, algo palpável, material e real. Tem algo a ver com malkuth (ou algo parecido) e com as naturezas diferentes entre o homem e a mulher.
Não sou do tipo de pessoa que acredita em mandingas e patuás, mas jogo o sal por cima do ombro esquerdo, quando cai acidentalmente na mesa, não pego o saleiro na mão e tampouco coloco tranquilamente a bolsa de comida no chão. Bom, talvez isso eu faça, mas a contragosto.
É uma questão mais de respeitar a tradição por detrás do ato que o ato em si. Não acho que dê azar ou mal agouro pegar o sal na mão do outro ou deixá-lo esparramar na mesa. Mas sei o que isso significa no decurso de alguns milênios de escassez. O sal, pasmem meninos e meninas, não era tão fácil de se ter em casa, dois mil anos atrás. Tampouco o sorvete, mas isso é outra história.
Pois bem, gosto de conhecer a história das coisas, mesmo das coisas inventadas, e respeito a tradição que elas carregam. Podem até ser besteira – leite com manga, espelho quebrado, passar debaixo de escada, deixar o chinelo virado, etc. – mas tudo tem um porquê escondido. Uma história passada de mãe para filha e repetida ad nauseum anos e anos e anos.
Daí, quando esposa me conta isso, tento entender o que está por detrás da história. Entendo um pouquinho mais como os judeus antigos pensavam (ou ainda pensam, sei lá!) e deixo-me levar pelas metáforas das sephiroth, dos trinta e dois caminhos e das energias. Mas não era isso que eu queria contar.
Ela me perguntou quais sonhos eu tenho comigo, guardados no meu core. Não são muitos, conto-lhe. Terminar os estudos é um deles. Meus dois livros e a peça, outro. Engajar num estudo mais aprofundado sobre um assunto que tenho perseguido há alguns anos, mais um. Sonho também com o futuro da minha filha, mas isso não é um projeto “meu”, pelo contrário, é um projeto nosso: eu e ela, tanto mais ela que meu. E só. Ela me olhou um pouco decepcionada, acho, e eu emendei: nunca pensei em durar muito nesse mundo. Sou efêmero, diáfano, transitório. Não quero deixar outras marcas que um filho, umas histórias, umas lembranças. Nada que dure mais que uma, duas gerações para depois que eu partir.
Não tenho esse afã de mudar o mundo mais que cada um de nós já faz quietinho, no dia-a-dia. Não tenho afã de amealhar bens, títulos, glórias, deixar heranças, ruas, parques ou edifícios.
Estou contente em ser um anônimo. Um anônimo com poucos projetos, pouca ambição e vontade infinita de ser nada. E isso dá um trabalho…
Já faz um bom tempo que não nos falamos, não nos escrevemos, não nos perturbamos mutuamente com as questões mundanas e eternamente irresolvíveis. O Bardo Inglês se desdobrou em pena, tinta e pergaminho (ele usava pergaminho ou papel?) e falou eternamente sobre os mesmos assuntos que conversamos hoje em dia. Mesmos assuntos, personagens diferentes, quinhentos anos de intervalo, mesma merda.
Pois é.
Hoje em dia não é diferente. Coloco aqui as binárias formiguinhas escreventes para mandar mensagens nesse mar de estática que se tornou o coletivo de blogues, jornais e fanzines digitais. Nem rascunhar com destino certo essa joça serve mais, mas tudo bem. O outro lá, na corte da Elizabeth, a Tudor, tinha um público certo e definido, mas não sabia que estava fazendo algo que iria ser a síntese da psique moderna. De certa forma, mirou na num trono e seus baba-ovos e acertou na humanidade inteira. Fez bem, o diacho.
Eu tenho tido dias de intermezzo, saca? Como aquela musiquinha entre os intervalos entre os atos de uma peça – ou na troca dos rolos de filmes antigos, na França. Eles vêm como quem não quer nada porque já sabem que a história grande foi contada antes e não contarão coisa alguma agora, porque o devir é mais interessante e tá guardado para mim. Assim é a sensação: de que algo que era esperado, sonhado, está arrumadinho ali, no fim da década, para se fazer presente.
Engraçado como um sinal pequeno pode ocasionar um efeito grande. Não vou fazer apologia ao “efeito borboleta” mas um email enviado, uma festa, um olhar, podem mudar a vida em cento e oitenta graus e anunciar um novo mundo, um novo futuro.
Daqui, do alto das minhas quatro décadas incompletas, me empolgo com o porvir, mesmo sabendo que não sobreviverei ao que se anuncia.
Antecipadamente apaixonado pelo futuro, me despeço, querida moça.
Há dias que não escrevo nada que preste. Só emails, apresentações e mais emails de outra natureza que não a para sustentar o meu vício no vil metal. Tenho um livro iniciado (bem iniciado, diga-se de passagem), uma peça mal terminada, um projeto de livreto de contos interligados e uma vontade enorme de terminar essa fase da vida e começar outra, em outra terra, em outro contexto.
Deixo o blog largado, as fotos desatualizadas, minha organização digital de lado.
Escrever sobre o ato é um artifício que o cronista lança para enganar a si e ao seu patrão (o leitor não conta, a função do escritor é iludir quem lê e fazê-lo achar que o seu causo é o mais interessante, o mais relevante, o mais inteligente ou qualquer outro superlativo que lhe venha à mente), mas que vira e mexe temos de fazer uso para garantir a matéria no jornal, a coluna na revista ou o afago do leitor do blogue. Então, para comemorar um mês e uma semana sem atualizar esse espaço, segue a minha enganação da vez.
Afinal de contas, sou uma farsa.
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Muitas vezes me pergunto o porquê de ainda insistir em escrever. Já disse antes que não é piti de atualizar blogue ou frescurite de writer’s block, mas é que a vida às vezes nos leva para alguns cantos que não esperamos, um retorno não programado à casa, uma tomada ostensiva do teu tempo vago por jogos digitais, listas de discussão que te arroubam a verve, coisas assim.
Uma vez disse que escrevo não porque quero, mas porque é impossível deixar de escrever. Isso foi em outra época – um surto e meio atrás – onde a minha necessidade de me expressar era mais urgente. Uma necessidade de eu me entender comigo mesmo para mim. Saca? Pois bem. Eu não.
Fato é que deixo de escrever hoje facilmente. Passo meses sem ter necessidade. Pelo menos em escrever aqui. Quando penso que tenho dois livros na fila (um iniciado, outro no rascunho), uma peça para finalizar e muita, mas muita coisa para fazer de nove às dezenove, desanimo. Mesmo.
Disse uma vez – não aqui – que ler um livro como “Guerra e Paz” era um ato anacrônico. A vida moderna te rouba tempo demais para que consigamos devorar seiscentas e poucas páginas como se fosse um folhetim. Somos mais diáfanos e efêmeros que nossos bisavós. E somos mais rápidos, lépidos e fagueiros também. “Seiscentas páginas? Só se tiver gráficos e organogramas e mancha de texto com corpo 16 sobre 18”. (Antes que me batam, não acho isso bom. A nossa sociedade precisa reaprender o valor do freio, da marcha-lenta. Mas não vou ser eu que irei ensinar. Deixo para os enfartados aos trinta que aprendam a lição.) Quando me dou conta que ler mil páginas é impossível para mim hoje, penso logo: “Como esse puto (o autor) conseguiu escrever esse calhamaço? E com bico de pena ainda? Ele não trepava?”
Na verdade, não é questão de tempo. Afinal, tempo é apenas uma percepção. Mas é uma questão de culhão. De tesão pela coisa. Sim, o cara não trepava para escrever dez mil páginas. Esse tal de Autor tinha de apontar a pena, conseguir a tinta, descolar o pergaminho e escrever, escrever e escrever para caralho. Pra caralho, inclusive é a metáfora perfeita.
Agora entendo o porque da necessidade anterior de escrever como se não houvesse amanhã. É que escrever, pra mim, era como desnudar uma veia dilatada que ligava a alma aos colhões.
Era o gozo da minha essência imaterial em tinta digital manifestada.
Hoje eu li um texto de um amigo que normalmente escreve umas boas piadas que me pegou na virada da esquina. Normalmente ele disserta sobre política, futebol e nerdices afins com uma verve de humor rara. Sarcasmo e ironia de primeiríssima qualidade saem daquelas páginas virtuais e tinta digital.
Mas o puto me manda um texto desconcertante. Uma narrativa inteligente, brincalhona, excepcional e única. O sinal definitivo que o cretino tem um talento inegável e se ele quiser – apenas se ele quiser – se tornará um dos maiores cronistas/contistas/escritores desse país.
É foda ver algo tão raro acontecer ali, na tua frente, na mesa do boteco. Sentir o cheiro da história acontecendo. É de uma violência incomensurável, como se fosse um tapa na cara que ecoasse por meses a vir.
Mas isso até agora não tem nada a ver com Watchmen, exceto o fato que esse mesmo calhorda não tinha lido os gibis até bem pouco tempo – e ele se dizia fã de HQs – mas foi ver o filme com afã de fã, de quem cresceu lendo Alan Moore e tendo sonhos lisérgicos a partir do mofo acumulado em páginas de quadrinhos da Editora Abril e um paralelo forçado que tento fazer.
Quando Watchmen foi anunciado, eu fiquei com os cabelos do pescoço (e até o rego, confesso) arrepiados de expectativa pela estréia. Era um dos meus ícones quadrinísticos migrando de mídia. Já tinha gostado de V de Vingança, mas o tom lírico-anarquista do gibi havia se perdido. Havia amado a versão do Homem de Ferro e gostado muito do novo Hulk (o último filme, o que se passa no Brasil) e achado que finalmente acertaram o tom nos dois Batmen.
Mas treino é treino e jogo é jogo, né? Watchmen e The Dark Knight Returns são quadrinhos-marco da arte seqüencial e, mesmo tendo outras obras que inovaram mais, tiveram melhores roteiros, melhores artes, venderam mais e etc., essas duas sintetizam tudo aquilo que os quadrinhos deixaram de ser nos anos 80 e passariam a ser nos anos seguintes (até voltarem a ser o que eram nos anos 70, mas isso é outro assunto, outro texto, outro blogue).
Quando um quadrinho (ou peça, ou romance, ou canção) migra de mídia e vira filme/série de televisão/desenho animado é esperado que haja concessões na história, no visual e no ritmo da coisa. No caso, comprimiu-se material suficiente para uma minissérie da HBO em quase três horas de filme e – na minha modesta opinião – tivemos um resultado espetacular.
Humor na hora certa (na mais ridícula possível), referências quadrinísticas mantidas e respeitadas, personagens reconhecíveis até na sombra e o grau de suspensão de realidade necessária para o tema. Mas isso não torna o filme genial ou brilhante. O Watchmen, the movie é apenas um puta filme de heróis que tentam salvar o mundo. As discussões, as viagens, os conflitos emocionais, as nuances suaves? Que fiquem no papel, onde funcionam bem melhor que na tela.
O paralelo? Ah! É quando uma pessoa sai da caixinha para fazer algo diferente corre seus riscos. Corre o risco de ser genial.
Sento-me, com esforço, à beira da cama desarrumada, desfeita e ainda úmida da atividade noturna intensa. Das oito horas de sono que a constituição me garante, parece que usufruí menos de cinco minutos. Confiro o relógio. Há doze jazia no leito. A cama, rente ao solo, não permite que as pernas pousem confortavelmente no chão. Volto a deitar-me só. Eu e meus outros eus.
Dobro-me por sobre o meu ventre. Ajoelho no colchão como se pagasse as promessas das vidas alheias. Como se me submetesse a um rei invisível, uma entidade superior e impossível de ser ignorada. Ajoelho-me, tremo, suo como se tivesse corrido a mãe de todas as maratonas. Curvo-me mais, como se fosse possível atravessar as barreiras de carne, pano, madeira, tijolo e cimento que se projetam à minha frente.Que barreiras?
Não há nada sobre meus ombros mas sinto o peso do mundo a vergar-me. A pressão de centenas de vidas, uma dor ancestral, um sofrimento atávico, faz com que eu me humilhe e peça, entre lágrimas que descem sem censura, que tudo acabe logo. Que se encerre esse sofrimento, essa laceração da alma. Que haja um fim, por fim.
Mal entendo meus próprios pensamentos. Tudo que me vem é o meu eu que, de multipartido, se reúne para socorrer minha sanidade. É como se todo o meu corpo falasse ao mesmo tempo. Todas as partes de mim que, diariamente são mudas, agora berram, suplicam a atenção do mundo. Meu corpo fala e a mensagem que carrega não é bonita
O coração ressoa tão alto que se confunde com o meu resfolegar.Sinto-o no pescoço, nos pulsos, na dobra de minhas pernas que começam a se enrijecer e a ficar dormentes. Sinto-o no ventre: no estômago que pinga o ácido venenoso que faria Loki arrepender-se dos pecados contra os Aesires; no fígado que se recusa a regenerar-se e me lembra dos excessos da vida libertina que eu tentei – inutilmente – impingir a mim mesmo por essas décadas a fio; no baço que simplesmente dói a troco de nada; nos rins que me lembram de suas pedras e das refeições hiper-temperadas que comi por todos esses anos; na bexiga que se contrai e faz arder a urina que excreto; nos intestinos que se revoltam e disparam gases e me lembram do que tenho de mais puro e límpido dentro de mim. Sinto-o na gordura do meu corpo, na pele, nos músculos retesados, na fronte do meu rosto, no tremor das minhas mãos. Ele bate como se quisesse pedir demissão do cargo. A caixa peitoral não o contem mais e explode a cada minuto, explodindo em sangue, ossos e pulmões. Confiro, desesperado, se o diabo continua lá. Infelizmente, sim.
Súbito, a agonia se vai e consigo arrastar-me até a sala. Espero hora e meiae durmo no sofá que me recebe como mãe carinhosa, acolhendo e confortando. Ao acordar, o sol já se pôra novamente e o telefone me convida para a vida que multiplica a minha. Estou inteiro, operacional, e já penso nas máscaras que terei de usar àquela noite. Nos sorrisos que desfilarão na minha boca, nas expressões que aprendi a modelar na minha cara para atrair os meus dessemelhantes. Haverá álcool, sexo e música e eu serei mais um ator dessa vida de entretenimento. Antes de voltar para casa, serei centenas de pessoas, compartilharei momentos das minhas vidas e das de outros. Contudo, só reconhecerei no espelho aquele que suava, esperando o último suspiro ressacado.
A dor é a única coisa que traz o homem para a sua unidade.
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
pois metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimento
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
e a outra metade um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
que me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
e a outra metade não sei
Que não seja preciso mais que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é a canção
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.
Um amigo, consumidor de substâncias exóticas, me disse que não se sente responsável pela violência da cidade em que vive e que o discurso “o consumidor é que é responsável” é hipocrisia pura. Apesar de eu tender a achar que não há UM responsável, mas uma conjuntura propícia ao estado de anomia a que sobrevivemos, o discurso a que ele se refere não é hipócrita, muito pelo contrário. Ele chama à responsabilidade quem participa do processo. Deixa eu usar um exemplo hipotético para que possamos analisar a coisa sem as “preferências pessoais”? Entremos agora num mundo paralelo, onde as fórmulas funcionam e a realidade é ligeiramente diferente da nossa.
Fato ficcional 1: a venda de filhotes de gato para culinária é proibida por lei por ser de extrema crueldade com os bichanos e ser considerado eticamente errado o consumo de churrasco felino, apesar de culturalmente ter certa aceitação em comunidades carentes.
Fato ficcional 2: cria-se uma moda — alimentada por personagens da contra-cultura como o Amigo da Onça, de Péricles — de que comer carne de gato é legal, que o churrasco de gato é cult e ainda dá para pegar o couro para fazer tamborins e cuícas. Estudam-se métodos de criação de gatos em cativeiro, preservando o pêlo-curto brasileiro, o tradicional vira-latas de rua. Ainda assim, a sociedade não se convence disso, preferindo consumir o gato contrabandeado de Minas Gerais (dizem que a carne do gato mineiro é mais tenra).
Derivação dos dois fatos: cria-se um mercado ilegal, irregulado e que gira à margem da sociedade. As pessoas fingem que não compram, mas compram. Outros caras fingem que não vendem, mas vendem.
Até aí, “tudo bem”. Funciona assim no esquema de contrabando de peças de computador, peças de carro, roupas e bolsas da 25 de março, não é? Não tem gente se matando por esses pontos de distribuição, né? O problema é quando entram em cena as armas e a violência. Gente se matando por pontos de venda de churrasco de gatos, pelas melhores vias de escoamento de gatos de MG para o RJ e SP, por exemplo. Aí a sociedade idealizada acima se cotiza para uma dessas ações:
a) liberar o consumo de carne de gatos — mas sofrerá pressão dos lobbies da Argentina, Uruguai e Sri Lanka, que exportam carne bovina e de coelho para o Brasil;
b) entrar em uma ação de guerra contra o tráfico de churrasco — que aumenta a escala de outras ações ilegais, como tráfico de armas e eventual lavagem de dinheiro; ou
c) começa-se uma campanha para desestimular o consumo de carne de gato.
De novo, no modelo ideal, sem consumidor — ou melhor, sem massa crítica de consumo — não há mercado. Então, essa seria a forma “pacífica” para se acabar com o problema. Mas o problema é que o ser humano é dependente de carne de gato — estudos em Havard, Massachusetts, Texas, comprovaram isso em 1865 —, e o mercado demonstra-se perene. O que fazer neste caso?
Mudar a lei? A sociedade teria de assumir para si mesma que carne de gato faz parte de suas demandas primeiras, assim como bolsas falsas de qualidade a cento e cinqüenta reais ou programas de computadores a dez reais. No modelo ideal — e bem próximo do real — não se faz lei sem interesse ou respaldo social.
Combater o tráfico de carne de gato? É possível, mas o custo para isso é extremamente alto. Os EUA, que enfrentam altas taxas de consumo de animais exóticos e têm verba suficiente para entrar em guerra contra a Itália — Operação Pizza e Calzone nos Alpes, 1992 — não conseguem deter o trafico.
Ignorar tudo e dizer: “comigo não, jacaré! eu só como um churrasco de vez em quando”? Eximir-se de seu papel no palco social é a ação mais hipócrita de todas. Quer comer o churrasquinho? Beleza. Entendemos perfeitamente isso. Mas achar que não há transferência de poder seu para o crime ou, pior, defender que não tem nada a ver com isso é hipocrisia no último nível.
Em tempo: casos como o do pequeno João, dos bolivianos escravizados em um sobrado em Higienópolis, dos preços baixos da 25 de Março e da organização de facções criminosas não têm nada a ver com os pobres felinos e com esse texto acima.
Antes que me peçam para justificar, aqui copio as palavras de Alon Feuerwerker.
O debate sobre as reformas legais necessárias para reduzir a violência e a criminalidade trafega, no mais das vezes, num plano estritamente racional. Eu não me excluo dessa caracterização. Também acho razoável o argumento de que certas decisões não devem ser tomadas sob o impacto de forte emoção. Outra coisa com que concordo é não aplicar castigo desumano ou cruel a condenados. Amigos advogados que respeito, e de quem gosto, me convenceram, há algum tempo, de que a convicção da punição é mais eficaz do que a dureza do castigo.
Diariamente recebo diversas tranqueiras digitais. Normalmente enviadas por amigos que acham interessante abarrotar a caixa postal de outrem com apresentações malfeitas, com música irritante e imagens mal digitalizadas. Ou então é um parente que envia os mesmos arquivos ou piadas que já circularam na internet seis anos atrás. Pior, quando um texto de origem desconhecida – ou, pior, de um conhecido seu – chega no seu inbox como se tivesse sido escrito pelo Jabor, Veríssimo ou Ubaldo.
Todas têm destino certo: o oblívio digital da minha lixeira.
Eventualmente uma dessas mensagens tem uma sobrevida de segundos. É o tempo suficiente para eu ler o texto, ou passar os olhos nas imagens, pensar se vale a pena registrar a informação e, em seqüência, apagá-la. Recentemene me peguei assistindo a um vídeo edificante e de alto valor moral que me chamou a atenção por mais que os costumeiros dez segundos.
Primeiro, porque era bem editado e com trilha sonora bem arranjada. Segundo, porque o tema me é caro: a insignificância humana perante a grandiosidade do universo. Esse vídeo nos colocava no devido lugar de macacos pelados que pensam que não são macacos. A priori, nada de mais, já que filmes foram feitos sobre variações desse mesmo tema e Gilles Deleuze nunca se preocupou em repensar linhas filosóficas por conta disso. Mas ficou o registro mental.
Ontem, estava eu representando na vida real mais um dos personagens do Woody Allen quando me perguntei: “caramba, trinta e seis anos na cara e parece que aprendi porcaria nenhuma.”
Duas coisas a partir disso: a primeira é o caso ridículo de onde gerou essa minha auto-análise que pode ser acompanhada nos textos do meu blogue. A segunda é um questionamento da real necessidade da experiência. O quão valorizamos essa característica humana e o quão dependentes disso nos tornamos quando envelhecemos. Eu, ao menos, o sou.
De certo deixamos de ser macacos reativos ao meio ambiente e passamos a ser pró-ativos – odeio esse termo – quando conseguimos passar a experiência acumulada dos indivíduos e da coletividade para frente, criando cultura. Esse é o primeiro diferencial. Aquele papo do cru e do cozido que os antropólogos e sociólogos podem dissertar melhor que eu.
De fato, esse tipo de experiência é imprescindível.
Agora, existe a experiência pessoal emotiva que também pode ser chamada de inteligência emocional, maturidade, compostura, etc. Algumas pessoas se vangloriam da experiência acumulada ao passar dos anos. Engraçado que eu mesmo caio nessa armadilha diariamente.
Digo armadilha pois ela só ensina a o que fazer quando erramos e exatamente nos mesmos erros do passado. Quando nos deparamos em situações parecidas com as já vividas – trocando-se apenas os personagens e o cenário – e agimos pensando que não erraríamos de novo, lá vem a vida nos pregar mais uma peça e vermos que ou não aprendemos a lição direito ou aquela experiência seriviu de nada.
Se eu fosse seguir pela primeira via, me consideraria um imbecil; na segunda, um idiota.
A essa altura da minha meia-vida, tiro para mim que as desventuras pelas que passo diariamente são fontes de boas histórias, de causos para fazer rir os colegas da mesa de bar, esperando que eles vejam os faróis traseiros de minha vida e decidam que caminho tomar nas suas próprias encruzilhadas.