Sobre Watchmen, o filme, e a violência do ser humano

April 7th, 2009 § 2

Hoje eu li um texto de um amigo que normalmente escreve umas boas piadas que me pegou na virada da esquina. Normalmente ele disserta sobre política, futebol e nerdices afins com uma verve de humor rara. Sarcasmo e ironia de primeiríssima qualidade saem daquelas páginas virtuais e tinta digital.

Mas o puto me manda um texto desconcertante. Uma narrativa inteligente, brincalhona, excepcional e única. O sinal definitivo que o cretino tem um talento inegável e se ele quiser – apenas se ele quiser – se tornará um dos maiores cronistas/contistas/escritores desse país.

É foda ver algo tão raro acontecer ali, na tua frente, na mesa do boteco. Sentir o cheiro da história acontecendo. É de uma violência incomensurável, como se fosse um tapa na cara que ecoasse por meses a vir.

Mas isso até agora não tem nada a ver com Watchmen, exceto o fato que esse mesmo calhorda não tinha lido os gibis até bem pouco tempo – e ele se dizia fã de HQs – mas foi ver o filme com afã de fã, de quem cresceu lendo Alan Moore e tendo sonhos lisérgicos a partir do mofo acumulado em páginas de quadrinhos da Editora Abril e um paralelo forçado que tento fazer.

Quando Watchmen foi anunciado, eu fiquei com os cabelos do pescoço (e até o rego, confesso) arrepiados de expectativa pela estréia. Era um dos meus ícones quadrinísticos migrando de mídia. Já tinha gostado de V de Vingança, mas o tom lírico-anarquista do gibi havia se perdido. Havia amado a versão do Homem de Ferro e gostado muito do novo Hulk (o último filme, o que se passa no Brasil) e achado que finalmente acertaram o tom nos dois Batmen.

Mas treino é treino e jogo é jogo, né? Watchmen e The Dark Knight Returns são quadrinhos-marco da arte seqüencial e, mesmo tendo outras obras que inovaram mais, tiveram melhores roteiros, melhores artes, venderam mais e etc., essas duas sintetizam tudo aquilo que os quadrinhos deixaram de ser nos anos 80 e passariam a ser nos anos seguintes (até voltarem a ser o que eram nos anos 70, mas isso é outro assunto, outro texto, outro blogue).

Quando um quadrinho (ou peça, ou romance, ou canção) migra de mídia e vira filme/série de televisão/desenho animado é esperado que haja concessões na história, no visual e no ritmo da coisa. No caso, comprimiu-se material suficiente para uma minissérie da HBO em quase três horas de filme e – na minha modesta opinião – tivemos um resultado espetacular.

Humor na hora certa (na mais ridícula possível), referências quadrinísticas mantidas e respeitadas, personagens reconhecíveis até na sombra e o grau de suspensão de realidade necessária para o tema. Mas isso não torna o filme genial ou brilhante. O Watchmen, the movie é apenas um puta filme de heróis que tentam salvar o mundo. As discussões, as viagens, os conflitos emocionais, as nuances suaves? Que fiquem no papel, onde funcionam bem melhor que na tela.

O paralelo? Ah! É quando uma pessoa sai da caixinha para fazer algo diferente corre seus riscos. Corre o risco de ser genial.

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laerte

October 3rd, 2007 § 0

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A direita tacanha

March 31st, 2007 § 0

Publicado por Pedro Doria | 31/03/07 00:01 | No Mínimo

Quando Carlos Lacerda começava a falar, todo mundo escutava. Ele às vezes era rábico, alguns sugeriam até que desequilibrado. Mas se Lacerda falava, escutava-se. Governador da Guanabara, sozinho, dentro do pátio, impôs ordem num presídio que se rebelava. O homem, durante anos, encarnou a direita tupinambá.

Teve uma boa gente, uma gente respeitável, esta direita. Roberto Campos, por exemplo. Sujeito astuto, inteligente, de idéias claras. Podia-se discordar de tudo o que dizia, mas lá estava Bob Fields com seu sorrisinho ligeiro de quem se julga superior. E, bem, eram poucos que conseguiam argumentar com ele. Na imprensa, havia Paulo Francis, culto até dizer chega, por vezes leviano, um homem sensível e, para os de coração fraco, insuportável.

A seu modo, não faz muito, a direita brasileira contava com homens brilhantes. É verdade que havia aqueles generais – mas, mesmo dentre eles, sempre se podia pinçar um Golbery, o ‘gênio da raça’ como genialmente sugeriu Glauber Rocha. (Pois é: seus filmes podem deixar a desejar, mas era um grande frasista; também a esquerda teve homens melhores.)

Sobrou o quê?

Uma das qualidades da boa direita brasileira era que, dentre outras coisas, era cética. Não é preciso muito para imaginar prazenteiramente a piada que Francis escreveria se alguém lhe perguntasse o signo. Ou se sugerisse compor seu mapa astral. Mas é uma das modas correntes na direita tupinambá. São, como pode, astrólogos.

E, como astrólogos, têm sérios problemas com a ciência. Se uma turma da esquerda gosta de fazer pseudo-discursos que parecem – e não se sustentam além da aparência – sofisticados que envolvam mecânica quântica, a nova direita olha Einstein com assombro. Acreditam na bomba atômica mas acham o Big Bang esquisito. Gostam de dizer que Darwin ‘é só teoria’. E alguns, às vezes parece, acreditam mesmo que a Evolução é dúvida. Se o assunto é aquecimento global, então, aí é festa. A nova direita tem certeza de que o aquecimento global é coisa de comunista.

(Como sente falta dos velhos inimigos, os comunistas, a nova direita.)

Direita anti-ciência sempre houve. Era aquela turma mais tacanha, preconceituosa e, em geral, muito católica. Faz tempo. Hoje eles não são mais a classe-média que marcha com Deus pela liberdade. Hoje são libertários.

Não que sigam à risca o credo libertário, o laissez-faire deles tem limite. Pois, veja bem: liberdade para todos? Claro. Mas casamento homossexual é um pouco demais. Liberdade? Evidentemente. Mas aborto, de jeito nenhum, a mulher não manda em seu corpo e a vida é inviolável. Inviolável? Em termos, compreenda-se, nalguns casos o Estado pode decidir matar quem aprontou.

Timidamente, lá consigo, a nova direita quer o Estado mínimo (não tem dúvidas a este respeito) mas se a Igreja puder dar um jeitinho nas leis, assim de leve, bem que ajudava na lida com estes sem vergonhas.

A direita velha tinha uma qualidade excepcional que o velho Nelson Rodrigues incorporava como ninguém: o sarcasmo. Esta é uma qualidade que a nova direita manteve. Aquilo que a velha direita tinha e a nova não tem é a habilidade de rir-se de si mesma. Paulo Francis não escrevia tanto por convicção; escrevia pelas reações que sabia que despertaria dos bobos que o levavam a sério. A nova direita é sarcástica mas convicta de suas razões.

A turma convicta de que está certa é sempre a mais chata. Gente que não muda de idéia raramente tem algo a dizer.

A nova direita é tão incrivelmente triste que, fora uma meia dúzia de seguidores que amealha, não consegue qualquer representação política. Verdade: os seguidores falam alto; continuam poucos. E, cá entre nós, é só olhar em volta: a esquerda no poder é tão ruim que não deveria ser difícil desbancá-la em dois tempos. O povo brasileiro é conservador. Pintasse um novo Lacerda, seguiam rapidinho.

Mas Lacerda não há mais.

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Linda garota de Berlim

January 28th, 2007 § 6

publicado na Tribuna da Imprensa

“Que cara é essa, lindinho?” “Cara de cu. Sério, não tô bom para papo-chamego hoje não, Vivien.” “Ih… O que aconteceu agora? Acordou de ovo virado de novo?” “Antes fosse.” “Com essa cara, já sei que é coisa de mulher. Tem alguma sirigaita te enchendo. Alguma lurker nova deixando recados escrotos no teu blogue?” “Nada disso.” “Então está assediado por uma legião de bacantes enlouquecidas no cio que querem copular ensandecidamente até você cair morto?” “Não. Antes fosse.” “Qual foi, Bruno, se abre aí.”

Bruno se recostou na cadeira dura do boteco. Levou o chope quente à boca e sentiu voltar tudo . Não apenas o almoço errado de hoje cedo – ovos coloridos, lingüiça na cachaça e azeite, sanduba de carne assada – voltavam as recordações das noites passadas e uma inquietude que ele achava que tinha enterrado fazia uma década.

Olhou pra Vivien novamente. Ela estava sempre disposta a dar um chamego e chamá-lo para a terra quando ele teimava em surtar com o trabalho, a casa, os amigos e os amores. Era o seu porto seguro desde que se entendia como homem feito, dono de seu nariz. Só que agora uma vergonha impedia de contar tudo assim, de prima. Tinha de fazer um preâmbulo que não era de seu feitio.

Virou o resto do copo. Curvou-se com o estômago em fogo. Era o corpo pedindo o sossego que a alma de Bruno não dava.

Tudo começou numa quinta-feira. Um email de fotos da filha recém-nascida de uma amiga de colégio e várias pessoas respondendo, parabenizando-a. Carlinha estava na lista e ele não conseguiu deixar de notar. Reuniu toda a sua força de vontade e segurou longamente – sete minutos – a vontade de mandar um email. Já tinha se arrependido ao apertar o “enviar”.

Carlinha era a sua primeira paixão. A primeira namoradinha. Só que, nessa estranha relação, só ele namorava Carlinha. Ela o ignorava. Ou assim ele pensava.

Tá certo que eles iam sempre juntos para a escola. Que ela ia sempre à sua casa aos sábados para ouvir um disco novo que ele tinha comprado. Ou para estudarem matemática, ou geografia. Ou para comer bolo de chocolate quente com um copo de Nescau gelado. Ou para ficar de papo pro ar vendo tevê.

Normal que ele se apaixonasse por ela. Os hormônios, a proximidade e tal. Normalíssimo.

O problema é que ela andava mais na linha que bonde de Santa Teresa. Só ia namorar depois dos quinze anos, se namorasse alguém antes de entrar na faculdade. E era um tal de “para com isso” dali, e “tira a mão daí” de lá, um “deixa de ser bobo” daqui, ou um”assim não ando mais com você” de cá . O fato é que, por mais que ele tentasse se aventurar um pouco além, havia um medo de perder o pouco que já tinha.

Ele se contentava com bem pouco. Bastava ver aquele par de olhos azuis – sempre olhos claros – naquela moldura de cabelos loiros entrar na sua casa sem mesmo se anunciar.

Daí ele arrumou uma namoradinha adolescente e Carlinha deixou de fazer parte do seu dia-a-dia.

O tempo passou, ele tomou pau – duas vezes – na escola, trocou de turmas, voltaram a se ver quando tinham trinta e muitos anos. Ela deixou escapar que achava que o tinha namorado na escola. Bruno ficou de cara na mesma hora. O sonho dele era ter namorado Carlinha. Aquele namorico de adolescente onde as coisas eram todas implícitas, mas nunca executadas. Onde o sarro era o ápice sexual da relação. O soutien um alvo inatingível pelas mãos afoitas e famintas de gozo. Pensou melhor e, de repente, na cabeça de Carlinha talvez eles tivessem namorado mesmo. Talvez aquilo fosse o mais próximo de um namoro que ela jamais poderia se permitir aos doze anos.

Então ele viu o email de Carlinha e resolveu puxar assunto. Ela se confessou apaixonada por ele à época do colégio. Que a maior – ou a primeira – decepção amorosa dela fora ele ter começado a namorar a Dani.

Para Bruno aquilo fora um choque.

De certa forma sentia que aí era a principal raiz do seu maldito platonismo. Não arriscar o pouco que tinha em prol de algo que realmente queria. Entendeu que ficar na zona de conforto lhe custava caro, no fim das contas. Caiu a ficha de que ele era, de fato, um miserável emocional. Um muquirana afetivo. Um Tio Patinhas da paixão. De certa forma, fez bem pra seu Ego. Afinal de contas, nunca insistira no assunto porque sabia-se feio, nerd, pobre. Não via em si atrativo algum, apenas que estava do lado errado do espelho.

Vinte e muitos anos mais tarde, já sabia se relacionar com o próximo de uma maneira mais “real”. Ou quase isso. Dependia de mensageiros instantâneos, emails, blogues, flogues, para despertar o interesse no próximo. Olhava-se diariamente no espelho e via apenas um patético arremedo de ser humano. Nunca aprendeu a se amar. Obviamente era também um fracasso em amar o próximo. Quase que chegava às vias da misoginia. Ainda assim apostava nas estatísticas. Havia mais mulheres disponíveis que homens no Rio de Janeiro e algo acabava sobrando para si.

“Você é um bobo. É um homem interessante e sabe disso.” “Só você acha isso, Vivien. Quem eu quero não me quer. E quem me quer, me cansa.” “Maldita Vênus em Peixes.” “Maldito Marte em Capricórnio na doze e com quadratura com Sol e Lua que empata as minhas fodas inexistentes.” “Ha ha ha ha! Só você mesmo para fazer piada com o próprio mapa astral. Se eu tivesse uma combinação dessas, me matava.” “Por isso que eu aposto na Megassena.” “Como assim?” “Se eu ganhar a bolada principal, acerto a vida dos meus familiares e dos amigos mais queridos. Daí pego o que sobrar, me mudo para um puteiro e vivo uma versão pornô de ‘Leaving Las Vegas’” “Bobo. Mas conte mais. Você descobriu que ela era apaixonada por ti e…” “E nada. Ela tá casada – com um ariano! – e está feliz da vida lá. Eu é que não vou entrar numa história de mulher casada. É espeto!” “É batata!”

Ambos riram do sarcasmo que ele conseguia destilar nessas horas. Afora do drama – Bruno era uma verdadeira Drama Queen – ela sabia que ele era centrado o suficiente para não surtar com os desencontros e desamores. Já estava calejado. O problema é que ele não conseguia moderar a casca dura com a abertura para arejar os sentimentos. E tome chope quente em frente ao Tio Sam.

Na sexta, Bruno fui a uma festa. Show de rock numa casinha nova, uma alternativa à Lapa e ao circuito da Matriz. Uma banda instrumental só com baixo e bateria chamou a sua atenção. E a morena de olhos verdes que acompanhava as suas amigas também.

Já tinha sido advertido que ela era linda, simpática, inteligente, esperta e agradável. Só não tinham advertido ao rapaz que ela era apaixonante. E lá foi o babaca ficar de calças arriadas, fingindo ser blasé. Tipo menino que fez merda e disfarça demais.

“E daí, Bruno?” “Daí que me peguei fantasiando. Coisa que não fazia desde…” “Desde semana passada, né?” “É. Maior merda. Tentei abstrair. Tentei me embriagar, mas faltou uma projeção orçamentária para isso.” “Mas você tentou algo, ao menos?” “Obviamente não. Ela era linda, Vivien, e eu velho, pobre, feio, meio burro, desajeitado e barrigudo.” “E então…” “Bom, como dizia um amigo meu: ‘se você não faz, tem alguém que fará por ti.’”

E eles ficaram ali, no boteco, pensando na vida e na morte da bezerra. Que tinha olhos verdes, claro.

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As funções da sarjeta

October 20th, 2005 § 1

Já tinha quase dois meses que os três amigos não se encontravam. Gordo estava atolado de trabalho e problemas até o pescoço. Mudança para o apart-hotel. Procurando um novo para alugar. Dividido entre a mudança para o Rio e largar definitivamente os projetos que conduziu ou continuar em Sampa e ficar longe da família e dos amigos. Principalmente dos amigos. Desde que fora para lá, não conseguira qualquer companhia fixa para as atividades boêmias às quais estava acostumado “em casa”. Digamos que a combinação casamento com mulher espetacularmente sexy, uma certa tendência a ser ríspido em demasia com os colegas de trabalho e uma forte propensão ao isolamento social não permitiam que ele criasse os vínculos normais para encher a cara regular e socialmente.

Findo o casamento e terminado o contrato de cinco anos de consultoria em Sampa, que poderia ser renovado num estalar de dedos, ele se deparou com o dilema da volta para casa ou ficar rico. Optou pela primeira já que tinha amealhado uma boa quantidade de numerário para viver, com alguma moderação, sem trabalhar o resto da vida. E poderia fazer um bico aqui e ali para completar alguma extravagância eventual. Afinal de contas, sempre se precisa de um advogado especializado em direito tributário. Principalmente um com sobrenome de ex-presidente e com trânsito no Banco Central.

Grande estava atolado com os projetos. Rio Cidade. Pan-Americano. Dois hotéis na Barra da Tijuca. Nenhum deles entrou. Tava tudo certo, orçamento direitinho, equipe afiada, pedigree de projetos anteriores, putas pagas para as pessoas certas. Nada poderia dar errado. Mas deu. Resumo da ópera? Tava já queimando as reservas e ainda era junho. Pior, sem perspectivas de entrar trabalho grande até outubro. Resolveu sentar na merda e ver o que faria. Não estava a fim de dispensar a galera, mas também não escondeu o jogo. Passava as tardes promovendo campeonatos de Counter Strike no escritório para tentar levantar a moral da turma e cometeu um ou outro excesso orçamentário ao bancar um curso de CAD para um funcionário. Afinal de contas a equipe era enxuta e boa. E sempre estavam ali nas roubadas.

De cabeça quente, resolveu vender o apê de quatro quartos na Atlântica, com vista para a Aires Saldanha. O famoso Sessenta e Nove do Grande. “Sessenta e Nove, Grande? Não entendi!” “Tu é Burro mesmo! É um meia-nove clássico, cara! A posição é excelente, mas a vista é um cú!”

Num papo com Gordo, este se interessou em alugar, não compar, o apê. O que seria bom para os dois. Gordo sempre gostara da proximidade do apê com a Help por motivos de conveniência sexual e Grande ia ficar tranqüilo que o morador iria manter a tradição de orgias pela madrugada que o Sessenta e Nove tinha.

Então foi assim. Gordo chegou no Galeão, pegou um tê-xis e largou as malas na sala do apê. Exatamente isso. Já tinha a cópia das chaves fazia uns dez anos. Aliás todos os três tinham as chaves do apartamento. E da portaria. E nas épocas áureas tinham até dos carros uns dos outros. Nunca se sabia quem poderia precisar de uma ajuda emergencial. Fosse pelo álcool consumido, das drogas experimentadas, das namoradas- casos- encrencas- pretês- que- resolviam- surtar- quando- pegavam- o- outro- pelado- com- umas- e- outras e etecetera.

Esperou Grande chegar com um uísque que tinha trazido num “adiantamento” da mudança. Se bem que, de mudança mesmo, tinha pouca coisa para trazer de Sampa. As roupas, os livros, os CDs viriam no caminhão. Os móveis, vendera por lá mesmo. Tapetes, cortinas, copos, talheres. Não precisaria de nada disso. Sabia que o apê estava mobiliado por três gerações de herdeiros de Copacabanenses típicos. Ricos, amorais e extremamente poseurs. Só grande fugia à expectativa da família. Rico? Sim, de fato, mas não aumentara a fortuna, ao contrário, gastara boa parte na empresa que estava em dificuldades. Imoral? Pós-moderno seria mais adequado. Poseur? É. Não tinha como negar o sangue da família de pleibóis.

Grande chegou acompanhado de Burro que entrou já vomitando bullshits. “…e o sistema novo é mais inteligente, evita aquele absurdo: quanto mais dados você joga, maior a sua chance de tirar um botch o que ferra o conceito dos dots. Pô, se o cara tem vinte dots num skill ele tem 3.456 vezes mais chances de tirar vários uns que o cara que rola apenas dois dados.” “Você inventou esse número, né?” “É claro!” “Mas entendi. E a história, o background? Fala Gordo! Nem me ligou, seu puto!” “Os dois viadinhos sempre juntos! Cueca gosta é de cueca, né?” “Não é bem assim, Ilmo.Sr.Dr.O.Gordo! Qual a boa? Puteiro? Termas? Cachaça?” “Vocês vão me chamar de veado, mas eu quero é encher os cornos hoje!” “Falou o ex-dono da casa. E você manda hoje!” “Simba para um boteco que abriu aqui perto, em Copa mesmo. E deve ter umas ‘meninas’ por lá.” “Caraca, Burro, não me admira que você viva fodido de grana. Gasta tudo numas putas de quinta.” “Gordo, o Burro assusta qualquer mulher que não saiba o cargo dele n’A Empresa.” “Executivozinho de merda, você, Burro. Aposto que não tá comendo nem estagiária.” “Vamos para a cachaça que o papo aqui tá brabo.”

Desceram os três para a rua e ganharam a noite.

Cinco e pouco da manhã, sol nascendo, foram até o quiosque em frente ao Meridien, no Leme, para tomar água de coco e tentar entender o que estava acontecendo. O mundo não parava de rodar, o Burro tava calado fazia duas horas. Gordo estava animado e falante. Grande estava otimista para com o futuro. Algo não fazia sentido.

Pararam para ver o Sol nascer. Cena patética. Três homens no fim dos trinta, sentados num banco de cimento do calçadão do Leme. Dois bebendo água de coco – Burro estava vomitando as tripas e tentando se hidratar com água mesmo – e todos com olhar idiota para o espetáculo que se anunciava.

Um tipo atravessou a faixa de areia e foi na direção do mar. Não deu para ver direito o rosto do distinto, mas parecia atrasado pelo jeito que corria. Tava de jeans, tênis e camiseta e não parou para tirar nada ao entrar na água. Com o Sol no horizonte, pouco viram e, nesse pouco, perderam o cara de vista.

Atrás deles, um casal discutia alguma coisa que tinha começado na noite anterior e envolvia, um café, uma promessa de se encontrarem e uma besteira que ele dissera sobre mudar as pessoas com quem se convive.

“Mas relacionar-se é mudança. É entender o outro e ceder onde se é necessário. Da mesma forma que o outro cede para que possam conviver, dividir o espaço das escovas de dentes, trocar o papel higiênico ou o lado da cama que vão dormir.” “Mas não é mudança. É aceitação do outro como ele é.” “Mas mudança não é negação. Quando um dos dois não aceita abrir mão de nada do relacionamento, tipo a pelada de quarta à noite ou o carteado com a rapaziada nos domingos à tarde, ele não está disposto a se relacionar.” “Mas existem limites para esse ceder, a esse mudar. Eu não cedo. Não mudo.” “Te provo que você está enganada.” “Não prova.” “Quando você decidiu me encontrar, disse-me que não iria me ter. Ou melhor, que não dormiríamos juntos.” “Verdade, mas não dormimos.” “E me disse que não amanheceria comigo. Tinha muito a fazer no dia seguinte.” “…” “Diga oi para o Sol, meu amor.”

A morena, que parecia ter uns vinte e três anos, olhou encabulada para ele – uns quarenta por baixo – e deu-lhe um beijo.

Grande olhou para os dois putos ao seu lado e viu que os laços entre eles eram mais fortes que qualquer ferormônio. Eram forjados no álcool, na sarjeta, na humilhação mútua, no sarcasmo e tudo mais que enobrece o ser humano. Tudo aquilo que dá sentido para o acordar no dia seguinte. E que um daria o braço direito pelo outro, se fosse necessário.

Grande levantou-se de sopetão e berrou, bêbado ainda.

“O braço sim! Mas o cú não, seus pederastas!”

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The Ghost of You

September 26th, 2005 § 0

- pós The Tears

“Quando eu digo que Manhattan é o meu filme, ou melhor, o filme da minha vida, as pessoas não entendem de prima. Mas quando explico que o filme trata de escolhas erradas, de atitudes exageradas sem sentido, de bad timing genético, aí que elas discordam mesmo de vez. O problema é que elas não vestem a minha pele. Não usam os meus óculos. E eu só aprendo quando olho para trás. Mas isso não evita que eu bata novamente com a cabeça no poste, quando ando pela rua da vida.”

Ouvia quieto o artista ler o seu ensaio em voz alta. Estava entre enebriado e intimidado por ficar entre tantas pessoas desconhecidas e se segurava na sua máquina fotográfica como se fosse uma muleta, um escudo. Enquanto fotografava não precisava se apresentar ou justificar porque estava olhando atento a um casal ou a um grupo menor no canto. Tinha a desculpa do olhar do fotógrafo, daquele que tenta ver além do que é mostrado, de quem procura o detalhe. No caso, ele apenas procurava um canto para se esconder e se deliciar com o espetáculo das emoções humanas.

Por vezes cumprimentava um ou outra que o reconhecia do seu site, de uma foto que tinha postado ou de um outro encontro de internautas. Era conhecido por ser esperto e comunicativo, mas hoje estava mais taciturno que nunca. Nunca tinha estado naquele sebo apertado e lotado de gente.

O artista terminara sua leitura e outro tomara o seu lugar. Era uma menina. Não. Uma mulher. Linda, linda. Alta, reluzente. Os olhos brilhavam com fúria e tesão. Ele se ajoelhou para achar um ângulo melhor. Bateu seis fotos default e descansou a câmera no colo. No fim do texto, mal continha os soluços. Não poderia ficar muito tempo no mesmo lugar que ela. Não com tanta gente em volta.

Saiu desastrado no fim do evento sem se despedir dos conhecidos. Só foi guardar a câmera ao chegar na Siqueira Campos, três quadras depois do burburinho da loja. Subiu a rua ainda tonto, embriagado com as próprias emoções. Passou em frente do Bar Pérola e resolveu se encostar lá mesmo. Não trabalhararia no dia seguinte então poderia encher a cara com tranqïlidade.

Lá pelo décimo chope, viu que um tipo diferente de gente estava entrando bar adentro. Demorou um pouco para se encontrar no meio da embriaguez mas reconheceu parte do público que estava no evento literário. “Fala fotógrafo!” disse um mais animado “Pronto. Perdi o meu nome.” Pensou.

E no meio deles, lá estava ela.

“Olá.” Tremeu dos pés à cabeça. Precisava mijar. Agora! “Já volto.” Foi se aliviar no banheiro e voltou para o seu ponto de partida mais enxuto. “Olá.” Disse apressado, enxugando as mãos na calça. “Eu gosto muito das suas fotos, sabia?” “Você disse isso da outra vez.” “Mas não canso de repetir.” “O que você quer de mim?” “Nada.” “É o que eu temia.” Disfarçou um sorriso amarelo. “Você é bobo. E eu gosto disso.” “Não sou bobo. Sou mordaz e cínico. Às vezes até mau. Mas você me desmonta, sabe disso.” “Sei. E eu gosto de te desmontar.” “Mas acho que não quero mais passar por isso. Já passei boa parte de minha vida orbitando em estrelas maiores que ti e me recuso a ficar apagado na tua presença.” Ela olhou com um quê de doçura e um outro tanto de sarcasmo. Chegou bem perto. Sussurrou no seu ouvido. “Querido. Isto é impossível. Meu brilho é maior que o seu.” Afastou-se com um sorriso aberto, como se fosse uma criança brincando de dar foras decorados numa outra.

Desequilibrou-se de dentro para fora. Pagou a conta e arrastou-se para o seu apartamento. Perdeu-se no caminho entre a Siqueira e a Bolívar. Perdeu-se em cada boteco fedido que encontrava no caminho.

Amanheceu em casa, sem entender direito o que acontecia. A cabeça doía como um parto e ele xingava cada gota de álcool ingerida.

Foi até a sala e deparou-se com ela saindo do banheiro enrolada numa toalha. “O que você está fazendo?” “Me enxugando.” Não entendeu. “Você não se lembra? Voltou ao Pérola. Declamou poesias. Cantou Chico e Belchior, me carregou no colo e me amou o resto da noite. Meia-bomba, a bem da verdade, mas dou um desconto. Nunca vi homem ficar bem com tanto álcool no sangue.” “Não lembro mesmo.” “Como assim? Você é o guardião da memória, não é? É aquele que é senhor do raciocínio e do pensamento.” “É o que eu dizia na escola, e só você dava bola para isso. Hoje me esqueço das coisas e quero esquecer o mundo.” “Você tem a alma do artista, a habilidade do…” “Pára! Você sabe o quão mal isso me faz. Não precisava te encontrar. Não hoje. Larguei tudo para trás quando nós nos encontramos. Deixei estabilidade e vida morna e previsível para cair nos braços de Luna. Enlouqueci porque tinha de provar o lado de Hecate, tinha de passar por tudo isso e magoei quem eu não queria e quem eu não podia. No fim das contas, o único que se fodeu fui eu mesmo. E, quando mais precisava do teu lastro, mais precisava do teu porto seguro, você me negou. Agora vem você me tentar novamente? Vai para a sua terra. Me deixa.”

“Seu desejo é uma ordem.” Disse ela vestindo a saia. Compôs-se com habilidade e destreza de quem estava acostumada a devorar gente como se fosse um McLixo qualquer.

“Não. Péra.” “Querido, você já é passado. Só queria ter um gosto da tua memória. E, sinceramente, preferia ter esquecido.” Saiu pela porta elegantemente.

Sentou-se no sofá e não encontrou o pranto necessário. A cabeça doía demais.

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