Que 2008 tenha exatos 366 dias

December 25th, 2007 § 8

Pois é de seu direito, como ano bissexto, de tê-los – cada um com um nascer e pôr do sol – e que cada em cada dia seja respeitado o direito cósmico de se ter vinte e quatro horas e que cada hora tenha apenas sessenta minutos.

Já faz tempo que insistimos em ter mais horas que o dia nos dá, mais dias que as semanas comportam, mais semanas que os meses e mais meses que o ano. E cada hora dessas que insistimos em multiplicar diariamente tem de ser cada vez maior e mais extensa, transbordando os sessenta minutos que tradicionalmente lhe cabem. Sem falar nos “minutinhos” que insistem em se transformar em centenas de segundos a fio.

Então esse é o meu desejo para 2008: que saibamos respeitar os limites do tempo e saibamos viver cada minuto, cada segundo da melhor forma possível e não inventemos mais atividades para cada hora que nos tire o sossego e o bater compassado do coração.

Porque cada minuto que se vai, não volta.

Bom 2008 para todos nós com todos os trinta e um milhões e seiscentos e vinte e dois mil e quatrocentos segundos que nos cabem nessa revolução solar.

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Reveillon e revelações

January 15th, 2006 § 3

Catinha passou o Dia de Ano comigo. Aliás, comigo não, com a avó com quem tem uma xipofagia afetiva. Tem várias histórias dessas duas, mas é para outra hora. A história de hoje é que a Catinha estava toda cheia de si com o vestido branco novo, feito por encomenda à costureira da casa. Toda prosa, toda princesinha para ver os fogos de Ano Novo à praia de Copacabana.

Dando onze e meia, a mesma rotina anual: xinga-se os elevadores como culpados das pessoas quererem sair no mesmo horário, xinga-se a multidão como se não fosse ela o motivo pelo qual a festa ser cada vez mais bonita e grandiosa, xinga-se a chuva que ameaça e não cai.

“Tá vendo, Catinha? É bom xingar o céu que evita a chuva de cair.” Diz o pai orgulhoso de revelar uma verdade científica para a filha.

“Você é tão bobo, papai.” Responde a filha, desmontando o pai que, de fato, é bobo.

Atravessa-se o mar de pessoas semi-alcoolizadas, desvia-se de cacos de vidro, arruma-se um local à beira-mar para assistir com conforto aos fogos desse ano. Espera-se a contagem regressiva em uma contagem desordenada da população.

“Dez, nove, oito…” Abre, espumante, abre! “sete, seis…” Cacete! A merda da espumante não quer abrir! “cinco, quatro…” POP! DROGA! Estourou antes da hora! “Três, dois, UM!”

Ê!

Daí banho de espuma em todos da família, da bisavó que desvia atrás do tio mais alto, aos “agregados” do ano que começam a cumprimentar a todos em volta.

A avó coloca a neta nos ombros e para que ela veja melhor o show pirotécnico. Daí uns minutos de esporro coordenado e clarões no céu, noto que Catinha está soluçando. Chego perto e ela aos prantos. Desço ela dos ombros da avó preocupada, coloco-a no meu colo.

“Tá com medo dos fogos, minha flor?” Ela faz que não com a cabeça.

“Tá com saudades da mãe, lindinha?” Ela faz que sim.

“Quer que eu ligue para ela?” “Não precisa.”

Tentamos, não conseguimos. Óbvio. Linhas congestionadas na virada do ano é algo com que se pode contar. E com as contas. E com o ausência do arroz-doce na geladeira que a avó-bisa fez para você mas que todos (menos você) da casa comem.

Cruzamos a Avenida Atlântica com ela ainda em prantos. Passamos num camelô que vendia pingentes luminosos de borracha macia.

“Pai, quero um!”

Sabia! Brilhou, é de pendurar no pulso ou no pescoço e tem forma de bicho, Catinha quer. Tentei explicar para ela que tirar dinheiro no meio da rua, àquela hora, era perigoso, que ela ia usar o badulaque por dez minutos e iria jogar fora logo depois, que a teoria da oferta e procura indica que o preço praticado para a aquisição do tal objeto de utilidade discutível seria acima dos limites praticáveis por qualquer pessoa de classe média baixa, bem baixa.

“Pai. Eu quero.” Disse entre soluços e lágrimas.

Comprei. Passei atestado de bobo, burro e molenga mais uma vez. Não tem jeito.

Andamos com cuidado, desviando dos cacos e das poças de líquido não-identificado. Chegamos em casa, lavamos os pés. Esperamos o resto da família chegar, deixei Catinha com a avó e fui para a minha festa de Reveillon.

Dia seguinte, mesmo cansados da noite anterior, enterramos os ossos da ceia e ficamos jiboiando na sala. Eu, no computador, Catinha, avó e bisa em frente à TV. Aliás, ela, suas bonecas, o cavalo alado, as fantasias de rastafari e odalisca. Tudo ao mesmo tempo.

Chega a mãe e o padrasto que cumprimentam a todos. Ela vem de mansinho e me dá um abraço looooooooongo, sem que eu o pedisse. Eu mal viro para o lado – tava matando gente virtual, vocês sabem como é, né? – e ela se vai.

Acabei a fase do jogo. Cadê minha filhota? Foi-se e não vi mais. Iria viajar primeiro para a casa da avó materna, depois para a casa do pai do padrasto, depois para a Lua, Marte e Vênus e só quando estivesse na hora de me apresentar os tataranetos, voltaria para casa.

Três longos dias depois ela manda uma mensagem SMS para mim: “Pai. Te amo e estou com saudades.”

Chegou da farra no meio de janeiro, toda arranhada nas pernas e nos joelhos, mordida de mosquitos e formigas, bronzeada de roça e com um sorriso enorme, cheio de dentes.

Aliás, sorriso diferente. Não era dela, mas lhe caía muito bem.

Foi na médica fazer a revisão com a avó (recomendação da mãe). Médica diz que ela amadureceu muito nesses últimos meses. Não é mais um bebê grande, já é uma mocinha.

Quando chegam, a avó me conta e me dou conta que não sei se disse àquele bebê que eu a amava. Não sei se disse o suficiente. Provavelmente não. De certo que não.

E só fica a lembrança do abraço apertado que eu não soube encarar.

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