Sobre a arte de dar as mãos

July 11th, 2008 § 9

publicado na Tribuna da Imprensa

Hoje eu li em um blogue de uma amiga (http://simsenhoras.blogspot.com/2008/07/quero-namorar-o-wall-e.html) que ela não vê mais as pessoas simplesmente dando as mãos por aí. Que no arsenal da conquista não se usa mais o singelo gesto de procurar a mão da menina e segurar os dedos entre os dedos num enlace quase que obsceno, mas mais singelo que os olhares que enrubescem. Que não vê mais o gesto em si mesmo gerando o momento mágico.

Eu sou uma criatura de “grude”. Gosto de tocar, abraçar de dar beijos e tal em quem tenho carinho e afeto. Obviamente já passei da fase adolescente onde os futuros adultos arrumam n desculpas para se jogar uns em cima dos outros ou se amontoarem pelos cantos. Algo a ver com os hormônios em ebulição ou uma desculpa esfarrapada para pré-sexo. Dito isto, acho que poderão entender melhor o caso que tenho para contar.

Pois bem.

Um dia, numa das minhas idas profissionais à cidade do dinheiro e à terra da fortuna, eu saí com uma conhecida para podermos materializar o nosso conhecimento mútuo. (Não me entendam mal! A frase anterior é só uma forma pernóstica de dizer que fui conhecer de fato uma pessoa que conhecia pela Internet. É que às vezes conheço mais de fato quem nunca vi de perto. E às vezes conheço menos de perto quem já vi de fato. Fato.) Fomos a uma pizzaria numa praça que só recentemente voltei – e gravei o nome. E obviamente me esqueci novamente, a ponto de não ter sequer referência para citar nessa crônica de quarenta linhas.

A pizzaria era modernosa, com uma decoração bem interessante. Como bom carioca, sempre achei que pizza boa era a que era servida rapidamente. Ali fui introduzido à grande arte de ser fazer Pizzas em Sampa.

Antes mesmo de fazermos o pedido, senti que havia algo no ar. Uma atração definitiva. Da minha parte, claro, por minha amiga. As pizzas não tinham nada a ver com a história. A moça era bonita, charmosa, interessante mesmo. E tinha bom gosto. Afinal de contas, sabia escolher a companhia para o jantar.
Durante o evento inteiro eu não conseguia desgrudar os olhos dos olhos da moça e “dava um jeito” de fazer as mãos delas encontrarem as minhas. Quando ocorria, parecia que eu estava segurando o braço de uma cadeira ou apenas uma maçaneta. Nada. Nem uma fisgada, nem uma alteração na voz da moça. Nadica de nada. Um suspiro ou uma pausa ao menos? Não.

Obviamente achei que não tinha logrado sucesso e tal. Mas são coisas da vida. Se todas as mulheres desejassem todos os homens (e vice-versa), não haveria agenda que desse jeito para tanta fornicação. Ou romance. Fica no teu critério. Fato é que não funcionaria de forma alguma. Há de se ter a rejeição por bem da humanidade.

Mas, como a vida sempre surpreende e desconstrói as primeiras impressões, na saída, a moça me permite um beijo. Obviamente voltei pro Rio sem entender coisa alguma.

Quando mudei em definitivo para Sampalândia, eu entendi que havia um tipo de gente que não se toca, a não ser na intimidade. Que um abraço pode ser sinal de posse e que um pegar em mãos pode ser ostensivo, declaratório e íntimo demais para duas pessoas que apenas se flertam.

Da pior forma, entendi que esse não era o meu tipo de gente.

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Sobre o crime dental com o gato

February 15th, 2007 § 1

publicado na Tribuna da Imprensa.

Um amigo, consumidor de substâncias exóticas, me disse que não se sente responsável pela violência da cidade em que vive e que o discurso “o consumidor é que é responsável” é hipocrisia pura. Apesar de eu tender a achar que não há UM responsável, mas uma conjuntura propícia ao estado de anomia a que sobrevivemos, o discurso a que ele se refere não é hipócrita, muito pelo contrário. Ele chama à responsabilidade quem participa do processo. Deixa eu usar um exemplo hipotético para que possamos analisar a coisa sem as “preferências pessoais”? Entremos agora num mundo paralelo, onde as fórmulas funcionam e a realidade é ligeiramente diferente da nossa.

Fato ficcional 1: a venda de filhotes de gato para culinária é proibida por lei por ser de extrema crueldade com os bichanos e ser considerado eticamente errado o consumo de churrasco felino, apesar de culturalmente ter certa aceitação em comunidades carentes.

Fato ficcional 2: cria-se uma moda — alimentada por personagens da contra-cultura como o Amigo da Onça, de Péricles — de que comer carne de gato é legal, que o churrasco de gato é cult e ainda dá para pegar o couro para fazer tamborins e cuícas. Estudam-se métodos de criação de gatos em cativeiro, preservando o pêlo-curto brasileiro, o tradicional vira-latas de rua. Ainda assim, a sociedade não se convence disso, preferindo consumir o gato contrabandeado de Minas Gerais (dizem que a carne do gato mineiro é mais tenra).

Derivação dos dois fatos: cria-se um mercado ilegal, irregulado e que gira à margem da sociedade. As pessoas fingem que não compram, mas compram. Outros caras fingem que não vendem, mas vendem.

Até aí, “tudo bem”. Funciona assim no esquema de contrabando de peças de computador, peças de carro, roupas e bolsas da 25 de março, não é? Não tem gente se matando por esses pontos de distribuição, né? O problema é quando entram em cena as armas e a violência. Gente se matando por pontos de venda de churrasco de gatos, pelas melhores vias de escoamento de gatos de MG para o RJ e SP, por exemplo. Aí a sociedade idealizada acima se cotiza para uma dessas ações:

a) liberar o consumo de carne de gatos — mas sofrerá pressão dos lobbies da Argentina, Uruguai e Sri Lanka, que exportam carne bovina e de coelho para o Brasil;
b) entrar em uma ação de guerra contra o tráfico de churrasco — que aumenta a escala de outras ações ilegais, como tráfico de armas e eventual lavagem de dinheiro; ou
c) começa-se uma campanha para desestimular o consumo de carne de gato.

De novo, no modelo ideal, sem consumidor — ou melhor, sem massa crítica de consumo — não há mercado. Então, essa seria a forma “pacífica” para se acabar com o problema. Mas o problema é que o ser humano é dependente de carne de gato — estudos em Havard, Massachusetts, Texas, comprovaram isso em 1865 —, e o mercado demonstra-se perene. O que fazer neste caso?

Mudar a lei? A sociedade teria de assumir para si mesma que carne de gato faz parte de suas demandas primeiras, assim como bolsas falsas de qualidade a cento e cinqüenta reais ou programas de computadores a dez reais. No modelo ideal — e bem próximo do real — não se faz lei sem interesse ou respaldo social.

Combater o tráfico de carne de gato? É possível, mas o custo para isso é extremamente alto. Os EUA, que enfrentam altas taxas de consumo de animais exóticos e têm verba suficiente para entrar em guerra contra a Itália — Operação Pizza e Calzone nos Alpes, 1992 — não conseguem deter o trafico.

Ignorar tudo e dizer: “comigo não, jacaré! eu só como um churrasco de vez em quando”? Eximir-se de seu papel no palco social é a ação mais hipócrita de todas. Quer comer o churrasquinho? Beleza. Entendemos perfeitamente isso. Mas achar que não há transferência de poder seu para o crime ou, pior, defender que não tem nada a ver com isso é hipocrisia no último nível.

Em tempo: casos como o do pequeno João, dos bolivianos escravizados em um sobrado em Higienópolis, dos preços baixos da 25 de Março e da organização de facções criminosas não têm nada a ver com os pobres felinos e com esse texto acima.

É tudo ficção.

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bota-fora

July 24th, 2006 § 5

Gente,

A mensagem piegas e lacrimejante já os informou da minha mudança (em breve) pra Mordor… digo, São Paulo e nada mais justo marcar uma data para bebemorarmos o meu exílio, digo, a abertura de novas oportunidades na terra sem montanhas e praias.

> Fase 1: Quinta-feira, 27/07/2006, a partir das 20h: na rua da passagem, no churrasquinho do Chicão. Carne de quinta, cerveja de sétima.
> Fase 2: Sexta-feira, 28/07/2006, a partir das 19h: Pizza Park da Cobal de Botafogo.

Espero-os lá

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Um país cafajeste – Xico Vargas

March 27th, 2006 § 4

Eu tive de copiar esse texto.

—-
27.03.2006 | O choque causado pelo samba da deputada Ângela Guadagnin no plenário da Câmara não se deve apenas ao grotesco da cena ou à comemoração pela pizza que saía do forno com a absolvição do petista João Magno. Para quem esteve distraído esses anos todos, é só olhar no espelho por trás dessa patética coreografia. O Brasil que dali emerge tem o retrato de um país cafajeste. Esse é o motivo do pasmo e, por triste que seja, não chega a ser surpreendente. Ao semear tanta perplexidade a deputada talvez tenha prestado um serviço à nação.

Menos de 24 horas depois do balé da deputada o presidente Lula, em mais uma etapa de sua campanha ainda-não-sei-se-sou-candidato, revelou que pouco se lhe dá se o ministro Palocci maracutou ou deixou de maracutar com a quadrilha de Ribeirão Preto. “Vou cuidar dele como de um filho”, disse. “Como se fosse pai e mãe dele”, explicou, com a paciência dos estadistas. Nada mais claro. É o amor incondicional, como o que escraviza mães de traficantes, de assassinos ou dos mais deslavados gatunos. Na ótica materna, filhos pairam acima das leis.

Idêntico sentimento impulsiona o acima da lei José Dirceu a pedir no STF a anulação de sua cassação. Enxotado da vida pública já foi acolhido num moribundo canto de página onde deita regras para os destinos do Brasil. Logo, logo estará de volta. Por que não? O Supremo é a mesma corte que impediu Francenildo dizer que viu o que viu na colônia de férias da República de Ribeirão Preto, em Brasília, mas não chamou ninguém às falas quando o governo passou a tesoura na Constituição e jogou o sigilo bancário do caseiro no ventilador. Nem a mal-reconhecida paternidade do moço escapou. Edificante isso, não? Mas como resolvemos tudo com metáforas futebolísticas, vamos dizer que o pobre Francenildo levou apenas um tranco.

Pouco importa se a lama já chegou aos joelhos. Interessa-nos que a Bolsa suba, para trocarmos de carro, e dólar caia, para comprarmos quinquilharias, ou decole, para batermos recordes na exportação. O resto é bobagem. Se for falcatrua – e estiver sendo feita hoje – é porque sempre se fez neste país. Ou seja: nem a cafajestice nos é novidade. Realmente, na terra onde o tesouro do partido do governo tem origem obscura, trafega à margem da Receita e vira recurso não-contabilizado para comprar deputados pouco há que nos possa surpreender. Talvez apenas a inesgotável criatividade de Delúbio Soares. Depois de receber 10 anos de salários sem comparecer ao trabalho – uma escola pública – o mago das finanças do PT processou o estado por usar num concurso seu prenome como exemplo de hipotético mau funcionário. Quer uma grana por danos morais o nosso Delúbio.

Mas assistimos a isso tudo com passividade bovina. Somos assim. Adoramos a canalha. Idolatramos os cafajestes desde que os vimos no cinema, durões, espancando mulheres e acendendo charutos com notas de dólar. Fazem grande sucesso na TV os vilões, os ladrões simpáticos, os vigaristas. Por isso espalhamos parentes pelas filas nos supermercados, para chegar ao caixa antes dos otários. Furamos filas de cinema e corremos atrás de bocas-livres. Há quem tenha dinheiro para comprar os mais caros ingressos, mas se ponha genuflexo diante de uma credencial VIP. Sem contar que, por uma guloseima a mais, somos capazes de entregar até nosso lugar no avião a qualquer general que mostre pouco apreço a relógios e civis. Nada, para nós, se compara ao espetáculo do poder sendo exercido. Mesmo que os intérpretes apenas julguem que o detém.

Foi desse jeito, tentando levar vantagem, que construímos o segundo país do mundo no consumo de produtos falsificados. Compramos pirataria pelas esquinas. Não faz muito era grande sucesso no Rio de Janeiro a Robauto, feira de acessórios surrupiados que funcionava nas manhãs de sábado, numa das principais avenidas do subúrbio de Acari. Comprava-se, por exemplo, um som numa barraca e, na do lado, contratava-se a instalação. Dava gosto de ver. Nunca se soube que vendedores ou fregueses tenham sofrido algum tipo de constrangimento. Talvez porque não tenha faltado ao empreendimento a proteção de policiais que, ao final do expediente, botavam no bolso a sua parte nos negócios. Xerifes da mesma linhagem dos que hoje conhecem (e fingem que não) os feirões de drogas existentes na parte baixa de qualquer favela carioca, de segunda à sexta-feira, a partir das seis da tarde. É o grande varejo de cocaína e maconha da cidade. Mostra que os morros consomem drogas cada vez mais e que, se depender dos moradores, o tráfico jamais sairá de onde está.

Se pagamos e aceitamos que a polícia seja como é, por que, nos espantamos com a patética dança de Ângela Guadagnin? As aberrações em ambos não surgiram agora. A deputada exibe há anos o instrumento que prefere na banda. Ou não foi ela, quando prefeita, que demitiu o secretário que denunciou uma roubalheira petista? Não foi ela na CPI que tentou retardar ao máximo todas as conclusões, com intermináveis pedidos de vista para cada relatório? Ora, quando viu ser absolvido o amigo – que tinha o pescoço na lâmina só por ter posto a mão em R$ 420 mil do valerioduto – queriam que a deputada fizesse o quê? Caísse em prantos? Nada disso, mandou a compostura às favas. Como sempre se fez neste país, diria o presidente.

Por que não nos espantamos antes com o elástico conceito de moralidade de Guadagnin? Ninguém estranhou quando ela empregou na defesa dos correntistas do valerioduto veemência idêntica à que aplica para condenar as mulheres da campanha pela descriminalização do aborto. Interromper a gravidez de feto sem cérebro não pode. É a lei de Deus, diz a deputada em defesa da moral cristã. Até aí, tudo bem, cada um que defenda o que lhe é caro. Estranho, porém, que a métrica dessa retidão religiosa não se aplique aos que enfiam a mão na bufunfa. Deve ser porque o caixa 2 não é tão antigo a ponto de alcançar os textos do Livro Sagrado.

Por que o Brasil se espanta que Ângela Guadagnin tenha pisoteado o decoro e, na mesma semana, passa batido pelo escândalo das 10 mil obras dos governos Garotinho? No país que criou um Conselho de Auto-regulamentação Publicitária aceita-se que o casal nos enfie pelos olhos e ouvidos, em vários estados, uma aberração que arrola tratamentos dentários entre obras civis, multiplica praças e quadras de esporte, e vende favelas como programas habitacionais. Por que isso já não nos surpreende? Certamente porque, nos últimos anos, os Garotinho testaram todos os limites, da mentira ao desvio de recursos, e, até agora, só a juíza Denise Appolinária tentou deter-lhes a marcha.

Como Guadagnin com sua dança. Experimentou com ela mais um limite da tolerância nacional. “Foi um ato espontâneo”, disse a deputada. Pronto, está justificado. Afinal, como não admitir que políticos em geral embolsem dinheiro público se o país inteiro sabe que a polícia o toma diariamente da platéia pelas ruas? E os prefeitos que fazem acordos com milícias que controlam favelas? E os juízes que vendem sentenças? E os governantes que superfaturam obras e botam no bolso o troco dos remédios dos hospitais? Políticos como Ângela Guadagnin, João Magno, Waldemar Costa Neto, José Dirceu e tantos outros que se multiplicam no Congresso só estão lá porque foram criados a nossa imagem e semelhança. O problema não está neles, mas na nossa insistência em construir uma nação cafajeste. Vem eleição por aí. Podemos continuar com a obra. Ou não.

xicovargas@nominimo.ibest.com.br

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Sunday morning

September 10th, 2005 § 5

Chegara em casa às duas da madrugada, passando as chaves na portaria com cuidado para não acordar o porteiro. Não queria que fosse descoberto assim, sorrindo à toa, como se estivesse feliz ou coisa parecida. Mas sabia que estava com uma cara de moleque que quebrou vidraça ou que ganhou bola nova ou que tirou palito premiado no picolé.

Estava com um sorriso tal que engoliria um sol.

Entrou no elevador. Olhou no espelho. Viu um cara diferente do que tinha deixado ali, no reflexo. A barriga ainda era flácida, mesmo que a contraísse ainda que involuntariamente. Os cabelos já eram ralos na cabeça, entradas fundas. O que era grisalho antes, nas têmporas, era quase branco agora. Mas ainda e tão somente nas têmporas. A barbicha bem cuidada não tinha pelo branco. Aliás. Tinha sim. Mas ele os pinçava.

E o sorriso ofuscava quaisquer outros defeitos que tivesse.

Apertou o nono andar. Subia como um cágado manco, andar a andar. Encostou na parede do espelho e tinha em si uma certeza, uma firmeza de caráter que nunca encontrara antes. Olhava os andares a passar um a um, contando os segundos para chegar em casa. Playground, terceiro andar, quarto andar. Mmmm vontade de mijar. Quinto, sexto. Chega logo, cacete. Sétimo, oitavo. Anda! Anda! Nono!

Abriu correndo a porta, correu pro novecentos e onze. Puxou a chave no caminho e selecionou a certa insistivamente. Merda! Não é mijo! O corvo tá bicando a cueca! Abriu a porta de sopetão e se jogou no banheiro com o caminho ainda em breu.

Aliviado, fechou a porta de casa, acendeu a luz da sala. Diminuiu o brilho no dimmer. Pousou o celular no carregador, em frente ao computador. Ligou o monitor e viu as mensagens que recebera na noite. Centenas de mulheres deixavam recados! Não, milhares! Duas!

Fechou o programa de mensagens instantâneas. Verificou as descargas de arquivos. Foi à cozinha. Preparou um sanduíche de feijão com geléia de morango e shoyu e sentiu falta do queijo parmesão ralado. Sentou no micro para ler emails e sentiu que iria se aborrecer. Nada estragaria o seu sentimento agora. Encarou os emails e confirmou que, se fosse em um outro momento, talvez umas duas semanas atrás, surtaria e pegaria o celular para ligar para pessoas que não queriam mais ser ligadas a ele. Assentiu e consentiu com o desejo alheio e deixou escapar singelamente: “Vaca!”

Navegou um pouco na internet, descobriu sensacionais sites inúteis, desprovidos de qualquer informação relevante. Abriu o tradicional site de putaria e não ficou animado a descer qualquer um dos vídeos amadores que lá estavam.

Acabou com o sanduíche e se perguntava por que comia aquela merda todas as noites. Deveria variar de vez em quando. Trocar a geléia por mostarda e o feijão por lentilhas. Achou que não era boa idéia. Já tinha problemas suficientes com gases e flatulência. Mas toparia uma pizza de alho e óleo. Fazia tempo que não comia em respeito com pessoas que dividiam o mesmo ambiente que ele.

Ligou na Discovery que anunciava um documentário sobre o sistema solar. Riu baixinho para si mesmo e colocou um DVD. Faziam oito meses que não assistia Manhattan novamente e achou que estava mais que na hora de revê-lo.

Ao acabar, se pegou choramingando mas ainda com aquele diabo de sorriso na cara. “Porra! Vou ser sacaneado se sair na rua assim amanhã!” Levantou, tirou o DVD e colocou um CD do Suede bem baixinho. Cantou Trash para si mesmo com lágrimas nos olhos e resolveu amanhecer. Já eram dez para as seis, né? Já tava de bom tamanho!

Abriu a janela e se espreguiçou. Sabia que ele seria um bom doze de setembro.

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Toes Across the Floor

July 4th, 2005 § 3

publicada na Tribuna da Imprensa

Toda sexta ele pegava o ônibus e ia lá para a Ilha do Governador. Saía de Copacabana no 123, 125, 127 ou qualquer um outro que passasse no Castelo e pegava o 324 ou o 326 ou ainda um frescão, quando tinha sorte. Passava no supermercado, fazia compras, caçava uma ou duas pizzas congeladas (mussarela sempre, a cobertura complementar faria na hora) e ia passar o fim de semana ouvindo Blur, Libertines, The Cure, Black Crowes e Blind Melon. Sonhava com o dia que só iria andar novamente de táxi.

Os únicos bens que amealhara na sua vida prévia, em família, eram as extensas coleções de livros, revistas, CDs e DVDs que foram alvo de discórdia, disputa e, de certa maneira, desapego.

“É a única herança que vou deixar pro meus filhos. Vai chegar um dia que vou levá-los ao quarto, abrirei os armários e mostrarei: isso tudo é teu. Leva tudo que puderes, mas deixe tudo aqui para que tenhas quando retornares.”

Era xingado pelos amigos por isso, mas não ligava muito. De certa forma, vivia num ascetismo bem caro e trabalhava em função dos livros, CDs, revistas e DVDs. Gastava um tanto também com jornais e tal, mas isso conseguia mais barato acessando à internet.

De quando em vez fazia uma extravagância como um computador melhor, uma televisão de plasma, uma caixa de som de ressonância perfeita, um armário mais resistente para os livros que pareciam procriar. “Basta juntar dois livros, um manto seco, trigo num canto úmido do porão que eles se multiplicam. Eles e os kobolds.” Enquanto isso, o sofá resistia bravamente apesar das manchas não-identificadas que se espalhavam como estampas; a cama que desistira da vida e cometera suicídio seis meses antes, por conta de uma estripulia sexual mal-finalizada; o banheiro que via limpeza nos meses ímpares, não terminados com 31; a cozinha que era um excelente viveiro de animais quase identificáveis. “Acho que deixei um sanduíche aqui, na semana retrasada.”

Desta feita, às sextas-feiras ele corria do trabalho, ansioso por chegar em casa para organizar os filmes que chegavam durante a semana e que metodicamente arrumava do lado do DVD player. Sentava o corpo que já doía e de quando em vez, cochilava. E desses sonhos nasciam histórias de saudades, amores e medos.

“Escreve essas histórias, cara. Você é super talentoso.” Dizia alguma das poucas mulheres que ainda se despiam das suas roupas e do seu tempo para ter prazer com o pouco prazer dele. “Você merece alguma coisa melhor, mais importante que isso.” Dizia uma das ex-esposas, às vezes era a mãe do menor, às vezes a do maior que nunca o visitava.

Ele resmungava e se fechava em copas, guardando para si o universo rico que germinava na sua mente.

Quando morreu, antes de fazer cinqüenta anos, seus filhos venderam os livros a peso, pegaram um ou dois discos que lhes interessavam e deram os restos das roupas, filmes e revistas para um burro sem rabo que passava por ali.

Foram parar num brechó junto com um caderninho velho, de capa dura, folhas amareladas, que fizeram chorar uma moça que se distraia enquanto o namorado experimentava um coturno de um para-quedista de dois metros de altura que morrera de diabetes num dos acampamentos de sobrevivência.

Pagou dois reais pelo caderno.

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System of a Down – Chic ‘N’ Stu

February 11th, 2004 § 0

This ballgame’s in the refrigerator,
The door is closed,
The lights are out,
And the butter’s getting hard.

What a splendid pie,
Pizza-pizza pie,
Every minute, every second,
Buy, buy, buy, buy, buy,
What a splendid pie,
Pizza-pizza pie,
Every minute, every second,
Buy, buy, buy, buy, buy.

Pepperoni and green peppers
Mushrooms, olive, chives,
Pepperoni and green peppers
Mushrooms, olive, chives.

Need therapy, therapy,
Advertising causes need,
Need therapy, therapy,
Advertising causes need.

What a splendid pie,
Pizza-pizza pie,
Every minute, every second,
Buy, buy, buy, buy, buy,
What a splendid pie,
Pizza-pizza pie,
Every minute, every second,
Buy, buy, buy, buy, buy.

Pepperoni and green peppers
Mushrooms, olive, chives,
Pepperoni and green peppers
Mushrooms, olive, chives.

Need therapy, therapy,
Advertising causes need,
Therapy, therapy,
Advertising causes need,
Therapy, therapy,
Advertising causes need,
Therapy, therapy,
Advertising causes need,
Therapy, therapy,
Advertising causes need,
Therapy, therapy,
Advertising causes need.

Well advertising’s got you on the run,
Need therapy, therapy advertising causes,
Well advertising’s got you on the run,
Need therapy, therapy advertising causes,
Well advertising’s got you on the run,
Advertising’s got you on the run,
Advertising’s got you on the run,
Advertising’s got you on the run,
Advertising’s got you on the run,
Advertising’s got you on the run,
Advertising’s got you on the run.

What a splendid pie,
Pizza-pizza pie,
Every minute, every second,
Buy, buy, buy, buy, buy,
What a splendid pie,
Pizza-pizza pie,
Every minute, every second,
Buy, buy, buy, buy, buy.

Pepperoni and green peppers
Mushrooms, olive, chives,
Pepperoni and green peppers
Mushrooms, olive, chives.

Need therapy, therapy,
Advertising causes need,
Therapy, therapy,
Advertising causes need,
Therapy, therapy,
Advertising causes need,
Therapy, therapy,
Advertising causes need.

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Amores de Verão

March 25th, 2003 § 0

Eu sei, eu sei. Não duram mais do que a marca do maiô os amores de verão, e lavarás meus beijos dos teus pés junto com o sal. E procurarás aquela concha que eu te dei na praia para lembrar de mim pra sempre e dirás “Ih, esqueci”, aquela concha com a minha vida dentro. Eu sei, eu sei, meu coração também não coube na sua mochila, ficou numa gaveta, junto com o protetor solar número 3 e o Harry Potter. Nos encontraremos na cidade e eu pedirei meu coração de volta e você dará um tapa na testa e dirá, “Ó cabeça” e dirá “Desculpe, viu Renato” e isso não será o pior. Nos encontraremos por acaso, não como combinamos, mas isso também não será o pior. Nada do que combinamos aquela noite na praia, sob aquela lua, com aquela lua nos seus cabelos, com seus cabelos fosforescendo sob aquela lua, nada do que combinamos naquela noite sob aquela lua acontecerá, e isso também não é o pior. Eu sei, eu sei, eu não esperava que nossos grandes planos dessem certo, o juramento de não voltar para a escola mas fugir para os Estados Unidos, cada um com o seu sonho e o seu inglês do Yázigi, e dar duro e ser feliz e só voltar famoso, você como cantora e eu, sei lá, como o melhor entregador de pizza do mundo, ou o plano de casar ali mesmo, o luar como grinalda, a espuma do mar como testemunha, a concha em vez de um anel e ninguém ficar sabendo, e ficar vivendo na praia ou voltar e ir viver juntos numa cobertura com piscina se nossos pais concordassem com o preço, para sempre, ou o plano de nunca, nunca mais, nunca nos separarmos. Mas pelo menos os planos menores, como a data certa para nos encontrarmos na cidade, na volta, eu esperaria que você não esquecesse, e você esquecerá, mas tudo bem, o pior não é isso. Nos encontraremos por acaso, meses depois, com o bronzeado desbotando, e você dirá “Desculpe, viu Renato” e eu direi tudo bem, quem precisa de um coração enganado, mesmo? Fique com ele, plastifique, use como centro de mesa, quem se importa? Eu já beijei os seus pés, eu já beijei todo o seu corpo enluarado, mas quem se importa? E direi: o pior, viu? O pior, o que dói, e doerá por muitos verões, é que meu nome não é Renato, é Roberto.
Luis Fernando Veríssimo

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O País dos Covardes

August 6th, 2002 § 0

Não abro mais a minha porta sem olhar pela câmera, falar pelo interfone e pedir RG e CPF.
Não olho as pessoas na minha rua, no meu prédio, sequer encaro meu filho adolescente.
Não compro uma arma porque ela pode se voltar contra mim.
Não ligo para a polícia porque posso “me sujar com o movimento”.
Fico amigo dos bandidos para que eles não me batam muito.
Não voto.
Não dou esmola.
Não ajudo.
Não ligo, nem retorno as ligações.
Não namoro mais.
Não trepo.
Não saio.
Não peço pizza, DVDs, água ou comida.
Sou um escravo do meu medo.
E, o pior, não estou só.

Que tipo de humano me torno quando opto por morar perto aos meus iguais, mas distante ao meu próximo?
Que tipo de vida eu pretendo ter, que tipo de cidade eu quero para mim?

Queria fazer um texto curto sobre a revolta que eu sinto com isso, de como nos transformamos em números, deixamos de ser pessoas para sermos coisificados, mas hoje, já não me importo mais.

Todas as vezes que tentei fazer algo diferente, que acha digno e justo, ganhei a alcunha de otário.
Me sentia um estranho, alienígena, um estrangeiro no meu próprio país.
Se defendo o que é justo, me chamam de sonhador, se brigo pelo que é certo, me chamam de bagunceiro, se cobro de quem tem de tomar atitudes, me mandam calar.
Eis a expressão de quem se instala no poder, no poder de fazer calar.

Mas ainda tenho um sonho, que não sou o único aqui que acha que esse chão é para mim e meus filhos e os filhos destes, que não acha que a melhor forma de viver é em cooperação com os outros, sem me aproveitar das fraquezas alheias, que existem outros como eu e que esses que me mandam calar, são apenas invasores, eles alienígenas de um passado que deveria já ter morrido.
Quero crer que a minha nação é de covardes.

Covardes porque não berram, como berram esses fanfarrões; covardes porque não lutam, não matam, como fazem esses assassinos, bárbaros; covardes porque não cobram, com medo.
Quero crer que sou mais um desses.

Nas lendas, sempre havia alguem que vestia as roupas de guerra e lutava pelos choros mudos, pelos gritos calados, pelas liberdades básicas negadas.
E a esse chamávamos de heróis.
Mas somos adultos, e sabemos que heróis não existem, a Terra dos Bravos é uma bazófia.

Que faremos então?

Um dos símbolos das legiões romanas era um feixe de palhas que, por simbolismo ensinado na alfabetização simbólica de todos nós, significa que, quando o Um é fraco, o Muitos torna-o forte.

Não sou herói, nem o seu bardo.
Só estou cansado de ter medo.

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Where Am I?

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