Carnaval no Rio – 1955
February 26th, 2009 § 0
Das várias coisas a se fazer antes dos quarenta anos
July 7th, 2008 § 5
publicado na Tribuna da Imprensa
Virei pro camarada do outro lado da mesa e soltei sem respirar: “Me ajuda em três coisas?” Ele trocou olhares rápidos com o garçom, o pint de Guiness meio vazio e a minha cara de bêbado de fim de semana.
“Como assim?” “São três coisas simples.” “Desenvolva.”
Ao meu lado, a menina deu a perceber que estava curiosa, mas fez como quem não daria bola àquela besteirada ali. Sentiu cheiro de bobagem de botequim. Virou o rosto para a amiga que flertava desesperadoramente com o cara do outro lado da mesa.
Ele insistiu: “Desenvolva.” “Bom, como você sabe, eu tenho projetos curtos e simples a serem resolvidos até lá. Já até escrevi sobre eles e tal.” “Sei sim, o papo de morar só – já é tempo, né? –, o lance da faculdade, juntar dinheiro e…” “…e falar menos. O mais difícil de todos.” “Pois é. E no que eu posso te ajudar, cara? Morar lá em casa, nem pensar.” “Tem mais além dessa lista curta. Mais coisas que se escondem debaixo do tapete dos nossos projetos de vida. Detalhes, coisa pequenas que vão aparecendo aos poucos no processo de envelhecer. Coisas como apreciar um tipo de uva, um prato que é preparado em algum lugar. Essas coisas que realmente valem a pena e que talham o caráter de um homem de forma definitiva.”
Ele virou o restante da cerveja quando o garçom colocou um novo copo nada vazio à sua frente.
“Você está bêbado?” “Ainda não. Só lânguido.” “Meio veado isso, né?” “Sim, mas é a palavra precisa.” “Então você precisa de mim para que eu te ensine meia dúzia de coisas que ajudarão na formação do seu caráter enquanto homem feito?”
Foi a minha vez de beber o meu copo cheio.
“Não, cara. Já faz algumas décadas que eu talho esse meu mau-caráter. O que preciso é de umas dicas para um vicio novo.” “Como assim? Vício novo?” “Sim, vícios. O terceiro componente fundamental da personalidade de uma pessoa.”
Nesse ponto, as meninas passaram a prestar a atenção.
“São três os Componentes Fundamentais da Personalidade de uma Pessoa: nortes, valores e vícios. Os nortes são aqueles objetivos que nós iremos mudando a cada mês, mas que são sempre substituídos. Não é nada complicado como comprar um apartamento, mas algo como ‘como vou arrumar a grana para pagar a mensalidade desse mês?’. Os valores não são medidos por aquilo que você tem como conduta pessoal, mas mais como aquilo que você não faria por um milhão de reais. Obviamente não são para serem brandidos como estandartes, caso contrário, qualquer pessoa de bom senso lerá: ‘Ei! Me compre! Eu quero um milhão de reais! Dez pratas já tá valendo, dotô!’”
Os outros três à mesa já estavam com aquela cara de “senta que lá vem história”. E veio mesmo.
“Os vícios são os seus melhores amigos no desespero. É a última coisa a que você se agarra quando o mundo te tira tudo. A tua coleção de vinis de samba dos anos 1960, o uísque que você aprendeu a beber na chegada dos trinta anos, são seus únicos e derradeiros amigos quando todo o universo te dá as costas. Ele te draga, te consome, suga teus momentos de descanso e teu dinheiro, mas é quem te dá prazer na hora e no momento em que você mais precisa, na hora onde é só isso que resta. E precisamos sempre de vícios novos, para que os antigos não se tornem fortes demais e te arrastem para onde eles querem. É isso.”
Ante o silêncio assombrado da mesa, arrematei: “Cara, preciso comprar um cachimbo bom, um paco de fumo de primeira e um canivete de qualidade. Me ajuda?”
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Do livro dos desvirtuosos: a moça
April 22nd, 2008 § 0
publicado na Tribuna da Imprensa
A moça acordava com o Sol e não se prolongava na cama. Quase nunca, a bem dizer. A cama ficava chamando-a de volta para si, para que a moça não deixasse os lençóis sem viço e vida. Sem a moça, seriam panos sem desejo a serem dobrados, lavados, esticados, secados e guardados depois de passados. E não tem festa ou encanto dentro dos guarda-roupas ou dos baús. A moça trazia festa e diversão quando estava entre os panos e os lençóis tinham a moça no seu embolar e a moça se embolava entre os lençóis.
Enquanto isso, a madrugada, por sua vez, se lançava preguiçosa enquanto a moça não levantava depois de tanta festa e baile. Se esticava e convidava toda a gente para o samba e a seresta e o baile de domingo que só acaba quando o Sol nasce. E dizia-se que, o Sol é quem acordava quando ela abria os olhos, já que a moça era o alvorecer de muita gente. E a moça dormia para a madrugada se esticar ou assim fingia para que o samba, a seresta e o bailinho se durassem até o dia seguinte.
Depois de acordar, a moça se arrumava com vaidade. Calcinha branca de algodão, soutien branco a combinar, vestido rodado solto – podia ser liso, estampado ou não – e uma rasteirinha para andar na rua. Óculos de grau e escova nos cabelos negros como a asa da graúna. Pentear e escovar trinta e seis vezes todos os dias. Escovava os dentes e dizia tchau para o quarto que lançava o olhar de saudades e de querência. Poucos entendem o querer que se vai porta afora sem dar sinal de voltar.
Saindo de casa, a moça ia pelas ruas, encantando as vistas de quem não se dava o desfrute de se ocupar mesmo com o sol a pino. E até os homens de ofício flanavam uns momentos de sua ocupação para ver a moça passar. Pra passar essa moça que, de tão moça, remoçava quem com ela sonhava, fazia festa no quarto e não dormia, pois havia muita festa a ser feita nas noites adentro.
A moça que caminha, apenas por caminhar, olha distraída a felicidade que causa e nem se dá conta que os sorrisos que faz brotar, nascem no olho do outro e morrem entre suas pernas, que insistem em equilibrar as saias que rodavam, impossíveis na cabeça dessa tanta gente.
A moça chega no trabalho e deixa de ser moça: é mulher de negócios, é secretária executiva, é gerente de projetos e de produtos, é lady do marketing, é a dominatrix das contas publicitárias, é a professora doutoranda de alguma ciência importante, é a senhora dos textos dos jornais e revistas e websites e é a dona da banca. Ela manda, os outros obedecem ora por medo, ora por gozo de ouvir sua voz impotente e imperativa.
Depois do trabalho, a senhora volta a ser moça. Encontra os amigos e os amantes e os ex-tudo que talvez sejam ex-futuros novamente e escolhe um deles para lhe acompanhar nos bailes ou mesmo chama a todos para se largar no Democráticos e ver até onde vai a festa, o baile e a noite. Afinal, quem sabe quantas horas cabem numa noite?
E eis que chega uma hora que a moça quer deitar e levar a festa para onde se deita e os rapazes e as moças se eriçam todos esperando um olhar sapeca da moça da saia rodada e das rasteiras e da calcinha de algodão.
E a moça sai só carregando consigo o desejo de todos dentro do bolso só para o seu desfrutar.
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Chico Buarque – Olê, Olá
October 19th, 2007 § 1
Chico Buarque – Olê, Olá
Chico Buarque
Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ouvir
E se ela for de samba
Há de querer ficar
Seu padre, toca o sino
Que é pra todo mundo saber
Que a noite é criança
Que o samba é menino
Que a dor é tão velha
Que pode morrer
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar
Não chore ainda não
Que eu tenho uma razão
Pra você não chorar
Amiga me perdoa
Se eu insisto à toa
Mas a vida é boa
Para quem cantar
Meu pinho, toca forte
Que é pra todo mundo acordar
Não fale da vida
Nem fale da morte
Tem dó da menina
Não deixa chorar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Quem sabe sambar
Que entre na roda
Que mostre o gingado
Mas muito cuidado
Não vale chorar
Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir
Luar, espere um pouco
Que é pro meu samba poder chegar
Eu sei que o violão
Está fraco, está rouco
Mas a minha voz
Não cansou de chamar
Olê olê olê olá
Tem samba de sobra
Ninguém quer sambar
Não há mais quem cante
Nem há mais lugar
O sol chegou antes
Do samba chegar
Quem passa nem liga
Já vai trabalhar
E você, minha amiga
Já pode chorar
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Réquiem de foliões
February 23rd, 2007 § 3
publicado na Tribuna da Imprensa
“Mas eu não entendo o porquê de você ficar assim tão macambúzio, rapaz. Afinal de contas, é Carnaval!”
Bruno deixou escapar um sorriso amarelo e, dentre os dentes, respondeu que estava de ressaca da noite anterior. O Carnaval para ele era apenas mais um feriado quente no início do ano e que, eventualmente, coincidia com o Ano Novo chinês. Inclusive, era esse o caso.
De certa forma, podia-se dizer que ele estava enchendo a cara desde o ano passado. Achava um saco essa coisa de desfile de escolas de samba e só tinha simpatia pelos blocos que ficam só na “concentração”. Como eram poucos – e bons – o seu circuito carnavalístico era bem limitado.
Anderson já era o oposto. Só parava no boteco para recarregar as baterias e colocar em dia a lista de foliãs abatidas pelos amigos. Já estava se preparando para levantar e partir pro Bip-bip quando viu que Claudinho se aproximava.
Alan era um moderado. Não dispensava uma farra, mas não morria de amores pelas aglomerações que o Carnaval estimulava. Decerto, as fêmeas em fúria uterina e a cerveja farta eram atrativos que o mantinham na atividade, a despeito do calor senegalês que o Rio de Janeiro é submetido no fim do verão.
“Desce uma gelada, Juvenal. Qual é o babado, rapaziada? Bruno, que cara de cu é essa? Ainda com dor de corno?”
Dessa vez ele engoliu o sorriso amarelo para mostrar os dentes brancos bem desenhados. Custaram uma fortuna, dissera uma vez, mas derretem o coração de qualquer menina desavisada do canalha devorador de gente que morava atrás da arcada.
“Dessa vez, não. Chicão nos dará a honra da sua presença? Ou está enrolado com uma qualquer por aí?” “Provavelmente, cara. Aliás, decerto”. “E Claudinho, Alan? Ainda em lua-de-mel com Elisa? E os nerds dos infernos? Quais as novas da galera?” “Sem novas. Sim, Claudinho tá lá marcando o território. Gordo foi pra França, Burro tá trabalhando”. “Se ferrou o mané!”. “Pois é, Bruno. E o Grande tá em Petrópolis. Eu, dado o interesse manifesto de vossas senhorias, estou em guerra ampla, geral e irrestrita”.
Os três riram e brindaram aos amigos ausentes. Aos “vencidos” na batalha dos sexos, aos que partiram do exército dos solteiros e se alistaram na tropa dos casados, enrolados, amarrados e afins. Fizeram um brinde, mais tímido, aos que “trocaram de time” efetivamente, aumentando as chances de cada macho disponível e praticante do heterossexo de, de fato, fazê-lo.
Bruno, findas as libações, cerrou o cenho novamente e se fechou em copas. “Bruno, o que há?” Olhou para a cara de Alan. Olhou para o relógio. Lembrou das bebidas da noite passada e lembrou que a única ressaca que tinha, naquele momento, era a moral. Virara a madrugada entre as pernas de uma menina quinze anos mais nova e, apesar do troféu conquistado, sentia-se impuro. Como se tivesse cruzado uma linha amoral.
“Qual a idade da menina, afinal?” “Vinte e um, Anderson. Vinte e um aninhos.” “Já era mulher?” “Sim, e como.” “Então? Qual o problema?” “Eu nunca mais terei vinte e um. É esse o problema.”
Dito isso, olhou novamente para o relógio e viu que uma linda moça, de cabelos negros, olhos amendoados e verdes – sempre os verdes olhos – se aproximava. Se beijaram. Os colegas saudaram a chegada da beleza que a Quaresma anunciava.
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Bolô-Fedex – CARTA DE ALDIR BLANC PARA ACM
August 28th, 2006 § 0
Amigos:
Aldir Blanc
Leva, meu samba, meu mensageiro, esse recado…
O Sena-Sênior ACM, vulgo Malvadeza, me acusou de ser “um elemento lulista infiltrado” no JB. E concluiu seu arrazoado (?) me chamando de canalha.
Senadô-Skindô, por mais que eu viva nenhum elogio me trará orgulho maior do que ser chamado de canalha por V. Excrescência. Quem lê minha coluna sabe que o pau canta à direita, à esquerda e, claro, no centro, com igual prodigalidade. Espero que a grande famiglia pefelista já tenha providenciado junta médica competente para lubrificar os parafusos do Cacicão. A julgar pelas suas mais recentes declarações, as encrencagens, desculpem, engrenagens, estão precisando de uma lubrificada urgente: ginkgo biloba, piracetan, talvez um viagrinha… O senador, craque em prestidigitação, mais uma vez misturou as bolas: combatividade é muito diferente de baba paranóica escorrendo gravata parlamentável abaixo.
A ojeriza é mútua. Estou farto de maquiavelhos de fraldão deitando regras. Toda essa mixórdia envolvendo valeriodutos, mensaleiros, sanguessugas e saúvas, começa com políticos da sua estirpe. O mecanismo é manjado. Se as denúncias favorecerem meu partido, palmas, vamos apurar. Agora, se a canoa virar, o denunciante passa a bandido e fim de papo, vai ser preciso buscar a propina em outro guichê. A máscara-de-pau que descrevo acima é suprapartidária. Os que não a exibem são as exceções que confirmam as regras vigentes. Quando as regras rompem os diques e escorrem periferia abaixo, não há Lembo Pétala-Macia que evite derramamento de sangue – na maioria dos casos, inocente. Mas o meu negócio não é discurso, é galhofa. Já que falei em bolas misturadas… Dizem que um velho político pefelista, preocupado com as más performances nos palanques, procurou um médico, antigo cupincha de castelo e carteado.
- Tô com um problema, num sabe? Bem na… plataforma de lançamento.
- Hein?
- Pois é. Gases. Uma coisa impressionante. Além das explosões e dos odores, tem hora que chego a levitar. Uma assessora já foi arremessada contra meu contador de caixa 2. Estão hospitalizados. Isso não pode continuar.
O amigo explicou que aquela não era a especialidade dele, mas que pensaria no assunto, conversaria com colegas renomados, faria até pesquisa na internet.
No comício seguinte, o esculápio apareceu com um vidro misterioso, sem rótulo, e entregou ao político:
- É pra…
Mas o tumulto, o puxa-saquismo, os vivas, a euforia bem remunerada impediram a necessária e urgente troca de informações. Cerca de meia hora depois, o SSJE (Secretário para Superfaturamento Junto a Empreiteiras) agarrou o ilustre médico pelo paletó.
- Corre que o Chefe tá pegando fogo nas… nas partes baixas.
- O quê?!?
O socorrista encontrou o parlamentável feito um bebê, sem calças, com uma brutal reação alérgica na proa da região pélvica.
- Mas… Eu mandei você beber a poção e você esfregou nos…
- No calor da luta política, eu confundi peido público com pêlo púbico.
Aldir Blanc
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Um país cafajeste – Xico Vargas
March 27th, 2006 § 4
Eu tive de copiar esse texto.
—-
27.03.2006 | O choque causado pelo samba da deputada Ângela Guadagnin no plenário da Câmara não se deve apenas ao grotesco da cena ou à comemoração pela pizza que saía do forno com a absolvição do petista João Magno. Para quem esteve distraído esses anos todos, é só olhar no espelho por trás dessa patética coreografia. O Brasil que dali emerge tem o retrato de um país cafajeste. Esse é o motivo do pasmo e, por triste que seja, não chega a ser surpreendente. Ao semear tanta perplexidade a deputada talvez tenha prestado um serviço à nação.
Menos de 24 horas depois do balé da deputada o presidente Lula, em mais uma etapa de sua campanha ainda-não-sei-se-sou-candidato, revelou que pouco se lhe dá se o ministro Palocci maracutou ou deixou de maracutar com a quadrilha de Ribeirão Preto. “Vou cuidar dele como de um filho”, disse. “Como se fosse pai e mãe dele”, explicou, com a paciência dos estadistas. Nada mais claro. É o amor incondicional, como o que escraviza mães de traficantes, de assassinos ou dos mais deslavados gatunos. Na ótica materna, filhos pairam acima das leis.
Idêntico sentimento impulsiona o acima da lei José Dirceu a pedir no STF a anulação de sua cassação. Enxotado da vida pública já foi acolhido num moribundo canto de página onde deita regras para os destinos do Brasil. Logo, logo estará de volta. Por que não? O Supremo é a mesma corte que impediu Francenildo dizer que viu o que viu na colônia de férias da República de Ribeirão Preto, em Brasília, mas não chamou ninguém às falas quando o governo passou a tesoura na Constituição e jogou o sigilo bancário do caseiro no ventilador. Nem a mal-reconhecida paternidade do moço escapou. Edificante isso, não? Mas como resolvemos tudo com metáforas futebolísticas, vamos dizer que o pobre Francenildo levou apenas um tranco.
Pouco importa se a lama já chegou aos joelhos. Interessa-nos que a Bolsa suba, para trocarmos de carro, e dólar caia, para comprarmos quinquilharias, ou decole, para batermos recordes na exportação. O resto é bobagem. Se for falcatrua – e estiver sendo feita hoje – é porque sempre se fez neste país. Ou seja: nem a cafajestice nos é novidade. Realmente, na terra onde o tesouro do partido do governo tem origem obscura, trafega à margem da Receita e vira recurso não-contabilizado para comprar deputados pouco há que nos possa surpreender. Talvez apenas a inesgotável criatividade de Delúbio Soares. Depois de receber 10 anos de salários sem comparecer ao trabalho – uma escola pública – o mago das finanças do PT processou o estado por usar num concurso seu prenome como exemplo de hipotético mau funcionário. Quer uma grana por danos morais o nosso Delúbio.
Mas assistimos a isso tudo com passividade bovina. Somos assim. Adoramos a canalha. Idolatramos os cafajestes desde que os vimos no cinema, durões, espancando mulheres e acendendo charutos com notas de dólar. Fazem grande sucesso na TV os vilões, os ladrões simpáticos, os vigaristas. Por isso espalhamos parentes pelas filas nos supermercados, para chegar ao caixa antes dos otários. Furamos filas de cinema e corremos atrás de bocas-livres. Há quem tenha dinheiro para comprar os mais caros ingressos, mas se ponha genuflexo diante de uma credencial VIP. Sem contar que, por uma guloseima a mais, somos capazes de entregar até nosso lugar no avião a qualquer general que mostre pouco apreço a relógios e civis. Nada, para nós, se compara ao espetáculo do poder sendo exercido. Mesmo que os intérpretes apenas julguem que o detém.
Foi desse jeito, tentando levar vantagem, que construímos o segundo país do mundo no consumo de produtos falsificados. Compramos pirataria pelas esquinas. Não faz muito era grande sucesso no Rio de Janeiro a Robauto, feira de acessórios surrupiados que funcionava nas manhãs de sábado, numa das principais avenidas do subúrbio de Acari. Comprava-se, por exemplo, um som numa barraca e, na do lado, contratava-se a instalação. Dava gosto de ver. Nunca se soube que vendedores ou fregueses tenham sofrido algum tipo de constrangimento. Talvez porque não tenha faltado ao empreendimento a proteção de policiais que, ao final do expediente, botavam no bolso a sua parte nos negócios. Xerifes da mesma linhagem dos que hoje conhecem (e fingem que não) os feirões de drogas existentes na parte baixa de qualquer favela carioca, de segunda à sexta-feira, a partir das seis da tarde. É o grande varejo de cocaína e maconha da cidade. Mostra que os morros consomem drogas cada vez mais e que, se depender dos moradores, o tráfico jamais sairá de onde está.
Se pagamos e aceitamos que a polícia seja como é, por que, nos espantamos com a patética dança de Ângela Guadagnin? As aberrações em ambos não surgiram agora. A deputada exibe há anos o instrumento que prefere na banda. Ou não foi ela, quando prefeita, que demitiu o secretário que denunciou uma roubalheira petista? Não foi ela na CPI que tentou retardar ao máximo todas as conclusões, com intermináveis pedidos de vista para cada relatório? Ora, quando viu ser absolvido o amigo – que tinha o pescoço na lâmina só por ter posto a mão em R$ 420 mil do valerioduto – queriam que a deputada fizesse o quê? Caísse em prantos? Nada disso, mandou a compostura às favas. Como sempre se fez neste país, diria o presidente.
Por que não nos espantamos antes com o elástico conceito de moralidade de Guadagnin? Ninguém estranhou quando ela empregou na defesa dos correntistas do valerioduto veemência idêntica à que aplica para condenar as mulheres da campanha pela descriminalização do aborto. Interromper a gravidez de feto sem cérebro não pode. É a lei de Deus, diz a deputada em defesa da moral cristã. Até aí, tudo bem, cada um que defenda o que lhe é caro. Estranho, porém, que a métrica dessa retidão religiosa não se aplique aos que enfiam a mão na bufunfa. Deve ser porque o caixa 2 não é tão antigo a ponto de alcançar os textos do Livro Sagrado.
Por que o Brasil se espanta que Ângela Guadagnin tenha pisoteado o decoro e, na mesma semana, passa batido pelo escândalo das 10 mil obras dos governos Garotinho? No país que criou um Conselho de Auto-regulamentação Publicitária aceita-se que o casal nos enfie pelos olhos e ouvidos, em vários estados, uma aberração que arrola tratamentos dentários entre obras civis, multiplica praças e quadras de esporte, e vende favelas como programas habitacionais. Por que isso já não nos surpreende? Certamente porque, nos últimos anos, os Garotinho testaram todos os limites, da mentira ao desvio de recursos, e, até agora, só a juíza Denise Appolinária tentou deter-lhes a marcha.
Como Guadagnin com sua dança. Experimentou com ela mais um limite da tolerância nacional. “Foi um ato espontâneo”, disse a deputada. Pronto, está justificado. Afinal, como não admitir que políticos em geral embolsem dinheiro público se o país inteiro sabe que a polícia o toma diariamente da platéia pelas ruas? E os prefeitos que fazem acordos com milícias que controlam favelas? E os juízes que vendem sentenças? E os governantes que superfaturam obras e botam no bolso o troco dos remédios dos hospitais? Políticos como Ângela Guadagnin, João Magno, Waldemar Costa Neto, José Dirceu e tantos outros que se multiplicam no Congresso só estão lá porque foram criados a nossa imagem e semelhança. O problema não está neles, mas na nossa insistência em construir uma nação cafajeste. Vem eleição por aí. Podemos continuar com a obra. Ou não.
xicovargas@nominimo.ibest.com.br
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Sweet little sixteen
November 1st, 2005 § 0
- pós The Beatles
Saíram do cinema abraçados, como se fossem dois namorados. Deram vexame durante a exibição da fita, quando pararam para tomar um café, antes de entrar no carro, dentro do carro, nos sinais, até mesmo quando ela estacionou para deixá-lo em casa.
“Sobe?” Diz ele ao se prepara para saltar do carro. “Não posso.” Ela responde sem muita convicção. “Porquê?” “Você sabe.” “Você pode sim. Não quer.” “Não posso. Ele pode chegar a qualquer momento.” “Dane-se ele! Aliás, dane-se tudo! Você sabe que ele tá comendo meio mundo agora! E a outra metade comeu pela manhã! E você não o ama mais!” “Para com isso! Aqui no meio da rua! E se um vizinho passa por aqui?” “Melhor! Assim você tem de assumir tudo logo de uma vez e paramos com essa palhaçada. Porra! Faz cinco anos que saímos quase todo fim de semana. O cara viaja na quinta, sobe pra Petrópolis, Teresópolis, Patópolis, sei lá, e te deixa aqui para eu tomar conta.” “Pára! Você sabe que não é assim! Eu te amo, mas eu o amo também!” “Ama? Como se ama um cara com quem você não transa faz dois anos e meio?” “Porra. Vamos ter essa conversa aqui, no meio da rua?” “Não. Podemos subir e ter essa conversa lá em cima, se quiser. E eu sei que você quer.”
Subiram tensos os lances de escada até o terceiro andar. Era uma apartamento antigo em Botafogo. Daqueles com varanda ampla e salas enormes e cozinhas monumentais. Tinha apenas o inconveniente de não ter elevador mas, melhor, o condomínio ficava mais em conta. Ele tinha alugado-o numa distração do proprietário. Era um esquema de aluguel para conhecidos de conhecidos e ele quase que conhecia alguém que estava deixando o apê. Deu uma de João-sem-braço e se ofereceu como candidato à vaga. Sorte que foram com a cara dele e conseguiu alugar sem que pensassem duas vezes ou pedissem suas referências. Estava lá há três anos e não pretendia se mudar tão cedo dali.
Abriram a porta do apê. Ela se sentia em casa, mas essa era uma sensação que lhe incomodava tremendamente. Estava tudo errado. Ela era casada, tinha três filhos lindos e saudáveis. O marido sempre lhe fora carinhoso e atencioso. Até ela o conhecer de verdade. Antes de descobrir que ele pulava mais a cerca que carneiro rebelde. Daí para ela encontrar um amante foi um passo fácil. No início se sentia suja, mas aprendeu a gostar da sujeira, de se emporcalhar com o corpo do outro, a se sentir desejada, cortejada, a fazer com que gozassem com o seu gozo e a tomar o suor do outro como quem toma um copo de alma alheia. Comia os amantes como quem faz desejum em hotel. Dava na pinta. Deixava dicas. E ele parecia gostar disso. Devia gostar mesmo, o puto. Não lhe amava. Não sabia lhe dar valor. Não mais lhe beijava em público, tampouco lhe roçava as mãos nas ancas ou nas coxas quando se aproximava por trás. A sua nuca já lhe era território virgem novamente. Aliás, virgem nada. Ele que se fiava por mapas velhos enquanto outros aventureiros abriam bandeiras por ali. Ela era a fêmea-alfa agora. E ele apenas o provedor dos filhos.
“São cinco anos que estamos juntos e você nunca mais falou em largar aquele cara. Você já não o ama! E sei que não sou o teu primeiro amante. Você mesma disse isso para mim.”
Ele falava como quem implora e isso era o quem mais a irritava. De início era bonitinho ter um macho que falava fino quando ela mostrava a que veio, quando se mostrava dona da situação e colocava-os no seu lugar, de consolo que beija e anda. Esse nem era especialmente bonito, forte ou viril. Como dizia, era exatamente isso que ela achava interessante de início. E ele era do tipo medroso, um lucky bastard na escala evolutiva. Fugiu do leão ao invés de enfrentá-lo e sobreviveu para dar cria. Gerou toda uma linhagem de covardes, cagões que não honravam as bolas por conta dessa cepa ruim, desprovida de brios e amor-próprio.
Com ela não era diferente. Se dissesse para ele passear de mãos dadas em pleno Centro Comercial de Copacabana ele se derretia como criança no dia doze de outubro. Se ela mandasse ele não olhar na cara dela enquanto andavam pelo Fashion Mall, ele se portava como empregadinho subjugado. Talvez por isso tenha durado tanto. Cinco anos nessa mesma merda e ele só começou a reclamar agora. Deve ter mulher nova nessa história.
“Eu tô vendo uma outra pessoa. Estou saindo com a Ângela.” “Com quem? Aquela criança? Hahahahahahahaahaha!” “Não fala assim dela. Ela me ama!” “Ama porra nenhuma. É uma mal-comida que tá doida para amarrar o primeiro mané.” “Porra! Ela quer ficar comigo. Será que você não sacou que tô de saco cheio dessa vida de piroca de gaveta? Quero acordar do seu lado uma vez na vida. Ou melhor, quero acordar do lado de qualquer mulher que me queira.” “Mas, bicho, a Ângela? Ela é pagodeira. E vai em micareta. Não tem nada a ver contigo!” “Foda-se! Ela quer dormir comigo, me apresentar aos amigos dela e eu a apresentarei aos meus.” “Que amigos, cara? Os coleguinhas de vinte anos dela? PORRA, você é dezesseis anos mais velho que ela.” “Pois é. Dezenove anos e na flor da idade e me quer.”
Isso era o que mais lhe incomodava. Por mais que dividissem os prazeres e as confissões mútuas, ela nunca queria saber de sua vida offline e ele era barrado ao tentar saber mais da dela. A sua defesa era tão adaptada ao seu modo de agir que ele nem mais tentava forçar uma situação. Não mais se convidava para eventos ou tentava descobrir onde ela iria e com quem. Aceitara que seria chamado quando fosse conveniente e pronto. De início, isso bastava. Ela era linda, poderosa e se portava como uma deusa do sexo. Uma devota de Istar que se erguia gigante nos seus quase metro e meio. Um olhar bastava para trazer da inação o mais desanimado dos seres. Mas Ângela não ficava atrás e ela sabia disso. Sabia que dali pra frente ela não seria mais quem guiaria a relação. Ela teria os seus homens e ele as suas fêmeas. “Mais e melhores que você.” Pensou baixinho no verso do Chico Buarque.
“Você não vai aturá-la mais de dois meses.” “Que seja! Mas serão dois meses sensacionais.” “Cara. Você não dirige e ela só pensa em carro, cachorro e samba.” “Eu ensinarei coisas novas a ela. Mostrarei o que a vida tem de bom.” “Vai ensinar o quê? As novas vertentes do Rock Inglês? As composições atonais do Arrigo Barnabé? Filosofia Moderna? A teoria do Inifinitesimal de Hegel?” “Leibnitz. É do Leibnitz. Definição do limite. ‘Deus está no limite.’” “Ha! Duvido até que ela leia qualquer coisa que você dê a ela.” “Na boa? Prefiro viver um amor furtado que isso que temos hoje. Não dá mais.” Ela levantou-se, pegou a bolsa, dirigiu-se à porta. “Babaca.”
Desceu calmamente a escada. Entrou no carro. Mal conseguiu colocar a chave na ignição de tanto que as mãos tremiam.
“PORRA! Não posso chorar por esse babaca.”
Lentamente o céu se solidarizou com a dor da segunda rejeição de sua vida.
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O sexo é o alento
October 12th, 2005 § 0
Burro chegou com uma novidade: “Comi gente ontem!”
Os dois olharam com a cara de tédio habitual e, antes de fazerem a pergunta default, ele sacou: “E não paguei por isso!”
Com o interesse dos amigos ativado, ele se derramou em longuíssimas narrativas de como conduzira o flerte por meses a fio, como evitara as tradicionais armadilhas de seduções baratas, como envolvera e seduzira a menina até obter “os favores da linda e querida flor.” “Flor? Porra! Você comeu gente ou um brócolis?” Gordo com sua delicadeza habitual cortou o longo, elogioso e enfadonho relato de Burro.
Ofendido, mas não abalado, Burro revelou: “Eu a chamo de Minha Flor!” Explode uma gargalhada entre copos de chope consumidos no Devassa do Leblon. Grande não se conteve. Com dedo em riste, olhos em lágrimas, tenta falar alguma coisa mas só consegue aumentar os soluços de Gordo que quase desmonta a mesa de tanto se contorcer. “Essa é a coisa mais engraçada, ever!” Conseguiu dizer ao domar os risos e as lágrimas. “Cara, você me deu duas semanas terapia agora! Putaquepariu! Que coisa foda! ‘Minha Flor’ é foda, cara!”
Abalado e ofendido, Burro saca do palmtop as fotos que tirara da menina. Linda, linda! Aliás, lindíssima! Morena, olhos negros e fundos, rosto delicado, corpo de vespa. Acintosamente exibe as dos dois se beijando e pára ante o olhar estupefato dos amigos. “Pois é. Mó gata!”
“Qual o preço? É. Quanto você tá pagando para a menina posar de sua namorada.” Pergunta, impromptu, Grande. “Não estamos namorando. Não quero relacionamento sério.” “Ah! Qualé! Mó gatinha e você não vai amarrar com chave de pica?” “Pois é. Você vai ver. Se a minha teoria estiver certa, vou ficar cercado de mulheres maravilhosas em pouco tempo.”
Dali a dois meses, os amigos mal conseguram ver Burro. Ou ele saiu com Sicrana ou com Beltrana ou com ambas ao mesmo tempo. Ou era uma terceira, quarta. Já tinham perdido a conta. Só sabiam do histórico porque Burro informava-os religiosamente das novas conquistas. Foto, dados cadastrais, breve histórico da conquista. Gordo já contava para os seus amigos paulistas o orgulho que tinha do amigo nerd e comedor. Grande se calava e matutava.
Finalmente combinaram de se encontrar no Belmonte para chope e pastel de camarão. Gordo chegara antes e saúda o Burro ao entrar. “Como é que tá essa vida de pica-doce?” “Tá ótima! A merda é que não dá para comer todo mundo. Não dá tempo. Ou como ou trabalho, né?” “E tu vai largar o emprego?” Burro ficou tenso. “Nunca!” “Qual foi cara? Você odiava o emprego…” Soltou Grande, já puxando uma cadeira e pedindo um chope e uma Coca-cola. “Conta aí a teoria que transformou um nerd magrelo, antipático e mal-vestido em um comedor de primeira linha.”Fui promovido a Gerente Sênior de Marketing n’A Empresa.” “Porra cara! Parabéns! Parabéns mesmo, mas o que isso tem a ver com aumentar a densidade de mulher boa ao teu redor.” “Cara, mulher sente o cheiro do poder à distância. Sabe que cara com cargo bom dá segurança e estabilidade.” “É. Quem gosta de pica é veado. Mulher gosta é de dinheiro.” Gordo ri, meio que acabrunhado, dessa afirmativa. “Não vou discordar. Mas qual era o lance da primeira menina?” “…” “Fala negão! Conta aí…” “Prometi uma promoção à ela…” “NÃO ACREDITO! TU É UM FILHO DA PUTA!” Grande realmente ficou preocupado “Pois é. Isso vai dar merda, cara. E se a menina te processar por assédio?” “Ela já tem a promoção. Já tava certo. E foi para Curitiba. Eu só me aproveitei disso.” Gordo explode novamente: “NÃO ACREDITO! TU É UM GRANDISSISSIMO FILHO DA PUTA!” “Nâo nego. Vi a ficha dela aprovada e só precisava de um OK meu. Nunca negaria, claro. Mas ela se insinuou cheia de charme me pedindo a aprovação: ‘Ah, chefinho… eu faria qualquer coisa para ter esse ok.’ Paguei para ver né?” “Tu é um merda mesmo!” Grande ficou puto. “Tu foi é assediado, mané! Gravou a conversa dela ao menos?” Burro apontou pro PDA e tocou um MP3 de lá. E não é que o viadinho não tava mentindo? Ouviu-se com clareza a voz da menina se insinuando. “O que importa é que fiquei com fama de comedor e bom partido. Sei que isso não vai durar, mas vou aproveitar.” “E Vênus, cara?” Soltou Gordo sem pensar duas vezes. “Como é que fica?” “Não fica. Ela não me quer. Se pedir para mim, caio de quatro aos pés dela, mas não vou ficar esperando o tempo passar. E tá divertido para caralho!”
Grande olhou meio de rabo de olho, pediu um caldo verde entre um “suco de pica de Hulk”, “sopa de radiação gama” e outras piadas de cunho nerdístico e comeu em silêncio, ouvindo as peripécias sexuais do Burro. Pra si, matutou: “vai dar merda” e pediu a conta. Foram todos para casa cedo.
Daí a mais duas semanas, foi Burro que chamou os amigos para ir ao Stephanio’s.
“Tô na merda, galera!”
Sempre que o Burro propunha o Stephanio’s, tinha alguma merda para contar. Ou uma dor de corno ou uma desilusão, ou um pé na bunda ou um fora hercúleo. Mas de certo era papo de mulher. Era assim que ele funcionava: Stephanio’s: problema de mulher; Adega da Velha: problema em casa, família; Siri da Barra: problema de trabalho.
Os três se encontraram e de pronto reclamaram entre si da música ao vivo. “Porra! Não sei porque insiste em vir aqui. Samba, cara! Que merda!” “Porra Gordo! O bolinho de bacalhau daqui é simplesmente sensacional.” “Gordo, senta. Burro, abre o bico. Garçom: duas Bohemias e uma Coca-cola. Quatro copos. Uma porção de bolinhos de bacalhau. Não deixa as Bohemias secarem. Fala, Burro. Qual o galho?” “Cansei.” “Como assim? Cansou? Cansou de que?” “Cansei de putaria. De saco cheio de olhar para o lado e não querer acordar junto daquela mulher. Quero alguém para acordar para sempre. Mais ou menos o que o Garcia Marquez dizia: ‘o sexo é o alento de alguém que ainda não encontrou o amor’. Saca?”
Beberam até amanhecer e até cantarolaram um sambinha ou dois.
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That´s life
September 10th, 2005 § 0
Embalou a câmera com carinho e cuidado. Colocou-a na bolsa conferindo as pilhas. Quatro recarregáveis do lado de fora, quatro embarcadas e um pacote de alcalinas para qualquer emergência. Conferiu a impressora portátil que custara quase o preço da câmera. Conferiu cabos, adaptadores de tomada, cartuchos de tinta especial e papel fotográfico cortado em tamanho certinho para os namorados da orla de Copacabana.
Na primeira parada: Cervantes, balcão da Barata Ribeiro. Quinze minutos, três chopes de pé. Precisava de coragem para virar a noite com equipamento tão caro, a pé, de bar em bar. Olhou para a clientela em busca de alguém que quisesse uma foto.
“Mas não é assim que as coisas deveriam ser? As pessoas se reúnem em torno de um interesse em comum, se juntam para fazer uma coisa em prol de um ideal maior.” “Como comer a maior quantidade de gente possível, né?” “Não porra! Como criar espaço para a sua produção, para a sua necessidade de se expressar!” “Expressão de cú é rola!” “Porra! Vocês só pensam em cú e buceta!” “Eu não! Eu gosto de boquete também!” “Caralho! Não agüento mais isso, cacete… to falando uma coisa séria. Todo mundo aqui reclama que não consegue espaço para criar, para escrever, que não dão valor às coisas boas, que o povo só consome merda, novela das 5, das 6, das 7, das 8. Só escuta lixo, lixo de axé, lixo de pop, lixo de MPB, lixo de samba, lixo de rock…” “Mas rock é só lixo mesmo!” “… lixo de tudo! Porra, e quando alguém vem pelo menos tentar levantar a média, vocês mesmo vêm tacar pedra, julgando fulano e beltrano como se esperassem os novos Camus, Joyce, Guimarães Rosa em cada grupinho literário! PORRA! Meia dúzia se juntam para tentar fazer algo e vocês que deveriam ser os primeiros a dar força, dão as costas!” “Mas sarau é um saco mesmo!” “Deve ser, cara, deve ser. Mas pelo menos os putos lá, pedantes, cacetes, com cara de conteúdo – que vocês me disseram, né – estão tentando fazer alguma coisa. Enquanto isso, eu, você e você estamos aqui bebendo no Cervantes e olhando bunda de puta de 50 reais.” “Cinqüenta não! O programa aqui é mais caro, fofo!”
Desistiu de tirar a câmera da bolsa e saiu dali um pouco mais bolado que antes. Havia desistido de tudo em prol de uma promessa babaca. Jurara para si mesmo que não deixaria qualquer legado, quaisquer heranças. Que seria mais uma sombra, passaria à margem do mundo, das pessoas. Juntara o suficiente para comprar um quitinete em Copa (luxo dos luxos), um bom computador e outras coisinhas.
Desceu a Princesa Isabel ignorando as putas e as boites. Não acharia trabalho ali. Chegou à praia e partiu em direção ao Leme. No primeiro restaurante encontrou três casais diferentes e fez as fotos. Entrou no restaurante. Pediu para usar a tomada e imprimir as fotos. O gerente olhou torto, mas deixou. Pediu um chope e deixou um troco na caixinha dos garçons. Entregou as fotos. “Twenty reais, mister. And I can send it to you by email, If you want.” “Thanks. That’s my card!”
Voltou para dentro, pediu um sanduba e mais um chope.
“Não consigo entender, cara. Não mesmo. Ela nunca me reclamou de porra nenhuma. Sempre tava feliz do meu lado, sempre me procurava para a cama. Fazia planos, dizia que queria ter filhos comigo e tudo.” “Mas é assim a vida, cara. Uma hora ela te quer porque você é inteligente, culto, educado. Outra ela quer um cara marombado que anda armado pra cima e pra baixo, que vai dar porrada nela assim que descobrir que ela vai dar pro outro que é músico e cantor de samba péla-saco que vai escrever uma canção quando ela o trocar por um professor de capoeira. É assim a vida. Só nos resta chorar os amores quando eles se apresentam para gente.” “Tem razão! AMEI ESSA MULHER E A LEMBRANÇA DESSE AMOR É SÓ MINHA!” “Isso aí. Agora vira essa cachaça que eu te levo em casa.” “Mas queria que ela me ligasse… só mais uma vez.” “Esquece, cara. Vai ser melhor. Haverão outras, mais belas que te amarão mais e melhor!” “Como na canção do Chico, né?” “Exatamente!”
Olhou os amigos saírem bêbados, abraçados e se lembrou dos amigos. Não ligava para algum fazia meses, ainda que lhe mandassem emais ou papeassem pelos instant messengers da vida. Uns lhe xingaram, outros lhe deviam dinheiro. Sabia que iria esperar que eles os colocassem num backlog emocional e só lembrassem dele em eventos como o aniversário de um ou quando estivessem sem grana.
Encarou mais um chope, a conta, e seguiu para o resto da noite no rumo do Meridien e de Copacabana novamente. Veio caminhando vagarosamente, ente as putas, os taxistas, os turistas, as diversas criaturas da noite que estranhavam aquele homem pequeno com uma mochila à frente, como um coala mãe carregando o filho.
Ficou cansado antes de chegar ao Othon, parou no Cabral 1500, contou o dinheiro. “Foi uma boa noite. 600 reais, trinta fotos vendidas.” Subiu a Bolívar até a Barata Ribeiro, entrou em casa. Ligou o computador, baixou as mais de seiscentas fotos tiradas naquela noite para o computador. Ligou o processador de textos e escreveu mais um conto que não seria lido.