September 17th, 2009 §
Nunca mais houve um verão como aquele. As chuvas alagaram o inalagável, transformando a Avenida Atlântica num rio caudaloso e poluído. E foram dias e carnaval de chuva torrencial onde gente morria a balde (desculpem o trocadilho) e chorava os desabamentos em plena Zona Sul da Maravilhosa Cidade de São Sebastião.
Era no governo Brizola, amado e odiado por legiões, e serviu de desculpas para campanhas difamatórias e uma ação de solidariedade da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Eu estudava num colégio católico em Ipanema e me lembro vagamente das pessoas se mobilizando para arrecadar alimento e roupas, tudo sob as bênçãos de João de Deus, o Paulo II.
Da minha parte, eu me divertia era em ver as pessoas procurando abrigo nos cantos de calçada secos, como se a chuva carregasse algo mais que os restos de vida civilizada maré afora. “Essa água tem doença”, minha avó dizia, “não vai na rua que tá tudo alagado”. Eu descia para o play – sim, sou moleque de prédio, criado em pleigraundi – para andar de bicicleta, fazer guerra com garrafas e pistolas d’água e jogar Super Trunfo com as outras crianças.
Quando chove forte no verão (ou no inverno, tanto faz) me voltam as boas e felizes memórias de um refresco no calor louco do Rio, de um tempo em que as coisas pareciam ser mais simples e resolvíveis num par ou ímpar, num zero-ou-um. Que o meu anseio maior era ter uma bicicleta Brandaine e saber se o UltraSeven era melhor que o Spectreman.
Apesar das mortes e das varejeiras que vinham do morro atrás do meu prédio. As vidas que iam, as tragédias, vindas da mesma fonte da minha alegria. Da mesma fonte, alegria e tragédia, ventura e desgraça.
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February 26th, 2009 §
February 24th, 2009 §
Eu tenho uma letra horrorosa, quando escrevo com pressa. Para falar a verdade, tenho uma letra horrorosa quando não uso uma “máquina de escrever” o que, para mim, remonta à tenra idade de oito anos, quando ganhei a minha Olivetti Portátil de natal.

Não era um presente usual, eu sei, mas minha mãe não tinha achado o “avião que dava mil piruetas” para vender (o que era bem provável, já que ele só existia na minha imaginação) mas tinha se virado em seis para comprar o “robô que dava cambalhotas”, o “carro que bate-e-volta” e a indefectível bicicleta de rodinhas.
Fato é que não posso me queixar de presentes quando criança. Não mesmo. Já quando adolescente, a história era outra e fica para outra história.
Mas eu falava da minha letra horrorosa – tão feia que nem eu mesmo consigo lê-la quando tento rever minhas anotações – e da minha mania de comprar cadernos e blocos e canetas e lápis. Acho que a minha letra é a minha primeira frustração.
Todos em casa tinham uma letra desenhada. Minha tia até hoje tem uma caligrafia personalíssima e inteligível à distância. Minha mãe tem um traço firme e nervoso, mais parecido com caminhos de formiga. Ainda assim, legível até no escuro. Do meu tio mais velho só lembro dos números, das contas. Precisas, calaras. Dos tios mais novos, não lembro nada.
Fiz caligrafia por um tempo, mas desistia como bom preguiçoso do signo do porco. Dava trabalho e eu escrevia melhor e mais rápido na Olivetti. Pena que era muito pesada para levar à escola. Pena que não dava para escrever com ela nas provas e nas redações.
Um pouco mais tarde, ganhei meu primeiro computador – um TK85 – seguido logo, logo, do segundo – um Hotbit/MSX – que veio a ser o centro da minha primeira “estação de trabalho”: computador, monitor (uma TV), impressora matricial de oitenta colunas e um disk drive de 5 ¼ polegadas. Com a chegada da impressora, a caligrafia há muito abandonada foi de vez para as cucuias. Com o micro, as minhas outras frustrações ficavam mais patentes.
O bichinho “tocava” música, se eu o programasse, e eu sabia ler um pouco de notação musical. Então lá ia o pequeno Zander programar no computador as partituras que ele não conseguia – nem tentava muito – tocar no violão. “Afinal de contas, eu queria um baixo!” – era a minha desculpa – “E nem para ganhar presente direito!” – eu completava com a malcriação típica dos quinze anos. Amava música (se é que punk rock pode ser chamado de música) e não tocava patavinas. O mesmo se aplicava para as meninas: amava-as e necas de pitibiriba de descolar umazinha que fosse.
Obviamente tudo era desculpa para uma falta de empenho meu. Se eu quisesse comprar um contrabaixo, que eu economizasse nos gibis e livros, né? Ou que eu deixasse de comprar tanto vinil, ou que eu vendesse o meu super-hiper-som modular da Philips e fizesse mais umas aulas de violão para eu mostrar que me empenhava em alguma coisa de verdade, que não me viesse fácil. Reclamar da vida sempre fora mais fácil que fazer o meu desejo virar a verdade.
Acho que ouvi uma vez alguém dizer que amadurecer é colecionar frustrações.
Falo disso tudo porque, vira e mexe, me acho uma farsa. Uma farsa no trabalho, com os amigos, com a família, com os amores. Não tenho metade da inteligência que presumo ou apresento, um terço do talento que me atribuem, um décimo da capacidade que vendo, um centésimo da compreensão e da tolerância para os meus entes queridos e um milésimo da capacidade de amar que qualquer ser humano merece.
É como me sinto nas noites insones de calor do Rio de Janeiro. Como uma farsa de mim mesmo, esboço de alguém que eu nunca poderei ser plenamente apenas porque escrever as letras de forma legível dá mais trabalho que inventar o texto do meio dos meus garranchos.
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January 7th, 2008 §
O carioca, além das mazelas normais dos nativos de qualquer metrópole moderna e das agruras dos brasileiros em geral, vive uma sina cruel e ímpar às demais cidades do mundo: é condenado a viver com um cenário tão maravilhoso que o torna insensível às diversas nuances da beleza.
É como se nos alimentássemos dos mais maravilhosos pratos de restaurantes da mais alta gastronomia e não conseguíssemos mais encarar o prazer de um misto quente no pão francês.
Ou algo assim.
É uma sina porque cada cidadão fica insensível ao mediano, ao mundano, ao medíocre e subitamente este se torna intolerável. Como aceitar que o máximo que teremos é uma vida mediana, uma posição mediana, um desempenho mediano? Outras cidades também impelem seus habitantes a uma frustração prévia, mas o Rio de Janeiro tem uma característica à parte.
Mais que sucesso, o carioca quer ser belo, belíssimo.
Como conseqüência, temos as legiões de barrigas de tanques e braços hipertrofiados saídos das academias que deveriam primar pela saúde e integridade física de seus associados e suas peles galvanizadas em bronze, dada a contínua exposição da cútis nas praias.
Mas até aí, os únicos que correm o risco de se ferrar nessa busca da perfeição física é o próprio estagiário de Apolo ou Afrodite. Porém a coisa é pior e mais sutil que isso.
Ante essa busca da beleza, as opções ficam limitadas. Excluindo-se o mediano, não é mais possível ter uma pele alva, ainda que saudável, e ser belo ou uma barriga expoente, ainda que feliz, e ser saudável. E torna-se heresia maior ostentar ambas em pleno verão.
O leitor pode até achar que isso é ranhetice do cronista nerd e branquelo. Mas entenda que não me magoa mais, do alto da minha meia-vida, que os meus concidadãos ainda tenham esse desejo de serem Apolos ou Afrodites e não entenderem atavicamente quem não compartilha dos mesmos princípios. Já me acostumei.
Para falar a verdade, acho até bem louvável que cada indivíduo desenvolva uma vaidade no prazer de se olhar no espelho e refletir a sua força de vontade expressa em formas que decidira conscientemente. Como um atleta que sabe que precisa de pouquíssima gordura no corpo para agüentar uma maratona ou nenhum pelo para nadar mais rapidamente.
Porém, a questão aí é a da consciência.
Novamente não culpo os demiurgos que se apresentam pontualmente às academias para as sessões de modelagem corporal. Eles são vítimas do seu meio.
Uma cidade que apresenta ao seu morador um horizonte na natureza do espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas, da enseada de Botafogo, do pôr-do-sol do Posto Nove, massacra o seu cidadão a ponto de entender que a única possibilidade de se tornar digno da – ou suportável à – beleza acachapante diária a que é submetido é se tornando espelho dela mesma.
Ou seja, o Rio transforma o seu cidadão à sua imagem e semelhança.
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October 29th, 2007 §
February 23rd, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Mas eu não entendo o porquê de você ficar assim tão macambúzio, rapaz. Afinal de contas, é Carnaval!”
Bruno deixou escapar um sorriso amarelo e, dentre os dentes, respondeu que estava de ressaca da noite anterior. O Carnaval para ele era apenas mais um feriado quente no início do ano e que, eventualmente, coincidia com o Ano Novo chinês. Inclusive, era esse o caso.
De certa forma, podia-se dizer que ele estava enchendo a cara desde o ano passado. Achava um saco essa coisa de desfile de escolas de samba e só tinha simpatia pelos blocos que ficam só na “concentração”. Como eram poucos – e bons – o seu circuito carnavalístico era bem limitado.
Anderson já era o oposto. Só parava no boteco para recarregar as baterias e colocar em dia a lista de foliãs abatidas pelos amigos. Já estava se preparando para levantar e partir pro Bip-bip quando viu que Claudinho se aproximava.
Alan era um moderado. Não dispensava uma farra, mas não morria de amores pelas aglomerações que o Carnaval estimulava. Decerto, as fêmeas em fúria uterina e a cerveja farta eram atrativos que o mantinham na atividade, a despeito do calor senegalês que o Rio de Janeiro é submetido no fim do verão.
“Desce uma gelada, Juvenal. Qual é o babado, rapaziada? Bruno, que cara de cu é essa? Ainda com dor de corno?”
Dessa vez ele engoliu o sorriso amarelo para mostrar os dentes brancos bem desenhados. Custaram uma fortuna, dissera uma vez, mas derretem o coração de qualquer menina desavisada do canalha devorador de gente que morava atrás da arcada.
“Dessa vez, não. Chicão nos dará a honra da sua presença? Ou está enrolado com uma qualquer por aí?” “Provavelmente, cara. Aliás, decerto”. “E Claudinho, Alan? Ainda em lua-de-mel com Elisa? E os nerds dos infernos? Quais as novas da galera?” “Sem novas. Sim, Claudinho tá lá marcando o território. Gordo foi pra França, Burro tá trabalhando”. “Se ferrou o mané!”. “Pois é, Bruno. E o Grande tá em Petrópolis. Eu, dado o interesse manifesto de vossas senhorias, estou em guerra ampla, geral e irrestrita”.
Os três riram e brindaram aos amigos ausentes. Aos “vencidos” na batalha dos sexos, aos que partiram do exército dos solteiros e se alistaram na tropa dos casados, enrolados, amarrados e afins. Fizeram um brinde, mais tímido, aos que “trocaram de time” efetivamente, aumentando as chances de cada macho disponível e praticante do heterossexo de, de fato, fazê-lo.
Bruno, findas as libações, cerrou o cenho novamente e se fechou em copas. “Bruno, o que há?” Olhou para a cara de Alan. Olhou para o relógio. Lembrou das bebidas da noite passada e lembrou que a única ressaca que tinha, naquele momento, era a moral. Virara a madrugada entre as pernas de uma menina quinze anos mais nova e, apesar do troféu conquistado, sentia-se impuro. Como se tivesse cruzado uma linha amoral.
“Qual a idade da menina, afinal?” “Vinte e um, Anderson. Vinte e um aninhos.” “Já era mulher?” “Sim, e como.” “Então? Qual o problema?” “Eu nunca mais terei vinte e um. É esse o problema.”
Dito isso, olhou novamente para o relógio e viu que uma linda moça, de cabelos negros, olhos amendoados e verdes – sempre os verdes olhos – se aproximava. Se beijaram. Os colegas saudaram a chegada da beleza que a Quaresma anunciava.
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February 1st, 2007 §
André Dahmer escreveu no seu blog, e dou o meu modesto apoio daqui.
RIO BODY COUNT
Inspirado no Iraqbodycount, estou abrindo com meu amigo de fé Vinicius Costa um portal para reportar incidentes violentos no Rio de Janeiro. Como devem imaginar, não terei condições de noticiar toda a violência com apenas dois caras trabalhando no projeto. Por isto, estamos recrutando voluntários cariocas que saibam escrever e estejam boa parte do dia conectados na internet. Conheçam então o Riobodycount, este projeto feito por pessoas que amam o Rio. Cariocas que acharem a tarefa importante, que participem conosco deste esforço, deste grito de alerta. Amigos de internet e blogueiros, divulguem este nobre projeto em seus sites.
ANDRE DAHMER – Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007
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February 1st, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa.
Cada cidade tem o seu código, a sua cara e a sua linguagem. Isso parece óbvio à primeira vista, mas a prática é bem mais complexa. Essa é uma essência difícil de captar e pior de se explicar. Não é apenas a arquitetura, a topologia, o nome das ruas e praças que dão a personalidade às cidades, mas também a sua gente expressando as diversas partes da alma coletiva que são como rugas de expressão do rosto de cada lugar. Impossível pensar naquela cidade do interior de Minas Gerais sem se fiar na turma que se reunia à praça na hora do pôr do sol para tomar uma cachaça vagabunda, destilada no alambique detrás do boteco. Ou dos bêbados e junkies largados na rua que compôem a cena com as madames, os militares da reserva e os travestis de Copacabana. Mesmo os turistas dão a sua cor, cheiro e som àquela tira de areia, sol e concreto do Rio de Janeiro.
Falo disso por meu próprio exemplo, obviamente. Em determinado momento de minha vida, troquei as ruas que têm o meu cheiro e minhas memórias por um lugar onde cada esquina é uma novidade e cujos nomes e ordem não foram ainda mapeadas na minha mente. Dobrar a Paulista em direção à Augusta não tem o mesmo impacto em mim que adentrar pela Prado Júnior vindo da Nossa Senhora de Copacabana, por exemplo. Não ainda, ao menos.
A sensação em si é boa, mas um tanto quanto desconcertante. É esquisito dobrar uma esquina e não saber a direção de casa ou achar que uma padaria que estaria em determinado canto está do outro lado da avenida, apenas esperando ser descoberta.
É meio que um pique-esconde da cidade na mente com as ruas reais.
Lembro de quando achei uma livraria por um acaso. Não era uma das famosas, como a Cultura, mas um sebo pequeno, com quadrinhos na vitrine. Lá tinha um exemplar do Os Olhos do Gato, do Jean “Moebius” Giraud que valia a pena, mas nunca mais a encontrei. Refiz o caminho novamente e simplesmente não encontrava-a. Parecia que tinha mudado de lugar.
Obviamente, eu é que sou um desorientado e mal consigo ir na lanchonete da esquina da minha casa sem errar o caminho umas duas vezes. Mas é divertido saber que as cidades não se encaixam assim de primeira. Que tenho de construir um mapa mental do mundo que me cerca para fazer parte da cara da cidade que me acolhe hoje.
Outra coisa é falar a língua dos locais. Sei que dominar as gírias ou o cantar próprio de cada povo – no caso de São Paulo, de cada bairro – é importante, mas ter em mente os códigos semi-ocultos que são moídos em gerações de interrelacionamento a fio é fundamental. Saber chegar numa mesa de bar e puxar os assuntos certos, a marca precisa de cerveja ou os salgadinhos tradicionais. Ou então saber entender que aquele olhar é de flerte ou de apenas reconhecimento de tribo. Aquelas coisas simples que praticamos inconscientemente na nossa casa ou na nossa vizinhança.
Pode parecer simples, mas um carioca falar a língua – as diversas línguas – de São Paulo é bem complicado.
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January 28th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Que cara é essa, lindinho?” “Cara de cu. Sério, não tô bom para papo-chamego hoje não, Vivien.” “Ih… O que aconteceu agora? Acordou de ovo virado de novo?” “Antes fosse.” “Com essa cara, já sei que é coisa de mulher. Tem alguma sirigaita te enchendo. Alguma lurker nova deixando recados escrotos no teu blogue?” “Nada disso.” “Então está assediado por uma legião de bacantes enlouquecidas no cio que querem copular ensandecidamente até você cair morto?” “Não. Antes fosse.” “Qual foi, Bruno, se abre aí.”
Bruno se recostou na cadeira dura do boteco. Levou o chope quente à boca e sentiu voltar tudo . Não apenas o almoço errado de hoje cedo – ovos coloridos, lingüiça na cachaça e azeite, sanduba de carne assada – voltavam as recordações das noites passadas e uma inquietude que ele achava que tinha enterrado fazia uma década.
Olhou pra Vivien novamente. Ela estava sempre disposta a dar um chamego e chamá-lo para a terra quando ele teimava em surtar com o trabalho, a casa, os amigos e os amores. Era o seu porto seguro desde que se entendia como homem feito, dono de seu nariz. Só que agora uma vergonha impedia de contar tudo assim, de prima. Tinha de fazer um preâmbulo que não era de seu feitio.
Virou o resto do copo. Curvou-se com o estômago em fogo. Era o corpo pedindo o sossego que a alma de Bruno não dava.
Tudo começou numa quinta-feira. Um email de fotos da filha recém-nascida de uma amiga de colégio e várias pessoas respondendo, parabenizando-a. Carlinha estava na lista e ele não conseguiu deixar de notar. Reuniu toda a sua força de vontade e segurou longamente – sete minutos – a vontade de mandar um email. Já tinha se arrependido ao apertar o “enviar”.
Carlinha era a sua primeira paixão. A primeira namoradinha. Só que, nessa estranha relação, só ele namorava Carlinha. Ela o ignorava. Ou assim ele pensava.
Tá certo que eles iam sempre juntos para a escola. Que ela ia sempre à sua casa aos sábados para ouvir um disco novo que ele tinha comprado. Ou para estudarem matemática, ou geografia. Ou para comer bolo de chocolate quente com um copo de Nescau gelado. Ou para ficar de papo pro ar vendo tevê.
Normal que ele se apaixonasse por ela. Os hormônios, a proximidade e tal. Normalíssimo.
O problema é que ela andava mais na linha que bonde de Santa Teresa. Só ia namorar depois dos quinze anos, se namorasse alguém antes de entrar na faculdade. E era um tal de “para com isso” dali, e “tira a mão daí” de lá, um “deixa de ser bobo” daqui, ou um”assim não ando mais com você” de cá . O fato é que, por mais que ele tentasse se aventurar um pouco além, havia um medo de perder o pouco que já tinha.
Ele se contentava com bem pouco. Bastava ver aquele par de olhos azuis – sempre olhos claros – naquela moldura de cabelos loiros entrar na sua casa sem mesmo se anunciar.
Daí ele arrumou uma namoradinha adolescente e Carlinha deixou de fazer parte do seu dia-a-dia.
O tempo passou, ele tomou pau – duas vezes – na escola, trocou de turmas, voltaram a se ver quando tinham trinta e muitos anos. Ela deixou escapar que achava que o tinha namorado na escola. Bruno ficou de cara na mesma hora. O sonho dele era ter namorado Carlinha. Aquele namorico de adolescente onde as coisas eram todas implícitas, mas nunca executadas. Onde o sarro era o ápice sexual da relação. O soutien um alvo inatingível pelas mãos afoitas e famintas de gozo. Pensou melhor e, de repente, na cabeça de Carlinha talvez eles tivessem namorado mesmo. Talvez aquilo fosse o mais próximo de um namoro que ela jamais poderia se permitir aos doze anos.
Então ele viu o email de Carlinha e resolveu puxar assunto. Ela se confessou apaixonada por ele à época do colégio. Que a maior – ou a primeira – decepção amorosa dela fora ele ter começado a namorar a Dani.
Para Bruno aquilo fora um choque.
De certa forma sentia que aí era a principal raiz do seu maldito platonismo. Não arriscar o pouco que tinha em prol de algo que realmente queria. Entendeu que ficar na zona de conforto lhe custava caro, no fim das contas. Caiu a ficha de que ele era, de fato, um miserável emocional. Um muquirana afetivo. Um Tio Patinhas da paixão. De certa forma, fez bem pra seu Ego. Afinal de contas, nunca insistira no assunto porque sabia-se feio, nerd, pobre. Não via em si atrativo algum, apenas que estava do lado errado do espelho.
Vinte e muitos anos mais tarde, já sabia se relacionar com o próximo de uma maneira mais “real”. Ou quase isso. Dependia de mensageiros instantâneos, emails, blogues, flogues, para despertar o interesse no próximo. Olhava-se diariamente no espelho e via apenas um patético arremedo de ser humano. Nunca aprendeu a se amar. Obviamente era também um fracasso em amar o próximo. Quase que chegava às vias da misoginia. Ainda assim apostava nas estatísticas. Havia mais mulheres disponíveis que homens no Rio de Janeiro e algo acabava sobrando para si.
“Você é um bobo. É um homem interessante e sabe disso.” “Só você acha isso, Vivien. Quem eu quero não me quer. E quem me quer, me cansa.” “Maldita Vênus em Peixes.” “Maldito Marte em Capricórnio na doze e com quadratura com Sol e Lua que empata as minhas fodas inexistentes.” “Ha ha ha ha! Só você mesmo para fazer piada com o próprio mapa astral. Se eu tivesse uma combinação dessas, me matava.” “Por isso que eu aposto na Megassena.” “Como assim?” “Se eu ganhar a bolada principal, acerto a vida dos meus familiares e dos amigos mais queridos. Daí pego o que sobrar, me mudo para um puteiro e vivo uma versão pornô de ‘Leaving Las Vegas’” “Bobo. Mas conte mais. Você descobriu que ela era apaixonada por ti e…” “E nada. Ela tá casada – com um ariano! – e está feliz da vida lá. Eu é que não vou entrar numa história de mulher casada. É espeto!” “É batata!”
Ambos riram do sarcasmo que ele conseguia destilar nessas horas. Afora do drama – Bruno era uma verdadeira Drama Queen – ela sabia que ele era centrado o suficiente para não surtar com os desencontros e desamores. Já estava calejado. O problema é que ele não conseguia moderar a casca dura com a abertura para arejar os sentimentos. E tome chope quente em frente ao Tio Sam.
Na sexta, Bruno fui a uma festa. Show de rock numa casinha nova, uma alternativa à Lapa e ao circuito da Matriz. Uma banda instrumental só com baixo e bateria chamou a sua atenção. E a morena de olhos verdes que acompanhava as suas amigas também.
Já tinha sido advertido que ela era linda, simpática, inteligente, esperta e agradável. Só não tinham advertido ao rapaz que ela era apaixonante. E lá foi o babaca ficar de calças arriadas, fingindo ser blasé. Tipo menino que fez merda e disfarça demais.
“E daí, Bruno?” “Daí que me peguei fantasiando. Coisa que não fazia desde…” “Desde semana passada, né?” “É. Maior merda. Tentei abstrair. Tentei me embriagar, mas faltou uma projeção orçamentária para isso.” “Mas você tentou algo, ao menos?” “Obviamente não. Ela era linda, Vivien, e eu velho, pobre, feio, meio burro, desajeitado e barrigudo.” “E então…” “Bom, como dizia um amigo meu: ‘se você não faz, tem alguém que fará por ti.’”
E eles ficaram ali, no boteco, pensando na vida e na morte da bezerra. Que tinha olhos verdes, claro.
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January 12th, 2007 §
publicado em LIVinRooom
Fim de ano.
Comemorações a troco de coisa alguma e um calor de rachar a boa vontade entre os homens e mulheres do Rio de Janeiro. E os amigos aproveitam a pausa na correria diária para dar um sossega leão em si mesmos e botar a casa em ordem.
Para Alan isso significava ligar para todos os pulhas e canalhas que conhecia e as lacraias de dois mangos que chamava de amigos e amigas. Na verdade, essa era a forma carinhosa de tratar a todos que fizeram parte de sua vida torta desde o colégio até o fim da faculdade. Poucos, bem poucos mesmo, eram os amigos do dia-a-dia, mas todos moravam no seu coração. Ao menos no fim do ano. Ao menos uma e única vez por ano.
Como sempre, teve de marcar no centro, apesar do protestos daquele povo que morava na Barra da Tijuca e insistia em se chamar de carioca. Os da Zona Norte eram maioria e, a bem da verdade, a Barra não é lugar para esse tipo de comemoração. As Barbies e Kens de plástico daquela região provavelmente reclamariam desde as calçadas de pedra portuguesa até à escolha do cardápio, passando pelo banheiro (sujo, definitivamente sujo) e pelo atendimento (e desde quando bar bom tem atendimento idem?).
Alan chegou cedo, não queria reservar mesa – de premeditado, organizado e planejado, já bastava o calendário – mas se comprometeu em arrumar lugar para todos. Não era todo dia que juntava tantos ditos amigos num lugar só. Normalmente os eventos de Alan eram resolvíveis numa mesa simples ou, quando a lotação passava a marca histórica de seis pessoas, arrumava-se um capô de carro alheio para servir de mesa e/ou assento. Para o fim do ano era diferente: mais de vinte confirmaram e mesão grande assim na Casa Urich só com lábia e adiantamento de conta. Como ele era cliente preferencial desde os vinte e cinco anos, rolou a “reserva” com pouca relutância da gerência.
Os amigos foram chegando aos poucos. A cada abraço, um comentário de um outro que partiu para o exterior ou para uma outra cidade. Um que casou, outro que virou numa curva errada e beijou um poste, outra que engravidou, outro que teve o sexto filho. As novidades dos amigos repassadas a cada ano. A cada fim de ano.
E a sensação que ainda havia algo a ser feito não passava. Aliás essa tinha sido uma constante em sua vida desde os dezessete anos. Àquela época achava que poderia domar o mundo com a mão esquerda enquanto se masturbava com as restantes.
Frase de Alan, não desse autor.
Certa hora, notou que perto do banheiro tinha uma turminha desanimada, umas sete cabeças, duas meninas. Nossa! Que morena é aquela? Bom, continou o processo de embriagamento e abriu uma nova rodada com um úisque duplo. Sem gelo. Tá certo que o verão queima as pedras portuguesas da Rua São José e o ar parece de verdade com o bafo indelével do centro do Rio, mas uísque tem de ser tomado assim, sem gelo e na valentia.
Novamente, coisa de Alan.
Os chopes sucediam os refrigerantes e as caipirinhas e, determinada hora, a natureza falou mais alto. Alan atravessou a borda da mesa que se estendia por quase todo o comprimento do restaurante e, inevitavelmente, esbarrou trôpego na mesa da morena que não parava de flertá-lo desde o início do fim da tarde. Falou alguma gracinha inócua e inefetiva para fins sexuais e entrou no mictório desesperançado.
Na volta, a mesa vazia. Aliás, todas as mesas vazias. Só um carinha num canto. Mas não tava vazio. Coisa esquisita.
“Puta que pariu! Depois de velho, delirium tremens?”
O carinha fez sinal para Alan se sentar.
“Cara, já sei. Você é a minha consciência e vai me dar um sermão sobre abuso de álcool, sexo e drogas nas terças-feiras.” “Calaboca e escuta.” “…!” “Olha ali no canto” – apontou para a mesa onde estaria a morena – “e me diga o que você vê.” “Porra tem nada ali.” Levou um cascudo seguido de um pescotapa.
“Olha direito, caralho” “Tá bom, cacete! Doeu isso!” Apertou os olhos míopes e o mundo rodou mais devagar por um momento. Enfim viu.
“Bom. Ali tem uma morena fantástica numa ponta, uma outra lindinha da silva mais mignonzinha, dois coroas, um viado marombado, senhor publicitário na outra ponta e um nerd fotógrafo no canto.” “Não aprendeu porra nenhuma. E eu com esperanças em você.”
Acordou abraçado na privada com uma das meninas a lhe acordar.
“Tive de dizer pro gerente que era sua namorada. Tu tá legal?” “Tô não, Vivien. Deixa eu voltar para a mesa e pagar a conta.”
Estranhamente se sentiu mais sóbrio que nunca ao caminhar entre as mesas. Sinal claro, óbvio e ululante de alcoolismo em estado extremo. Ao sentar, pediu a atenção de todos. Discursou sobre o fim do ano, o fim do salário, o fim da história e do comunismo, o fim dos tempos. Todos riam quando ele trocou de tom e, falando através de si, começou.
“Existem quatro tipos de mulheres que um homem tem de ter: a musa, a puta, a mãe e a amiga.” E continuou falando, ensinando as verdades essenciais, enquanto as nuvens de chuva anunciavam que as comemorações iriam continuar noite adentro.
O povo se calou. Alan não era do tipo de cagar regra.
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