December 12th, 2008 §
A Lua – A importância de aquietar-se e fazer silêncio

Arcano 18 - A Lua
Neste momento, Zander, em que o arcano XVIII brota como carta conselheira, a recomendação veemente é a de que você procure se aquietar e não realizar movimentos. Existem fases em que a vida praticamente exige que “tiremos o nosso time de campo”, a fim de avaliar as coisas com maior inteireza e sagacidade. Você não está enxergando as coisas com clareza neste momento e, por isso mesmo, é melhor não agir do que tomar atitudes tolas que depois lhe conduzirão ao arrependimento.
Procure investigar seus sonhos e dar mais atenção à sua voz interior. Evite o contato com conselhos de outras pessoas, tente, ao menos por um tempo, voltar-se para o mais profundo de sua alma. Você poderá evitar muitos problemas futuros, a partir desta atitude. Na dúvida, afinal, o melhor é não agir.
Conselho: Momento de recuar.
do Personare
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January 28th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Que cara é essa, lindinho?” “Cara de cu. Sério, não tô bom para papo-chamego hoje não, Vivien.” “Ih… O que aconteceu agora? Acordou de ovo virado de novo?” “Antes fosse.” “Com essa cara, já sei que é coisa de mulher. Tem alguma sirigaita te enchendo. Alguma lurker nova deixando recados escrotos no teu blogue?” “Nada disso.” “Então está assediado por uma legião de bacantes enlouquecidas no cio que querem copular ensandecidamente até você cair morto?” “Não. Antes fosse.” “Qual foi, Bruno, se abre aí.”
Bruno se recostou na cadeira dura do boteco. Levou o chope quente à boca e sentiu voltar tudo . Não apenas o almoço errado de hoje cedo – ovos coloridos, lingüiça na cachaça e azeite, sanduba de carne assada – voltavam as recordações das noites passadas e uma inquietude que ele achava que tinha enterrado fazia uma década.
Olhou pra Vivien novamente. Ela estava sempre disposta a dar um chamego e chamá-lo para a terra quando ele teimava em surtar com o trabalho, a casa, os amigos e os amores. Era o seu porto seguro desde que se entendia como homem feito, dono de seu nariz. Só que agora uma vergonha impedia de contar tudo assim, de prima. Tinha de fazer um preâmbulo que não era de seu feitio.
Virou o resto do copo. Curvou-se com o estômago em fogo. Era o corpo pedindo o sossego que a alma de Bruno não dava.
Tudo começou numa quinta-feira. Um email de fotos da filha recém-nascida de uma amiga de colégio e várias pessoas respondendo, parabenizando-a. Carlinha estava na lista e ele não conseguiu deixar de notar. Reuniu toda a sua força de vontade e segurou longamente – sete minutos – a vontade de mandar um email. Já tinha se arrependido ao apertar o “enviar”.
Carlinha era a sua primeira paixão. A primeira namoradinha. Só que, nessa estranha relação, só ele namorava Carlinha. Ela o ignorava. Ou assim ele pensava.
Tá certo que eles iam sempre juntos para a escola. Que ela ia sempre à sua casa aos sábados para ouvir um disco novo que ele tinha comprado. Ou para estudarem matemática, ou geografia. Ou para comer bolo de chocolate quente com um copo de Nescau gelado. Ou para ficar de papo pro ar vendo tevê.
Normal que ele se apaixonasse por ela. Os hormônios, a proximidade e tal. Normalíssimo.
O problema é que ela andava mais na linha que bonde de Santa Teresa. Só ia namorar depois dos quinze anos, se namorasse alguém antes de entrar na faculdade. E era um tal de “para com isso” dali, e “tira a mão daí” de lá, um “deixa de ser bobo” daqui, ou um”assim não ando mais com você” de cá . O fato é que, por mais que ele tentasse se aventurar um pouco além, havia um medo de perder o pouco que já tinha.
Ele se contentava com bem pouco. Bastava ver aquele par de olhos azuis – sempre olhos claros – naquela moldura de cabelos loiros entrar na sua casa sem mesmo se anunciar.
Daí ele arrumou uma namoradinha adolescente e Carlinha deixou de fazer parte do seu dia-a-dia.
O tempo passou, ele tomou pau – duas vezes – na escola, trocou de turmas, voltaram a se ver quando tinham trinta e muitos anos. Ela deixou escapar que achava que o tinha namorado na escola. Bruno ficou de cara na mesma hora. O sonho dele era ter namorado Carlinha. Aquele namorico de adolescente onde as coisas eram todas implícitas, mas nunca executadas. Onde o sarro era o ápice sexual da relação. O soutien um alvo inatingível pelas mãos afoitas e famintas de gozo. Pensou melhor e, de repente, na cabeça de Carlinha talvez eles tivessem namorado mesmo. Talvez aquilo fosse o mais próximo de um namoro que ela jamais poderia se permitir aos doze anos.
Então ele viu o email de Carlinha e resolveu puxar assunto. Ela se confessou apaixonada por ele à época do colégio. Que a maior – ou a primeira – decepção amorosa dela fora ele ter começado a namorar a Dani.
Para Bruno aquilo fora um choque.
De certa forma sentia que aí era a principal raiz do seu maldito platonismo. Não arriscar o pouco que tinha em prol de algo que realmente queria. Entendeu que ficar na zona de conforto lhe custava caro, no fim das contas. Caiu a ficha de que ele era, de fato, um miserável emocional. Um muquirana afetivo. Um Tio Patinhas da paixão. De certa forma, fez bem pra seu Ego. Afinal de contas, nunca insistira no assunto porque sabia-se feio, nerd, pobre. Não via em si atrativo algum, apenas que estava do lado errado do espelho.
Vinte e muitos anos mais tarde, já sabia se relacionar com o próximo de uma maneira mais “real”. Ou quase isso. Dependia de mensageiros instantâneos, emails, blogues, flogues, para despertar o interesse no próximo. Olhava-se diariamente no espelho e via apenas um patético arremedo de ser humano. Nunca aprendeu a se amar. Obviamente era também um fracasso em amar o próximo. Quase que chegava às vias da misoginia. Ainda assim apostava nas estatísticas. Havia mais mulheres disponíveis que homens no Rio de Janeiro e algo acabava sobrando para si.
“Você é um bobo. É um homem interessante e sabe disso.” “Só você acha isso, Vivien. Quem eu quero não me quer. E quem me quer, me cansa.” “Maldita Vênus em Peixes.” “Maldito Marte em Capricórnio na doze e com quadratura com Sol e Lua que empata as minhas fodas inexistentes.” “Ha ha ha ha! Só você mesmo para fazer piada com o próprio mapa astral. Se eu tivesse uma combinação dessas, me matava.” “Por isso que eu aposto na Megassena.” “Como assim?” “Se eu ganhar a bolada principal, acerto a vida dos meus familiares e dos amigos mais queridos. Daí pego o que sobrar, me mudo para um puteiro e vivo uma versão pornô de ‘Leaving Las Vegas’” “Bobo. Mas conte mais. Você descobriu que ela era apaixonada por ti e…” “E nada. Ela tá casada – com um ariano! – e está feliz da vida lá. Eu é que não vou entrar numa história de mulher casada. É espeto!” “É batata!”
Ambos riram do sarcasmo que ele conseguia destilar nessas horas. Afora do drama – Bruno era uma verdadeira Drama Queen – ela sabia que ele era centrado o suficiente para não surtar com os desencontros e desamores. Já estava calejado. O problema é que ele não conseguia moderar a casca dura com a abertura para arejar os sentimentos. E tome chope quente em frente ao Tio Sam.
Na sexta, Bruno fui a uma festa. Show de rock numa casinha nova, uma alternativa à Lapa e ao circuito da Matriz. Uma banda instrumental só com baixo e bateria chamou a sua atenção. E a morena de olhos verdes que acompanhava as suas amigas também.
Já tinha sido advertido que ela era linda, simpática, inteligente, esperta e agradável. Só não tinham advertido ao rapaz que ela era apaixonante. E lá foi o babaca ficar de calças arriadas, fingindo ser blasé. Tipo menino que fez merda e disfarça demais.
“E daí, Bruno?” “Daí que me peguei fantasiando. Coisa que não fazia desde…” “Desde semana passada, né?” “É. Maior merda. Tentei abstrair. Tentei me embriagar, mas faltou uma projeção orçamentária para isso.” “Mas você tentou algo, ao menos?” “Obviamente não. Ela era linda, Vivien, e eu velho, pobre, feio, meio burro, desajeitado e barrigudo.” “E então…” “Bom, como dizia um amigo meu: ‘se você não faz, tem alguém que fará por ti.’”
E eles ficaram ali, no boteco, pensando na vida e na morte da bezerra. Que tinha olhos verdes, claro.
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March 2nd, 2006 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Ele estava ali, parado na avenida da vida, esperando as coisas acontecerem. Sabe como é? Se mexer muito, desanda e já tinha desandado muito do todo. Saído muito fora dos caminhos desenhados, negado o que era destino e queria ter inventado história para si mesmo. Sabia bem das cartas, das estrelas e das mãos. Sabia um pouco das rachas do casco de tartaruga, mas isso não importava. Todos diziam que o seu destino estava rachado, partido, e era obra dele mesmo.
“Tinha dito não quando deveria ter dito sim e o Carma” – ah o Carma – “ia carregá-lo de volta ao que era tido como certo, traçado.” “Mas se era certo e traçado, como poderia ter desviado do caminho?” Perguntava torto sem se entender na situação e nos próprios sentimentos. “Estava certo, mas não estava exato.” “Ah bom, agora entendo tudo.” “Pois faz mais sentido assim, não é mesmo?” “Não faz, mas entendo.” “Não importa, é inexorável e irresistível o teu destino.” “Por que sempre que se fala em destino e coisas afins, usamos termos que não cabem no dia-a-dia?” “Não me conteste, vil criatura. És apenas pueril espectador da transeunte efeméride.” “Você não disse coisa alguma.” “É verdade, mas isso também não importa. Vai lá e segue o teu caminho.”
E já ia saindo quando deu conta que não perguntou aquilo que queria. Foi enrolado com o palavrório do outro que se dizia dono do futuro. E nem falar com as conchas ele sabia. Voltou e encarou de frente enquanto o outro jogava dados.
“Ei. Eu quero perguntar uma coisa aí.” “Fala meu filho.” “Eu posso falar de mim para os outros? Falar dos amores errados? Das coisas que me arrependo, da memória que não quer ficar quieta? Das pessoas do passado perto que me surgiram no intermezzo das quietudes? e de como eu me comovo quando ouço o Beach Boys e lembro dela? E de que, mesmo achando que é tudo errado, que não tem de ser, que não há mais o que fazer quando as coisas chegam nesse estado, ainda sinto uma vontade enorme de correr à noite na beira da praia, do Posto Seis até o Leme e berrar: EU TE AMO. De que eu vi a merda de um futuro a dois e neguei-o por estupidez, surto ou desespero e todo dia, quando acordo, não sei se estou vivendo o meu destino ou o meu erro. E, por isso, tenho de sentar na frente de papel, pena e tinta e colocar o fígado do lado do copo até esvaziá-lo da bile, destilando o nanquim?”
Ele jogou os dados, desenhou algo que nunca faria sentido.
Disse: “Não. Cala-te.”
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January 13th, 2005 §
Mais uma vez troco o dia pela noite. Não o porquê ou o quê faria uma pessoa, nessa época do ano especialmente, trocar o silencio, a paz e o frescor de uma noite de verão pelo dia, quente, barulhento, dispersivo. Ah! Sim! Um tal de ritmo biológico que faz o ser humano ser uma criatura diurna, a despeito dos seis mil anos de civilização ou dos mais de cem anos de iluminação pública elétrica.
Mas o fato é que sinto uma atração irracional pela noite. Desde que me entendo por gente (ou seja, coloquei um salário no bolso e me senti mais independente, poderoso e sexy, respectivamente) prefiro trabalhar à noite que pela manhã.
Tive um professor de Matemática que, sabiamente, dizia que as manhãs foram feitas para os padeiros assarem os pães, os fazendeiros cuidaderem das roças e do gado e para os intelectuais dormirem. Eu colocaria na lista dos dorminhocos, os boêmios, os ociosos e os que lamentam a não-invenção do ar-condicionado portátil.
Sempre achei que o conjunto de fatores temperatura e quietude eram que me estimulavam a “virar” as noites, precisando ou não. Mas, ao raiar da puberdade, um pouco antes de me tornar gente (ainda vivendo de mesadas) descobri que as espinhas ficavam disfarçadas ante à luz mais escassa e que a libido feminina funcionava de uma maneira ligeiramente diferente, quando distante do formatório de semi-deuses apolíneos que é a praia.
Primeira digressão: apesar de nascido nos subúrbios do Rio de Janeiro, desde os oito anos moro em copa e, àquela época, os seres humanos do sexo masculino (praticantes ou não) usavam camisas à noite por uma questão de pudor inercial das gerações anteriores. Ao chegar à idade adulta, esse resquício civilizatório europeu-caucasiano foi caindo em desuso frente à exibição dos torsos masculinos (convictos ou não), definitivamente assumindo as influências indígenas ou africanas. Infelizmente esse hábito não se tornou comum para as meninas-mulheres do sexo feminino (independente da convicção ou prática) apesar delas tentarem subverter essa ordem latente reduzindo as camisas para tops e frentes-únicas afins.
Voltando, vestido à noite, disfarçava a minha magreza cadavérica e a minha tez hiper-alva, tentando tornar-me atraente aos exemplares do sexo oposto. Fui sempre infrutífero nessas empreitadas, mas, como um bom brasileiro da propaganda, nunca desisiti.
Passava as tardes de férias (saudades das férias de três meses…) na praia, debaixo de um guarda-sol tamanho maracanã, com protetor solar 50, camiseta, óculos (de grau) negros, chapéu de turista, cadeira dobrável, um livro debaixo do braço (O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do Saramago – pose de intelectual, né? Para dormir pela manhã), bermuda e Rider® nos pés. Acampava perto da quadra de futevôlei alugada pelo pessoal do prédio. As meninas ficavam na minha barraca e riam das minhas besteiras, da minha vulgata destilada, mas sexo, que era o motivador de tamanho esforço, necas de pitibiriba.
Se as manhãs eram proibitivas por conta do sono, as tardes infrutíferas (mais por conta da habilidade do caçador que da presença de caça), à noite a coisa mudava de figura. Para outros, com certeza. As meninas da praia dormiam cedo para não perder o sol da manhã. Barzinhos, shows, cinema, nunca. Teatro? Nem pensar! Uma vez estava passando Europa, do Lars von Trier, no saudoso Roxy (o único, o interiço e gigante cinema de Copacabana). Consegui convencer as meninas e alguns dos concorrentes a me acompanhar no evento. Nem preciso dizer que tive de passar boa parte do filme explicando o que estava a ocorrer. Nunca mais.
Mas o ser humano sempre procura um substituto para o sexo, quando esse não é realizado eficazmente, ou seja, com outra coisa que não seja a sua mão hábil.
E eu descobri o RPG.
Pois é. Noites a fio, criando aventuras para guerreiros, magos, sacerdotes, ladinos e afins por anos ininterruptamente. De novo, a incapacidade de resistir ao chamado do manto negro, frio e soturno. Mesmo quando as aventuras não se estendiam, arrumávamos algo a fazer nos bares ou mesmo na casa dos amigos. Com o advento do VHS, o cinema em casa às 2h30min virou um programa divertido. Com o Laser Disk então!
Quando estava para me casar, a norma vigente passou a ser as festas que acabavam quando o sol raiava, ou algo perto disso. Senti uma pitada de inveja, mas como estava já num outro ritmo (pai de família, trabalhador serviçal, tecnólogo de segunda) apenas acompanhei a mudança da juventude ainda bronzeada. A noite, para mim, passou a servir para aquilo que não conseguia fazer durante o dia: dormir. Mas isso durou pouco.
Na rotina de pai, a noite passou a ser entrecortada por um vistante querido, que insistia em não respeitar as convenções milenares de descanso e atividade. Digressão segunda: em verdade, quem sofreu mais com isso foi a mãe, eu descaradamente perguntava a ela se precisava de ajuda ou se queria que eu desse de mamar ou algo parecido. A mãe, dotada de uma sabedoria que acompanha o firmware de todas as criaturas que têm a capacidade de parir, sabia que: em eu colocando a mão no bebê, desastre eram certos. Ou o cocô voaria em direção à cama, ou o leite queimaria a criança, ou (o horror!) deixaria a miúda cair ao chão. Resultado: eu acordava, resmungava algo, a mãe me respondia que não precisava e eu voltava a dormir.
Com a minha filhota mais crescida e acostumada a dormir nos horários ditos corretos, a noite me ficou reservada para outros vícios torpes (o RPG estava confinado aos domingos, os bares às sextas ou quintas, cinema aos sábados, VHS todos os dias). Comprei o meu (único) modem de 33.600 e, ligado ao meu velho PowerMac 7200/90, desbravava a internet nos idos de 98.
A noite acabou se tornando o momento em encontro o grande nada que é o choque entre o que eu quero vir a fazer e o que acabo produzindo de fato. Não que todas as noites sejam improdutivas, disperdiçadas. Algumas até rendem uns textos mal redigidos ou umas saudades nostálgicas de quando eu queria apenas desfrutar de um silêncio e um frescor raros na cidade.
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March 8th, 2002 §
Até o início da semana, eu estava ensandecido, querendo quebrar minha vida em cacos, e soltá-los ao vento (é claro que após moer bem e servir bem quente, com biscuits de avelã), mas, eis que a calmaria chega. Começo a ver as coisas com mais clareza (apezar da dureza que me acomete ao banco) e me concentro mais no dia-a-dia.
Me disseram que tenho o talento para dizer o óbvio. E que para fazê-lo preciso perceber o que ocorre abaixo da superfície.
Não creio em profundidade. Creio em aparências e essências.
Na verdade, não tenho fé em nada (“A fé é a crença ilógica na ocorrência do improvável.” – Ambroise Bierce), tenho apenas certezas absolutas.
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