Eu gosto de pensar que a vida é cíclica, que as coisas funcionam de acordo com alguma ordem pitagórica, arcana, e eu costumo ver (ou imaginar) uma repetição em alguns padrões.
Com as fodas, eu gosto de imaginar os ciclos em três noites, três eventos, três coitos.
A primeira foda é a da descoberta. Não tem aviso: nunca se sabe se a moça está de fato a fim de praticar o arcaico esporte bretão ou não. Se é daquelas que sabe bem que sexo é divertido, atlético, lúdico ou se é uma das que gosta de romance, de olhinhos virados pro alto quando o moço diz que escreve poesia e que pinta aquarelas.
Normalmente, essa foda é urgente, desesperada. É pura explosão, desastre, acidente, gozo desvairado, afobado, dedos intrometidos, nãos ditos com vontade de sins, bocas arritimadas e uma sucessiva quebra dos protocolos de decoro público.
Normalmente é maravilhosa ou ridícula. Dificilmente fica no meio-termo.
A segunda trepada (se houver) é aquela combinadinha. “Eu te ligo e depois esticamos” ou “passa aqui em casa, estou meio com preguiça de ir para a rua” ou ainda “eu fiz um prato sensacional hoje, pensei em você para jantar comigo”. Todos ali já sabem o que irá acontecer e a coisa flui num outro ritmo.
A segunda é uma coisa de língua exploradora, mão precisa, toques estratégicos, paciência até chegar ao quarto, dedos melhor colocados, músicas no fundo do ambiente, convesas durante todo o tempo que se consegue articular algo.
Obviamente eles ficam pelados na maior parte do tempo e são discretos até os berros e gemidos exagerados, ao gosto de cada um.
Na terceira é que se decide se haverá a segunda novamente ou não. É a “prova final” do relacionamento que se rascunha. Mas, na norma, é expectativa da próxima vez de um lado, e olhar triste de “finitum est” do outro.
Outra coisa que não entendo é esse medo bobo de perder alguém antes mesmo de começar alguma coisa com ela. Algumas amigas se queixam que não entram em um relacionamento porque têm medo de se machucar, que podem se ferir muito no processo e preferem abrir mão disso. E quem disse que relacionar-se tem algo a ver com cintos de segurança, air-bags e limites de velocidade? quem quer segurança, que fique comendo pipoca na frente da TV enquanto sonha com os romances pré-fabricados de Hollywood.
A vida, querida, queridas, é feita de cuspe, sangue, porra, suor e dor. Quem quer se apaixonar tem de ter coragem para levar porrada na cara de quem mais ama. Pior, de quem não ama, mas deseja com um tesão de largar a família e morar no mato. Tesão de abrir mão de emprego, comida na mesa e roupa lavada. De querer morar na rua com esse indigente sentimental por quem você – tadinha, tão princesinha – se apaixonou e se entesou.
Não havia um dia que ele não se lembrasse dela e que não relembrasse as caminhadas no calçadão de Copacabana, os beijos ardentes nos bancos da praça do parque Garota de Ipanema e os baseados na Pedra do Arpoador. A história dele estava tão encruada naquelas ruas que os prédios pareciam dizer “você nasceu aqui”, “aqui você amou pela primeira vez”, “aqui você viveu pela primeira vez o prazer de uma mulher”, “aqui você amou para sempre”.
Mas tudo tem o seu fim. É a lei natural das coisas e é mais natural e lei quando se tem dezesseis anos. O Arpoador ensinou ao rapaz que o desamor dói e dói mais quando é o outro que desama. Principalmente quando é o outro.
A menina não deu explicações, não contou histórias. Apenas chegou com um “não quero” no bolso e entregou para ele na Gomes Carneiro. Ele sentou no canteiro e chorou as derrotas de adolescente desencantado. Não sabia a menina que o que se faz nessa idade, grava na alma. Como o cenário de um romance, como uma música que se escutava quando aprendemos a sorrir, como um ato sem motivo.
Hoje eu li um texto de um amigo que normalmente escreve umas boas piadas que me pegou na virada da esquina. Normalmente ele disserta sobre política, futebol e nerdices afins com uma verve de humor rara. Sarcasmo e ironia de primeiríssima qualidade saem daquelas páginas virtuais e tinta digital.
Mas o puto me manda um texto desconcertante. Uma narrativa inteligente, brincalhona, excepcional e única. O sinal definitivo que o cretino tem um talento inegável e se ele quiser – apenas se ele quiser – se tornará um dos maiores cronistas/contistas/escritores desse país.
É foda ver algo tão raro acontecer ali, na tua frente, na mesa do boteco. Sentir o cheiro da história acontecendo. É de uma violência incomensurável, como se fosse um tapa na cara que ecoasse por meses a vir.
Mas isso até agora não tem nada a ver com Watchmen, exceto o fato que esse mesmo calhorda não tinha lido os gibis até bem pouco tempo – e ele se dizia fã de HQs – mas foi ver o filme com afã de fã, de quem cresceu lendo Alan Moore e tendo sonhos lisérgicos a partir do mofo acumulado em páginas de quadrinhos da Editora Abril e um paralelo forçado que tento fazer.
Quando Watchmen foi anunciado, eu fiquei com os cabelos do pescoço (e até o rego, confesso) arrepiados de expectativa pela estréia. Era um dos meus ícones quadrinísticos migrando de mídia. Já tinha gostado de V de Vingança, mas o tom lírico-anarquista do gibi havia se perdido. Havia amado a versão do Homem de Ferro e gostado muito do novo Hulk (o último filme, o que se passa no Brasil) e achado que finalmente acertaram o tom nos dois Batmen.
Mas treino é treino e jogo é jogo, né? Watchmen e The Dark Knight Returns são quadrinhos-marco da arte seqüencial e, mesmo tendo outras obras que inovaram mais, tiveram melhores roteiros, melhores artes, venderam mais e etc., essas duas sintetizam tudo aquilo que os quadrinhos deixaram de ser nos anos 80 e passariam a ser nos anos seguintes (até voltarem a ser o que eram nos anos 70, mas isso é outro assunto, outro texto, outro blogue).
Quando um quadrinho (ou peça, ou romance, ou canção) migra de mídia e vira filme/série de televisão/desenho animado é esperado que haja concessões na história, no visual e no ritmo da coisa. No caso, comprimiu-se material suficiente para uma minissérie da HBO em quase três horas de filme e – na minha modesta opinião – tivemos um resultado espetacular.
Humor na hora certa (na mais ridícula possível), referências quadrinísticas mantidas e respeitadas, personagens reconhecíveis até na sombra e o grau de suspensão de realidade necessária para o tema. Mas isso não torna o filme genial ou brilhante. O Watchmen, the movie é apenas um puta filme de heróis que tentam salvar o mundo. As discussões, as viagens, os conflitos emocionais, as nuances suaves? Que fiquem no papel, onde funcionam bem melhor que na tela.
O paralelo? Ah! É quando uma pessoa sai da caixinha para fazer algo diferente corre seus riscos. Corre o risco de ser genial.
Percebia-se pela forma que se tocaram e pelo olhar que traia a brasa – fantasma de uma chama – que insistia em habitar a memória dos dois. Há anos não se viam, mas o toque era o mínimo efeito necessário para desencadear a virada da história.
Mesmo sem perceber, diziam a todos que já haviam rolado desnudos por noites a fio e fizeram festa e dança nos quartos que testemunharam a santa loucura que se apossa dos corpos entesados. Que já haviam berrado, xingado e se agredido em êxtase por não entender completamente o que se passava com eles.
Quando o amor é tamanho, a mente se nega aos fatos e cria fantasias para poder suportar os calores e os resfriares da alma. E assim acontece porque, para ambos, é como se tudo o que fosse, deixasse de sê-lo apenas porque podem assim fazê-lo. São onipotentes, esses devassos apaixonados! Agem como se o universo ali dobrasse na singularidade de dois corpos em fúria de cópula incessante. E isso fosse o suficiente para a eternidade.
Os amantes criam fossas abissais para o restante do mundo, já que esse é incapaz de compreender o isolamento que se faz necessário para o frutificar dessa paixão tarada e explícita, que se crie barreiras intransponíveis entre os enlaçados e os demais infelizes que jamais – Nunca! Nunca! Nunca! – atingirão aquele êxtase que só os dois são capazes de parir e manter. O prazer é início, meio e fim dos amantes.
O resto é desculpa.
E há o gozo, que parece ser impossível de ser replicado quando socializado. O gozo é algo solitário, mesmo a dois. E a busca do gozo faz aumentar as barreiras, as profundezas e o isolamento. E a busca do gozo faz com que o universo perca toda a lógica. O que importa é apenas a busca e a busca. Sempre só. Sempre só. Sempre sozinha. Mesmo a dois.
E quando os amantes encontram-se em gozo pleno, descobrem-se isolados de tudo, até mesmo de si. As barreiras passam a falar, a gritar em acordes quebradiços uma angústia sem fim. E só o fim é que promete uma falsa paz. Como a próxima dose de heroína acalma e derruba, o fim corta o canal de dor.
Eles foram amantes há tempos e viveram a loucura do gozo sem fim. Temiam que essa fúria retomasse o curso de suas vidas e lhes colocasse antolhos e os transformasse em bestas que ululam entre lençóis e arranham a mobília, os azulejos, as paredes, os tetos e o óbvio chão. Receavam que tivessem de se distanciar dos amigos, da família e de tudo o mais que lhes dava alento quando os vícios se tornavam impossíveis de serem carregados.
Receavam, acima de tudo, arremessar a vida e a televisão pela janela. Defenestrar a vida como sempre fora ensinada nos romances de sete reais e na novela das oito. Borravam-se de se desconstruir ou de se expor sem pele – perdida no atrito horário dos corpos – e de ficarem assados de tanto querer se atracar.
Contra tudo, tocaram-se. Apesar de tudo, tocaram-se. Por causa de tudo, tocaram-se.
Hoje eu li em um blogue de uma amiga (http://simsenhoras.blogspot.com/2008/07/quero-namorar-o-wall-e.html) que ela não vê mais as pessoas simplesmente dando as mãos por aí. Que no arsenal da conquista não se usa mais o singelo gesto de procurar a mão da menina e segurar os dedos entre os dedos num enlace quase que obsceno, mas mais singelo que os olhares que enrubescem. Que não vê mais o gesto em si mesmo gerando o momento mágico.
Eu sou uma criatura de “grude”. Gosto de tocar, abraçar de dar beijos e tal em quem tenho carinho e afeto. Obviamente já passei da fase adolescente onde os futuros adultos arrumam n desculpas para se jogar uns em cima dos outros ou se amontoarem pelos cantos. Algo a ver com os hormônios em ebulição ou uma desculpa esfarrapada para pré-sexo. Dito isto, acho que poderão entender melhor o caso que tenho para contar.
Pois bem.
Um dia, numa das minhas idas profissionais à cidade do dinheiro e à terra da fortuna, eu saí com uma conhecida para podermos materializar o nosso conhecimento mútuo. (Não me entendam mal! A frase anterior é só uma forma pernóstica de dizer que fui conhecer de fato uma pessoa que conhecia pela Internet. É que às vezes conheço mais de fato quem nunca vi de perto. E às vezes conheço menos de perto quem já vi de fato. Fato.) Fomos a uma pizzaria numa praça que só recentemente voltei – e gravei o nome. E obviamente me esqueci novamente, a ponto de não ter sequer referência para citar nessa crônica de quarenta linhas.
A pizzaria era modernosa, com uma decoração bem interessante. Como bom carioca, sempre achei que pizza boa era a que era servida rapidamente. Ali fui introduzido à grande arte de ser fazer Pizzas em Sampa.
Antes mesmo de fazermos o pedido, senti que havia algo no ar. Uma atração definitiva. Da minha parte, claro, por minha amiga. As pizzas não tinham nada a ver com a história. A moça era bonita, charmosa, interessante mesmo. E tinha bom gosto. Afinal de contas, sabia escolher a companhia para o jantar.
Durante o evento inteiro eu não conseguia desgrudar os olhos dos olhos da moça e “dava um jeito” de fazer as mãos delas encontrarem as minhas. Quando ocorria, parecia que eu estava segurando o braço de uma cadeira ou apenas uma maçaneta. Nada. Nem uma fisgada, nem uma alteração na voz da moça. Nadica de nada. Um suspiro ou uma pausa ao menos? Não.
Obviamente achei que não tinha logrado sucesso e tal. Mas são coisas da vida. Se todas as mulheres desejassem todos os homens (e vice-versa), não haveria agenda que desse jeito para tanta fornicação. Ou romance. Fica no teu critério. Fato é que não funcionaria de forma alguma. Há de se ter a rejeição por bem da humanidade.
Mas, como a vida sempre surpreende e desconstrói as primeiras impressões, na saída, a moça me permite um beijo. Obviamente voltei pro Rio sem entender coisa alguma.
Quando mudei em definitivo para Sampalândia, eu entendi que havia um tipo de gente que não se toca, a não ser na intimidade. Que um abraço pode ser sinal de posse e que um pegar em mãos pode ser ostensivo, declaratório e íntimo demais para duas pessoas que apenas se flertam.
Da pior forma, entendi que esse não era o meu tipo de gente.
In 1969, a 14-year-old Beatle fanatic named Jerry Levitan, armed with a reel-to-reel tape deck, snuck into John Lennon’s hotel room in Toronto and convinced John to do an interview about peace. 38 years later, Jerry has produced a film about it.
Using the original interview recording as the soundtrack, director Josh Raskin has woven a visual narrative which tenderly romances Lennon’s every word in a cascading flood of multipronged animation. Raskin marries the terrifyingly genius pen work of James Braithwaite with masterful digital illustration by Alex Kurina, resulting in a spell-binding vessel for Lennon’s boundless wit, and timeless message.
Sento-me, com esforço, à beira da cama desarrumada, desfeita e ainda úmida da atividade noturna intensa. Das oito horas de sono que a constituição me garante, parece que usufruí menos de cinco minutos. Confiro o relógio. Há doze jazia no leito. A cama, rente ao solo, não permite que as pernas pousem confortavelmente no chão. Volto a deitar-me só. Eu e meus outros eus.
Dobro-me por sobre o meu ventre. Ajoelho no colchão como se pagasse as promessas das vidas alheias. Como se me submetesse a um rei invisível, uma entidade superior e impossível de ser ignorada. Ajoelho-me, tremo, suo como se tivesse corrido a mãe de todas as maratonas. Curvo-me mais, como se fosse possível atravessar as barreiras de carne, pano, madeira, tijolo e cimento que se projetam à minha frente.Que barreiras?
Não há nada sobre meus ombros mas sinto o peso do mundo a vergar-me. A pressão de centenas de vidas, uma dor ancestral, um sofrimento atávico, faz com que eu me humilhe e peça, entre lágrimas que descem sem censura, que tudo acabe logo. Que se encerre esse sofrimento, essa laceração da alma. Que haja um fim, por fim.
Mal entendo meus próprios pensamentos. Tudo que me vem é o meu eu que, de multipartido, se reúne para socorrer minha sanidade. É como se todo o meu corpo falasse ao mesmo tempo. Todas as partes de mim que, diariamente são mudas, agora berram, suplicam a atenção do mundo. Meu corpo fala e a mensagem que carrega não é bonita
O coração ressoa tão alto que se confunde com o meu resfolegar.Sinto-o no pescoço, nos pulsos, na dobra de minhas pernas que começam a se enrijecer e a ficar dormentes. Sinto-o no ventre: no estômago que pinga o ácido venenoso que faria Loki arrepender-se dos pecados contra os Aesires; no fígado que se recusa a regenerar-se e me lembra dos excessos da vida libertina que eu tentei – inutilmente – impingir a mim mesmo por essas décadas a fio; no baço que simplesmente dói a troco de nada; nos rins que me lembram de suas pedras e das refeições hiper-temperadas que comi por todos esses anos; na bexiga que se contrai e faz arder a urina que excreto; nos intestinos que se revoltam e disparam gases e me lembram do que tenho de mais puro e límpido dentro de mim. Sinto-o na gordura do meu corpo, na pele, nos músculos retesados, na fronte do meu rosto, no tremor das minhas mãos. Ele bate como se quisesse pedir demissão do cargo. A caixa peitoral não o contem mais e explode a cada minuto, explodindo em sangue, ossos e pulmões. Confiro, desesperado, se o diabo continua lá. Infelizmente, sim.
Súbito, a agonia se vai e consigo arrastar-me até a sala. Espero hora e meiae durmo no sofá que me recebe como mãe carinhosa, acolhendo e confortando. Ao acordar, o sol já se pôra novamente e o telefone me convida para a vida que multiplica a minha. Estou inteiro, operacional, e já penso nas máscaras que terei de usar àquela noite. Nos sorrisos que desfilarão na minha boca, nas expressões que aprendi a modelar na minha cara para atrair os meus dessemelhantes. Haverá álcool, sexo e música e eu serei mais um ator dessa vida de entretenimento. Antes de voltar para casa, serei centenas de pessoas, compartilharei momentos das minhas vidas e das de outros. Contudo, só reconhecerei no espelho aquele que suava, esperando o último suspiro ressacado.
A dor é a única coisa que traz o homem para a sua unidade.
Não tem jeito. Por mais que tentemos prolongá-la para além de seu curso, como se amarrássemos balões de gás que a impulsionassem mais alto e além de sua própria capacidade de vôo, ele fatalmente perderá o seu viço, a sua força e o seu encanto e se tornará uma rotina cinza e modorrenta. Ou, com sorte, se transformará numa história diferente onde os projetos dos dois se somarão e os votos antigos, já obsoletos, serão queimados diariamente, sendo substituídos por filhos, emprego, a compra da casa, num “não sei o que fazer, eu só me reconheço como parte desse relacionamento” ou qualquer outra hipocrisia que se resolva inventar para manter o que já estava morto.
Obviamente que cada história de amor tem um tempo diferente de vida. Eu costumo dizer que o tempo médio de todo o ciclo de relacionamento (flerte ou paquera, declaração, beijo, cópula, apresentação social, divisão de teto, planos a dois, estranhamento do outro, estresse, separação, ódio e desprezo – não necessariamente nessa ordem) é de dois anos com diversos fatores que aumentam ou diminuem esse prazo. Planos em comum aumentam de seis a doze meses; gostos em comum: quatro; senso critico apurado de um dos membros do casal: menos dezoito meses; um dos membros do casal é um carioca desterrado em São Paulo e se chama Zander: menos vinte e três meses e três semanas.
O que permanece é a lembrança, esse fantasma que faz a humanidade ser o que é. O ser humano vive no fio da navalha entre ser uma criatura de passado e morar num universo onde nem o passado nem o futuro existem de fato. Se, por um lado a lembrança dos fatos passados é o que nos permite erigir prédios e desafiar a natureza com as invenções do banheiro e do ar condicionado – os dois símbolos mais-que-perfeitos da civilização – essa mesma capacidade de lembrar nos atira ao esgoto emocional, à nostalgia improdutiva e à auto-comiseração. Nunca conheci um amnésico que tivesse pena de si mesmo. Também nunca conheci um amnésico, verdade, mas conheci muita gente com memória ruim e esses tendiam a ser mais felizes com a vida que vinha.
Desviei-me um pouco do tema.
O que importa é a lembrança e, principalmente, o que fazemos com ela. Sabe-se que nem tudo pode ser apreendido pelo homem. Muitos detalhes ficam para trás. E a arte do querer bem a quem se ama ou amou é a de reter os detalhes que, recontados centenas e centenas de vezes, ganham um glamour, um encanto que nunca tiveram. A arte de terminar uma história de amor é guardar para si os momentos mundanos e transformá-los em gloriosos. Assim, podemos ter renovada a esperança do romance para os que virão e nos tornarmos repletos de querer bem a quem nos quis bem um dia.
Sentado na sala, esqueço o que está passando na telinha no momento seguinte em que as informações chegam à minha retina.Ali eu exercito a minha capacidade de memória de peixinho dourado de aquário. É delicioso me imbecilizar diante do mundo que passa sem fazer qualquer sentido. Os romances de mentira, as necessidades inventadas, as informações que não afetarão em nada a minha capacidade de produzir, interagir ou de entender o mundo. Tudo isso passa, passa, passa, passa, passa, passa, passa. E eu fico sentado ouvindo as pessoas me dizendo: “isso vai passar, cara, vai passar”.
Mas não passa.
É essa a questão. As coisas não passam sempre como na tevê. Por vezes o que resta de uma situação é a exaustão. É como quando num gozo. O evento em si é rápido, mas a sensação e o estupor levam um tempo até o esquecimento. Mesmo o suor demora em secar quando a paixão é muito intensa. Fica na pele como lembrança do desejo feito em ato. É sombra do esforço que terminou. E não passa como um comercial de trinta segundos. Ele tem o seu tempo exato para que os músculos relaxem e retomem a condição inicial. O tempo de cada história é diferente até mesmo para as pessoas que participaram.
É como aquele ator que só tem duas falas no início da novela e lá pelo capítulo cento e cinqüenta tem uma cena inteira só para si, passando cal na parede da casa nova que comprou com a mocinha rica que finge que é pobre por causa da irmã gêmea má que quer roubar o seu namorado pobre, bonitão, boa pinta e bom de cama que sairá na G magazine no mês que vem. O tempo dele é lento e só aparecerá mesmo quando a novela for esquecida. Só a memória da cena dele caiando a parede com uma expressão de cansaço é que ficará nos programas de reprise da vida.
No caso, eu falava do cronista que se largou na cadeira da sala e ficou vendo televisão para esquecer-se que a vida não é nem sombra do que planejara, de que trabalha com o que gosta, mas teve de abandonar as pessoas que mais ama para poder fazer isso, de que tem a sina de amar mais o amor que as pessoas e que se apaixona mais pela paixão que pelo ato em si e que já não está no target do seu público-alvo, que já é velho para ir a shows de indie rock, mas é muito novo para curtir os bares de jazz com sinceridade.
O fato é que a vida pesa e carregar esse fardo cansa. Aliás, cansa diariamente e é por isso que as pessoas dormem. Não tem nada a ver com essas teorias neurológicas aí não. É a exaustão de carregar a si mesmo todos os dias, de sol a sol, que faz o homem arregar ao cair da noite e procurar o aconchego de uma cama.
Não que esse esforço seja ruim, entenda-me. A opção a isso está definitivamente fora dos meus planos momentâneos. Sei que a inevitável se fará presente, mas bem preciso de um século e meio de amargura e azedume antes que a derradeira data chegue. No mínimo. Quero muito esforço, desgaste, coração partido, suor mal-seco no corpo, lençóis desarrumados, empregos que exijam de mim, bocas que se recusam a ser beijadas novamente e noitadas anacrônicas antes que eu descanse essas férias sem fim.
Afinal de contas, única sensação que vale a pena é a do cansaço.