January 27th, 2009 §
Eu já disse que me acho muito velho pro rock e muito novo pro jazz, mas há um quê de imprecisão aí.
Quando ouço a palavra “roque”, saco logo o meu Centrium Silver e fico esperando a legião de barrigudos-pós-cabeludos-quarentões que ainda acham legal se embriagar de cerveja de péssima qualidade, subir em motos esporrentas e que berram “Jim Morrison não morreu!”.
Morreu sim, porra.
Há algo de lamentável nessa busca da adolescência perdida. Não falo isso isento de culpa, mea culpa, mas o limite do ridículo fica ali à beira avisando: “Ó, você tá ridículo com essa camisa do sex pistols. Você não está em 1979. Camisa rasgada com o A de anarquia também não! Tome tento!” Ia falar de géz e acabo falando de roque, né? Pois é.
Da mesma forma, é tão ridículo alguém mandar do nada “vamos ouvir Coltrane e fumar umzinho?” Ou sacar de um cubano no meio do boteco dizendo “essa porra custou mais que teu salário” pro garçom.
Pra mim é coisa de quem precisa mijar em torno de si pro ego dormir mais tranquilo.
Tenho birra com jazz desde que me entendo. Gostava, quando era punk-rocker na idade certa, do Miles Davis e da versão que eu tinha de Stella by Starlight e adorava viajar ouvindo a gravação em K7 do LP da coleção Abril de Jazz.
Coisas do milênio passado.
Já do Blues eu nunca me encantei. Gosto, ouço, curto, mas não me encanta. E blues é muito isso, né? é encanto triste, é o escravo dizendo que sofre para caralho e que a mulher que lhe botou um chifre não merece o homem que tem mas se ela quiser voltar ele tá ali de portas abertas. Ou isso seria o country? Não sei. Para mim é tudo coisa de dor de corno e para isso temos o Chico Buarque que canta tudo isso em “brasileiro” mesmo.
Fico me lembrando do Jim Morrison boiando, azul, em Paris. Tem coisa mais blues que isso?
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June 16th, 2008 §
April 20th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Você vem hoje?”
O convite nasceu como se tivesse vontade própria. Era óbvio o meu interesse na menina, mas estávamos naquela fase ridícula de disfarçarmos as intenções. Ainda assim, dado o meu papel predeterminado de alfa da relação, o convite teria de partir de mim. Sempre. Saco.
“Me liga quando você chegar no bar. Acho que consigo ir sim.”
Era a quarta vez que eu a chamava. Quarta depois de três desistências em cima da hora. As desculpas variavam do almoço inesperado com a mãe ao abacaxi que teria que, inevitavelmente, ser descascado à meia-noite, impedindo-a de partir ao meu encontro. Algo me dizia que o cerca-lourenço não estava funcionando a contento.
Parti incauto para o evento e mandei um torpedo para a criatura em questão ao chegar ao boteco. Lá, diversos amigos se encontravam em estado de embriaguez adiantado e logo me dediquei a acompanhá-los no tradicional esporte bretão de encher socialmente a cara com chope de primeiríssima qualidade. Dado o advento do primeiro prato de carboidratos à mesa, o celular vibra com uma mensagem de texto.
“Não vou.”
O resto da mensagem pouco importava e, para ser sincero, já era esperado. Quando se chega às raias dos quarenta anos, sabe-se que o não das meninas pré-balzaquianas é mais freqüente que o seu sim. Levanto a questão na mesa e sou repreendido imediatamente pela ala feminina. Diversas amigas dentre vinte e muitos e trinta e poucos discordam do meu questionamento. Outras apenas calaram-se e me lembraram de aventuras (e desventuras) anteriores que comprometiam a minha isenção de julgamento. Súbito, uma voz da razão.
“Se fosse mentira, o tio Sukita não existiria.”
Fato! Sabemos que as propagandas não são exatamente fontes de inovação cultural e, muito pelo contrário, tendem a reforçar opiniões, gostos e preconceitos já estabelecidos para poder agregar ou contrapor elementos dos produtos a serem vendidos. E se uma propaganda mostra um quarentão cantando uma menina de vinte e poucos como um ridículo, há de ter algo de senso comum aí. Ou estarei completamente errado?
Mas me pego perguntando novamente: quinze anos fazem tanta diferença assim? Não no sentido de maturidade e vivência, mas no sentido de distância etária aceitável. Será que um quarentão que sai com uma menina de vinte e cinco anos é realmente ridículo? Será que ele está realmente querendo encontrar uma vitalidade que sente que começa a se esvair de dentro de si ou apenas foram as contingências da vida que os colocaram nessa situação?
Pessoalmente, sempre achei as mulheres com mais de trinta bem mais interessantes que as novinhas. Conteúdo é tudo quando se trata de relacionamento. Há de ter troca sempre entre as partes. E elas tendem a ter um pique mais próximo do que estamos acostumados a levar: cinema, jantar, teatro, cama. Boates e dança só até as duas por conta do trabalho na segunda ou dos filhos que acordam cedo. Eu acho ótimo e certo isso tudo. Ou sou eu que tenho 150 anos morando dentro de mim? E Balzac, o que ele tem a dizer disso tudo?
Independente do querer das pessoas, a noite termina e quinze anos de distância parecem pesar mais que nunca.
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February 8th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa.
Diariamente recebo diversas tranqueiras digitais. Normalmente enviadas por amigos que acham interessante abarrotar a caixa postal de outrem com apresentações malfeitas, com música irritante e imagens mal digitalizadas. Ou então é um parente que envia os mesmos arquivos ou piadas que já circularam na internet seis anos atrás. Pior, quando um texto de origem desconhecida – ou, pior, de um conhecido seu – chega no seu inbox como se tivesse sido escrito pelo Jabor, Veríssimo ou Ubaldo.
Todas têm destino certo: o oblívio digital da minha lixeira.
Eventualmente uma dessas mensagens tem uma sobrevida de segundos. É o tempo suficiente para eu ler o texto, ou passar os olhos nas imagens, pensar se vale a pena registrar a informação e, em seqüência, apagá-la. Recentemene me peguei assistindo a um vídeo edificante e de alto valor moral que me chamou a atenção por mais que os costumeiros dez segundos.
Primeiro, porque era bem editado e com trilha sonora bem arranjada. Segundo, porque o tema me é caro: a insignificância humana perante a grandiosidade do universo. Esse vídeo nos colocava no devido lugar de macacos pelados que pensam que não são macacos. A priori, nada de mais, já que filmes foram feitos sobre variações desse mesmo tema e Gilles Deleuze nunca se preocupou em repensar linhas filosóficas por conta disso. Mas ficou o registro mental.
Ontem, estava eu representando na vida real mais um dos personagens do Woody Allen quando me perguntei: “caramba, trinta e seis anos na cara e parece que aprendi porcaria nenhuma.”
Duas coisas a partir disso: a primeira é o caso ridículo de onde gerou essa minha auto-análise que pode ser acompanhada nos textos do meu blogue. A segunda é um questionamento da real necessidade da experiência. O quão valorizamos essa característica humana e o quão dependentes disso nos tornamos quando envelhecemos. Eu, ao menos, o sou.
De certo deixamos de ser macacos reativos ao meio ambiente e passamos a ser pró-ativos – odeio esse termo – quando conseguimos passar a experiência acumulada dos indivíduos e da coletividade para frente, criando cultura. Esse é o primeiro diferencial. Aquele papo do cru e do cozido que os antropólogos e sociólogos podem dissertar melhor que eu.
De fato, esse tipo de experiência é imprescindível.
Agora, existe a experiência pessoal emotiva que também pode ser chamada de inteligência emocional, maturidade, compostura, etc. Algumas pessoas se vangloriam da experiência acumulada ao passar dos anos. Engraçado que eu mesmo caio nessa armadilha diariamente.
Digo armadilha pois ela só ensina a o que fazer quando erramos e exatamente nos mesmos erros do passado. Quando nos deparamos em situações parecidas com as já vividas – trocando-se apenas os personagens e o cenário – e agimos pensando que não erraríamos de novo, lá vem a vida nos pregar mais uma peça e vermos que ou não aprendemos a lição direito ou aquela experiência seriviu de nada.
Se eu fosse seguir pela primeira via, me consideraria um imbecil; na segunda, um idiota.
A essa altura da minha meia-vida, tiro para mim que as desventuras pelas que passo diariamente são fontes de boas histórias, de causos para fazer rir os colegas da mesa de bar, esperando que eles vejam os faróis traseiros de minha vida e decidam que caminho tomar nas suas próprias encruzilhadas.
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November 16th, 2005 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Tinha dito para si mesmo que não iria ser tão crítico e morrinha com os atores. Afinal, uns eram seus amigos e ele não antipatizava com ninguém da peça. Do autor à camareira, todos tinham alguma história para contar dele, dos tempos que atuava junto com a companhia. Eram tempos idos, todos sabiam, mas ele sempre retornava a cada peça nova. A cada nova estréia, meio de temporada e encerramento. Por vezes até participava de um ou outro ensaio.
“Poxa cara, você bem que poderia fazer só esse papel. É pequeno, só tem duas falas.” “Não rola. Eu precisaria ensaiar com vocês todos os dias e eu tenho de trabalhar, saca? Mulher e filho e essas histórias.” “Fala com o diretor, vai que ele deixa você só ensaiar nos sábados.” “É lindona? Você não acha sacanagem eu ensaiar só duas vezes por semana e vocês todos os dias? Só por conta dos meus olhos cor de mel?” “…” “Pois é, minha linda, não rola. Mas o nosso chopinho depois tá de pé.” “Ok.”
Dez anos desde que pusera os pés naquele teatro, no Brigitte Blair da Miguel Lemos. Dez anos atrás era um teenager ainda. Imberbe e semi-virgem. Apaixonou-se de pronto. Pela ribalta e por ela. Ela era uma das “descobertas” do diretor que, como de praxe e por ser um clichê assumido, investia sexualmente em cada uma delas. Inteligente, talentosa, bonita. Nunca se entendeu o porquê dela se juntar a uma companhia tão mequetrefe e amadora. Quando ela atuava, os seus olhos eram como duas jaboticabas perfeitas brilhando no palco. “Othello”, “A morte do caixeiro viajante”, “Trair e coçar”, “Disque M para matar”, “A Gata Borralheira e Cinderela contra o Baixo Astral” e outros clássicos da dramaturgia foram salvos da derrocada total apenas por sua presença estonteante.
Havia algo de encantado ali, naquela combinação impossível. Atores fracos, diretor pífio, “autores” desimaginativos, estrela de primeira grandeza sujando a barra da saia com a lama da mediocridade. E, espanto dos espantos, ela era realmente feliz.
Ele, mais forçado pela necessidade que pelo desejo do sonho, largou a tropa no mesmo ano que entrou sem realizar seus dois planos. Encenar “Alcassino e Nicoleta” era o principal. O diretor cismou de adaptar essa peça pra Salvador nos anos quarenta. Quando ouviu isso, sacou que já era a hora de pular fora e aproveitou uma fase de dureza em casa para catar um “emprego de verdade”.
Há uns dois anos, ele a reencontrara e foi fogo em palha seca. É uma história engraçada. Ele foi a uma estréia (como sempre) saiu para chopear com todos (como sempre) riu das investidas vãs do diretor pra cima dela (como sempre) e ofereceu-se para levá-la em casa. Ela aceitou. Riu ao chegar na portaria do seu prédio. Convidou-o para um café em casa. Café da manhã, que esteja bem explicado aqui. Ele aceitou.
No intercurso, disse que sempre sonhara com isso. “Eu sei, bobo.” Disse que ela era a mulher da vida dele. “Eu também sei disso, querido. Tira as meias, vai. Tá ridículo você de cuecas e meias.” Disse, por fim, que queria que aquele momento nunca acabasse. “Eu não, beibi. Quero muitos momentos com você. Se esse não acabar… não haverão outros, né?” Ele sorriu.
Desde então, era rotina. Trabalhava de segunda à sexta, de oito às seis. Quintas, sextas e sábados é teatro e chope. Depois, chope a dois. Dois anos dessa mesma rotina. Ela não parecia triste nem cansada e ele se achando no paraíso. Do céu à terra, do domingo pra segunda-feira, ele resolve perguntar o porquê dela continuar naquela entourage. “Caramba, você teve convite para ir para a Globo, papel na ‘Malhação’. O que você vê naquela turma?” “Você sempre se perguntou isso, né?” “Sim.” “Da mesma forma que você me esperou por oito anos, né?” “É. Mais ou menos isso.” “Eu pago as minhas contas ali. Esse apê é meu também e não pago aluguel. Não tenho filhos. Ainda. Não gasto muito e como pouco. Dá para viver trabalhando com o que gosto. Aquela turma é a minha turma.” “Sei.”
Virou-se pro lado e tentou cochilar um pouco. Iria virado de novo pro trabalho.
Quando acordou, ela já tinha se arrumado e saído. Por vezes fazia isso. Ia caminhar na praia, saudar o Sol, praticar iôga ou apenas comprar pão e leite. Arrastou o corpo dormido e amarfanhado até a mesa da copa e encontrou uma apostila entre o pão morno, o café quente e o leite gelado.
Serviu-se de pão, leite, café e sorrisos entre uma edição velha de “Alcassino e Nicoleta”.
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October 16th, 2005 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Você sabe o quão patético é qualquer carta de amor. Especialmente nos nossos dias. Então deixe-me aproveitar o momento em que tenho uma desculpa venal, que o álcool que me corre às veias deixa turvo o meu senso de ridículo e me permite escrever essas linhas digitais, ainda que mal-traçadas na minha cabeça mas indeléveis na minha alma.
Você apareceu na minha vida como um trem sem apito, me abalroando para fora de um curso que eu tinha traçado para mim. Assim como um personagem dos meus contos, eu tinha o meu futuro nas mãos. Fora confirmado pelos astros, pelas cartas, pelas videntes e pelo sangue das aves sacrificadas ante o nome dos que vieram antes de nós. Defronte dessas autoridades inegáveis me foi revelado o destino e você não estava nele.
Ainda assim você me apareceu bela, jovem, inteligente, astuta e inegavelmente sedutora. E meu desejo não coube mais em minhas calças, subiu à mente e tomou conta de minha razão.
Contra tudo em que eu acreditara, larguei mão dos meus valores, das minhas certezas e me entreguei a você. Ok, ok. É certo que você sabia que eu tinha um vínculo emocional que não estava totalmente desfeito, havia um risco, é fato, e você sabia disso. Mas a sua presença, não a de outra mulher, é a que me fez repensar a vida, olhar o futuro e renegar o Império. É sua a parte do desejo que a minha inação fez fazer água no projeto de singrar os mares.
Sim, o álcool e os seus primos me tiram a coordenação e o foco nesse instante, mas quero que saiba: eu não falo nada que não afirme ante o sol a pino ou com o sacro livro ante minha mão. Tudo que relato é de coração aberto. Sempre foi assim. Se te reneguei no passado foi porque eu não me enxergava ante a dor da mudança. Pois é. Toda mudança dói e aquela que é inesperada, marca mais fundo e come a base que sustenta o argumento consciente. A consciência é moldada ante as cascas das feridas que a experiência nos dá. O que é a gravidade senão a consciência do hematoma da queda?
Mas perco o foco e razão. Carta tem de ter relato, início, meio e fim.
Eu acreditei que poderia mudar as pessoas. N’O Filme dizia que o grande erro do homem é exatamente esse: crer que pode mudar as pessoas. As pessoas, em verdade, se deixam ser mudadas e apenas naquilo que acham que lhes é conveniente. Errei. E esse não foi o meu único erro.
Quis dar a distância entre nós para que pudesse te preservar. Mas você não me entendeu o tempo e eu tampouco o te dei para que pudesse me entender. Me negas agora e é justo o teu negar. Não imploro mais o teu querer. Não. Nunca mais. Não mesmo. Nem quero. Como eu te quero. Por favor.
Tem uma cena que imaginei entre nós. É improvável dada os personagens e os fatos, mas é uma cena que me acalanta quando repenso quão imbecil, tolo, fútil, inseguro, insensato, arrogante eu fui para conosco. Matando toda e qualquer chance de que pudéssemos ao menos acordar juntos e dividir uma manhã.
Divago e não falo da cena. Me é cara falar sobre ela.
Sonhei com essa cena na última vez que deixei tua casa, antes dos contos que não falavam sobre nós mas falavam de quem já era passado.
Ei-la:
Imaginei um homem. Talvez eu mesmo, talvez um futuro amante. Ele era incerto e inexato. Exatamente do jeito que eu gosto de pensar as minhas personagens. E sobre ele eu contava a história de um jeito bizantino, como uma trama, dentro da trama, dentro da trama.
Ele tinha um hábito irritante de freqüentar vernissages, noites de autógrafo e outros desses eventos semi-abertos onde se serve o péssimo vinho que importadoras de bebidas que desovam como “patrocínio” ou “apoio cultural”. Chegava a ser uma compulsão, na verdade. Tinha alguns contatos de quarta categoria que se divertiam em enviá-lo para os eventos mais esdrúxulos como a reinauguração da placa do centenário do canhão inaugural do forte de Copacabana ou a noite de autógrafos de um blogueiro qualquer que conseguiu publicar suas crônicas semanais.
O que ele não revelava às pessoas é que a diversão não era o evento em si, mas ficar nos cantos fingindo que conhecia os proto-famosos, dando um acenos com cabeça e com um ar blasé treinado a anos a fio. Outro hobby era ficar ouvindo fragmentos de conversas e tentar ficar adivinhando o papo como um todo. Anotava os fragmentos em guardanapos sujos ou em cadernos-brinde para usar em algum momento importante da sua vida.
Numa estréia teatral, ele pega o papo de um autor de peças de teatro com um engravatado aleatório.
“E, recitando um poema de Florbela Espanca, ele a pega como se fosse beijá-la. Ela se desmonta em suas mãos. Ao terminar o poema, ele se vira para os outros no churrasco e pede uma cerveja. Ela olha meio puta meio pidona para ele e, antes que ela pergunte qualquer coisa ele responde: ‘Beijo não é para ser esperado. É para ser tomado com o consentimento do outro. Beijo é a porta do prazer e se você não tem ciência disso e espera que o prazer lhe seja entregue em bandeja de prata, não merece o gozo’.” “É uma boa cena, mas acho que temos de cortar a parte do poema. Não dá Ibope.” “Mas aí perde todo o sentido. Deixa eu te mostrar o poema.” “Não. Sem poema.”
Ele se dirigiu para o bar para tentar caçar um salgadinho ou mais uma taça de vinho. Quem sabe até teria sorte e coletaria mais alguma história interessante.
A imagem acabava aí. Mas o pranto só começaria depois.
Já tenho o poema em mãos. Já tenho a dor do passado seco e curado. Tenho um vazio que era para você e hoje não quer, com toda a razão.
Mas não sou feito de razões. Estas eu deixo para pagar as minhas contas. O que tenho para o mundo é minha veia aberta, o meu core sangrado e exposto.
Cansei de passar os meus trinta e poucos anos brincando de homem sério e responsável. Ok ok. Nunca fui bom nesse papel. Quero agora chorar em público, brincar de Drama Queen, como bem batizastes, de não ter vergonha dos meus quereres e de olhar para o espelho e me reconhecer, íntegro e paradoxal.
Não quero mais ter as razões do mundo. Quero apenas que o mundo me tenha.
Se isso afeta a tua concha, querida, eu peço desculpas. Me retiro e deixo que as sombras da ribalta guardem o teu descanso. E torço, pouco, para que aches quem te acompanhe nesse teu hibernar. Ele é justo e de teu direito.
Enquanto isso te espero. Meu amar é incondicional.
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October 8th, 2005 §
Caio Fernando Abreu, em carta ao amigo Zézim, em 22 de dezembro de 1979 (roubado do blog Pentimento)
“(…) Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.
É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.
Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nos tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente. (…)”
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August 30th, 2005 §
Fernando Pessoa – Álvaro de Campos
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Tava passando por aqui quando fui recordado desse excelente poema. É impresionante como os deuses do acaso sorriem para nós quando damos chance a eles!)
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