September 13th, 2009 §
De manhã o senhorzinho cumprimentava o sol já com o café na mesa e o pão sevido. Gostava de acordar antes do dia começar e estar pronto para a vida que se anunciava. Fez disso um costume desde quando tirou férias forçadas. Aposentado, ocupava um lugar que poderia ser preenchido por alguém menos experiente, mas mais barato e produtivo. Aceitou de bom grado o destino contemplativo que lhe arranjavam e, como precisava de bem pouco para viver, o dinheiro miúdo da aposentadoria lhe sobrava.
Não tinha parentes próximos ou proximidade com o que restou da família. Uma filha morava longe, um irmão sem falar há cinquenta anos, um primo intragável a duas horas de ônibus na mesma cidade era a única referência que tinha dos outros. Gostava da vida quieta que levava.
Tinha saudades do tempo em que se deitava com mulheres. Lembrava de algumas, de ex-esposas, de ex-amantes, de paixões passadas. A maioria morta ou não queria saber se ele estava vivo. Com motivos justos, aliás. Nunca fora uma pessoa que deixava os outros chegarem perto de si. Não a ponto de poder chorar no colo de uma ou de achar que sua história juntos duraria para todo o sempre.
Havia amigos. Poucos. Raros. Bons. Uns passavam de tempo em tempo em sua casa. Outros ligavam ou mandavam cartas. Não das antigas, de papel. Mas dessas novas aí. Ainda assim, cartas.
O que restava era a espera do amanhã, as lembranças do passado, a rotina prazeiroza que desenhara para si e os seus livros. Enquanto houvesse um livro para ler, ele saberia que não iria embora.
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September 11th, 2009 §
Amar dói sim. Dói porque sabe-se do fim do amor desde o primeiro momento, o instante inicial.
Na hora em que você olha para aquela pessoa cujo destino você sabe que estará um dia enlaçado com o seu, já imagina o que dirá, como fará a abordagem, como será o primeiro beijo, a pegada, o cheiro, o toque, a temperatura, o gosto o gosto e o gosto, o sexo, o gemer, o gozo, a ligação do dia seguinte, o pedido de namoro, a rotina de cinema-barzinho-festa-motel, a família do outro, o pedido de casamento, a cerimônia, o apartamento novo, a decoração da casa, os filhotes, a briga por conta das mesquinharias diárias, o sexo de pacificação, o girar da roda da vida. Você sabe: é essa a pessoa com quem você quer amarrar seu nome.
Mas o amor sempre acaba em dor. Nem que seja por conta de um dos dois terminando sua historia na Terra. Dói porque sabemos que amar é bom e só se ama a dois. Dói porque o que é bom e sublime não é o nosso normal, é a exceção, a reserva divina que nos mantém maravilhosa e necessariamente insanos ante a brutalidade do amanhã.
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February 9th, 2009 §
Idas e vindas estão fazendo parte da minha vida como rotina semanal e, se tudo continuar nesse passo de cágado manco, ainda serão rotina triste durante um bom tempo. A parte boa da rotina é que o querer ir se confunde com o querer voltar. Por conta da regularidade, os reencontros ficam mais raros.
Talvez por ter certeza que estarei na semana que vem de volta, estarei por ali mesmo, descuido dos outros. Descuido de minha filha, descuido dos amigos, descuido de mim por extensão.
Avisaram-me que desistiram de mim. É justo.
Justíssimo.
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January 12th, 2009 §
rodoviária carioca pela manhã. táxi. casa. acordo a moça. durmo. acordo. banho. casa da avó. almoço. papo. lanche. shopping. cinema. janto. casa. acordo domingo tarde. banho. almoço na casa da tia. papo. café na casa de amigos. casa. filmes (2). despedida. rodoviária. ônibus. sono. são paulo.
no ínterim, sexo sempre que conveniente.
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August 26th, 2008 §
As ruas me estranharam como se o meu olhar lhes fosse estranho. Era como se o roçar de ambos não fosse mais uma rotina, mas um acaso, como se eu fosse um alienígena na minha própria casa. An Englishmen in New York cantaria o chato do Sting (objeto de amor platônico de dezenas de gordas mal-amadas em São Paulo) e nunca estaria tão certo, nesses vinte anos desde que gravou o álbum Nothing Like the Sun, quanto agora, no encontro do meu dia com a memória dessa música.
E há o sono, o sono e o sono. Há a vontade de chuva caindo. Há as saudades do cheiro do orvalho, do ar carregado de tempestades e da maresia. Saudades da chuva que cai do teu corpo e do rolar na cama sem desespero e sem pressa do horário do ônibus partir. Há o cansaço das doze horas dormidas no frio e das poucas horas dormidas na concha e há o sonho de tudo se acertar no fim das coisas.
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November 7th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Toda história de amor termina.
Não tem jeito. Por mais que tentemos prolongá-la para além de seu curso, como se amarrássemos balões de gás que a impulsionassem mais alto e além de sua própria capacidade de vôo, ele fatalmente perderá o seu viço, a sua força e o seu encanto e se tornará uma rotina cinza e modorrenta. Ou, com sorte, se transformará numa história diferente onde os projetos dos dois se somarão e os votos antigos, já obsoletos, serão queimados diariamente, sendo substituídos por filhos, emprego, a compra da casa, num “não sei o que fazer, eu só me reconheço como parte desse relacionamento” ou qualquer outra hipocrisia que se resolva inventar para manter o que já estava morto.
Obviamente que cada história de amor tem um tempo diferente de vida. Eu costumo dizer que o tempo médio de todo o ciclo de relacionamento (flerte ou paquera, declaração, beijo, cópula, apresentação social, divisão de teto, planos a dois, estranhamento do outro, estresse, separação, ódio e desprezo – não necessariamente nessa ordem) é de dois anos com diversos fatores que aumentam ou diminuem esse prazo. Planos em comum aumentam de seis a doze meses; gostos em comum: quatro; senso critico apurado de um dos membros do casal: menos dezoito meses; um dos membros do casal é um carioca desterrado em São Paulo e se chama Zander: menos vinte e três meses e três semanas.
O que permanece é a lembrança, esse fantasma que faz a humanidade ser o que é. O ser humano vive no fio da navalha entre ser uma criatura de passado e morar num universo onde nem o passado nem o futuro existem de fato. Se, por um lado a lembrança dos fatos passados é o que nos permite erigir prédios e desafiar a natureza com as invenções do banheiro e do ar condicionado – os dois símbolos mais-que-perfeitos da civilização – essa mesma capacidade de lembrar nos atira ao esgoto emocional, à nostalgia improdutiva e à auto-comiseração. Nunca conheci um amnésico que tivesse pena de si mesmo. Também nunca conheci um amnésico, verdade, mas conheci muita gente com memória ruim e esses tendiam a ser mais felizes com a vida que vinha.
Desviei-me um pouco do tema.
O que importa é a lembrança e, principalmente, o que fazemos com ela. Sabe-se que nem tudo pode ser apreendido pelo homem. Muitos detalhes ficam para trás. E a arte do querer bem a quem se ama ou amou é a de reter os detalhes que, recontados centenas e centenas de vezes, ganham um glamour, um encanto que nunca tiveram. A arte de terminar uma história de amor é guardar para si os momentos mundanos e transformá-los em gloriosos. Assim, podemos ter renovada a esperança do romance para os que virão e nos tornarmos repletos de querer bem a quem nos quis bem um dia.
O grande amor é sempre o próximo.
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October 28th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Costumo ir ao Rio uma vez ao mês, ao menos. Uso a “desculpa” que tenho de visitar a minha filha, mas a verdade é que não tenho obrigações nenhumas. Vou porque ali é que mora a minha história, a minha memória e passar tempo com a baixinha – que já se torna uma adolescente – é um prazer, nunca uma obrigação.
Passeávamos à praia, com o sol se pondo e ela, mirando a estrela d’Alva, me perguntou sobre as estrelas cadentes.
Tentando ser poético – como isso ajudasse em alguma coisa a minha imagem com ela – disse que as estrelas cadentes são o choro do céu. Pessoalmente, nunca entendi essa coisa de desejo a ser realizado quando se vê uma delas riscando o negrume da noite, acho mais válido fazer à primeira estrela – “first star I see, I make a wish tonight” – a uma que cai.
Em resposta, ela as comparou a vaga-lumes, só que sem o brilho constante e repetitivo – acho que essa menina vai ser mais uma bióloga – mas não engoliu direito a história de choro e céu. Não sei por que insisto em poetizar com essa criaturazinha cínica e materialista.
“São apenas estrelas que caem” – menti para ela por preguiça de explicar as efemérides dos asteróides e detrito estrelares que se incandescem ao entrar na atmosfera – “são estrelas que ficam tristes do lugar que estão e resolvem se mudar de lugar, como o pai.” Insisti no erro.
“Mas as estrelas têm amigos, pai. E gente que olha por elas. Como podem ficar tristes ali?”
Daí eu desatei a explicar os motivos e razões das pessoas ficarem tristes, a angústia original que move o ser humano, o inconformismo com o presente, a falta de perspectiva, o desejo de mudança, mas a menina – cínica, cínica e objetiva – tinha um bom ponto de argumentação.
Ela virou os olhos com aquela expressão de você-não-entende-nada-papai a qual costuma usar quando eu cometo essas besteiras de tentar ser mais inteligente que ela. Um dia eu aprendo.
“Papai. O que uma estrela cair é a queda. O resto é o só o choro.”
Deixei a baixinha em casa e me encaminhei para a rodoviária, onde o ônibus da meia-noite me esperava. Embarquei e ao acordar, já em São Paulo, me veio a imagem de uma estrela cadente no alvorecer. Fiz um desejo inconscientemente e parti para a minha rotina diária.
No decorrer da semana, a história da estrela não saiu da minha cabeça, mas, como sempre, a vida não dá muito tempo pra gente pensar nela mesma. Ela oferece tanta opção, tanta cobrança, tanta vida que somos impelidos a achar que essa cacofonia de eventos que se sucedem em movimentos frenéticos é a vida em si.
Papeava numa mesa de bar com uma amiga, e falávamos de suas angústias. Das diversas histórias que ela havia passado, dos relacionamentos desfeitos, das pessoas que nunca se encaixam devidamente no que sonhamos ou no que nos tornamos. Dos empregos e trabalhos que, embora venham em profusão para ela, nunca a satisfazem.
Soltei a pérola. “Lindona, o que interessa é só a queda, o movimento. O resto é o choro.” Não sabia bem o porquê da frase de efeito, mas o fato é que surtiu. Ela deu uma risada sonora e eu anotei mentalmente que tinha de dar um presente à baixinha. Não apenas por conta do dia das crianças, mas por ela ser o pequeno gênio emocional que é.
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August 2nd, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Sei que Deus e o Diabo moram ali nos pequenos detalhes. Também sei que cada moeda economizada, cada grão do papo, cada segundo contam. Mas me impressiona a forma que se perde a visão do todo quando o detalhe, cada ínfimo detalhe, é criticado.
Quer um exemplo? Os amigos estão com uma modinha interessante de tirar diversas fotos em macro ou com cortes esquisitos de paisagens urbanas e colocar nos seus álbuns digitais. Não acho feio, absolutamente, ou errado ou esquisito, mas não consigo deixar de pensar no resto que foi sonegado da imagem recortada. Um close numa flor, expondo os estames, me nega a visão do jardim ou da selva onde ele está plantada. Outro nos fios de um poste de luz esconde a poluição das centenas de volts que voam por nossas cabeças. Um terceiro registra um olhar triste e bonito, mas esconde as mãos ou o jeito que os pés da criatura estavam cruzados. E isso fala tanto da pessoa, cenário ou planta quanto o detalhe.
Eu adoraria que essa moda de foto-detalhe fosse o último suspiro do cartesianismo na nossa cultura. Mas não é, infelizmente.
No trabalho, as pequenas variações microcósmicas das vendas dos diversos produtos de entretenimento que vendemos são mapeadas e escrutinadas em seus detalhes mais íntimos. E ainda assim ficamos cegos com o comportamento de diversos produtos. Falta a visão do todo. Por sorte a equipe inteira tem isso em mente e consegue imaginar o gigante pelo dedo.
Normalmente isso seria encarado apenas como parte da nossa rotina diária. Pra ser completamente sincero, isso é a totalidade da nossa rotina. Mas o desespero no detalhe, a fúria pelo descontrole do mínimo, me assusta sobremaneira.
Eu fico pensando nas avós que ainda fazem crochê ou tricô. Eu fui criado numa casa onde as pessoas passavam parte do tempo embriagando a mente com raios catódicos e ocupando as mãos com agulha e linha. Eu até invejava as mulheres da minha casa que tinham aquela capacidade de se desdobrar em diversas atividades. Ainda tenho, aliás. Mas o caso é que cada nó, cada detalhe, era feito com a consciência do todo. Se fosse virar uma pantufa, as linhas estariam à mão, as agulhas certas também. E quando o erro mínimo era presente, elas olhavam para a obra, soltavam um sonoro palavrão e recomeçavam o trabalho sem mais estresse.
Não pretendo fazer um comparativo de marketing entre o tricô e os mercados digitais – o que seria até uma boa idéia para um livro desses feitos para empresários, com letras grandes e muitos, muitos gráficos que vão do nada ao lugar algum – mas na obsessão pelo detalhe, pelo mínimo.
Eu tive um professor de desenho que tinha um comportamento singular. Quando um aluno vinha estressado com algum pepino de algum projeto, ele dava o norte do que ele deveria fazer: trabalhar mais nas texturas, treinar mais as aguadas, exercitar o traço com o lápis ou caneta ou hidrocor. Quando o incauto e imaturo aluno tentava arrancar um algo mais dele, vinha o inevitável: “Caguei pro detalhe! Vai e faz!” No caso, era um “estímulo” para o moleque se virar e ralar um pouco mais, mas a intenção me marcou profundamente.
Dei essa volta prolixa para tentar ilustrar um ponto bem mais simples. O quanto de detalhe atrapalha a nossa felicidade que, por si, é efêmera. Que nó, ou “corte de percepção” estamos dando para nós mesmos para evitarmos uma realização?
Com essas dúvidas, eu me recolho e tento sonhar uma resposta.
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November 30th, 2006 §
postado em LIVinRooom
Andava sem rumo em plena Visconde de Pirajá. Tomava norte para a Farme, em busca dos bares dúbios e fartos de sexo fácil. Estava acostumado com aquelas esquinas, mas uma sensação de despertencimento lhe vestia dos pés à cabeça. Não reconhecia os rostos dos conhecidos e não se encantava com os olhares lânguidos das meninas perdidas que se amontoavam ali, no baixo Ipanema.
Ao chegar, resolveu subir a rua e tentar um chope no Bofetada. Ali teria uma chance de ficar quieto, mesmo podendo ser assediado pelos estrangeiros que vinham em busca de amores sem preconceitos com os rapazes da área.
Encarou duas geladas e declarou-se derrotado quando pediu uma água sem gás.
Desceu a Vinícius até à Prudente de Moraes e foi seguindo até o Empório. Última chance de diversão descompromissada da noite. À porta, aqueles três manés o desconvidavam a entrar. Ignorou o fato e conseguiu uma mesa perto do DJ.
Para não dar chance à consciência, pediu logo uma água e uma tequila. Na quarta dose já estava amigo íntimo de pessoas que nunca mais veria. Um rosto amável lhe convidou para passar a noite entre lençóis. Ele topou, mas tinha de fazer a dança do acasalamento antes.
Era uma rotina tediosa, essa da corte. Normalmente encarava isso como um esporte, mas o estado etílico presente desaconselhava qualquer tipo de interação que não fosse objetiva. E, batata, a menina pulou fora antes que ele pudesse dar o bote certeiro.
“Cretina!” Soltou sem pensar muito no efeito nas outras fêmeas presentes. “Mulher é assim mesmo. Basta uma não querer que as outras acham que o macho tá podre! Cretinas!”
Ele olhou para os rostos do boteco em busca de simpatia e viu um dos cornos da entrada a lhe chamar. Era o Grande. “Que nome babaca! Quem se dá o desplante de se autodenominar Grande? E Burro? E Gordo? Só faltava ter um Pudim ou um Gambá ali.” Pensou, se controlando para não abrir a boca.
Claudinho não tinha as manias dos outros bêbados de se tornar milionário, poderoso e com carisma infinito. Mas tinha de manter controle cerrado do que costumava falar. A língua lhe crescia em metros quando bebia.
Sentou-se no canto indicado pelo grande e pediu uma água sem gás. Nenhum dos três ostentava a galhofa e a pompa usuais. Pareciam tão ou mais desgraçados que ele. Num segundo se irmanou e viraram amigos de infância.
“Tá perdido na noite, né cara?” “É, Grande, to solto feito pipa voada. Mas tem nada não que daqui a pouco encontro um travesseiro repartido.” “Tu precisa é de uma boceta, Cláudio.” “E tu sabe o que é isso, Gordo? Tá com cara que faz tempo que não vê uma!” “Hahahahaha. Pior, Cláudio. Faz tempo que não vê uma que se ofereça para ele. Tem de apelar para o sexo das primas.” “Cala a boca, Burro! Até parece que tu come alguém sem oferecer emprego ou promoção.”
Grande, como sempre, ficava quieto no canto observando o papo como se colocasse uma distância regulamentar entre os amigos e a si mesmo. Era o que evitava ser dragado pela lama e o abismo moral onde habitavam os companheiros. Ele gostava de se sentir como um turista eventual na putaria. Não o seu habitué.
Claudinho já estava melhorando do porre, mas ainda alto demais para conseguir alguma coisa com alguma mulher no recinto. Pagou a conta da mesa e ensaiou uma saída. Gordo o impediu.
“Vamos pro Devassa. Te pago umas e aproveitamos pra comer algum animal morto gorduroso.” O resto do povo foi no vácuo.
Pela manhã só se lembrava de umas morenas na entrada e de ter pedido umas cachaças especiais do menu. Daí eram flashes de ele entrando no táxi e de ter vomitado num banheiro.
Quando recobrou a consciência, descobriu uma loira oxigenada a seu lado e umas camisinhas abertas. Torceu para a menina não ser conhecida, daí poderia usar o seu script “A noite foi ótima, Princesa” com ela e despachá-la sem mais delongas.
Foi ao banheiro verificar o estado das louças e, aparentemente, tudo em ordem. Só umas lingeries que deveriam pertencer ao projeto de Marilyn Monroe que roncava solenemente.
Ao voltar, reconheceu a figura distinta.
“Ana?” Ela, ainda sonada, apertou os olhos e abriu um sorriso sacana. “Você é mesmo tudo aquilo que falam. Mesmo bêbado.”
Ele desceu a parede com as costas. Sentou-se no chão desolado.
“Merda de vida.”
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November 29th, 2006 §
É sempre lindo andar na cidade de São Paulo
O clima engana, a vida é grana em São Paulo
A japonesa loura, a nordestina moura de São Paulo
Gatinhas punks, um jeito yankee de São Paulo
Na grande cidade me realizar
Morando num BNH.
Na periferia a fábrica escurece o dia.
Não vá se incomodar com a fauna urbana de São Paulo
Pardais, baratas, ratos na Rota de São Paulo
E pra você criança muita diversão e poluição
Tomar um banho no Tietê ou ver TV.
Na grande cidade me realizar
Morando num BNH
Na periferia a fábrica escurece o dia.
Chora Menino, Freguesia do Ó, Carandiru, Mandaqui, ali
Vila Sônia, Vila Ema, Vila Alpina, Vila Carrão, Morumbi
Pari,
Butantã, Utinga, Embu e Imirim, Brás, Brás, Belém
Bom Retiro, Barra Funda, Ermelino Matarazzo
Mooca, Penha, Lapa, Sé, Jabaquara, Pirituba, Tucuruvi, Tatuapé
Pra quebrar a rotina num fim de semana em São Paulo
Lavar um carro comendo um churro é bom pra burro
Um ponto de partida pra subir na vida em São Paulo
Terraço Itália, Jaraguá, Viaduto do Chá.
Na grande cidade me realizar morando num BNH
Na periferia a fábrica escurece o dia
Na periferia a fábrica escurece o dia
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