A música ainda ressoava nos tímpanos quando ele resoveu ligar para a moça. Os The Beatles sempre foram o seu oráculo pessoal quando se tratava de flertar ou não com a colega da faculdade, mandar ou não flores para amiga por quem sentia um tesão especial ou ligar para a ex-foda-fixa que tinha descartado no mês passado.
Bastava ouvir os acordes de “I want you (She’s So Heavy)” que entumecia-se todo ao se lembrar de Marcela. Entumecia-se mesmo. Não tinha nada de paixão ou amor ou de carinho ali. Era um tesão animal, descontrolado. Mas só quando ouvia os mesmos acordes finais da guitarra, baixos, cadentes, marciais e o John falando “she’s so heavy. heavy.”
Ele se lembrava no mesmo momento de calcinhas no chão, de cheiro de perfume caro, de camisinhas apressadas e encaixar coxas à sua cintura. Sentia a umidade permissiva na hora que ouvia as linhas de baixo do Paul e a canção tinha a duração correta para o coito inteiro. Do “oi, tudo bem” ao “deu deu, acabei”. Sete minutos e quarenta e sete segundos. O suficiente para o rapaz ver a menina virar os olhos cheios de desprezo e dizer “nunca mais, viu? nunca mais”.
Aí passava-se mais uma semana, um mês, quarenta e cinco dias, no máximo. Ele colocava Abbey Road no tocador de emipetrês e pronto. Mais uma vez, mais uma vez.
Sou um chato. Meus amigos, colegas de trabalho e conhecidos podem atestar isso veementemente e com exemplos eternos, infindáveis. Sou chato com as músicas que ouço, com o que calço, com os meus perfumes (desodorante com cheiro? NUNCA!), com o que resolvo comer, com o(s) meu(s) computador(es) e com os amigos. Especialmente com os amigos.
Estou na idade que não posso ser visto com qualquer pessoa em público. Imagine só eu ser visto do lado de pessoas bonitas, chiques, alegres, descoladas, tatuadas, inteligentes, cultas, famosas, poderosas, absolutas e colocadas? Que sujeira eu faria à imagem delas, não é mesmo? “O que esse velho bundão está a fazer com as meninas bonitas e com os rapazes ‘da hora’?” Mas quem disse que eu consigo? sou atraído como mariposa para a luz e confesso que todos os meus amigos são exponencial e potencialmente mais interessantes e divertidos que eu.
Fazer o quê? sou chato com meus vícios. Tenho poucos, mas de estimação. São meus e só eles me entendem nos momentos de solidão. Abro a garrafinha de coca-cola como quem sabe que virará a noite matando pessoas digitais em algum reino perdido da digesfera. Como toneladas de paçoca como quem espera encontrar o cupom dourado do Willy Wonka em cada um deles. Tudo para me entreter quando estou comigo mesmo.
Sou chato com a minha solidão. Não gosto de ninguém intervindo nela. Gosto de estar só, mas morro de medo de ficar só. Por isso falo pelos cotovelos, dialogo insistentemente com o outro, idependente da vontade do outro me escutar e refalo o que disse quantas vezes sinta necessidade para preencher o vazio que existe entre mim e a alma do outro. Falo para me acostumar com minha voz. Porque gosto da minha voz. Porque é isso que me resta nos dias que não consigo me ver como um entre muitos e principalmente quando me vejo como mais um entre muitos.
Sou um velho chato e implicante com a linguagem. Especialmente com a linguagem dos outros. A minha não, que não sou suficientemente humilde para apontar os meus próprios defeitos. Não na frente de platéia. Afinal, o destino (ou a genética, não sei ver a diferença entre eles) já foi suficientemente sacana comigo me dando essa cara de woodyallen tupiniquim e uma conta bancária eternamente negativa, além de uma incapacidade patológica de conduzir um automotivo.
Talvez por tudo isso acima eu implique sobremaneira com quem confunde probabilidade e possibilidade. Porque, apesar de ser muito improvável, eu morro de medo da possibilidade de morrer só.
Você me diz que meu cheiro está na tua cama e eu te digo que o teu corpo me amassa e me deixa impressões que não quero que passem. Você me diz que gosta do meu perfume, que te dá fome e desenho e eu te digo que desejo não se dá, encontra-se e que fome você sempre teve, só tinha medo de abrir os olhos e descobrir-se faminta. Você me diz que não tem mais medo que o sentimento te inunde e te alague, e eu te digo:
que ou aquele que demonstra uma coisa, quando sente ou pensa outra, que dissimula sua verdadeira personalidade e afeta, quase sempre por motivos interesseiros ou por medo de assumir sua verdadeira natureza, qualidades ou sentimentos que não possui; fingido, falso, simulado
Etimologia: gr. hupokritês,oû ‘o que dá uma resposta, esp. intérprete de um sonho, de uma visão; adivinho, profeta; ator, comediante; velhaco, hipócrita’;f.hist. sXIV hipocrita, sXIV ipocrita, sXV ypocrita
Ele tinha uns quarenta anos e muitos anos. Pele queimada de sol. Acima do peso. Cabelos oleosos e curtos. barba aparada. Camisa azul, passada, dentro das calças bege, justa à cintura com o cinto marrom claro, combinando com o sapato. Não usava óculos. Não tinha manchas de gordura ou suor. Não tinha marcas visíveis no rosto ou no braço.
Eu olhava para a menina que sentara ao meu lado. Cabelos curtos, perfume doce, olhos com rímel ou delineador, macacão bege que terminava numa bermuda que expunha as coxas, os joelhos, as canelas e a bota marrom. Bonita moça. Ouvia música no tocador de emipetrês genérico que carregava entre ambas as mãos.
Estancou-se junto ao motorista e deslanchou a sua ladainha. Não comia desde a manhã. Só tinha tomado um copo d’água como almoço e estava levando mais um monte de nada para casa. Tinha filho e família para alimentar. Família, a qual, em nada ajudava a resolver a situação. Estava desempregado, obviamente. Disse que não sabia o que iria fazer no dia seguinte. Disse que não sabia se iria um dia seguinte.
Nesse momento prestei atenção. Dizia algo sobre a morte da mãe, que morrera sozinha, deitada na cama, em silêncio. Dizia que estava desesperado, que não sabia mais o que fazer da vida, que não arrumava emprego, que não arrumava trabalho, que sequer arrumava dinheiro das pessoas que o olhavam em todos os cantos do ônibus. Menos na cara. Ninguém o olhava na cara.
Eu já perdi uma pessoa que amava. Perdi-a antes de conhecê-la. Uma noite e meia sem notícias da promessa de vida que mudara totalmente a minha vida. E eu, arremetido a uma função de alimentador de papel numa bandeja de impressora colorida, beijei os pés do desespero. Olhei de baixo para cima para seu rosto desfigurado e entreguei a minha vida aos outros.
O desesperado não planeja. O desesperado não pensa. O desesperado apenas age. É levado de canto a recanto pela vida que ele não controla. Ou melhor, desistiu de tentar controlar. É uma bóia no meio de uma ressaca histórica. De certa forma, somos uma legião de desesperados, um ônibus cheio de desesperados que são levados para um destino conhecido, mas em roteiro e tempo implanejáveis.
Entreguei dois reais não por pena, mas com a vã esperança de vê-lo se calar. Colocou a nota no bolso sem agradecer. Olhei seus olhos e reconheci a minha face de doze anos atrás. Eu olhava os papéis entrando na impressora e só me desligava do processo quando a diaba teimava em engasgar, em dizer: “Atenção, homem. Você ainda está vivo. E eu também.”
Ele não se calou. Aproximou-se da catraca e continuou sua liturgia ignorada. As pessoas se desviavam nos próprios lugares constrangidas e ele procurava os olhos que corriam no chão, nas janelas, fechados em pálpebras. Não os encontrou. Repetia a história da morte da mãe, do desemprego, do copo d’água que tomara no almoço, no fim incerto que teria no dia seguinte.
A menina do meu lado aumentou o volume do aparelho de som portátil. Fiz o mesmo. Parei de ouvir o discurso. Preferi os The Beatles urrando alguma música que já nem me lembro. Talvez fosse um grupo fazendo um cover ruim de Getting Better. Não importa. O ônibus comia horas em metros.
Ele repetiu: “Não sei o que será de mim amanhã”. Pensei: “Só espero que ele não atrapalhe o tráfego.”
Ain’t got no home, ain’t got no shoes
Ain’t got no money, ain’t got no class
Ain’t got no skirts, ain’t got no sweater
Ain’t got no perfume, ain’t got no beer
Ain’t got no manAin’t got no mother, ain’t got no culture
Ain’t got no friends, ain’t got no schooling
Ain’t got no love, ain’t got no name
Ain’t got no ticket, ain’t got no token
Ain’t got no GodWhat about God?
Why am I alive anyway?
Yeah, what about God?
Nobody can take away
I got my hair, I got my head
I got my brains, I got my ears
I got my eyes, I got my nose
I got my mouth, I got my smile
I got my tongue, I got my chin
I got my neck, I got my boobs
I got my heart, I got my soul
I got my back, I got my sex
I got my arms, I got my hands
I got my fingers, Got my legs
I got my feet, I got my toes
I got my liver, Got my blood
I’ve got life , I’ve got my freedom
I’ve got the life
And I’m gonna keep it
I’ve got the life
And nobody’s gonna take it away
I’ve got the life
E foi isso: dois beijos e tchau. Aí ele olhou para ela e pediu o telefone. Ela deu. Ele chegou a pretexto de se despedir novamente sob alguma desculpa esfarrapada deu mais dois beijos. Ali no ladinho, derrapando na curva. Ela retribuiu os beijos com um olhar maroto. Ele saiu achando que tinha de ficar. Tomou caminho de casa com a sensação que algo ficara natimorto.
Abriu o livro que o fazia chorar de saudades de casa e das histórias e terminou-o. Reparou que o cheiro dela ficara na camisa. O cheiro de rosas? Cheiro doce e azedo. Cheiro que ficaria bem se misturado ao suor dele e ao atrito do látex e lubrificantes íntimos. Cheiro que combinaria com lençóis limpos em lavanderias industriais e odorizadores de quartos de hotéis de três estrelas.
Chegou em casa, tirou a roupa e tomou um banho. Tonto, por conta da cerveja forte, lavou-se por mais tempo que precisava. Lembrou-se das histórias que sabia da moça e sabia que era insensato insistir naquele curso de ação. Não era sensato, absolutamente. A história já estava escrita e reescrita e ele já errara suficientemente para saber o que fazer. Demorou-se mais que o necessário no banho. A água quente relaxava as costas tensas das semanas ruins que antecederam o evento. Sonhou um pouco com uma fortuna que nunca viria pela mega-sena. Sonhou mais um bocado com sexo com metade das mulheres bonitas que viu no dia.
Enxugou-se e vestiu o moletom centenário que usava como pijama. Fazia tempo que não tinha companhia feminina regular, daí o acúmulo de roupas que mereciam o oblívio no seu guarda-roupas.
Mandou uma mensagem de texto pro celular dela. “Quero te ver. Beijo.”
Colocou um Bob Dylan para ouvir e deitou-se na cama. O cheiro não sumia. Pode ser a camisa, a calça, as meias, a cueca. Levou-as todas para a máquina de lavar roupas e colocou-as em molho. Voltou para o quarto. Não entendia o que o velho Bob cantava, mas estava confortável e agradável. Pegou um livro do Eco e folheou umas dez páginas. Dormiu.
Acordou com Mr. Tamborine Man e viu que cochilara por dez segundos, ou minutos. Sonhou muito no meio do processo. Descobriu uma animação incomum para uma quinta-feira à noite e tomou outro banho. Bebeu água. Colocou Chet Baker para tocar no lugar. My Funny Valentine. Sentiu vontade de tomar um vinho e comer um pão com queijo. O vinho veio fácil, como água. O pão deu mais trabalho. Desistiu e abriu um pacote de batatas fritas de marca americana. Começou a tocar Billy Paul e ele trocou a música. Lembrava de uma moça que ele queria. E que tinha um perfume igual.
Sabia que não iria dormir. Olhou pro celular esperando uma resposta. “Duvido. Deve estar mais bêbada que eu.”
“Vem cá.” Ele a puxou pelo pulso sem fazer força mas com a firmeza de quem já tinha decidido o fim da noite. “Não vá embora agora. O povo vai sair daqui para comemorar o aniversário do Jorge.”
Meia verdade. Era ele o homenageado mas também era o aniversário do editor. Caía bem juntar as duas comemorações. A noite de autógrafos do primeiro livro do fotógrafo talentoso e o aniversário do sexagenário chefe de fotografia daquela famosa revista semanal.
“Não quero ir. O Alex tá me esperando em casa.” Ela disse sem convicção. “Mas você não tinha se separado dele? Não foi isso que você me disse há pouco?” “Nos separamos sim. Não estamos mais casados.” “Então?” “Mas ainda temos uma casa juntos. E quem mora no mesmo teto deve, no mínimo, respeito.”
Ele a soltou. Ela não moveu centímetro para arredar pé dali.
“Vem comigo.” “Foi um erro eu ter vindo.” “Concordo. Mas a merda tá feita.” “Sempre há tempo para se corrigir um erro.” Ele se virou para as caixas do estoque e chutou uma delas. Doeu o pé, mas ele não iria demonstrar. Doeu muito. Ele não segurou a careta. Nem ela o sorriso de deboche.
“Acho melhor eu voltar para a loja. Não fica bem eu ficar trancada contigo na tua noite de autógrafos, né? E nem você ficar aqui dentro isolado. O povo lá fora quer te ver, te bajular e paparicar.” Ela abriu a porta da saleta e saiu deixando um olhar e um meio sorriso.
Ele levou uns segundos para digerir os dois.
Tinha uns dez anos que ele entrara no curso de teatro. Entrara de onda, só para ficar mais perto do mulherio. “Esse povinho de teatro dá feito chuchu na horta.” Dizia para os amigos de farra e de cursinho pré-vestibular. Mas comer gente, que era bom, necas de pitibiriba. Secura total.
Inscreveu-se, fez um ano e meio de curso e duas peças. Ao mesmo tempo aprendeu a fotografar na oficina da faculdade de jornalismo. Tirou todas as fotos de pré-produção das peças e passou a acompanhar a companhia de teatro Brasil afora registrando as demais. Trancou a faculdade nos três anos de turnê e começou a tomar gosto pelas paisagens humanas. Ah! Comeu gente no processo. Na verdade, acreditava que o teatro não tinha nada a ver com o seu sucesso em levar gente para a cama. O fato de ter deixado de ser um adolescente histérico e desesperado e passado a ser um homem de fato interessante, era mais plausível.
Um dia, cansou-se da vida mambembe e dura.
Voltando para casa, sabia que tinha um bom portfólio nas mãos. Preparou uma edição das melhores fotos com uns amigos e bateu em algumas editoras atrás de frilas. Deu sorte de uma cópia do book ter parado no colo do Jorge Oliva. Pintou a vaga de correspondente internacional. Topou e ganhou o mundo. Rodou África, Ásia, Europa e América Central. Mais de cem mil fotos tiradas. Há dois anos ouviu o conselho do mestre. “Publica isso, moleque. Não dá dinheiro, mas dá prestígio. E prestígio, tu sabe…” “Sei sim. É metade da equação.”
Ele chiou sozinho um pouco mais e saiu mancando do estoque. Abriu um sorriso amarelo quando viu a quantidade de gente que olhava com cara de sacana para ele. Notou Cibelle no meio deles. Ela tinha tirado o sorriso divertido e usava um parecido com o dele, cheio de ‘ai meu Deus, que estou sem-graça’. Jorge veio salvá-lo.
“Bora pro chope que meus dias estão contados. Vocês que são jovens podem esperar. O Véio aqui tem de encher a cara enquanto pode!” Meia dúzia riu e outra meia dúzia se dirigiu para a saída. Ela estava entre eles.
Ele abriu mais um sorriso e foi acertar as contas com o gerente. Vendeu mais que esperava apesar de ter ido pouca gente. “Assim é que é bom, Carlinhos. Pouca muvuca e boa grana. Se toda noite de autógrafos fosse assim eu nem cobrava para usar o espaço.” “Valeu mesmo!” Deu um abraço no amigo e partiu para as libações.
Há doze anos ele era um adolescente espinhudo, desengonçado, duro e desesperado. Há doze anos atrás ele estudava num pré-vestibular da moda cheio de patricinhas malhadíssimas e maurícios empertigados. No meio de futuros engenheiros, advogados, publicitários e marqueteiros ele sumia como pedra de sal no meio da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Depois de não lograr êxito em despertar interesse de cópula com nenhuma das fêmeas disponíveis daquele ecossistema, ele tentou uma estratégia que costumava funcionar em festinhas suburbanas: começou a sondar as feias e as apagadas. Era uma tática perigosa. Caso levasse toco de alguma, sabia que a notícia iria se espalhar por toda a manada e a chance dele praticar sexo com alguma delas seria adiada para todo o sempre. Também não podia arriscar ‘relacionamento’ com nenhuma delas. O efeito era parecido, e moralmente pior. Tinha de alçar mira no alvo correto e abater de primeira.
Uma tática boa era fazer a dança do acasalamento para uma que fosse extremamente discreta e não tão feia assim. O truque era ir se aproximando aos poucos, com cuidado para não espantar a presa. Depois de pesquisa árdua, achou um possível alvo. Dois braços, duas pernas, duas orelhas e olhos. Bunda pequena, mas parecia durinha. Seios médios, discretos. Uma boca. Um nariz. Cabelos negros, pele alva. Olhos cor de mel. Magrinha. Baixinha. Voz macia. Doce. Inteligente. Culta. Simpática. Sorriso encantador. Perfume ácido, mas suave. Usava Aquamarine para lavar os cabelos. Virgem com ascendente em Escorpião. Puta merda, tava apaixonado!
Caiu no velho truque da selva. Era ela quem caçava, não ele. Cibelle.
Chegou no bar com algum atraso, o que era esperado. Jorge tinha separado um local à mesa do seu lado e um chope esquentava com o seu nome. Procurou-a por entre os amigos mas encontrou um ‘nada consta’. Relaxou no oitavo chope e contou causos, de Adis Abeba, Guaiaqui e Bagdá. Jorge assumiu a mesa no ínterim e ele ficou livre para pensar no ocorrido há pouco.
Do outro lado da Bolívar, quase na Aires Saldanha, ele a vê saltando do táxi. Linda. Linda. Simplesmente linda.
Ela não estava só.
De uma hora para outra, um desespero se apossou da sua fleuma e ele ensaiou uma ida para casa. Os protestos foram mais altos que a coragem e ele se congelou na cadeira. Ela entrou no Belmonte com Alex que não disfarçava o desgosto de estar ali. Foram apresentados desnecessariamente. Ele desprezava o homem que regularmente tinha intimidades com a sua maior paixão. O outro querendo ir embora para cumprir com o dever matrimonial de entediar o cônjuge até à morte. Ela se ajeitou no meio da turba com o esposo.
Quando partiu com a companhia de teatro, ele elencou para si mesmo uma centena e meia de motivos racionais, lógicos e plausíveis para tal. Todos para servir como cortina de fumaça do motivo real.
Ela nunca o quis como o seu homem.
Dizia para ele que queria ser só amiga. Que se pudesse escolher por quem se apaixonar, ele seria o homem da vida dela. Que ele tinha entendido tudo errado. Que era um erro ele insistir. Que ela estava saindo com um outro cara. Que estava apaixonada por ele. Que o nome dele era Alex e ele era mais velho, mas não muito; mais bonito, apesar de um pouco estrábico e ser um calvo aos vinte e sete; bem-sucedido, afinal era empresário desde os vinte; que a respeitava, apesar de fazê-la ir ao tedioso futebol de domingo; que sabia ouvir um não e se conformava quando perdia uma batalha. Que iria se casar em quatro meses. Que estava grávida. Que iria colocar o nome do pai na criança. Que não iria se chamar Alex. Que ele não poderia ver o filho. Que estava tendo complicações no parto. Que não pode enterrar o filho. Que não poderia ter mais nenhum filho. Que o odiava. Que o amava. Adeus.
No bar, mais seis rodadas de chopes já removiam o que havia de civilidade entre os presentes e estranhos já confabulavam como se fossem amigos de centenas de anos. Uns resolviam os problemas do Brasil e do Mundo entre os pastéis de camarão e as casquinhas de siri. Outros confessavam o inconfessável para os ossos do frango à passarinho. Ele emudecera há muito, mas nunca fora de tagarelar. Jorge, mais experiente, já levantava o acampamento e pedia a conta.
“Meu aniversário, conta minha.”
Na confusão da saída, uns programavam a esticada, outros já chamavam o táxi na própria Bolívar para ir para casa. Alex já se confundia com a turba, apesar da careca reluzente, e partiu só.
Ele ficou a sós com Cibelle.
“Quer ir lá para casa?” “Não acho uma boa.” “Ci, o que é ‘uma boa’? Você aparecer no meio da noite de autógrafos e me dizer que se separou? Você medrar na hora que te chamei no canto? Você trazer o mané para cá? Qual dessas idéias foi ‘uma boa’ até agora? Me explica porque estou perdidinho da silva.” “Não faz isso comigo. Tá sendo difícil para mim também.”
O pé ainda doía. Provavelmente ele encravara a unha quando chutara a caixa.
“Vamos dar uma caminhada na praia?” “Eu topo.”
Copacabana é testemunha de diversas histórias e as areias da praia são o seu palco principal. Parece que existe uma mágica que emana do elán que prende os grãos brancos e imundos daquele pedaço de chão entre o Atlântico e a Atlântica. Talvez porque a areia, a maresia e o soar das ondas não julguem os homens. Parece que há uma inteligência natural que entende que a vida não é preta e branca. As nuances de gris moral são o sal de prata desse mar de vidas que inunda aqueles cinco quilômetros de terra encurralada.
Eles amanheceram no Arpoador e nunca mais se viram de novo.
A Dama ali me mandou essa carga pesada. Ninguém merece isso. Pô! Corrente nessa altura do campeonato. Logo eu que sou um tipinho discreto e tímido. Não perturbo. Tomo banho todo dia e uso perfume de madeira… ai ai ai. Precisava de uma praga dessas justo hoje?
Sol em Áries, Ascendente em Aquário, Lua em Libra. O resto só com compromisso de intereação ludo-sexual.
Meu nome é Zander, porra! Alessander Bruno é o caralho!
Tenho o incrível dom de destruir piadas. E de fazer rir com histórias sérias.
Sou o Woody Allen que não deu certo. Ou o contrário disso.
Acordo conferindo emails e durmo programando downloads.
Acho que não sou um bom pai. Não tanto quanto ela merece.
Agora, como faz parte da praga, repasso pras amigas. (foi mal aê!)
“É ali, antes de dobrar a esquina, o senhor dá uma paradinha logo após o sinal que a portaria é ali mesmo.” “O senhor não quer que eu manobro?” “Não, obrigado. É melhor o senhor continuar na Nossa Senhora mesmo. A volta é grande.” Na verdade ele queria sair logo dali e se refugiar em casa. Não se continha nem dentro das calças nem no sorriso que explodia em um sorriso bobo, de amarelar os dentes.
Pegou a carteira. Pagou. Ouviu mas são dez reais e cinqüenta. Disse pode ficar com o troco. Guardou a carteira. Arrumou-se para saltar. Saltou. Deu tchau e boa viagem e bom trabalho e boa segunda feira pro motorista. Atravessou os cinco metros e trinta e dois centímetros do meio-fio até a portaria. Entrou. Disse bom dia e que dia lindo vai ser hoje. Ouviu um muxoxo. Não importava. Correu como criança chegando da escola até o fim do corredor e abriu a porta de casa. Fechou-a atrás de si.
Resfolegava como uma chaleira apressada enquanto descia pela porta. Sentou-se no chão despreocupado com a luz apagada da sala. O sol iria iluminar tudo rapidamente. Aliás, ele contava com isso. Estava um pouco atrasado, sabia, mas daria tempo para tudo. Sempre dava.
Guardou as chaves na mesa, no mesmo local de sempre. As chaves, a carteira, o relógio de pulso, o celular que raramente tocava, a câmera digital ultrafina, o que restava das camisinhas. Chutou os sapatos num canto a esmo. Tinha isso como esporte pessoal: arremesso de calçados aleatórios. Por vezes até vibrava quando caiam com a sola para baixo (os dois, sempre, valiam 30 pontos) ou acertava uma lixeira. Ou quando caiam juntinhos de outros calçados. Uma vez pensou em fazer uma tabelinha de pontos pra isso. Desistiu no momento seguinte. Iria tirar a graça de inventar a pontuação.
Massageou primeiro o pé esquerdo, depois o direito. Cheirou-os. Cortou uma unha que encravava displicentemente. Espreguiçou-se e gargalhou rapidamente.
“Puta merda, que noite!” Abriu o laptop e colocou uma música para tocar.
“Ih! Hair! Não podia ser mais perfeito.” Tirou a camisa num solavanco. Cheirou-a. Lembrou-se do cheiro dela misturado ao seu perfume. Madeira. O dela era doce.
“Azzaro? Azzaro não é doce.” Faltavam cinco para as seis. No relógio que já não carregava no pulso.
Dobrou a camisa com carinho e colocou em cima da cadeira da sala. Casa pequena tem disso, cadeira vira cabide com uma facilidade instantânea. Cabide. Criado-mudo. Apoio para a foda. Existe móvel mais versátil que uma cadeira? Tirou as calças, dobrou-as e colocou em cima da camisa. A cueca foi arremessada junto com as meias (sempre as últimas peças a serem despidas). Nu, deixou-se largar no sofá e enrolou mais dois minutos. Dava tempo, sempre dava. Abriu a janela da sala.
O pátio interno era o seu cantinho. Ninguém a essa hora olhava para baixo. Na verdade, ninguém olhava para aquele canto desde que o síndico proibira que pendurassem roupas para secar na parte de dentro do prédio. Não fazia muito sentido, dizia. Não bate sol ali. Mas as donas de casa teimavam. E as roupas secavam direitinho. O macete era pendurar à noitinha e esperar o amanhecer. Não sabiam o porquê. Mas funcionava. Quem nem homeopatia.
Pulou a janela e, debruçado de volta para dentro do quarto, pegou o cigarro. Acendeu-o na mão e sorriu pro céu.
Those schoolgirl days of telling tales and biting nails are gone
But in my mind I know they will still live on and on
But how do you thank someone who has taken you from crayons to perfume?
It isn’t easy, but I’ll try
If you wanted the sky I would write across the sky in letters
That would soar a thousand feet high ‘To Sir, With Love’
The time has come for closing books and long last looks must end
And as I leave I know that I am leaving my best friend
A friend who taught me right from wrong and weak from strong
That’s a lot to learn, but what can I give you in return?
If you wanted the moon I would try to make a start
But I would rather you let me give my heart ‘To Sir, With Love’