September 10th, 2009 §
O menino acordou ainda zonzo e ressacado da farra. O quarto ao seu redor era desconhecido, mas definitivamente de um motel de primeira. Os quadros eram de uma breguice elegante, os lençóis macios e suaves e cheirava a lavanda e não a um spray odorizante qualquer.
Checou a carteira na mesa de cabeceira, os envelopes de camisinha (dois abertos, quatro fechados) espalhados no chão, a chave de casa, o celular desligado (bateria descarregada), a cama desarrumada dos dois lados, as roupas (suas) na entrada, no pequeno hall entre a porta e o banheiro, os roupões largados no chão, a poça de água no chão que denunciava a bagunça no banheiro cuja porta cerradíssima escondia, as janelas com blecaute fechado que impediam-no saber que horas eram, a televisão desligada, algumas cervejas abertas, pratos sujos na paródia de mesa de jantar com dois lugares onde se divertiram pela derradeira vez.
Do seu lado, o vazio da despedida.
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September 2nd, 2009 §
Ele saiu do bar carregando a menina debaixo de seu braço. Equilibrava-se entre sua bebedeira, a menina como contrapeso, a garrafa de cachaça como bússola.
Se jogaram dentro de um taxi que mal ouviu o destinho. Praça da Bandeira, motel Gallant. Mãos, bocas e sexo viraram um no banco de trás do carro de praça. O motorista fez que via e seguia. Vinte reais, de Copa. Mais cinquenta pro pernoite. Seis horas depois, o sol nascia ressacado.
É a vida fazendo sentido.
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April 25th, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Hipócrita (do dicionário Houaiss)
que ou aquele que demonstra uma coisa, quando sente ou pensa outra, que dissimula sua verdadeira personalidade e afeta, quase sempre por motivos interesseiros ou por medo de assumir sua verdadeira natureza, qualidades ou sentimentos que não possui; fingido, falso, simulado
Etimologia: gr. hupokritês,oû ‘o que dá uma resposta, esp. intérprete de um sonho, de uma visão; adivinho, profeta; ator, comediante; velhaco, hipócrita’;f.hist. sXIV hipocrita, sXIV ipocrita, sXV ypocrita
Ele tinha uns quarenta anos e muitos anos. Pele queimada de sol. Acima do peso. Cabelos oleosos e curtos. barba aparada. Camisa azul, passada, dentro das calças bege, justa à cintura com o cinto marrom claro, combinando com o sapato. Não usava óculos. Não tinha manchas de gordura ou suor. Não tinha marcas visíveis no rosto ou no braço.
Eu olhava para a menina que sentara ao meu lado. Cabelos curtos, perfume doce, olhos com rímel ou delineador, macacão bege que terminava numa bermuda que expunha as coxas, os joelhos, as canelas e a bota marrom. Bonita moça. Ouvia música no tocador de emipetrês genérico que carregava entre ambas as mãos.
Estancou-se junto ao motorista e deslanchou a sua ladainha. Não comia desde a manhã. Só tinha tomado um copo d’água como almoço e estava levando mais um monte de nada para casa. Tinha filho e família para alimentar. Família, a qual, em nada ajudava a resolver a situação. Estava desempregado, obviamente. Disse que não sabia o que iria fazer no dia seguinte. Disse que não sabia se iria um dia seguinte.
Nesse momento prestei atenção. Dizia algo sobre a morte da mãe, que morrera sozinha, deitada na cama, em silêncio. Dizia que estava desesperado, que não sabia mais o que fazer da vida, que não arrumava emprego, que não arrumava trabalho, que sequer arrumava dinheiro das pessoas que o olhavam em todos os cantos do ônibus. Menos na cara. Ninguém o olhava na cara.
Eu já perdi uma pessoa que amava. Perdi-a antes de conhecê-la. Uma noite e meia sem notícias da promessa de vida que mudara totalmente a minha vida. E eu, arremetido a uma função de alimentador de papel numa bandeja de impressora colorida, beijei os pés do desespero. Olhei de baixo para cima para seu rosto desfigurado e entreguei a minha vida aos outros.
O desesperado não planeja. O desesperado não pensa. O desesperado apenas age. É levado de canto a recanto pela vida que ele não controla. Ou melhor, desistiu de tentar controlar. É uma bóia no meio de uma ressaca histórica. De certa forma, somos uma legião de desesperados, um ônibus cheio de desesperados que são levados para um destino conhecido, mas em roteiro e tempo implanejáveis.
Entreguei dois reais não por pena, mas com a vã esperança de vê-lo se calar. Colocou a nota no bolso sem agradecer. Olhei seus olhos e reconheci a minha face de doze anos atrás. Eu olhava os papéis entrando na impressora e só me desligava do processo quando a diaba teimava em engasgar, em dizer: “Atenção, homem. Você ainda está vivo. E eu também.”
Ele não se calou. Aproximou-se da catraca e continuou sua liturgia ignorada. As pessoas se desviavam nos próprios lugares constrangidas e ele procurava os olhos que corriam no chão, nas janelas, fechados em pálpebras. Não os encontrou. Repetia a história da morte da mãe, do desemprego, do copo d’água que tomara no almoço, no fim incerto que teria no dia seguinte.
A menina do meu lado aumentou o volume do aparelho de som portátil. Fiz o mesmo. Parei de ouvir o discurso. Preferi os The Beatles urrando alguma música que já nem me lembro. Talvez fosse um grupo fazendo um cover ruim de Getting Better. Não importa. O ônibus comia horas em metros.
Ele repetiu: “Não sei o que será de mim amanhã”. Pensei: “Só espero que ele não atrapalhe o tráfego.”
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December 3rd, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Nasce o sol.
Sento-me, com esforço, à beira da cama desarrumada, desfeita e ainda úmida da atividade noturna intensa. Das oito horas de sono que a constituição me garante, parece que usufruí menos de cinco minutos. Confiro o relógio. Há doze jazia no leito. A cama, rente ao solo, não permite que as pernas pousem confortavelmente no chão. Volto a deitar-me só. Eu e meus outros eus.
Dobro-me por sobre o meu ventre. Ajoelho no colchão como se pagasse as promessas das vidas alheias. Como se me submetesse a um rei invisível, uma entidade superior e impossível de ser ignorada. Ajoelho-me, tremo, suo como se tivesse corrido a mãe de todas as maratonas. Curvo-me mais, como se fosse possível atravessar as barreiras de carne, pano, madeira, tijolo e cimento que se projetam à minha frente. Que barreiras?
Não há nada sobre meus ombros mas sinto o peso do mundo a vergar-me. A pressão de centenas de vidas, uma dor ancestral, um sofrimento atávico, faz com que eu me humilhe e peça, entre lágrimas que descem sem censura, que tudo acabe logo. Que se encerre esse sofrimento, essa laceração da alma. Que haja um fim, por fim.
Mal entendo meus próprios pensamentos. Tudo que me vem é o meu eu que, de multipartido, se reúne para socorrer minha sanidade. É como se todo o meu corpo falasse ao mesmo tempo. Todas as partes de mim que, diariamente são mudas, agora berram, suplicam a atenção do mundo. Meu corpo fala e a mensagem que carrega não é bonita
O coração ressoa tão alto que se confunde com o meu resfolegar. Sinto-o no pescoço, nos pulsos, na dobra de minhas pernas que começam a se enrijecer e a ficar dormentes. Sinto-o no ventre: no estômago que pinga o ácido venenoso que faria Loki arrepender-se dos pecados contra os Aesires; no fígado que se recusa a regenerar-se e me lembra dos excessos da vida libertina que eu tentei – inutilmente – impingir a mim mesmo por essas décadas a fio; no baço que simplesmente dói a troco de nada; nos rins que me lembram de suas pedras e das refeições hiper-temperadas que comi por todos esses anos; na bexiga que se contrai e faz arder a urina que excreto; nos intestinos que se revoltam e disparam gases e me lembram do que tenho de mais puro e límpido dentro de mim. Sinto-o na gordura do meu corpo, na pele, nos músculos retesados, na fronte do meu rosto, no tremor das minhas mãos. Ele bate como se quisesse pedir demissão do cargo. A caixa peitoral não o contem mais e explode a cada minuto, explodindo em sangue, ossos e pulmões. Confiro, desesperado, se o diabo continua lá. Infelizmente, sim.
Súbito, a agonia se vai e consigo arrastar-me até a sala. Espero hora e meia e durmo no sofá que me recebe como mãe carinhosa, acolhendo e confortando. Ao acordar, o sol já se pôra novamente e o telefone me convida para a vida que multiplica a minha. Estou inteiro, operacional, e já penso nas máscaras que terei de usar àquela noite. Nos sorrisos que desfilarão na minha boca, nas expressões que aprendi a modelar na minha cara para atrair os meus dessemelhantes. Haverá álcool, sexo e música e eu serei mais um ator dessa vida de entretenimento. Antes de voltar para casa, serei centenas de pessoas, compartilharei momentos das minhas vidas e das de outros. Contudo, só reconhecerei no espelho aquele que suava, esperando o último suspiro ressacado.
A dor é a única coisa que traz o homem para a sua unidade.
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February 23rd, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Mas eu não entendo o porquê de você ficar assim tão macambúzio, rapaz. Afinal de contas, é Carnaval!”
Bruno deixou escapar um sorriso amarelo e, dentre os dentes, respondeu que estava de ressaca da noite anterior. O Carnaval para ele era apenas mais um feriado quente no início do ano e que, eventualmente, coincidia com o Ano Novo chinês. Inclusive, era esse o caso.
De certa forma, podia-se dizer que ele estava enchendo a cara desde o ano passado. Achava um saco essa coisa de desfile de escolas de samba e só tinha simpatia pelos blocos que ficam só na “concentração”. Como eram poucos – e bons – o seu circuito carnavalístico era bem limitado.
Anderson já era o oposto. Só parava no boteco para recarregar as baterias e colocar em dia a lista de foliãs abatidas pelos amigos. Já estava se preparando para levantar e partir pro Bip-bip quando viu que Claudinho se aproximava.
Alan era um moderado. Não dispensava uma farra, mas não morria de amores pelas aglomerações que o Carnaval estimulava. Decerto, as fêmeas em fúria uterina e a cerveja farta eram atrativos que o mantinham na atividade, a despeito do calor senegalês que o Rio de Janeiro é submetido no fim do verão.
“Desce uma gelada, Juvenal. Qual é o babado, rapaziada? Bruno, que cara de cu é essa? Ainda com dor de corno?”
Dessa vez ele engoliu o sorriso amarelo para mostrar os dentes brancos bem desenhados. Custaram uma fortuna, dissera uma vez, mas derretem o coração de qualquer menina desavisada do canalha devorador de gente que morava atrás da arcada.
“Dessa vez, não. Chicão nos dará a honra da sua presença? Ou está enrolado com uma qualquer por aí?” “Provavelmente, cara. Aliás, decerto”. “E Claudinho, Alan? Ainda em lua-de-mel com Elisa? E os nerds dos infernos? Quais as novas da galera?” “Sem novas. Sim, Claudinho tá lá marcando o território. Gordo foi pra França, Burro tá trabalhando”. “Se ferrou o mané!”. “Pois é, Bruno. E o Grande tá em Petrópolis. Eu, dado o interesse manifesto de vossas senhorias, estou em guerra ampla, geral e irrestrita”.
Os três riram e brindaram aos amigos ausentes. Aos “vencidos” na batalha dos sexos, aos que partiram do exército dos solteiros e se alistaram na tropa dos casados, enrolados, amarrados e afins. Fizeram um brinde, mais tímido, aos que “trocaram de time” efetivamente, aumentando as chances de cada macho disponível e praticante do heterossexo de, de fato, fazê-lo.
Bruno, findas as libações, cerrou o cenho novamente e se fechou em copas. “Bruno, o que há?” Olhou para a cara de Alan. Olhou para o relógio. Lembrou das bebidas da noite passada e lembrou que a única ressaca que tinha, naquele momento, era a moral. Virara a madrugada entre as pernas de uma menina quinze anos mais nova e, apesar do troféu conquistado, sentia-se impuro. Como se tivesse cruzado uma linha amoral.
“Qual a idade da menina, afinal?” “Vinte e um, Anderson. Vinte e um aninhos.” “Já era mulher?” “Sim, e como.” “Então? Qual o problema?” “Eu nunca mais terei vinte e um. É esse o problema.”
Dito isso, olhou novamente para o relógio e viu que uma linda moça, de cabelos negros, olhos amendoados e verdes – sempre os verdes olhos – se aproximava. Se beijaram. Os colegas saudaram a chegada da beleza que a Quaresma anunciava.
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December 22nd, 2006 §
Pois é.
Depois de ter ganho um CD do Kenny G e o primeiro livro do Bill Gates, prometi a mim mesmo nunca mais entrar nessa coisa de amigo oculto. Não que seja chato ou me coloque em encrencas, mas normalmente é isso mesmo.
Amigos recentes e queridos me convidaram a participar de um amigo “secreto” (argh!) diferente, onde postaríamos alguma coisa para uma um de nós.
Acho que o mecanismo está bem claro na cabeça, né? sorteia-se alguém e escrevemos/desenhamos/fotografamos algo para esse alguém.
Bom, vou manter aqui duas tradições dos amigos ocultos: a primeira é descrever quem eu tirei.
“A pessoa que eu tirei (ou com quem eu saí, de acordo com algumas regiões de nosso Brasil) é uma menina e tem poucos, pouquíssimos anos. Ok. Quem é da lista já sabe, quem não é (os robôs de busca e os poucos visitantes regulares desse blogue). A minha sorteada é Samantha McCartney.”
E, seguindo a segunda tradição, vou pegar um presente antigo e passar à frente. Ou seja, vou representar um texto daqui. Sei que é infame, mas tenham paciência com esse decrépito que passou o dia de ressaca da farra de ontem.
futuro
Um dia hei de conseguir ser:
- mais forte, para poder saber quando ceder;
- mais bravo, para poder saber chorar;
- mais virtuoso, para saber quando errar.
E, nesse dia, não terei mais as amarras dos meus medos,
os grilhões das minhas incertezas,
as grades das minhas dúvidas.
Serei certo e exato.
zander catta preta
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Update: Ganhei post-presente!
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Brincadeira de post secreto, sugerida pela Lilhá e topada pela Blogagi. Cliquem nos links e descubram quem mais participou da brincadeira.
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November 10th, 2006 §
texto publicado em LIVinRooom
publicado na Tribuna da Imprensa
Ela chegou em casa e ligou o micro quase como um ato de desespero físico. Queria algo para se ocupar que não envolvesse álcool, tabaco, música alta para dançar e homens despidos. Ali ela podia, enfim, degustar a exaustão que o fim de uma festa proporciona. Parecia que a fadiga de anos torcia qualquer expressão naquela hora. Não sorria, nem chorava, tampouco se entendia com o que o corpo pedia. Estava à beira de um divórcio consigo mesma. Talvez fosse uma maldita TPM fora de hora ou o resto de um mal estar com a comida do bandejão da empresa. Ou então a maior ressaca moral de sua vida.
Enquanto tirava a roupa se lembrou de diversas situações erótico-engraçadas. Nenhuma dessas envolvia os rapazes que devorara recentemente. Assustou-se quando viu que a maior parte deles era com o Claudinho, amante de priscas eras. Ele, definitivamente sabia entreter uma mulher por bastante tempo. Por dois anos, de fato.
Colocou as mãos entre as pernas e lembrou-se, delicadamente, dele. A ardência da atividade do feriado estendido fê-la lembrar de quão animados, curiosos e criativos eles eram. Viviam colados e transavam em toda e qualquer oportunidade que a vida lhes dava. E, saibamos que a vida dá muitas oportunidades para sexo de entretenimento quando se tem vinte e poucos anos.
Soube que tinha extrapolado os limites quando fez a conta mental e realizou que tinha se deitado com o terceiro homem diferente em apenas um feriado estendido. Só não era algo digno para entrar no livro dos recordes porque sabia que Amandinha tinha feito dezesseis num carnaval passado.
Entrou no banho e deixou que a água morna lavasse o suor de três dias de farra acumulada. Depois tapou o ralo da banheira e sentou-se sob o chuveiro, esperando que a água chegasse à borda. Derramou um pouco de sabonete líquido na água e fechou os olhos para relaxar em cozimento leve.
Sentiu latejar mais uma vez, mas ignorou. Conferiu mentalmente se tinha usado camisinha em todas as vezes e supôs que sim. É claro que sim! Com certeza! Espero. Será? Iria conferir com os rapazes após acordar do sono de beleza, algumas horas depois.
Acordou ainda ressacada, ao meio-dia. Brigou com o travesseiro e os lençóis que não a deixavam ter o sono entorpecido sem sonhos. Imagens caleidoscópicas lhe fizeram doer a cabeça e a luz do dia pleno em nada ajudava. Xingou os fabricantes de cortinas vagabundas que a convenceram a dispensar o blackout que a defenderia desses infernais momentos. Abençoou os inventores do ar-condicionado quando se levantou para trocar a regulagem do mesmo de “muito frio” para “frigorífico caseiro”.
Caçou quatro aspirinas na gaveta e catou um copo de água na cozinha. Encheu-o de coca-cola e se arrastou como moribunda pela quitinete até voltar ao longínquo quarto gelado. Engoliu os quatro como se fosse uma panacéia universal e tentou dormir mais uma vez.
Quando a enxaqueca já anunciava que tinha comprado as passagens de ida para a terra das lembranças dos males que o álcool faz, o telefone tocou. Elisa acordou de supetão e ficou encarando o celular como se não acreditasse no que estava acontecendo. Tocou duas, três vezes e parou. Não era o Cláudio. Obviamente não. Fazia mais de ano que eles tinham tido o seu último revival. Tocou novamente. Ana. “Mulher. Tu não sabe quem eu acabei de ver aqui na praia!” “Hmmm.” “Claudinho!” Putaquepariudequatro.
“E sabe por quem ele perguntou?” “Hmmm.” “Por você, amiga! Esse homem não te esquece, boba! E aí… noite boa ontem?” “Depois te ligo, Ana. Beijo. Te adoro.”
Desligou rapidamente, jogou o aparelho no pé da cama e ficou encarando o Nokia rosa. Dormiu oito horas seguidas e ligou prum dos bofes para mais uma rodada de esquecimento fácil.
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February 7th, 2006 §
Perdi Alice porque ela me achou baixo. Perdi Lisa porque minha língua mancava na infância. Perdi Rita porque era seu melhor amigo. Perdi Gisele para meu melhor amigo. Perdi Renata porque ela mudou de estado. Perdi Ivana porque escrevi cartas de amor e não tive coragem de mandar. Perdi Maria por um apelido. Perdi Fátima quando pichei o muro de sua residência. Perdi Caroline porque fumava. Perdi Sandra ao perder seu livro de Português. Perdi Débora ao pedir cola. Perdi Rosa pela asma. Perdi Cristina pela catapora. Perdi Rose porque troquei de escola. Perdi Josélia por não aprender inglês. Perdi Viviane porque não jogava vôlei. Perdi Marisa na parada de ônibus. Perdi Carla ao buscar cerveja. Perdi Cristina quando demorei a dançar. Perdi Cristiane por um surfista na praia. Perdi Estela no fim de uma festa. Perdi Bruna ao atravessar a rua. Perdi Luciana por não telefonar. Perdi Laura ao me casar. Perdi Ângela por ela estar casada. Perdi Márcia por não insistir. Perdi Mariana por insistir. Perdi Sonia na fila do banco. Perdi Marta por não puxar conversa. Perdi Cíntia ao ir ao banheiro. Perdi Lisiane por sono. Perdi Lisa por ressaca. Perdi Manuela pelo mau humor de manhã. Perdi Amanda por insegurança. Perdi Janete por excesso de confiança. Perdi Bárbara em um filme polonês. Perdi Bianca pela falta de cabelos. Perdi Fernanda porque ela não gostava de barba. Perdi Janete pelo jogo de futebol. Perdi Dulce por ciúme. Perdi Teresa por duvidar dela. Perdi Gabriela por criticar suas músicas. Perdi Fabrícia pelo nome parecido. Perdi Paula ao odiar seus pais. Perdi Deise para meu irmão mais velho. Perdi Cátia para meu irmão caçula. Perdi Denise ao não segurar sua mão. Perdi Ester pelo atraso. Perdi Flávia porque ela queria ter filhos. Perdi Tamisa porque eu queria ter filhos. Perdi Tânia quando ela trocou os graus de seus óculos. Perdi Joana para sair com os amigos. Perdi Milena por fazer pouco caso de sua dor. Perdi Geórgia ao comer de boca aberta. Perdi Regina pela solidão. Perdi Vitória por fofoca. Perdi Jordana por não suportar discutir o relacionamento. Perdi Lídia porque ficava em casa. Perdi Beatriz porque não voltava para casa. Perdi Elisa porque envelheci a fé.
Perdi mulheres pelas dúvidas que recebi de minha mãe e deixei para resolver depois. Perdi mulheres pela teimosia em antecipar as falas. Perdi mulheres por acreditar que eu amava o suficiente. Nunca é suficiente. Perdi mulheres ao mentir que não trairia. Perdi mulheres para me fazer de vítima. Perdi mulheres porque em algum momento não estava em mim e coloquei travesseiros debaixo da coberta e fingi dormir enquanto fugia.
Perdi mulheres por descuido. O homem é um descuido.
Fabrício Carpinejar
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January 15th, 2006 §
“Não acho que você tenha de ficar ligando para ele a cada dez minutos. De tanto insistir, você pode acabar perdendo o que já conquistou.”
Era sempre assim, ela contava o que estava acontecendo com os casos, peguetes, rolos, namorados, namoridos e afins e ele tinha sempre o conselho correto.
“Mas ele é frio comigo.” “Pode ser timidez. Ou saco cheio. Você é uma pela-saco, né?” “Não fala assim comigo.” “Mas é verdade. Ou você segura muito o jogo com o carinha ou se arreganha logo de primeira. E não tõ falando de sexo.” “Porra! Você é muito grosso.” “Sou não. Um filho-da-puta, talvez. Mas sou sincero contigo e você sabe disso. Ou não estava aqui me pedindo conselho, fazendo o meu ouvido sangrar de tanta aporrinhação com os teus homens.” “Assim parece que eu sou um estorvo para você. Parece que eu te ligo só para encher o teu saco.” “E não é? Quando foi a última vez que você me chamou para um cinema ou a um teatro. Ou mesmo para um chope ou um café?” “…” “Pois é. Só sirvo mesmo para teu conselheiro sentimental. Você só não é pior que a outra, que só me liga para resolver problema de computador…” “Poxa. Assim fico chateada.” “É bom ficar mesmo. E aproveite dá um tempo pro carinha te procurar. Se ele estiver a fim, vai atrás de você. Deixa o outro correr solto. Afinal de contas nem namorando estão. Tão só na fase do ‘conhecendo um ao outro’.” “Ok.”
Deu dois dias sem perturbar o “peguete” que ligou regularmente e ficou tudo às mil maravilhas por mais seis semanas quando ela desencanou dele e já ia ligar pro amigo- confidente- grosso- que- só- sabe- dar- patadas- que- tá- sempre- certo quando resolveu desenterrar da agenda uma amiga de priscas eras: Carlinha.
“Querida! Quanto tempo!” “Pois é, você fica aí agarrada com o teu macho e eu ainda na guerra!” “Chope calcinha hoje? Dou um balão no mané e partimos pro álcool sem limites!” “Péra que vou ligar para a Martinha e a Ana e vamos pro Devassa!”
Chegaram, beberam, deram vexame, falaram bem dos homens da mesa ao lado e mal dos que dividiam suas camas, contaram do passado e mentiram sobre o futuro, quase foram expulsas por conta dos berros e dos palavrões. Um chope-calcinha perfeito. Na saída foi desovada em casa pela velha amiga. Subiram para tirar água do joelho.
“Nunca entendi essa expressão, Carlinha.” “Nem eu, amiga. Mas eu preciso senão o meu carro vira um bote.”
A amiga aliviou-se e foi para a sala. Ela já tirava o sapato e preparava dois copos de gim com soda limonada.
“Amiga, você quer me embebedar, é?” “Bêbada você já tá. Vou é dar jeito para que você não pegue de novo no volante. Quase me matou da Barra pra cá. Dá para você dormir no sofá daqui de casa na boa. Só liga pro teu bofe.” “Ligo porra nenhuma! Aquele filho da puta deve estar na cama de outra vagabunda!” “Menina! Que é isso? Não faz assim! Ele te ama, tá na cara!” “Ama nada! Também tô pouco me fudendo para isso. Temos um acordo em casa. Ele não me aporrinha e eu não encho o saco dele.” “Que merda.” “Nem é. Melhor assim que solteira na guerra. Não me leve a mal, Ângela, mas eu não tenho mais paciência. Todo cara tem um ou outro defeito. Deixei passar uns bons, fiquei tempo demais com uns muito ruins. O Iuri é galinha, mas vai sossegar.” “Desculpa amiga, mas eu ainda prefiro me arriscar e errar.” “Tudo bem. Sei que você é teimosa mesmo.”
Acordou na sala com a mãe de todas as ressacas. O telefone tocava e era o amigo-confidente-etecetera-etecetera.
“E aí sumida. Como você nunca me chama para porra nenhuma, te chamo para almoçarmos no Parque Lage. Topa?” “Não beibi, tô com uma ressaca monstruosa e a Carla tá aqui comigo.” “Ah! Ok. Então fica prá próxima, tá bom?” “Espera. Me responde uma coisa.” “Fala… lá vem bomba.” “Nem é. Olha só. Por que você tá sempre certo?” “Hein?” “É. Por que você está sempre certo nas coisas que fala para mim?” “Uai. Eu te disse isso. Sou o dono da verdade. Eu estou SEMPRE certo, não erro.” “Para de babaquice.” “Não é. É a minha sina. Mas você nunca quis saber disso, né?” “Você bobo.” “Nem sou. Você é que nunca quis me conhecer de perto, a fundo. Mas isso é história de cinco anos atrás quando eu te cantei pela primeira vez e levei um toco homérico.” “Foi? Nem lembro.” “Pois é. Bom. Quando estiver recuperada da ressaca ou da amiga, me liga.” “Beijo.”
Rolou pro lado para tentar dormir. Empurrou a amiga com a bunda para arrumar mais espaço no carpete. Fritou ali por dez minutos antes de decidir tomar um banho, vomitar e engolir uns comprimidos.
Preparou o café da manhã e esperou Carlinha acordar. Pensou na vida que ela levava e se lembrou de como o conheceu. Nas festas de Martinha sempre tem carne nova e interessante. Ô mulher para conhecer homem. Ainda bem que ela é gay. Ainda bem que nem todos os amigos também são.
“Oi. Meu nome é Hermes, tudo bom?” “Ahahahahahaahahaaha! Você vende calcinhas pelo correio?” “Haha! Não. Só tive o azar de ter nome de deus grego. Ou não!” “Só o nome, né?” “É. Quase. O corpo deixa um pouco a desejar.” “Hahah. Você é bobo!” “Você diz isso porque não me viu só de meias. Ainda.” “Hahahahaha. Nem vou.”
Aí começou a amizade. Ele realmente não era nenhum Apolo, mas não era nenhum Quasímodo. Não era rico, mas tinha um bom emprego – “trabalha com livros ou com programas de computador ou uma lojinha.” Apesar de sempre andar duro da silva sauro, freqüentava os lugares da moda, sempre tinha um livro debaixo do braço e sempre, por mais irritante que fosse, sempre estava certo em tudo que ela teimava em discordar.
Cantada? Ela não se lembrava disso. Se bem que já pegara ele perdendo o olhar em um decote seu ou de uma olhada mais assertiva quando ele contava um caso. Se bem que ele pouco falava de seus casos. Ao menos não citava nomes e tal.
Olhou para a amiga, ainda inerte no mesmo canto de quando se deitaram para ver o devedê da sexta temporada de Sex and The City, abraçada ao que restou da garrafa de gim. Olhou para o telefone e ligou para ele: “Oi. Te encontro em trinta no Parque Lage.”
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