Insônia e enxaqueca

February 10th, 2009 § 5

E então eu embarco no ônibus da viação Itapemirim com uma leve dor de cabeça. É fome, penso. Como o lanche que vem de brinde e a diaba não passa. Coloco uns filmes para ver no lepitópi -Battlestar Galatica está sensacional!- e a dor de cabeça só piora. É o balançar do ônibus, penso. Desligo tudo e tento cochilar. Nada. Só começa a espalhar do lugarzinho detrás do olho onde a cefaléia mora, desce pro ombro e se estica como arame até o dedão do pé. É enxaqueca, decreto.

Daí espero a parada de sempre, compro uma caixa de neosaldina -santa salvadora hosana nas alturas- e tomo quatro. Não passa. Quatro horas de batidas na cabeça no vidro entre as cochiladas da viagem para ver se o crânio rachava ou a dor cedia. Nem um nem outro. Chego em sampa e parece que a coisa melhora um pouco. Tô bom, me iludo. Nada feito: era a endorfina da manhã dando o seu alívio. Oito horas decido tomar Novalgina(tm) para ver se a diaba cede. Nada. Mais um grama do remédio santo -salve salve hosana nas alturas- e parece que começa a ceder. Tomo mais dois gramas só para ver se o negócio anda mais rápido. Anda sim e eu chapo na cama como um bebê.

Acordo às 15h com o dia perdido. Ainda bem que avisei à chefe, penso. Agora, às 2h22 fico fazendo desejos de sono de volta.

Saco.

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Sobre a arte de dar as mãos

July 11th, 2008 § 9

publicado na Tribuna da Imprensa

Hoje eu li em um blogue de uma amiga (http://simsenhoras.blogspot.com/2008/07/quero-namorar-o-wall-e.html) que ela não vê mais as pessoas simplesmente dando as mãos por aí. Que no arsenal da conquista não se usa mais o singelo gesto de procurar a mão da menina e segurar os dedos entre os dedos num enlace quase que obsceno, mas mais singelo que os olhares que enrubescem. Que não vê mais o gesto em si mesmo gerando o momento mágico.

Eu sou uma criatura de “grude”. Gosto de tocar, abraçar de dar beijos e tal em quem tenho carinho e afeto. Obviamente já passei da fase adolescente onde os futuros adultos arrumam n desculpas para se jogar uns em cima dos outros ou se amontoarem pelos cantos. Algo a ver com os hormônios em ebulição ou uma desculpa esfarrapada para pré-sexo. Dito isto, acho que poderão entender melhor o caso que tenho para contar.

Pois bem.

Um dia, numa das minhas idas profissionais à cidade do dinheiro e à terra da fortuna, eu saí com uma conhecida para podermos materializar o nosso conhecimento mútuo. (Não me entendam mal! A frase anterior é só uma forma pernóstica de dizer que fui conhecer de fato uma pessoa que conhecia pela Internet. É que às vezes conheço mais de fato quem nunca vi de perto. E às vezes conheço menos de perto quem já vi de fato. Fato.) Fomos a uma pizzaria numa praça que só recentemente voltei – e gravei o nome. E obviamente me esqueci novamente, a ponto de não ter sequer referência para citar nessa crônica de quarenta linhas.

A pizzaria era modernosa, com uma decoração bem interessante. Como bom carioca, sempre achei que pizza boa era a que era servida rapidamente. Ali fui introduzido à grande arte de ser fazer Pizzas em Sampa.

Antes mesmo de fazermos o pedido, senti que havia algo no ar. Uma atração definitiva. Da minha parte, claro, por minha amiga. As pizzas não tinham nada a ver com a história. A moça era bonita, charmosa, interessante mesmo. E tinha bom gosto. Afinal de contas, sabia escolher a companhia para o jantar.
Durante o evento inteiro eu não conseguia desgrudar os olhos dos olhos da moça e “dava um jeito” de fazer as mãos delas encontrarem as minhas. Quando ocorria, parecia que eu estava segurando o braço de uma cadeira ou apenas uma maçaneta. Nada. Nem uma fisgada, nem uma alteração na voz da moça. Nadica de nada. Um suspiro ou uma pausa ao menos? Não.

Obviamente achei que não tinha logrado sucesso e tal. Mas são coisas da vida. Se todas as mulheres desejassem todos os homens (e vice-versa), não haveria agenda que desse jeito para tanta fornicação. Ou romance. Fica no teu critério. Fato é que não funcionaria de forma alguma. Há de se ter a rejeição por bem da humanidade.

Mas, como a vida sempre surpreende e desconstrói as primeiras impressões, na saída, a moça me permite um beijo. Obviamente voltei pro Rio sem entender coisa alguma.

Quando mudei em definitivo para Sampalândia, eu entendi que havia um tipo de gente que não se toca, a não ser na intimidade. Que um abraço pode ser sinal de posse e que um pegar em mãos pode ser ostensivo, declaratório e íntimo demais para duas pessoas que apenas se flertam.

Da pior forma, entendi que esse não era o meu tipo de gente.

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Potência e decisão

November 11th, 2007 § 4

publicado na Tribuna da Imprensa

Fui ao cinema. Tudo bem, não há novidade ou nada excepcional nisso. Costumo ir ao cinema umas três, quatro vezes ao mês. Assisto a filmes infantis com a filhota, a filmes de violência descerebrada com os amigos, e comédias românticas com as demais companhias.

De fato estou indo menos ao cinema que fui dos 15 aos 18 anos. Em parte o preço dos ingressos não estimula a minha ida – me recuso a falsificar a carteirinha de estudante e compactuar com mais uma infração generalizada – e o advento do DVD me mantinham longe das salas escuras e da tela gigante.

Desde que vim para Sampa, eu retomei o hábito de “cinemar” ao menos umas duas vezes ao mês. O fato de eu morar a poucas quadras da maior concentração de salas de cinema do país ajuda um bocado e tenho diversos amigos cinéfilos. Desses que acham um absurdo eu não ir a todas as sessões do festival de cinema de SP ou à mostra de curtas do cinema francês no SESC.

Fato é que, mesmo com hábito que ressuscita, ontem assisti a um filme quase que por acaso. Tinha saído de casa sem pretensão maior de ver um filme leve, comer pipoca e ficar de carinhos no cinema. Um programa quase adolescente, confesso, que me agrada muito quando a companhia é divertida, bonita, carinhosa e inteligente. No caso, sim, sim, sim e muito sim.

Acabamos indo ver Leões e Cordeiros mais por conta do horário que pela escolha do filme em si. No filme, o personagem de Robert Redford é um professor que tenta retirar um aluno do marasmo que ele se encontrava, da vida fácil e rasa que a nossa sociedade do espetáculo tanto oferece, seduzindo, quando nos draga, suga e drena para se manter eternamente rasa. Uma nata fina, tenra e desejada por todos. Não era o mote principal do filme, ele passa por questões mais amplas como o equilíbrio entre audiência e notícia – questões importantes do infotainment moderno – e pelo equilíbrio de forças geopolíticas atual.

Mas o que me moveu de fato foi uma cena rápida. O professor vira-se pro aluno que é brilhante, mas está desestimulado com o que tem pela frente e ele solta a seguinte pérola: O que você é, essa potencialidade tua, essa tua capacidade de realizar agora, nunca mais acontecerá. Você será uma pessoa diferente daqui para a frente e verá que desperdiçou a sua própria capacidade de realizar, de mudar as coisas. Não foi bem com essas palavras, mas foi nesse tom. O menino retruca que de que adianta tentar? Se fizer direito, mudaremos pouco. Se errar, não mudará. Se não tentar, nem um nem outro darão errado.

Nunca fui senhor de meu destino. Minha vida é como uma biruta que vai de acordo com o vagar do vento e, até ontem, isso nunca havia me incomodado. Não pretendo usar esse espaço como depósito de confissões e frustrações, pois elas já ocupam boa parte do tempo dos meus amigos que ainda teimam em me escutar lamuriando e reclamando, mas ontem, definitivamente fiquei abalado.

Não sei mais como encarar a minha filha sem pensar: “o que fiz para tentar melhorar o meu mundo, justamente quando o mundo esperava que eu mudasse?” Que tipo de exemplo ou conselho eu darei para ela? Será que ela sequer vai ter esse tipo de dúvida alguma vez na vida?

Por favor, quem se pegou pensando nisso ou se moveu para mudar as coisas, levante a mão. Já que a minha ficará abaixada.

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Silêncios

June 11th, 2007 § 0

publicado na Tribuna da Imprensa

Novamente era uma mesa de bar. Botecão mesmo, na Augusta. Acho que era o Ibotirama. Já estava bêbado demais para ter certeza dos lugares. À minha frente dois amigos que atravessaram mais de quatrocentos quilômetros para me visitar. Eu estava feliz com aquelas faces tão amigas ali reunidas.

Já tínhamos rodado uma série de lugares de baixo renome atrás de uma Serramalte digna e o sucesso fora marginal, no mínimo. Até o fim de semana terminar, apenas desventuras e programas furados por conta do desconhecimento do terreno de um carioca desterrado em Sampa. Teoricamente eu já deveria ter mapeado todo o submundo da cidade e saber de cor os points de álcool de qualidade. Não o fizera. Como eu iria descobrir mais tarde, a idade tava cobrando uma taxa maior que eu esperava.

Sentamos nas cadeiras de plástico e na mesma hora nos arrependemos de ter abandonado os bancos quentes da Bela Paulista. Tentamos engatar alguns papos sem nexo e parecia que nada rendia. Ou não rendia da mesma maneira que quinze anos atrás. Não era esgotamento do carinho mútuo, pois esse era aparente, mas era mais uma distância que fora construída vida afora.

O que mais se ouvia era o nosso silêncio. Olhei os rostos dos meus amigos como se os encontrasse pela primeira vez. Me surpreendi com as rugas de um e os quilos ganhos de outro. Imaginei que o mesmo acontecia comigo, o tempo não perdoa ninguém. O cansaço da viagem e do dia de trabalho ajudavam a tornar esse silêncio em algo mais imperativo que a vontade de beber e acordar acabado numa sarjeta paulistana.

Na verdade, não havia a vontade de repetir aqueles programas de adolescente desesperado por acabar consigo mesmo ante o mundo adulto que se apresenta para ele. Já temos a certeza de nossos papéis na sociedade e o que temos de desempenhar diariamente para nos afirmarmos como cidadãos produtivos e eficientes. Temos uma história de quarto de século após a fralda cada um. Temos responsabilidades e deveres e somos lembrados deles diariamente. E é isso que nos faz adultos, não é? A ausência de indulgências perante nossas responsabilidades.

Tentamos lembrar de alguns casos do passado ou de pessoas que perdemos o contato. A cerveja – Brahma, nevada, gelada – calava as intenções de continuarmos os assuntos inócuos. Ficamos com o planejamento do sábado e do domingo.

Ainda que eu tentasse amealhar alguma lembrança boa dos três na mesa de bar varando aquela madrugada, era indelével a sensação de derrota perante as minhas mais caras lembranças da vida. Queria que tivesse sido um fim de semana de abraços, gargalhadas, lugares legais a se ver em Sampa e um revival do que era a maior amizade de todo o mundo.

Mas éramos apenas três bêbados a silenciar ante as nossas histórias do passado e anunciando um fim de semana que acabara já na madrugada de sexta-feira.

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Nostalgia de quinta-feira

January 25th, 2007 § 11

publicado na Tribuna da Imprensa

Eu simplesmente detestei a minha adolescência. Feio, chato e nerd, só não era um fracasso no colégio por conta do meu humor sarcástico e quase non-sense. E também por uma mania suicida que eu tinha de criticar os professores em plena sala de aula.

Isso garantia a minha sobrevida à violência dos recreios.

Música? Não consigo ouvir por mais de dez minutos o que eu escutava à época. Há exceções, é claro. Scorpions (Virgin Killer e In Trance ainda são os melhores discos deles), alguma coisa do Ira, Legião, os roqueiros de Brasília e Sampa em geral, The Cure (Pornography ainda comanda o batatal).

O que sinto saudades mesmo é de ficar nerdando nas lojas de discos da Tijuca e de Copacabana. Principalmente na Sub Som, onde vira e mexe tinham discos bootleg (comprei um do U2 e me arrependo de não ter comprado o picture disc triplo do último show do Led Zeppelin). Bootleg, para quem não sabe, eram os “discos piratas” da época. Eram gravações não-oficiais de shows ou takes de estúdio que eram abandonados pelos artistas e os fãs coletavam. Aquelas lojas eram a internet da minha época. Chegava sempre um maluco com uma fita cassete de uma banda desconhecida e dizia que era o último som do momento. E colocava para todos ouvirem na loja.

Saudade de ficar nerdando na biblioteca da escola e ler toda a coleção de Asterix pela décima vez. E de descobrir “Eu Robô” do Asimov numa estante, de ler “Fundação” sentado no chão do corredor, de passar pelos clássicos de aventura, anotar o nome e depois comprar baratinho nos sebos do centro da cidade. “Moby Dick”, “Da Terra à Lua, todos HG Wells, todo Monteiro Lobato, Kafka. Tenho, em verdade, é saudades de ter tempo de fazer isso. De ter toda uma quinta-feira à tarde para ficar ali lendo.

E as meninas… Queria poder dizer que tenho saudades delas, mas acho que sempre preferi as mulheres feitas. Nunca gostei dos joguinhos de flertes da adolescência. Prefiro a praticidade moderna, madura e adulta… peralá… se bem que muitas mulheres nunca deixam de fazer esses jogos, não é? Mas tenho saudades das minhas paixões platônicas, tão fatais, derradeiras e eternas que só os adolescentes podem ter. Essas eu cultivo com carinho, como quem cuidasse de um filhote perdido. Duas, em especial, me alentam quando estou desesperançado do mundo. Olho algumas fotos e encontro o fiapo de luz escondido no meio do core me dizendo: “Ei, cara. Você pode! Você consegue!”

E os sonhos adolescentes? Mudar o mundo, enriquecer, ser um rock star tupiniquim. Ainda bem que eles se foram. Daí ficaram mudar o próximo pelo seu próprio exemplo, saber o real valor das coisas, ser lembrado pelos amigos e pelas pessoas que te amam. Mais modestos os sonhos, eu sei, mas me dão mais tranqüilidade e acho que consigo viver bem com essas pequenas ambições. Afora isso, uma televisão de plasma de 42″, um LightSaberFX, um iPhone, um MacBook novo e um PCzão da Alien, são gêneros de primeira necessidade, né?

Acho que a única coisa que eu tenho real saudade é da possibilidade de ter tempo jogado fora.

Chegando à beira dos quarenta anos, não tenho tanta nostalgia. Tenho é uma bela coleção de arrependimentos catalogados organizados e que visito regularmente. Uma verdadeira História E Se. E se eu tivesse ficado de boca calada, e se eu tivesse beijado a menina logo de cara, e se eu tivesse tido culhões e peitado o chefe da mesma forma que eu peitava os professores, e se eu tivesse fugido de casa e bancado a minha ida pra Sampa nos idos de 88?

Pra mim, tenho poucas metas até os quarenta anos. Poucas para fazê-las todas.

Uma delas é morar só. Me envergonho de ainda depender de família para teto e sustento básico. Vergonha mesmo. Não tenho mais idade para isso e nem falo do conforto ou (falta de) privacidade mas de hombridade. A cada dia que passo sob o teto de outrem, me sinto menos homem. Emasculado. Tenho de dar um jeito nisso. Ontem.

Outra é começar a juntar algum dinheiro. Não dá mais. A cada hora um aperto aqui, uma coisa inesperada ali, uma festa, uma viagem e pronto. Me ferro sobremaneira no banco, no meu orçamento pessoal. E não consigo alugar o meu apê. Então tá decidido. Vou começar a juntar uns caraminguás regularmente. Só não sei quando começo.

Mais uma é me apaixonar menos. É outra coisa que já deu. Sei que ser blasé é totalmente demodê, mas não tenho mais saúde para essas montanhas russas emocionais. Não nego uma paixão ou um amor, mas menos. Bem menos. Não passar a quarta logo de cara.

A última é me calar mais. Não na mesa de bar, a tagarelice vadia, o conversar de várzea, o papo moleque, a conversa-arte, mas me calar sobre coisas que sei que não serão bem recebidas ou compreendidas de prima. Em síntese: ter menos opinião ou expressá-la da forma veemente que me é habitual. Não sei se isso será possível, dada a minha natureza ariana, mas me evitaria confusões que não me acrescentam em nada. Nem é pelos problemas gerados. Quem me entende sabe como sou, quem não, não me interessa. Mas pelo esforço em domar as paixões.

Aos quarenta, se completados os passos, poderei começar a preparar o meu sossego.

Afinal, nunca achei que chegaria tão longe.

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Alan e Cláudio

November 24th, 2006 § 1

publicado em LIVinRooom

Dessa vez Alan decidiu que não iria sair. Já estava cansado da farra ininterrupta dos últimos quinze dias e precisava de um pouco de descanso. Mas a necessidade de ver gente ainda não acalmava dentro de si: ele era um monstro social, afinal das contas. Decidiu chamar a turma para assistir a uns filmes em casa mesmo. Tinha cerveja, refrigerantes, salgadinhos, uma tevê de quarenta e duas polegadas, vários devedês e sofás super aconchegantes na sala.

Ligou para uma galera que refugou frente ao convite. A noite tava quente demais para ficarem trancados vendo filmes antigos ou tomando cerveja com amigo cueca. Tava quase desistindo do programa quando ligou para Claudinho que topou de prima. Ele andava meio borocoxô fazia uma semana e precisava sair da gosma da pasmaceira casa-trabalho-casa. Sabia que Alan era um bom anfitrião. Nunca enchia o saco com perguntas desnecessárias tampouco ficava xeretando na vida alheia. Além disso tinha um ótimo gosto para música e cinema. Só era amigo de uns três babacas que ele não topava de jeito algum.

Outro que deu uma meia-confirmada foi o Burro. Disse que iria, mas Alan sabia que Grande estava marcando uma despedida do Brasil no bas fond da Prado Júnior. Então, se um dos putos viesse, seria por pouco tempo. Ou ainda, viriam os três e colocariam a casa abaixo. O que era um bom programa no fim das contas. Pena que Cláudio não topava com os três. Fazer o quê? O cara tinha a Elisa na mão desde que ela deixou de ser uma ninfeta promissora e passou a ser uma fêmea furiosa. Uns têm sorte. Outros ficam na rebarba.

Cláudio chegou na hora marcada. Trouxe doze cervejas já geladas e começamos logo os serviços de consumo de líquidos. Primeiro filme selecionado da lista de DiVx do computador foi LEXXX, uma ficção científica obscura do Canadá. Ambos se amarravam nessas produções trash e ficavam bebendo e zoando os filmes. Faziam isso desde a adolescência. Tava no finalzinho da fita quando Alan atendeu o telefone.

“Olá lindona! Finalmente deu sinal de vida, né?” “…” “Pois é… estamos vendo uns filmes trash aqui e esperando o resto do povo chegar. Se chegar.” “…” “É… tô só eu e Cláudio aqui de bigode esperando…” “Sei. Você tem certeza disso? Talvez os putos cheguem depois da farra na Prado Júnior.” “…” “Não deram certeza de nada. Não mesmo.” “…” “Então tá. Te espero aqui. Traga amigas. E camisinhas.” “…” “Ha ha ha ha! Também te adoro. Beijo.”

Cláudio olhou pro Alan e não precisou perguntar nada.

“É cara. Ela não vem contigo aqui.” “Eu imaginei isso. Achava que ela já tinha passado por cima de tudo.” “Cara, sei que não é da minha conta e você pode…” “Já sei o que você vai perguntar.” “Então.”

Cláudio levantou-se, mexeu no controle do Xbox hackeado que tinha os quatro filmes da série canadense, escolheu um disco cheio de emipetrês e colocou para tocar. Abriu uma cerveja nova. Sentou-se no sofá e fez cara de quem tinha uma longa história para contar.

“Os caras vêm?” “Acho que sim. Grande não tava a fim de ficar na putaria. Embarca amanhã cedo para Sampa e de lá para Buenos Aires. Fica seis meses, se não me engano. Os ourtos é que podem virar a noite lá mesmo.” “Tu tá a fim de encontrar os caras?” “Não mesmo. Gosto de todos, mas preciso de tempo. É muita nerdice concentrada no mesmo lugar.” “Tu sabe porque eu não gosto deles, né?” “Sei que você não gosta do Gordo. Dos outros, tem antipatia por proximidade.” “Isso.” “E isso tem a ver com a Elisa, né?” “Claro.”

Alan foi até a cozinha, pegou uns pedaços de queijo, pão, facas e uma tábua. Trouxe para a sala para comerem algo. A cerveja tava acabando e ele fez sinal que iria trazer mais se acabasse aquela.

“Não vou encher os cornos hoje, cara. Não tô no clima para andar bêbado por Copacabana afora. Vou acabar num puteiro ou brigando desnecessariamente com alguém.” Comeram os pães, o queijo, mataram mais doze cervejas e criticaram filmes de ficção científica canadenses, filmes de fantasia japoneses, a estética de quadrinhos belgas e as coreografias exageradas do Pacto com Lobos. Listaram as próximas aquisições de devedês, cedês e livros nos próximos meses. Falaram dos trabalhos que estão fazendo em seus respectivos escritórios, comentaram da extinção dos cinemas de rua e da segurança e qualidade das salas em shopping centers.

Deu três e meia da manhã e o telefone de Alan tocou novamente. Era o Burro. Mal se entendia o que ele falava, mas parecia que estavam arrastando umas cinco mulheres de profissão para a casa do Alan e precisavam do aval dele para a realização de evento pouco ortodoxo. Alan riu e mandou-o tomar devidamente no cu. Burro riu do outro lado e disse que ia dispensar as meretrizes, mas iria para lá da mesma forma e que Gordo já tinha soçobrado ante os espíritos do álcool e Grande tinha partido para casa horas antes.

Cláudio se levantou no meio da conversa e foi ao banheiro. Na volta, Alan já tinha desligado o telefone.

“Você ainda quer saber da história?” “Na verdade, não. Nunca foi da minha conta. Mas você é meu chapa. Queria ajudar de alguma forma.” “Então faz uma coisa para mim. Fala com aquela mulher que ela é a mãe dos meus filhos. Eu agora tenho certeza disso.”

Se despediram e Alan começou a arrumar a pequena bagunça quando o interfone tocou novamente. Era Elisa.

“Ele já foi, menina. Você chegou tarde.” “O que ele disse?” Ela estava soluçando. Ele tentou convencê-la a subir, mas nada a demovia do intento de continuar no seu posto. “Ele repetiu aquilo que você me disse, menina. Esse cara te ama.”

Elisa despediu-se e fez sinal para um táxi que acabara de despejar cinco mulheres e um nerd na portaria do Alan.

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As funções da sarjeta

October 20th, 2005 § 1

Já tinha quase dois meses que os três amigos não se encontravam. Gordo estava atolado de trabalho e problemas até o pescoço. Mudança para o apart-hotel. Procurando um novo para alugar. Dividido entre a mudança para o Rio e largar definitivamente os projetos que conduziu ou continuar em Sampa e ficar longe da família e dos amigos. Principalmente dos amigos. Desde que fora para lá, não conseguira qualquer companhia fixa para as atividades boêmias às quais estava acostumado “em casa”. Digamos que a combinação casamento com mulher espetacularmente sexy, uma certa tendência a ser ríspido em demasia com os colegas de trabalho e uma forte propensão ao isolamento social não permitiam que ele criasse os vínculos normais para encher a cara regular e socialmente.

Findo o casamento e terminado o contrato de cinco anos de consultoria em Sampa, que poderia ser renovado num estalar de dedos, ele se deparou com o dilema da volta para casa ou ficar rico. Optou pela primeira já que tinha amealhado uma boa quantidade de numerário para viver, com alguma moderação, sem trabalhar o resto da vida. E poderia fazer um bico aqui e ali para completar alguma extravagância eventual. Afinal de contas, sempre se precisa de um advogado especializado em direito tributário. Principalmente um com sobrenome de ex-presidente e com trânsito no Banco Central.

Grande estava atolado com os projetos. Rio Cidade. Pan-Americano. Dois hotéis na Barra da Tijuca. Nenhum deles entrou. Tava tudo certo, orçamento direitinho, equipe afiada, pedigree de projetos anteriores, putas pagas para as pessoas certas. Nada poderia dar errado. Mas deu. Resumo da ópera? Tava já queimando as reservas e ainda era junho. Pior, sem perspectivas de entrar trabalho grande até outubro. Resolveu sentar na merda e ver o que faria. Não estava a fim de dispensar a galera, mas também não escondeu o jogo. Passava as tardes promovendo campeonatos de Counter Strike no escritório para tentar levantar a moral da turma e cometeu um ou outro excesso orçamentário ao bancar um curso de CAD para um funcionário. Afinal de contas a equipe era enxuta e boa. E sempre estavam ali nas roubadas.

De cabeça quente, resolveu vender o apê de quatro quartos na Atlântica, com vista para a Aires Saldanha. O famoso Sessenta e Nove do Grande. “Sessenta e Nove, Grande? Não entendi!” “Tu é Burro mesmo! É um meia-nove clássico, cara! A posição é excelente, mas a vista é um cú!”

Num papo com Gordo, este se interessou em alugar, não compar, o apê. O que seria bom para os dois. Gordo sempre gostara da proximidade do apê com a Help por motivos de conveniência sexual e Grande ia ficar tranqüilo que o morador iria manter a tradição de orgias pela madrugada que o Sessenta e Nove tinha.

Então foi assim. Gordo chegou no Galeão, pegou um tê-xis e largou as malas na sala do apê. Exatamente isso. Já tinha a cópia das chaves fazia uns dez anos. Aliás todos os três tinham as chaves do apartamento. E da portaria. E nas épocas áureas tinham até dos carros uns dos outros. Nunca se sabia quem poderia precisar de uma ajuda emergencial. Fosse pelo álcool consumido, das drogas experimentadas, das namoradas- casos- encrencas- pretês- que- resolviam- surtar- quando- pegavam- o- outro- pelado- com- umas- e- outras e etecetera.

Esperou Grande chegar com um uísque que tinha trazido num “adiantamento” da mudança. Se bem que, de mudança mesmo, tinha pouca coisa para trazer de Sampa. As roupas, os livros, os CDs viriam no caminhão. Os móveis, vendera por lá mesmo. Tapetes, cortinas, copos, talheres. Não precisaria de nada disso. Sabia que o apê estava mobiliado por três gerações de herdeiros de Copacabanenses típicos. Ricos, amorais e extremamente poseurs. Só grande fugia à expectativa da família. Rico? Sim, de fato, mas não aumentara a fortuna, ao contrário, gastara boa parte na empresa que estava em dificuldades. Imoral? Pós-moderno seria mais adequado. Poseur? É. Não tinha como negar o sangue da família de pleibóis.

Grande chegou acompanhado de Burro que entrou já vomitando bullshits. “…e o sistema novo é mais inteligente, evita aquele absurdo: quanto mais dados você joga, maior a sua chance de tirar um botch o que ferra o conceito dos dots. Pô, se o cara tem vinte dots num skill ele tem 3.456 vezes mais chances de tirar vários uns que o cara que rola apenas dois dados.” “Você inventou esse número, né?” “É claro!” “Mas entendi. E a história, o background? Fala Gordo! Nem me ligou, seu puto!” “Os dois viadinhos sempre juntos! Cueca gosta é de cueca, né?” “Não é bem assim, Ilmo.Sr.Dr.O.Gordo! Qual a boa? Puteiro? Termas? Cachaça?” “Vocês vão me chamar de veado, mas eu quero é encher os cornos hoje!” “Falou o ex-dono da casa. E você manda hoje!” “Simba para um boteco que abriu aqui perto, em Copa mesmo. E deve ter umas ‘meninas’ por lá.” “Caraca, Burro, não me admira que você viva fodido de grana. Gasta tudo numas putas de quinta.” “Gordo, o Burro assusta qualquer mulher que não saiba o cargo dele n’A Empresa.” “Executivozinho de merda, você, Burro. Aposto que não tá comendo nem estagiária.” “Vamos para a cachaça que o papo aqui tá brabo.”

Desceram os três para a rua e ganharam a noite.

Cinco e pouco da manhã, sol nascendo, foram até o quiosque em frente ao Meridien, no Leme, para tomar água de coco e tentar entender o que estava acontecendo. O mundo não parava de rodar, o Burro tava calado fazia duas horas. Gordo estava animado e falante. Grande estava otimista para com o futuro. Algo não fazia sentido.

Pararam para ver o Sol nascer. Cena patética. Três homens no fim dos trinta, sentados num banco de cimento do calçadão do Leme. Dois bebendo água de coco – Burro estava vomitando as tripas e tentando se hidratar com água mesmo – e todos com olhar idiota para o espetáculo que se anunciava.

Um tipo atravessou a faixa de areia e foi na direção do mar. Não deu para ver direito o rosto do distinto, mas parecia atrasado pelo jeito que corria. Tava de jeans, tênis e camiseta e não parou para tirar nada ao entrar na água. Com o Sol no horizonte, pouco viram e, nesse pouco, perderam o cara de vista.

Atrás deles, um casal discutia alguma coisa que tinha começado na noite anterior e envolvia, um café, uma promessa de se encontrarem e uma besteira que ele dissera sobre mudar as pessoas com quem se convive.

“Mas relacionar-se é mudança. É entender o outro e ceder onde se é necessário. Da mesma forma que o outro cede para que possam conviver, dividir o espaço das escovas de dentes, trocar o papel higiênico ou o lado da cama que vão dormir.” “Mas não é mudança. É aceitação do outro como ele é.” “Mas mudança não é negação. Quando um dos dois não aceita abrir mão de nada do relacionamento, tipo a pelada de quarta à noite ou o carteado com a rapaziada nos domingos à tarde, ele não está disposto a se relacionar.” “Mas existem limites para esse ceder, a esse mudar. Eu não cedo. Não mudo.” “Te provo que você está enganada.” “Não prova.” “Quando você decidiu me encontrar, disse-me que não iria me ter. Ou melhor, que não dormiríamos juntos.” “Verdade, mas não dormimos.” “E me disse que não amanheceria comigo. Tinha muito a fazer no dia seguinte.” “…” “Diga oi para o Sol, meu amor.”

A morena, que parecia ter uns vinte e três anos, olhou encabulada para ele – uns quarenta por baixo – e deu-lhe um beijo.

Grande olhou para os dois putos ao seu lado e viu que os laços entre eles eram mais fortes que qualquer ferormônio. Eram forjados no álcool, na sarjeta, na humilhação mútua, no sarcasmo e tudo mais que enobrece o ser humano. Tudo aquilo que dá sentido para o acordar no dia seguinte. E que um daria o braço direito pelo outro, se fosse necessário.

Grande levantou-se de sopetão e berrou, bêbado ainda.

“O braço sim! Mas o cú não, seus pederastas!”

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Dedo na garganta

October 8th, 2005 § 1

Caio Fernando Abreu, em carta ao amigo Zézim, em 22 de dezembro de 1979 (roubado do blog Pentimento)

“(…) Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Cadê o romance, quedê a novela, quedê a peça teatral? DANEM-SE, demônios. Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo, como diz um poeta gaúcho, Gabriel de Britto Velho, “apaga o cigarro no peito / diz pra ti o que não gostas de ouvir / diz tudo”. Isso é escrever. Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci / conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nos tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente. (…)”
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I´m waiting for the day

September 27th, 2005 § 1

- pós beach boys

Eram três amigos: o Grande, o Gordo e o Burro. Grande era chamado assim porque brincava com todos sobre sua estatura. Era pequeno, bem pequeno. Todo miúdo mesmo. “Eu gosto de armas grandes porque meu pau é curto!” Dizia, ao escolher uma Zweihandder como arma preferida do seu personagem de RPG da semana ou uma M249 no CounterStrike. Fazia isso de brincadeira, é claro. Daquelas brincadeiras que só três amigos entenderiam. A maior parte do papo deles era essa troca de sacanagens sadias que os entretetinham por horas e horas a fio na mesa de bar.

Gordo era o mais calado e o mais sacana dos três. Seus comentários lacônicos eram devastadores. Quase monossilábico, se expressava melhor bebendo, comendo ou rasgando fichas de personagens de RPG. Homofóbico, direitista e anti-estético, era a lady do trio. De certo chorava em propaganda de sabonete com crianças e era o mais empolgado quando saiu da primeira sessão que assitiu do “Sociedade dos Poetas Mortos”. Escondeu lágrimas e soluços no “A Lista de Schindler”. Gordo era assim.

Burro era o falastrão. De prima, diziam que era um gênio. Trabalhava desde os doze anos com programação. Sabia falar de todo e qualquer assunto que pintava em qualquer grupo social. Dizia que não discutia, sofismava. Não debatia, praticava a maiêutica. Enciclopédico, citava duzentos autores sem se repetir. Normalmente ele inventava as citações e os autores na hora. Estranhos se impressionavam com a verborragia e recolhiam as suas armas no embate verbal. “Cara, não sabia que você já tinha usado um mac em 82.” “O mac foi inventado em 84. Eu menti.”

Burro vivia apaixonado. Não aprendia. Mas sempre estava ali, na guerra. Não perdia uma saída com as amigas baranguetes para ver se sobrava uma rapa. Um beijinho na boca de uma menina caída de bêbada que fosse. Mas sempre apaixonado por sua musa, Vênus. Cabelos negros, pele bem branca, olhos negros. Boca vermelha. Fazia merda sobre merda por conta disso, enchia os cornos, pagava paixão em público, cometia poesias. Até pro teatro entrou!

Gordo era um platônico. Apaixonado pela primeira namorada, ainda quando era mais magro, nunca a esquecera. As outras mulheres podiam sentar no seu colo que ele não reagia. Não se sabia se era por medo, timidez ou por inabilidade. Não interessava. Os outros tinham já o seu veredito. “Veado!” Diziam da boca para fora mas sabiam que, no íntimo, Gordo ainda sangrava aquele amor mal-acabado. E nunca iria passar a dor.

Pequero era mais safo com as meninas. Só cantava as lindas, maravilhosas, perfeitas e inatingíveis. Portanto o seu fracasso era mais coroado de méritos, ainda sendo derrotado em cada batalha do bom combate. Juntava-se com Gordo para sacanear Burro nas tentativas de ficar com as mais desarrumadas, desconjuntadas e disformes, mas sabia que Burro tava certo. Ao menos nisso. E sonhava com uma paixão verdadeira, um grande amor.

Cada um foi pro seu canto, ainda que se vissem com regularidade. Gordo foi morar em São Paulo, Burro se formou em Ciência da Computação e Grande virou arquiteto e engenheiro civil. Regularmente viajavam para Sama para zoar Gordo e beber todo o álcool possível daquela cidade.

O tempo foi passando e as viagens começaram a rarear. Gordo casara. “Paulista é muito esquisito mesmo, né Grande?” “Pela primeira vez na vida, concordo contigo.” Cada um foi traçando rumo, trabalhando, estudando, namorando (!) e, eventualmente, saindo para beber.

Nas raras viagens de Gordo de Sampa pro Rio, eles davam um jeito de se encontrar em um boteco novo, previamente aprovado pela seleção de cervejas, petiscos e freqüência feminina, ou apelavam para o bom e velho Sindicato do Chope, na Farme de Amoedo.

“Putaquepariu, caralho. Vocês só vão em bar de veado!” “Porra, o chope lá é bom, e tem história.” “O chope de lá é uma merda, a serpentina tem menos de quinze metros, que é o mínimo aceitável para o líquido sair a quatro graus centígrados que dá tempo para chegar na mesa a dez. Temperatura perfeita para o consumo.” “Ah! Não fode, Burro!” “Burro tá certo. O chope de lá é ruim e só tem veado. Vamos no Bar do Beto.” “Baixo Gávea, então.” “Chope ruim.” “É chope ruim.” “Com gosto de ferrugem.”

Acabavam indo para o Hipódromo mesmo.

Já fazia uns bons ano e meio que não se encontravam. Muito trabalho e email trocado era só de putaria mesmo. RPG não rolava mais. Nem com Burro insistindo para jogar “a nova versão do World of Darkness” ou “no relançamento do do Dungeons and Dragons”. Burro criara um blog pros três, mas pouco postavam por conta de trabalho de cada um mesmo.

Numa tarde, Gordo liga pro Grande: “Tô chegando hoje. Avisa ao viado do Burro que estou na área.” “E a esposa?” “Ex-!” “É ex-posa? HAAHAHAH Tomou pé no cú, cara?” “…” “Er… bom. Te espero no aeroporto. Me liga quando chegar. Tô trabalhando do lado do Santos Dummont.”

Chegou. Foi pego e fez hora no escritório. Gordo tinha um semblante mais fechado, mais triste que de costume. Falou palavra desde que se alojou na frente de um computador que estava vazio. Grande ligou para Burro que confirmou a reserva no Devassa da Barra. “Mas tem de chegar antes das nove senão perdemos o lugar. A serpentina lá tem vinte e cinco metros e a cerveja stout…” “Tá! Tá! Sete e meia passo aí. Gordo se separou. Tá aqui, macambúzio e sorumbático.” “Pô. Não é melhor marcar na Centaurus?” “Porra Burro!” “Sei lá. Vai que ele quer levar seis pra cabine e ficar vendo as meninas correrem peladas dentro do quarto.” “Vamos beber antes. Depois vemos o que rola.”

Chegaram às oito e meia. Mesa boa, dava para ver todo o salão. “Desce três negras. Vocês vão ver! Parece uma Guiness: cermosa, consistente. Uma delícia! Garçom, não deixa o copo secar! Principalmente do meu amigo aqui, esse mais fortinho! Fala alguma coisa, Gordo! Olha lá aquela morena. Ela deve entender do traçado!” “Cala a boca Burro! Porra, não tá vendo que o cara tá maus. Fala Gordo. Como foi a história?” Os dois se calaram e olharam pro Gordo que não tirava a cara inexpressível de quem joga pôquer com a vida. Secou o primeiro chope numa virada. Abriu o menu. Apontou pro garçom uma cachaça. “Traz uma garrafa.” Garçom trouxe e Gordo começou o trabalho.

Fim de noite, Gordo bêbado, Burro bêbado e Grande puto da vida porque tinha de levar os dois para casa.

Eles saindo do Devassa, já quase entrando no carro, param para Gordo vomitar. Burro toma um ar e vê, dentro do bar, dois rostos conhecidos. “Caralho, Grande!” “Eu vi. Vambora.” “Não. É ela!” “Vambora. Isso não vai te fazer bem. Eu tenho um mau pressentimento.” “Tenho de ir lá! Gordo! É ela!” Gordo levanta-se, limpa a baba e recupera-se de pronto. “Luna!” “Putaquepariu. Isso vai dar merda! Pronto. Já deu.”

Grande ficou olhando Gordo e Burro cambalearem para dentro do bar e sentarem-se na mesa das duas. Luna e Vênus. As duas interromperam o beijo e, meio assustadas e meio divertidas olharam as figuras patéticas se acomodarem. Burro, tentando ser galante apesar do álcool e da história; Gordo, apenas mantendo o cenho cerrado, como se criasse uma barragem entre si e ela.

Grande ficou do lado de fora, procurando o telefone no amigo delegado, já prevendo alguma confusão com os seguranças. Espantado, viu as duas se levantarem rindo e os dois pedirem algo ao garçom. Elas saíram do bar e foram até ele. Vênus deu-lhe um beijo na boca. Luna sussurrou-lhe: “Quem teme, não goza.”

Ambas pegaram um taxi que se fundiu à noite.

Grande sentou-se à mesa e juntou-se às libações.

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Eu já fui moderno, e não sabia

February 17th, 2005 § 2

Dos meus 15 aos 18 anos eu usava cabelos compridos, caídos na cara, clone de Robert Smith ou algo assim; preto na roupa sem marcas, nomes ou dizeres; era barrado repetidamente no Crepúsculo de Cubatão e na Ilha dos Mortos, mas pogava no Caverna e no Circo Voador; programava em casa num TK85, depois num MSX e, no trabalho, num Cobra 350, depois num Medidata 2001; ouvia discos de bandas importadas esquisitas, compradas em sebos, como INXS, Cocteau Twins, Depeche Mode, Sisters of Mercy, Jesus & Mary Chain, Joy Division, e de umas bandas importadas conhecidas: The Cure, Siouxsie and The Banshees, New Order, Led Zeppelin, Scorpions, Sex Pistols, PIL e muitas outras mais.

Do Brasil muito e pouco. Basicamente rock e, convenhamos, tinha muita coisa ruim na época e, sinceramente, não dava a menor bola para isso. Perdia horas desenvolvendo teorias da evolução do estilo pop-teatro da Blitz nos três discos, da raiz hardcore dos Titãs no segundo disco — Massacre ainda é uma das músicas mais fortes do rock nacional — e gastava boa parte da minha semana limpando os vinis e ouvindo com deleite todas os meus discos, um a um, em ordem alfabética. Um método e disciplina que apliquei para muito pouco na minha vida inteira. Não havia o RPG ou — imagine! — o sexo.

Antes do visual gótico (dizia-se “dark” na época) eu era um proto-maurício. Camisas para dentro das calças, cintos, gravatas de croché, mocassins, camisas sociais (nunca camisetas) de manga comprida, calças semi-baggy ou de linho. Não adiantava. Nunca peguei alguém assim.

Bom, “navegando” nas rádios interessantes da época, Fluminense FM, MEC FM, JB FM e, a grande injustiçada de todas, a Estácio FM, eu corria atrás de programas que me mostrassem bandas novas, sons diferentes, algo que eu não escutasse todos os dias na rua ou na loja de discos na frente do meu prédio. E nessas rádios fui apresentado a Hojerizah, Picassos Falsos, Legião (pois é…), Finis Africae, Escola de Escândalo, Arte no Escuro, Nau, Violeta de Outono, Muzak, Ethiopia, e MUITOS outros mais.

Mas, eis que esperando a transmissão de um show do Ira!, eu escuto uma música, uma tal de Ladeira da Memória, do Grupo Rumo. E tudo fez sentido. Quiz-me paulista, adulto, bonito, in.

Cresci, odiei Sampa, quando lá estive e, se não fiquei bonito, parei de asssutar as crianças na rua. Então alguém me explique o porquê das lágrimas me virem à tona quando escuto essa canção?

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