Doze anos

February 6th, 2010 § 22

Ela me vê e vem correndo com um sorriso dissimulado. Está de pijama ou de roupas de casa ou com unhas pintadas de cores descombinadas ou fez chapinha e levou bronca ou está com mais um furo na orelha ou está macambúzia com as notas baixas ou chororô com o show que não irá. Mas está honestamente feliz, não duvido, e quer um abraço forte, um beijo carinhoso e um presente. Eu dou tudo o que me pede, já que sou dono e responsável por esse vazio impossível. Logo depois volta pro quarto para ver as séries descerebradas ou ficar “papeando”com as amigas pelos tuíteres da vida.

Já pensa em meninos, mas não creio que tenha beijado algum (ao mesmo tempo, acho difícil essa minha crença, mas insisto como dogma inquebrantável). Meu ciúme é só dela. Linda, puxou o que há de melhor da mãe e dos meus pais. Do meu acervo pessoal, só a indolência e a vontade de nada fazer. Quer uma festa do pijama esse ano. Dou graças porque é bem mais em conta.

Pediu um contrabaixo no natal passado. Comprei. Lembrei que precisava de uma capa para proteger o instrumento, de um cabo extra, de um amplificador, de uma faixa para segurar o bicharoco. Ela só se preocupava se ele era bonito ou não. Tonta, pensei. É preto e bonito. Ela ficou feliz. Tonto, todos pensaram.

Cheguei em casa e perguntei do teclado, que havia dado dois anos antes, ela disse que a mãe guardou no alto do guarda-roupas e que ia pedir para ela baixá-lo. Duvidei. Quebrei a cara e ela já está tirando músicas no teclado semi-pro que comprei numa loja do entorno da Galeria do Rock. Disse que ela precisa começar a ouvir a linha de baixo das músicas, para ver onde que entrava o instrumento que ela (e meu eu adolescente!) quer tocar. Ela disse que já fazia isso, há tempos, pai. Sempre ouço a linha de baixo. Por isso quero aprender a tocar. Eu consenti com a cabeça. Ela tem algo meu, afinal de contas.

Levei o lapetope velho, que eu usava até antes do Natal, para ela. Zeradin zeradin de tudo, o bicho deve ter ainda mais uns dois, três anos de vida, se ela souber cuidar. Duvido. O iMac já está com teclado e mouse mortinhos da silva e o monitor mal se vê que está ligado. Não é à toa que ela se atracou com o lepetope e ele virou amigo inseparável. Levo nesse fim de semana um teclado e mouse novos. Se o iMac morrer, o MacBook herda.

Estou devendo uma ida ao cinema com ela.

E um all star.

E uma ida à Paris, França.

E ser um pai melhor.

Recebi, ano passado, um cartão de dia dos pais. “Papai Zander”. Morri naquele momento. Não sou o único pai, né? Tem o padrasto que bem que podia ser um babaca, mas é um cara ótimo, carinhoso, atencioso, inteligente. Talvez melhor pai que eu jamais conseguisse ser. Quiçá, melhor ser humano até. Fazer o quê?

Só consigo ser o melhor zander possível. Nem mais. Nem menos.

Minha relação com ela é sublinhada pelos presentes, pelos gastos, pelos não-ditos, não-feitos. E pela certeza que serei um coadjuvante na sua história, um personagem menor.

Ela já é uma pessoa inteira e tudo que eu posso fazer de hoje para todo o sempre é imaginar como teria sido. Ela já não é mais a minha menina, o meu bebê, a minha criança das histórias. É do mundo. Daí o meu ciumes, o meu pranto. Daí eu ser incapaz de negar alguma coisa – qualquer coisa – que esteja ao meu alcance. É o gesto desesperado de comprar o afeto da – talvez – única coisa que eu tenho certeza que fiz de certo na vida.

Amo e levo-te, hoje, um violão.

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Do meu moleskine falso

February 24th, 2009 § 3

Eu tenho uma letra horrorosa, quando escrevo com pressa. Para falar a verdade, tenho uma letra horrorosa quando não uso uma “máquina de escrever” o que, para mim, remonta à tenra idade de oito anos, quando ganhei a minha Olivetti Portátil de natal.

olivetti-portatil

Não era um presente usual, eu sei, mas minha mãe não tinha achado o “avião que dava mil piruetas” para vender (o que era bem provável, já que ele só existia na minha imaginação) mas tinha se virado em seis para comprar o “robô que dava cambalhotas”, o “carro que bate-e-volta” e a indefectível bicicleta de rodinhas.

Fato é que não posso me queixar de presentes quando criança. Não mesmo. Já quando adolescente, a história era outra e fica para outra história.

Mas eu falava da minha letra horrorosa – tão feia que nem eu mesmo consigo lê-la quando tento rever minhas anotações – e da minha mania de comprar cadernos e blocos e canetas e lápis. Acho que a minha letra é a minha primeira frustração.

Todos em casa tinham uma letra desenhada. Minha tia até hoje tem uma caligrafia personalíssima e inteligível à distância. Minha mãe tem um traço firme e nervoso, mais parecido com caminhos de formiga. Ainda assim, legível até no escuro. Do meu tio mais velho só lembro dos números, das contas. Precisas, calaras. Dos tios mais novos, não lembro nada.

Fiz caligrafia por um tempo, mas desistia como bom preguiçoso do signo do porco. Dava trabalho e eu escrevia melhor e mais rápido na Olivetti. Pena que era muito pesada para levar à escola. Pena que não dava para escrever com ela nas provas e nas redações.

Um pouco mais tarde, ganhei meu primeiro computador – um TK85 – seguido logo, logo, do segundo – um Hotbit/MSX – que veio a ser o centro da minha primeira “estação de trabalho”: computador, monitor (uma TV), impressora matricial de oitenta colunas e um disk drive de 5 ¼ polegadas. Com a chegada da impressora, a caligrafia há muito abandonada foi de vez para as cucuias. Com o micro, as minhas outras frustrações ficavam mais patentes.

O bichinho “tocava” música, se eu o programasse, e eu sabia ler um pouco de notação musical. Então lá ia o pequeno Zander programar no computador as partituras que ele não conseguia – nem tentava muito – tocar no violão. “Afinal de contas, eu queria um baixo!” – era a minha desculpa – “E nem para ganhar presente direito!” – eu completava com a malcriação típica dos quinze anos. Amava música (se é que punk rock pode ser chamado de música) e não tocava patavinas. O mesmo se aplicava para as meninas: amava-as e necas de pitibiriba de descolar  umazinha que fosse.

Obviamente tudo era desculpa para uma falta de empenho meu. Se eu quisesse comprar um contrabaixo, que eu economizasse nos gibis e livros, né? Ou que eu deixasse de comprar tanto vinil, ou que eu vendesse o meu super-hiper-som modular da Philips e fizesse mais umas aulas de violão para eu mostrar que me empenhava em alguma coisa de verdade, que não me viesse fácil. Reclamar da vida sempre fora mais fácil que fazer o meu desejo virar a verdade.

Acho que ouvi uma vez alguém dizer que amadurecer é colecionar frustrações.

Falo disso tudo porque, vira e mexe, me acho uma farsa. Uma farsa no trabalho, com os amigos, com a família, com os amores. Não tenho metade da inteligência que presumo ou apresento, um terço do talento que me atribuem, um décimo da capacidade que vendo, um centésimo da compreensão e da tolerância para os meus entes queridos e um milésimo da capacidade de amar que qualquer ser humano merece.

É como me sinto nas noites insones de calor do Rio de Janeiro. Como uma farsa de mim mesmo, esboço de alguém que eu nunca poderei ser plenamente apenas porque escrever as letras de forma legível dá mais trabalho que inventar o texto do meio dos meus garranchos.

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do jazz e do blues

January 27th, 2009 § 9

Eu já disse que me acho muito velho pro rock e muito novo pro jazz, mas há um quê de imprecisão aí.

Quando ouço a palavra “roque”, saco logo o meu Centrium Silver e fico esperando a legião de barrigudos-pós-cabeludos-quarentões que ainda acham legal se embriagar de cerveja de péssima qualidade, subir em motos esporrentas e que berram “Jim Morrison não morreu!”.

Morreu sim, porra.

Há algo de lamentável nessa busca da adolescência perdida. Não falo isso isento de culpa, mea culpa, mas o limite do ridículo fica ali à beira avisando: “Ó, você tá ridículo com essa camisa do sex pistols. Você não está em 1979. Camisa rasgada com o A de anarquia também não! Tome tento!” Ia falar de géz e acabo falando de roque, né? Pois é.

Da mesma forma, é tão ridículo alguém mandar do nada “vamos ouvir Coltrane e fumar umzinho?” Ou sacar de um cubano no meio do boteco dizendo “essa porra custou mais que teu salário” pro garçom.

Pra mim é coisa de quem precisa mijar em torno de si pro ego dormir mais tranquilo.

Tenho birra com jazz desde que me entendo. Gostava, quando era punk-rocker na idade certa, do Miles Davis e da versão que eu tinha de Stella by Starlight e adorava viajar ouvindo a gravação em K7 do LP da coleção Abril de Jazz.

Coisas do milênio passado.

Já do Blues eu nunca me encantei. Gosto, ouço, curto, mas não me encanta. E blues é muito isso, né? é encanto triste, é o escravo dizendo que sofre para caralho e que a mulher que lhe botou um chifre não merece o homem que tem mas se ela quiser voltar ele tá ali de portas abertas. Ou isso seria o country? Não sei. Para mim é tudo coisa de dor de corno e para isso temos o Chico Buarque que canta tudo isso em “brasileiro” mesmo.

Fico me lembrando do Jim Morrison boiando, azul, em Paris. Tem coisa mais blues que isso?

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The White Stripes – Apple Blossom

August 14th, 2008 § 1

hey little apple blossom
what seems to be the problem
all the ones you tell your troubles to
they don’t really care for you

come and tell me what you’re thinking
cause just when the boat is sinking
a little light is blinking
and i will come and rescue you

lots of girls walk around in tears
but that’s not for you
you’ve been looking all around for years
for someone to tell your troubles to

come and sit with me and talk awhile
let me see your pretty little smile
put your troubles in a little pile
and i will sort them out for you
i’ll fall in love with you
i think i’ll marry you

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Louis XIV – Stalker

August 8th, 2008 § 1

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Na paulista…

June 1st, 2008 § 2

publicado na Tribuna da Imprensa

…costumava ser uma expressão usada na faculdade para o ato de passar a brenfa, marofa, canha, baseado, doizinho, pega, a maconha – enfim – com velocidade que, a priori, não deveria ser própria de quem está consumindo um entorpecente relaxador. Ou seja, o cara pega, puxa, traga, e passa sem ter tempo de contemplar o ato, de curtir o momento, e só espera que a onda bata logo. Obviamente pegar a bagana, a vela, a maria-joana, o fumo, o cigarro e ficar contemplando o mundo enquanto ficava olhando a parada queimar lentamente para o nada era chamado de “na carioca”.

Hoje fico pensando se não existe algo mais nessa comparação que a falsa calma do carioca e da pressa inequívoca do paulistano.

Antes que me processem por apologia ao narcotráfico, aviso: nunca fui adepto do uso da cannabis sativa – jamais consegui dar mais que dois tapas e não desmaiar em seqüência – mas curtia ficar com o pessoal na vila dos diretórios acadêmicos da PUC-RJ, na chamada esquina da esquadrilha da fumaça, a quina formada pelas casinhas do povo de desenho industrial, de filosofia e geografia e era completada pela casa do CA de Direito que, diga-se de passagem, o único que tentava fazer algo que lembrava remotamente um movimento estudantil naquela época pós-caras pintadas, pós-reabertura política, pós-ideologias, pós-juventude.

Gostava porque a maioria ouvia o bom e velho rock’n’roll – apesar de um reggae ocasional me torturar a paciência – e todos gostavam de quadrinhos e de alguma literatura. Além disso era o pit-stop obrigatório no caminho do boteco. Esse sim, fornecedor do meu elemento de entorpecimento favorito.

Desculpem se tergiverso um bocado, mas é que me lembrei disso hoje ao andar na Avenida Paulista.

Chovia de um jeito que é cada vez mais raro em São Paulo – chuva fina, tempo frio, vento cortante – e eu ia da Consolação ao Paraíso. Da rua Augusta à rua Brigadeiro Luiz Antônio. Na calçada, a fauna de costume: casais gays na altura do Conjunto Nacional – e da Frei Caneca – jovens executivos entre a Freica e o Trianon, alguns rapazes perdidos no parque, estudantes nos botecos até a Joaquim Eugênio de Lima, mais jovens executivos que foram estudantes há pouco nos mesmos botecos com mesas e cadeiras em plena calçada, hippies/mendigos na altura daquela casa branca que estava abandonada e que fora um MacDonalds até um tempo atrás.

No passar da turba, uma cena insólita. Como sou muito míope, as imagens me vêem aos poucos, sendo construídas no meio da minha falta de foco. Primeiro, um engravatado carregando algo pesado. Depois, consegui ver o portador de terno completo e gravata com mais nitidez. Ele carregava um monitor velho de computador, daqueles de tubo, de umas quinze polegadas, com algum esforço, mas andava com energia e determinação. Mais uns cinco metros consegui ver a face. Barba por fazer, cabelos desgrenhados e loiros, olhar injetado de fúria e os braços de terno sem camisa.

Passou por mim como se não existisse chuva ou destino. Na paulista.

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Morningwood – Nth Degree

January 11th, 2008 § 0

M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g
M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g
M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g
M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d

If you rock’n'roll
Disco
Heavy Metal Angel
Come on everybody
To the nth degree

The four of us
The royal we
He bangs the drum
She’s vip
He’s never done
Got OCD
Our love is
To the nth degree

Oh-oh Here we go
Turn up the radio
Come on everybody
To the nth degree

If you rock’n'roll
Disco
Heavy Metal Angel
Come on everybody
To the nth degree

And I’ve got my family
And one big bed is all we need
With morningwood

Oh-oh Here we go
Turn up the radio
Come on everybody
To the nth degree

If you rock’n'roll
Disco
Heavy Metal Angel
Come on everybody
To the nth degree

M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d
Allright
M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d
A little louder
M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d
And harder!
M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d
Let’s go!

Oh-oh here we go
Turn up the radio
Come on everybody
To the nth degree

If you rock’n'roll
Disco
Heavy Metal Angel
Come on everybody
To the nth degree

Oh-oh here we go
Turn up the radio
Come on everybody
To the nth degree

If you rock’n'roll
Disco
Heavy Metal Angel
Come on everybody
To the nth degree

M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d
To the nth degree!

M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d
To the nth degree!

M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d
Come on everybody

M-o m-o-r m-o-r-n-i-n-g-w-o-o-d
To the nth degree!

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Hojerizah – Roma

October 10th, 2007 § 0

Composição: Flávio Murrah

agora eu sei
o ponto em que cheguei
certas pessoas me assustam
não pelas rugas
que se espalham no rosto
mas os anos se passaram
os anos se passaram
e elas nada entenderam
e continuam pintando
os seus cabelos
o tempo é outro
e as esperanças ficaram
dentro do quarto
ou na lâmina de uma gilete

tão breves
tão distantes
os beijos do mundo
eternos hesitantes

fingidos pelo mundo agora eu sei o ponto
em que cheguei
certas pessoas me acusam
só pelo uso que faço do corpo
mas os olhos se fecharam
os mesmos olhos
que choram os mortos
use melhor as suas lágrimas
com esse mundo que te rodeia
ou com a dor do teu ofício
ou a dor do sacrifício

tão breves
tão distantes
os beijos do mundo
eternos hesitantes
fingidos pelo mundo

ouça aqui

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O suor nosso de cada dia, nos dai hoje

July 12th, 2007 § 7

publicado na Tribuna da Imprensa

Sentado na sala, esqueço o que está passando na telinha no momento seguinte em que as informações chegam à minha retina. Ali eu exercito a minha capacidade de memória de peixinho dourado de aquário. É delicioso me imbecilizar diante do mundo que passa sem fazer qualquer sentido. Os romances de mentira, as necessidades inventadas, as informações que não afetarão em nada a minha capacidade de produzir, interagir ou de entender o mundo. Tudo isso passa, passa, passa, passa, passa, passa, passa. E eu fico sentado ouvindo as pessoas me dizendo: “isso vai passar, cara, vai passar”.

Mas não passa.

É essa a questão. As coisas não passam sempre como na tevê. Por vezes o que resta de uma situação é a exaustão. É como quando num gozo. O evento em si é rápido, mas a sensação e o estupor levam um tempo até o esquecimento. Mesmo o suor demora em secar quando a paixão é muito intensa. Fica na pele como lembrança do desejo feito em ato. É sombra do esforço que terminou. E não passa como um comercial de trinta segundos. Ele tem o seu tempo exato para que os músculos relaxem e retomem a condição inicial. O tempo de cada história é diferente até mesmo para as pessoas que participaram.

É como aquele ator que só tem duas falas no início da novela e lá pelo capítulo cento e cinqüenta tem uma cena inteira só para si, passando cal na parede da casa nova que comprou com a mocinha rica que finge que é pobre por causa da irmã gêmea má que quer roubar o seu namorado pobre, bonitão, boa pinta e bom de cama que sairá na G magazine no mês que vem. O tempo dele é lento e só aparecerá mesmo quando a novela for esquecida. Só a memória da cena dele caiando a parede com uma expressão de cansaço é que ficará nos programas de reprise da vida.

No caso, eu falava do cronista que se largou na cadeira da sala e ficou vendo televisão para esquecer-se que a vida não é nem sombra do que planejara, de que trabalha com o que gosta, mas teve de abandonar as pessoas que mais ama para poder fazer isso, de que tem a sina de amar mais o amor que as pessoas e que se apaixona mais pela paixão que pelo ato em si e que já não está no target do seu público-alvo, que já é velho para ir a shows de indie rock, mas é muito novo para curtir os bares de jazz com sinceridade.

O fato é que a vida pesa e carregar esse fardo cansa. Aliás, cansa diariamente e é por isso que as pessoas dormem. Não tem nada a ver com essas teorias neurológicas aí não. É a exaustão de carregar a si mesmo todos os dias, de sol a sol, que faz o homem arregar ao cair da noite e procurar o aconchego de uma cama.

Não que esse esforço seja ruim, entenda-me. A opção a isso está definitivamente fora dos meus planos momentâneos. Sei que a inevitável se fará presente, mas bem preciso de um século e meio de amargura e azedume antes que a derradeira data chegue. No mínimo. Quero muito esforço, desgaste, coração partido, suor mal-seco no corpo, lençóis desarrumados, empregos que exijam de mim, bocas que se recusam a ser beijadas novamente e noitadas anacrônicas antes que eu descanse essas férias sem fim.

Afinal de contas, única sensação que vale a pena é a do cansaço.

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Linda garota de Berlim

January 28th, 2007 § 6

publicado na Tribuna da Imprensa

“Que cara é essa, lindinho?” “Cara de cu. Sério, não tô bom para papo-chamego hoje não, Vivien.” “Ih… O que aconteceu agora? Acordou de ovo virado de novo?” “Antes fosse.” “Com essa cara, já sei que é coisa de mulher. Tem alguma sirigaita te enchendo. Alguma lurker nova deixando recados escrotos no teu blogue?” “Nada disso.” “Então está assediado por uma legião de bacantes enlouquecidas no cio que querem copular ensandecidamente até você cair morto?” “Não. Antes fosse.” “Qual foi, Bruno, se abre aí.”

Bruno se recostou na cadeira dura do boteco. Levou o chope quente à boca e sentiu voltar tudo . Não apenas o almoço errado de hoje cedo – ovos coloridos, lingüiça na cachaça e azeite, sanduba de carne assada – voltavam as recordações das noites passadas e uma inquietude que ele achava que tinha enterrado fazia uma década.

Olhou pra Vivien novamente. Ela estava sempre disposta a dar um chamego e chamá-lo para a terra quando ele teimava em surtar com o trabalho, a casa, os amigos e os amores. Era o seu porto seguro desde que se entendia como homem feito, dono de seu nariz. Só que agora uma vergonha impedia de contar tudo assim, de prima. Tinha de fazer um preâmbulo que não era de seu feitio.

Virou o resto do copo. Curvou-se com o estômago em fogo. Era o corpo pedindo o sossego que a alma de Bruno não dava.

Tudo começou numa quinta-feira. Um email de fotos da filha recém-nascida de uma amiga de colégio e várias pessoas respondendo, parabenizando-a. Carlinha estava na lista e ele não conseguiu deixar de notar. Reuniu toda a sua força de vontade e segurou longamente – sete minutos – a vontade de mandar um email. Já tinha se arrependido ao apertar o “enviar”.

Carlinha era a sua primeira paixão. A primeira namoradinha. Só que, nessa estranha relação, só ele namorava Carlinha. Ela o ignorava. Ou assim ele pensava.

Tá certo que eles iam sempre juntos para a escola. Que ela ia sempre à sua casa aos sábados para ouvir um disco novo que ele tinha comprado. Ou para estudarem matemática, ou geografia. Ou para comer bolo de chocolate quente com um copo de Nescau gelado. Ou para ficar de papo pro ar vendo tevê.

Normal que ele se apaixonasse por ela. Os hormônios, a proximidade e tal. Normalíssimo.

O problema é que ela andava mais na linha que bonde de Santa Teresa. Só ia namorar depois dos quinze anos, se namorasse alguém antes de entrar na faculdade. E era um tal de “para com isso” dali, e “tira a mão daí” de lá, um “deixa de ser bobo” daqui, ou um”assim não ando mais com você” de cá . O fato é que, por mais que ele tentasse se aventurar um pouco além, havia um medo de perder o pouco que já tinha.

Ele se contentava com bem pouco. Bastava ver aquele par de olhos azuis – sempre olhos claros – naquela moldura de cabelos loiros entrar na sua casa sem mesmo se anunciar.

Daí ele arrumou uma namoradinha adolescente e Carlinha deixou de fazer parte do seu dia-a-dia.

O tempo passou, ele tomou pau – duas vezes – na escola, trocou de turmas, voltaram a se ver quando tinham trinta e muitos anos. Ela deixou escapar que achava que o tinha namorado na escola. Bruno ficou de cara na mesma hora. O sonho dele era ter namorado Carlinha. Aquele namorico de adolescente onde as coisas eram todas implícitas, mas nunca executadas. Onde o sarro era o ápice sexual da relação. O soutien um alvo inatingível pelas mãos afoitas e famintas de gozo. Pensou melhor e, de repente, na cabeça de Carlinha talvez eles tivessem namorado mesmo. Talvez aquilo fosse o mais próximo de um namoro que ela jamais poderia se permitir aos doze anos.

Então ele viu o email de Carlinha e resolveu puxar assunto. Ela se confessou apaixonada por ele à época do colégio. Que a maior – ou a primeira – decepção amorosa dela fora ele ter começado a namorar a Dani.

Para Bruno aquilo fora um choque.

De certa forma sentia que aí era a principal raiz do seu maldito platonismo. Não arriscar o pouco que tinha em prol de algo que realmente queria. Entendeu que ficar na zona de conforto lhe custava caro, no fim das contas. Caiu a ficha de que ele era, de fato, um miserável emocional. Um muquirana afetivo. Um Tio Patinhas da paixão. De certa forma, fez bem pra seu Ego. Afinal de contas, nunca insistira no assunto porque sabia-se feio, nerd, pobre. Não via em si atrativo algum, apenas que estava do lado errado do espelho.

Vinte e muitos anos mais tarde, já sabia se relacionar com o próximo de uma maneira mais “real”. Ou quase isso. Dependia de mensageiros instantâneos, emails, blogues, flogues, para despertar o interesse no próximo. Olhava-se diariamente no espelho e via apenas um patético arremedo de ser humano. Nunca aprendeu a se amar. Obviamente era também um fracasso em amar o próximo. Quase que chegava às vias da misoginia. Ainda assim apostava nas estatísticas. Havia mais mulheres disponíveis que homens no Rio de Janeiro e algo acabava sobrando para si.

“Você é um bobo. É um homem interessante e sabe disso.” “Só você acha isso, Vivien. Quem eu quero não me quer. E quem me quer, me cansa.” “Maldita Vênus em Peixes.” “Maldito Marte em Capricórnio na doze e com quadratura com Sol e Lua que empata as minhas fodas inexistentes.” “Ha ha ha ha! Só você mesmo para fazer piada com o próprio mapa astral. Se eu tivesse uma combinação dessas, me matava.” “Por isso que eu aposto na Megassena.” “Como assim?” “Se eu ganhar a bolada principal, acerto a vida dos meus familiares e dos amigos mais queridos. Daí pego o que sobrar, me mudo para um puteiro e vivo uma versão pornô de ‘Leaving Las Vegas’” “Bobo. Mas conte mais. Você descobriu que ela era apaixonada por ti e…” “E nada. Ela tá casada – com um ariano! – e está feliz da vida lá. Eu é que não vou entrar numa história de mulher casada. É espeto!” “É batata!”

Ambos riram do sarcasmo que ele conseguia destilar nessas horas. Afora do drama – Bruno era uma verdadeira Drama Queen – ela sabia que ele era centrado o suficiente para não surtar com os desencontros e desamores. Já estava calejado. O problema é que ele não conseguia moderar a casca dura com a abertura para arejar os sentimentos. E tome chope quente em frente ao Tio Sam.

Na sexta, Bruno fui a uma festa. Show de rock numa casinha nova, uma alternativa à Lapa e ao circuito da Matriz. Uma banda instrumental só com baixo e bateria chamou a sua atenção. E a morena de olhos verdes que acompanhava as suas amigas também.

Já tinha sido advertido que ela era linda, simpática, inteligente, esperta e agradável. Só não tinham advertido ao rapaz que ela era apaixonante. E lá foi o babaca ficar de calças arriadas, fingindo ser blasé. Tipo menino que fez merda e disfarça demais.

“E daí, Bruno?” “Daí que me peguei fantasiando. Coisa que não fazia desde…” “Desde semana passada, né?” “É. Maior merda. Tentei abstrair. Tentei me embriagar, mas faltou uma projeção orçamentária para isso.” “Mas você tentou algo, ao menos?” “Obviamente não. Ela era linda, Vivien, e eu velho, pobre, feio, meio burro, desajeitado e barrigudo.” “E então…” “Bom, como dizia um amigo meu: ‘se você não faz, tem alguém que fará por ti.’”

E eles ficaram ali, no boteco, pensando na vida e na morte da bezerra. Que tinha olhos verdes, claro.

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