September 29th, 2009 §

tirei daqui.
Outra coisa que não entendo é esse medo bobo de perder alguém antes mesmo de começar alguma coisa com ela. Algumas amigas se queixam que não entram em um relacionamento porque têm medo de se machucar, que podem se ferir muito no processo e preferem abrir mão disso. E quem disse que relacionar-se tem algo a ver com cintos de segurança, air-bags e limites de velocidade? quem quer segurança, que fique comendo pipoca na frente da TV enquanto sonha com os romances pré-fabricados de Hollywood.
A vida, querida, queridas, é feita de cuspe, sangue, porra, suor e dor. Quem quer se apaixonar tem de ter coragem para levar porrada na cara de quem mais ama. Pior, de quem não ama, mas deseja com um tesão de largar a família e morar no mato. Tesão de abrir mão de emprego, comida na mesa e roupa lavada. De querer morar na rua com esse indigente sentimental por quem você – tadinha, tão princesinha – se apaixonou e se entesou.
A vida, minha amiga, é foda.
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February 26th, 2009 §
sabe qual o pior medo? é o de perder o que se tem.
e a maior frustração? a de ter tido medo de se lançar no abismo.
e o maior cansaço? de ter sucessivas frustrações.
e a maior perda? a de cansar de si mesmo.
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December 2nd, 2008 §
Através do blogue do Alex Castro fiquei sabendo que a Triibuna da Imprensa para de circular hoje.
Só posso lamentar a perda do espaço e a restrição cada vez maior para os profissionais da imprensa na cidade que outrora foi um farol de cultura e civilidade nos trópicos.
E não estou falando de Buenos Aires.
Segue, após o link, a última coluna de Hélio Fernandes, na sua íntegra. » Read the rest of this entry «
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February 7th, 2007 §
O Horóscopo diz:
De 07/02 (hoje) às 13h44 a 22/02 às 5h | Marte em quadratura com Sol natal
Alerta vermelho para a sua vitalidade, Zander: Entre os dias 07/02 (hoje) às 13h44 e 22/02 às 5h, o planeta Marte estará “brigando” com o Sol do seu mapa de nascimento, e este tende a ser um período de desgaste desnecessário de sua vitalidade. A sensação deste momento tende a envolver a idéia do uso excessivo de força para fazer coisas simples, algo do estilo “usar força de 1 quilo para levantar um objeto de 200 gramas”. Neste momento, convém organizar direitinho seus afazeres, caso contrário o risco é o de você se desgastar demais com uma coisa que não exigia tanto desgaste, e na hora de ter que usar uma força especial em algo que de fato demandava mais atenção, você perceberá que se exauriu. Mas a idéia é a de que você, ao saber disso antecipadamente, mude esta tendência. Ter consciência do processo é uma chave para você se organizar melhor, Zander, e evitar esta perda desnecessária de vitalidade. A propósito, se você faz atividade física, que tal diminuir o ritmo um pouquinho neste momento? Isto pode evitar um tendão machucado, ou algo parecido…
Uma das marcas registradas deste momento envolve a idéia de um desacordo entre a sua vontade pessoal e aquilo que você faz no sentido de validar os seus quereres. É como se você quisesse uma coisa, mas os seus atos contrariassem o seu próprio objetivo! Procure avaliar esta tendência neste momento, a fim de não se tornar uma espécie de sabotador da própria vontade, Zander!
Esta é uma fase para você evitar desgastes desnecessários de energia. Se você tem que acordar cedo amanhã, para que perder noite? Se você sabe que terá que se dedicar muito a algo importante, não é inteligente marcar coisas demais no período próximo a isso. Concentrar melhor as próprias energias vitais é uma necessidade para este momento. E isso envolve, acima de tudo, ter uma boa alimentação, boas noites de sono, enfim, atos que qualifiquem melhor a sua vida física.
E o tarô:
Carta de hoje: 9 de Paus
Economizando energias
O 9 de Paus como arcano de conselho para este momento da sua vida recomenda muita economia de forças neste momento, Zander. Evite se desgastar com problemas que aparecem, imprevistos, não lute contra o obstáculo que ora se impõe. Apenas aquiete a alma e espere que o problema passe por si só. As complicações que surgiram ou surgirão não lhe impedem de obter aquilo que almeja. O que ocorrem são atrasos, empecilhos. Se você se dispuser a tentar e a persistir bastante, obterá a vitória. Apenas aguarde o momento certo. Disciplina, firmeza moral e persistência são as qualidades indispensáveis neste momento. Cultive-as e você perceberá que pode encontrar grande felicidade na espera.
Conselho: Pra que se desgastar? Sente-se e aguarde o momento propício.
E isso num dia que chorei de cansaço, cansaço, cansaço e saudades.
foda.
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December 10th, 2005 §
O bronco – [ publicado em GÉH ]
Diz-se que o rapaz chegou do trabalho acompanhado e arrancou a camisa da menina ainda no corredor da casa, mal chegando à sala. Depois jogou-a no sofá, em cima das revistas e jornais velhos acumulados semanas a fio. Tirou a calça, sacou a camisinha com presteza ímpar e envelopou o instrumento de trabalho com velocidade de um fórmula um.
Largou o seu paletó Armani no centro de sala de aço inox e introduziu-se no assunto sem mais delongas.
“Show me the money! Vamos ao que interessa!”
Piruetaram na sala, cambalhotaram no banheiro, malabarizaram no quarto. Pela manhã ela estava apaixonada e ele tinha um business case matador, ela, um tratado a defender na plenária de sua moral interna e um marketing report a enviar aos colegas.
Casaram-se, normalizaram as perdas e aumentaram o spread e a lucrabilidade do relacionamento.
“Sem piadinhas de pegar o bruto e extrair o líquido, ok?” Dizia nas maratonas semanais. Sempre às quintas.
Pegou-a no telefone. “Pior que, quando disse: ‘ele é tudo que eu sempre quis, sem saber’, foi quando eu percebi o quanto estou feliz.” Acriançou-se e ligou o PS3 para matar umas pessoas virtuais.
O distraído
Acordou. Vestiu a roupa de sempre. Escovou os dentes. Tomou o café apressado e morno. Saiu do prédio sem cumprimentar o porteiro. Pegou o ônibus. Sentou-se em pé. Chegou no trabalho sacudido como um iogurte líquido. Amassado, pediu desculpas pelo atraso de hoje. “O trânsito?” “Não, médico.” Mentiu.
Trabalhou o couro bovinamente. Escreveu dissabores desimportantes e desnecessários. Os remeteu para pessoas que nunca os leriam. Saiu do trabalho amassado, do avesso. Pediu desculpas pelo atraso de amanhã. “Médico?” “Não, trânsito.”
Pegou o ônibus. Desistiu de sentar. Chegou em casa repassado. Sacudido, olhou a ruína de seu lar. Pegou as fotos suas com alguém de quem teimava em esquecer.
Calou a tristeza. Calou a dor. Só havia a lágrima.
Dormiu.
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October 1st, 2005 §
O mais novo chegou no Belmonte às três da tarde. Ficara jogando peteca na praia desde às onze da manhã e estava com fome e sede. Já era uma espécie de rotina: acordar às cinco, comprar pão, manteiga, presunto e queijo; tomar café da manhã com a esposa e o neto encostado pela Aeronáutica às sete. Às oito, banho tomado e academia: correr uma hora e malhação e hidroginástica. Às dez de volta em casa para um lanche rápido e colocar a sunga para a praia. Morava na Atlântica, perto da Bolívar, num prédio antigo, um dos primeiros de Copacabana.
E era isso: praia e depois chope no Belmonte. Costumava chopear no Cabral 1500, mas esse bar novo tinha pastéis de camarão sensacionais e empadas memoráveis e resolvera trocar local do almoço desde a sua inauguração. Não se arrependera.
Estava lá, nessa quarta-feira, lendo o jornal que o garçom havia pegado e notou que tinha uma outra cabeça branca observando-o. Havia sentado na mesma mesa sem pedir licença ou se apresentar. Não precisava.
“O senhor é uma vergonha! Não honra as próprias calças!” Olhou para o mais velho que estava vermelho em fúria contra ele. “Nunca vi homem que dignasse o próprio nome fazer tal coisa! O senhor desonra seu nome, tua família, teu posto e tua farda!” “Não uso farda há mais de duas décadas.” “Não interessa! O senhor tem um nome a…” “Um nome a zerar!” E riu sozinho.
Fazia uns cinqüenta anos que os dois se conheciam. Desde o primeiro momento antipatizaram um com o outro. O mais novo, recém ingresso à AMAN; o mais velho, no penúltimo ano. Competiam em tudo. Notas, esportes, oratória. E empatavam nas graduações. Só que o mais novo tinha uma vantagem que nunca seria superada. Era muito mais bonito e tinha o dom da sedução, o sex appeal inato que dava larga vantagem numa área onde o velho nunca conseguiria competir.
Antipatia que se tornou guerra pessoal. Um era comunista histórico. Amigo de Prestes e de Teotônio. Outro, simpatizante do Integralismo, seguidor de Plínio Salgado, adesista de primeira hora no golpe/revolução de 1964. O primeiro perseguido e torturado, depois exilado. Outro, diretor da Light e aposentado aos cinqüenta e cinco. Sempre se encontraram em todas as quinas de suas próprias histórias. Estavam lá em cada momento decisivo, em cada dor, perda ou escolha. Uma vendetta branca tão marcada em suas personalidades que já não fazia mais diferença os motivos, as ideologias, os partidos, as causas ou conseqüências. Já estavam velhos demais para a beleza de um ou outro fazer diferença. Os filhos já haviam vindo e ido, deixando alegrias e desgostos que usavam para ofender um ao outro. Filhos, netos, política, economia, futebol e, principalmente, mulheres. Qualquer coisa que desse uma oportunidade para o outro espezinhar era motivo suficiente. Desta vez era o turno do mais velho, no seu motivo preferido.
“É deprimente que o senhor ainda se arraste por rabos de saia que têm menos da metade da tua idade! Sei que é adepto desses remédios que garantem a virilidade momentânea! Vê-se que já sofre os efeitos colaterais! Não se enxerga mais!” “Inveja! A mais doce das infâmias que poderia lançar sobre mim. Não consegues te acertar com tua prótese, então ficas difamando os que…” “Calúnia! Não existe implante algum em mim!” “…os que ainda despertam algum interesse nas mulheres ainda em plena atividade e prática sexual. Mas te garanto, meu caro, que não sei do que falas. Sabes bem que desde a morte do meu primeiro filho, me assossego em casa, não tenho mais dessas aventuras.”
O velho sentou-se à mesa, pediu um chope curto e comeu um dos pastéis. O novo pediu mais um chope para si e um “refil” nos pastéis. Ficaram ali, em silêncio, se estudando como se fossem dois samurais esperando a reação um do outro para sacar a lâmina de sua bainha e cortar a moral do outro.
O novo faz o primeiro movimento: “Do que falas, afinal?” “Dessa mulher que o senhor tem freqüentado às quartas-feiras.” “Não é isso que pensas.” “Como não? Sei muito bem como o senhor se coloca frente às mulheres, enganando-as, seduzindo-as.” “Há muito te expliquei que não somos nós que as seduzimos, muito pelo contrário: elas que nos convidam e dão o seu aceite. Se brincam de serem cortejadas, é porque lhes é conveniente. A sedução vem delas para nós, não o contrário.” “Mas meninas, que mal sabem o que é a vida?” “Tu sabes que, hoje ou em mil novecentos e sessenta, as meninas deixam de ser meninas aos vinte. São mulheres em plena flor da idade. Não há meninice nisso. Tu, que casastes com uma de quinze, deverias ter mais noção disso que eu.” “Não menciona o nome dela assim! A boca do senhor não é limpa o suficiente para mencionar Gaia.” “Gaia. Eu pensava que era Géia o seu nome. Já é o tempo me tomando as lembranças.” “O tempo toma tudo, sei disso.” “Não tenho dúvidas. Mas sempre te surpassei, não? Sempre estive um passo à sua frente.” “Nem sempre.” “Justo. Tem coisas que tirastes de mim que não há como devolver.” “Fi-lo pela pátria.” “Ou por vingança, ou por ódio, ou por perversão, sei lá. Não me interessa mais. É passado e é história. Teve a tua cota de vingança e de sangue e eu também. Somos agora dois velhos a nos cutucar enquanto o mundo nos esquece.”
O golpe fora certeiro. O novo sempre fora muito melhor na oratória, mas dessa vez vinha carregada de alguma coisa mais forte. Ele estava com a guarda aberta. Via-se nos olhos que não estava estudando o que falava. Era um homem de setenta e poucos anos, lúcido, saudável que admitia para o seu nêmesis que tudo aquilo que basearam a sua relação de ódio e vingança havia caído por terra, perdido a importância. Era apenas uma birra de dois velhos bêbados. E que isso era um laço mais forte que muita amizade sincera aberta e verdadeira.
Os dois viram os rostos para a menina que se aproximava e que pedia licença para sentar à mesa. Menina não. Uma linda mulher.
Ela se senta entre os dois, à cabeceira da mesa. Ajeita a saia rodada branca e coloca o chapéu, a bolsa e os óculos escuros numa cadeira vazia. Olha lentamente para o mais velho e com desleixo para o novo. “Parece que vocês chegaram num campo comum, não é mesmo? Se acertaram?” “Não existe acerto entre mim e o velho. Mas acho que estamos colocando os pesos corretos na nossa guerra.” “É verdade. Então é a senhorita a mulher que o novo visita às quartas?” “Sim” Disse Luna, com o olhar incapacitado. Sabia que era poderosa e maravilhosa, que era a segunda da lista, mas sabia que, de perto, os dois eram maiores e mais poderosos que todos os outros. À exceção de Hélio, ou Hélius, nunca se lembrava. Ela ficava diminuída perto dos dois.
O velho dirige um olhar meio envergonhado, meio compreendendo o mais novo. Pede mais um chope e uma caipirinha de tangerina para Luna que não conseguia manter o porte altivo e imponente. Sentava-se como uma menininha entre dois gigantes.
“Quando partes?” “Não sei mais se parto ou se fico. Tudo é muito confuso para mim agora.” “Sabes que tem alguns de nós com quem não deves brincar. Creio que já falastes com todos? Ou não? Existem aqueles que são mais velhos e mais distantes e que não tens acesso. Não deves procurá-los. Tua jornada não se expande mais.” “O novo fala a verdade. A senhorita tem de saber o seu lugar. Ande à luz do Sol, se quiseres, mas tem de ter o limite das coisas.” Ela escutava, discordando mas incapaz de se defender. Sabia que o seu tempo ali havia terminado.
E partiria para São Paulo ainda hoje.
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May 7th, 2005 §
Eram apenas os dois no bar. Ela queria acabar com tudo e ele sabia disso desde o momento que ela lhe ligara dizendo que precisava ter uma “conversa definitiva” sobre o relacionamento. Disse que topava, mas se arrependeu no dia seguinte. Se enrolasse mais uma semana, pensou, ela esqueceria tudo e voltaria ao que era antes. Estava se enganando, meio consciente, meio tentando se agarrar à última nesga de esperança. Afinal de contas, não esperara dezessete anos para ter a primeira noite de amor à toa. Lutaria até a última gota de saliva para tentar manter o sonho em carne.
Chegou uma hora antes do combinado e começou a beber esperando e repassando tudo que iria dizer. A cada dose de uísque, a estratégia mudava. Na sexta dose, decidira rasgar as veias e dizer: “sem tu, sou nada.” Muito dramático e sabia que, apesar da dor da perda, sobreviveria. Afinal de contas, era o tempo ao seu lado. Ela não caíra em si e descobrira que ele era o cara certo para ela. O único que a amara incondicionalmente. Pois é. Ele jogaria tudo isso na cara dela e não haveria argumentação contra. É TPM, ela realmente te ama, cara. Você foi perfeito, apesar das duas broxadas e de nunca se lembrar do nome da irmã dela. Aliás, que irmã…
Ela entra. Todos no bar param e a olham. Ela é linda. Não tem jeito mesmo. Você foi feito para ela e como ela não pode se tocar disso? Puta que pariu! Ela tá linda.
“Oi.” “Oi.” “Senta aí.” “Brigada.” “Você quer um chope?” “Pára. Você sabe o que eu quero conversar contigo.” “Não sei. Só imagino.” “Cara, não dá mais para continuar assim. Você sabe que entre mim e você não tem mais nada. É um erro termos tentado algo depois de todo esse tempo.” “Mas você não pode negar que foi bom enquanto durou.” “Não foi.” “Mas não era o que parecia. Você tremia a meu toque, virava os olhos quando eu te deitava e te amava.” “Sou sinestésica, cara. Você sabe disso. Gozo com o sacolejar do ônibus.” “Mas você sabe que eu sempre fui apaixonado por ti.” “Eu sei. E é por isso que temos de parar por aí. Eu gosto de ti. Mas nunca te procurei. Nunca te procurei por dezessete anos. Não foi à toa, né.” “Eu sei, mas.” “Mas nada. Não dá. Tentamos, e tal. Você tentou, é verdade. Perseverou por esse tempo todo, eu sei, é um herói. Mas não dá mais. Não sou a mulher para ti.”
Ele se lembrou dos tempos do colégio.
“Mas você não entende. Eu te.” “Não fala. Vai ser pior pros dois.” “Mas eu.” “Quando um não quer, dois não se beijam.” “Mas eu te beijei. E muito. E você gostou. E quis mais. E pediu que eu fosse teu homem. E eu fui. Eu era antes de você me pedir que fosse. Antes mesmo de nascer. Mas você quis escutar os outros. Não me deu nem a chance do não. Eu te dizia que ‘nunca acaba’ mas você nunca acreditou em mim. E aqui estou eu, rasgando minhas veias na tua frente. Abrindo o core e derramando uma mágoa e um desejo que nem são mais meus.” “Eu sei. Mas é assim que as coisas são. Te disse uma vez que, se mandasse no meu coração, me apaixonaria por ti. Mas não rola. Não te amo. Não te quero. Já até te esqueci.”
Nos sonhos ela vinha de camisa branca e calças jeans. Batom vermelho. Cabelos negros (com um fio ou dois brancos já na adolescência). Pele alvíssima, apesar da praia.
“Me deixa ser teu amante, teu capacho, teu brinquedo. Quero apenas estar na tua sombra, te acompanhar à baia.” “Não, cara. Você merece algo melhor.” “Não quero algo melhor. Quero você.”
Um chope. Outro uísque. O primeiro esquenta no copo enquanto o outro some como se evaporasse salgado.
“Não chora, vai.” “Como não chorar?” “Eu sabia que isso tudo era um erro.” “Eu vou ficar legal, tá?” “Vai mesmo?” “Claro que não, porra! Eu te amo, caralho! Você já amou alguém nessa tua vida? Amou mesmo? De verdade? Porra, você não sabe o que é amar à vera. Amar incondiconalmente, saca? Tá certo, eu sei que sou um platônico. Que amo mais o amor e a paixão que as pessoas em si, mas é em você que eu depositei as minhas fichas. Muita gente tem medo do jogo da vida, mas eu aposto em ti tudo que eu nem posso arcar e você vem do nada e diz que é isso: beijo e tchau?” “Você sabe que não é do nada. Tenho bons motivos para isso.” “Ah é? Que motivos?” “Você sabe melhor que eu.” “Sei nada.” “Pára e pensa.” “Nada a ver isso. Babaquice tua.” “Babaquice? Você cantou minha irmã, seu filho da puta.” “Eu tava bêbado.” “E daí?” “Ela me lembra de você quando bem nova, quando te conheci.” “Pois é. Você é apaixonado por aquela menina secundarista, tímida, reprimida. Eu cresci, porra! Já sou uma mulher!” “Uma mulher linda.” “E você canta a minha irmã!!” “Eu disse que estava bêbado.” “Explica, mas não justifica.” “Eu sei. Me perdoa.” “Posso até perdoar sim. Mas não rola mais. Acabou o tesão. Acabou.”
Numa festa ele disse a ela: “Eu te amo.” e ela riu. Estava bêbado, como sempre, mas nunca tinha sido tão sincero na vida. Meses depois ela disse a ele: “Isso não acaba?” ele disse: “Nunca acaba, menina. Nunca acaba.”
Ela se levanta, tira da carteira cinco reais e deixa para pagar a conta. Ele já é só lágrimas. Ela dá as costas, contendo o choro e o desejo de beijá-lo. Pena é um sentimento horroroso, mas ela não consegue evitar. Afinal de contas, em um outro mundo eles teriam se conhecido no colégio, ele teria pedido permissão para namorar e os pais dela teriam consentido. Talvez tivessem casado aos vinte e poucos e teriam três filhos. Morreriam aos noventa. Ele primeiro, ela dois meses depois.
“Adeus.”
Ela saiu. Ele ficou duas horas olhando o copo vazio com o gelo derretendo.
“EU TE AMO, PORRA!” Gritou entre os bêbados do bar em Santa Teresa.
Nunca acaba.
Mesmo.
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