December 22nd, 2009 §
Saudades de tu, minha querida.
Já faz um bom tempo que não nos falamos, não nos escrevemos, não nos perturbamos mutuamente com as questões mundanas e eternamente irresolvíveis. O Bardo Inglês se desdobrou em pena, tinta e pergaminho (ele usava pergaminho ou papel?) e falou eternamente sobre os mesmos assuntos que conversamos hoje em dia. Mesmos assuntos, personagens diferentes, quinhentos anos de intervalo, mesma merda.
Pois é.
Hoje em dia não é diferente. Coloco aqui as binárias formiguinhas escreventes para mandar mensagens nesse mar de estática que se tornou o coletivo de blogues, jornais e fanzines digitais. Nem rascunhar com destino certo essa joça serve mais, mas tudo bem. O outro lá, na corte da Elizabeth, a Tudor, tinha um público certo e definido, mas não sabia que estava fazendo algo que iria ser a síntese da psique moderna. De certa forma, mirou na num trono e seus baba-ovos e acertou na humanidade inteira. Fez bem, o diacho.
Eu tenho tido dias de intermezzo, saca? Como aquela musiquinha entre os intervalos entre os atos de uma peça – ou na troca dos rolos de filmes antigos, na França. Eles vêm como quem não quer nada porque já sabem que a história grande foi contada antes e não contarão coisa alguma agora, porque o devir é mais interessante e tá guardado para mim. Assim é a sensação: de que algo que era esperado, sonhado, está arrumadinho ali, no fim da década, para se fazer presente.
Engraçado como um sinal pequeno pode ocasionar um efeito grande. Não vou fazer apologia ao “efeito borboleta” mas um email enviado, uma festa, um olhar, podem mudar a vida em cento e oitenta graus e anunciar um novo mundo, um novo futuro.
Daqui, do alto das minhas quatro décadas incompletas, me empolgo com o porvir, mesmo sabendo que não sobreviverei ao que se anuncia.
Antecipadamente apaixonado pelo futuro, me despeço, querida moça.
Amo-te.
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September 13th, 2009 §
De manhã o senhorzinho cumprimentava o sol já com o café na mesa e o pão sevido. Gostava de acordar antes do dia começar e estar pronto para a vida que se anunciava. Fez disso um costume desde quando tirou férias forçadas. Aposentado, ocupava um lugar que poderia ser preenchido por alguém menos experiente, mas mais barato e produtivo. Aceitou de bom grado o destino contemplativo que lhe arranjavam e, como precisava de bem pouco para viver, o dinheiro miúdo da aposentadoria lhe sobrava.
Não tinha parentes próximos ou proximidade com o que restou da família. Uma filha morava longe, um irmão sem falar há cinquenta anos, um primo intragável a duas horas de ônibus na mesma cidade era a única referência que tinha dos outros. Gostava da vida quieta que levava.
Tinha saudades do tempo em que se deitava com mulheres. Lembrava de algumas, de ex-esposas, de ex-amantes, de paixões passadas. A maioria morta ou não queria saber se ele estava vivo. Com motivos justos, aliás. Nunca fora uma pessoa que deixava os outros chegarem perto de si. Não a ponto de poder chorar no colo de uma ou de achar que sua história juntos duraria para todo o sempre.
Havia amigos. Poucos. Raros. Bons. Uns passavam de tempo em tempo em sua casa. Outros ligavam ou mandavam cartas. Não das antigas, de papel. Mas dessas novas aí. Ainda assim, cartas.
O que restava era a espera do amanhã, as lembranças do passado, a rotina prazeiroza que desenhara para si e os seus livros. Enquanto houvesse um livro para ler, ele saberia que não iria embora.
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March 25th, 2009 §
Sou um possuidor de um coração vagabundo. Desses desclassificados mesmo. Nunca tive medo de me atirar ao chão e pedir carinho, fingir de morto, virar a barriga para cima, olhar com orelhas caídas e olhos grandes para quem queria/fingia me dar afeto. Certa feita, menina me subornou com um beijo se fizesse eu uma cena em plena Praça Saens Peña. Não fiz a cena por vergonha – esse sentimento estúpido e inútil, especialmente a vergonha alheia – e fiquei sem. Acho que ali tracei uma linha no chão e me recusei a cruzar.
Obviamente, com a idade, as vergonhas tendem a deixar de travar a mão. Mas essas trocam de nome e passam a se chamar de “conveniência”. Pois, como se diz no mundo da moda, tudo pode, mas nem tudo convém.
Estava no chope, conversando com amigos e conhecidos (mais desses que daqueles) e, ao voltar para casa, lembrei de pessoas com quem eu queria dividir a noite, seja no papo moleque, na conversa de várzea, no papo-furado arte, ou no aconchego de lençóis da minha cama king size. Tudo armadilha da necessidade de autopsiar a minha própria melancolia. Resultado: muito chope e uma enxaqueca pela manhã.
Passam-se os dias, as inspirações para escrever, as tarefas burocráticas d’A firma, as oportunidades de ficar milionário, os 2,4km que caminho de volta para casa quase que diariamente e eu, preso em uma nostalgia das coisas que deixei de fazer.
Nem São Paulo, com seus céus azuis e seus poentes impossíveis me comovem mais.
Aí, a amiga Mariana Blanc posta no seu perfil do Orkut: “Do que são feitas as estrelas? saudade.” Se for verdade, minha estrela brilha forte, cada vez mais forte.
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February 26th, 2009 §
August 26th, 2008 §
As ruas me estranharam como se o meu olhar lhes fosse estranho. Era como se o roçar de ambos não fosse mais uma rotina, mas um acaso, como se eu fosse um alienígena na minha própria casa. An Englishmen in New York cantaria o chato do Sting (objeto de amor platônico de dezenas de gordas mal-amadas em São Paulo) e nunca estaria tão certo, nesses vinte anos desde que gravou o álbum Nothing Like the Sun, quanto agora, no encontro do meu dia com a memória dessa música.
E há o sono, o sono e o sono. Há a vontade de chuva caindo. Há as saudades do cheiro do orvalho, do ar carregado de tempestades e da maresia. Saudades da chuva que cai do teu corpo e do rolar na cama sem desespero e sem pressa do horário do ônibus partir. Há o cansaço das doze horas dormidas no frio e das poucas horas dormidas na concha e há o sonho de tudo se acertar no fim das coisas.
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August 18th, 2008 §
Pois bem.
Você me diz que meu cheiro está na tua cama e eu te digo que o teu corpo me amassa e me deixa impressões que não quero que passem. Você me diz que gosta do meu perfume, que te dá fome e desenho e eu te digo que desejo não se dá, encontra-se e que fome você sempre teve, só tinha medo de abrir os olhos e descobrir-se faminta. Você me diz que não tem mais medo que o sentimento te inunde e te alague, e eu te digo:
“Te alague.”
saudades
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April 22nd, 2008 §
publicado na Tribuna da Imprensa
A moça acordava com o Sol e não se prolongava na cama. Quase nunca, a bem dizer. A cama ficava chamando-a de volta para si, para que a moça não deixasse os lençóis sem viço e vida. Sem a moça, seriam panos sem desejo a serem dobrados, lavados, esticados, secados e guardados depois de passados. E não tem festa ou encanto dentro dos guarda-roupas ou dos baús. A moça trazia festa e diversão quando estava entre os panos e os lençóis tinham a moça no seu embolar e a moça se embolava entre os lençóis.
Enquanto isso, a madrugada, por sua vez, se lançava preguiçosa enquanto a moça não levantava depois de tanta festa e baile. Se esticava e convidava toda a gente para o samba e a seresta e o baile de domingo que só acaba quando o Sol nasce. E dizia-se que, o Sol é quem acordava quando ela abria os olhos, já que a moça era o alvorecer de muita gente. E a moça dormia para a madrugada se esticar ou assim fingia para que o samba, a seresta e o bailinho se durassem até o dia seguinte.
Depois de acordar, a moça se arrumava com vaidade. Calcinha branca de algodão, soutien branco a combinar, vestido rodado solto – podia ser liso, estampado ou não – e uma rasteirinha para andar na rua. Óculos de grau e escova nos cabelos negros como a asa da graúna. Pentear e escovar trinta e seis vezes todos os dias. Escovava os dentes e dizia tchau para o quarto que lançava o olhar de saudades e de querência. Poucos entendem o querer que se vai porta afora sem dar sinal de voltar.
Saindo de casa, a moça ia pelas ruas, encantando as vistas de quem não se dava o desfrute de se ocupar mesmo com o sol a pino. E até os homens de ofício flanavam uns momentos de sua ocupação para ver a moça passar. Pra passar essa moça que, de tão moça, remoçava quem com ela sonhava, fazia festa no quarto e não dormia, pois havia muita festa a ser feita nas noites adentro.
A moça que caminha, apenas por caminhar, olha distraída a felicidade que causa e nem se dá conta que os sorrisos que faz brotar, nascem no olho do outro e morrem entre suas pernas, que insistem em equilibrar as saias que rodavam, impossíveis na cabeça dessa tanta gente.
A moça chega no trabalho e deixa de ser moça: é mulher de negócios, é secretária executiva, é gerente de projetos e de produtos, é lady do marketing, é a dominatrix das contas publicitárias, é a professora doutoranda de alguma ciência importante, é a senhora dos textos dos jornais e revistas e websites e é a dona da banca. Ela manda, os outros obedecem ora por medo, ora por gozo de ouvir sua voz impotente e imperativa.
Depois do trabalho, a senhora volta a ser moça. Encontra os amigos e os amantes e os ex-tudo que talvez sejam ex-futuros novamente e escolhe um deles para lhe acompanhar nos bailes ou mesmo chama a todos para se largar no Democráticos e ver até onde vai a festa, o baile e a noite. Afinal, quem sabe quantas horas cabem numa noite?
E eis que chega uma hora que a moça quer deitar e levar a festa para onde se deita e os rapazes e as moças se eriçam todos esperando um olhar sapeca da moça da saia rodada e das rasteiras e da calcinha de algodão.
E a moça sai só carregando consigo o desejo de todos dentro do bolso só para o seu desfrutar.
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January 22nd, 2008 §
publicado da Tribuna da Imprensa
Costumo acordar relativamente cedo às segundas-feiras.
É algo já bem enraizado na minha personalidade que não consigo apagar, mesmo com o hábito de nerdar até tarde com joguinhos de computador ou em mensageiros instantâneos que me mantém em contato com os amigos e, principalmente, as amigas daqui e do Rio. Não sei quando esse mau hábito nasceu, mas acho que tem algo a ver com o meu desinteresse pelo Fantástico e o fato de eu ter de acordar às 5h da matina para ir ao colégio ainda no milênio passado.
Além desse hábito desagradável, tenho a estranha mania masoquista de insistir em sentir saudades das pessoas que passaram na minha vida. Pior. Tenho saudades de quem sequer se lembrará de mim na próxima ida ao cinema ou tomar um chope num quiosque no calçadão de Copacabana. Mas não os culpo. Como bom ariano, o meu gostar é egoísta: eu não espero que elas gostem – ou se lembrem – de mim, faço-o por minha conta e pronto! Nunca tive essa coisa de esperar retribuição de carinho, querer ou amar. Eu careço, quero e amo incondicionalmente. Nunca aprendi a agir diferente e não vai ser agora, na virada do cabo da boa esperança, que eu vou mudar o meu jeitão esquisitão de ser.
Estou com outra mania detestável. Essa, mais chique e tecnológica, me isola do mundo e dos ruídos do trânsito paulistano que me estressavam antes mesmo do expediente começar. Explico: no fim do ano troquei o meu lapetope Apple e comprei um iPod. Daí, posso agora escrever com muito mais tecnologia e processadores múltiplos as mesmas letras que escrevia antes no meu antigo iBook e a minha vida tem trilha sonora. Uma vasta, enorme e peripatética trilha sonora.
Outra coisa que estou criando nessa terra esquisita é um gostar do calor. Não estou dizendo que gosto de ver uns trinta e cinco graus nos termômetros espalhados pela cidade, mas, diabos, é verão afinal de contas! Como assim acordar segunda-feira, às 6h30min da manhã, com uma temperatura de treze graus? É insalubre isso!
Esse preâmbulo todo foi para dizer que eu estava escutando Chico no meu iPod, no táxi, indo para o trabalho, numa manhã fria de segunda-feira e resolvi tirar os olhos do meu livro do Mário Prata – Cem Melhores Crônicas – para olhar o céu e, putaquepariu, que céu! Que céu!
Como uma desgraça só nunca vem sozinha, o Chico me sussurra “Pedaço de Mim” ao pé do ouvido. Batata! Começo a soluçar como uma menina de seis anos que se perdeu dos pais e descobre que ser independente não é tão legal assim. É assustador, na verdade.
Me lembrei das pessoas que ficaram para trás na vida e eu não disse adeus. Daquelas que eu queria que estivessem do meu lado naquele momento, sentindo a brisa fria e luminosa da Faria Lima, que estivessem do meu lado – mesmo a mais de quatrocentos quilômetros de distancia – e com os mesmos projetos divididos, na minha filha que mais me ensina e que mal acompanhei os centímetros que viraram metro e sessenta e que provavelmente não verei chegar ao seu metro e oitenta.
Chorei porque eu não podia – juro! Por tudo que é mais sagrado! – descer do carro naquele instante, às 6h55min da manhã, tirar os sapatos, sentar na grama com orvalho, encostar-me numa árvore ou numa pedra e apenas curtir o céu azul de São Paulo. Chorei porque morreu dentro de mim alguém que faria isso sem pensar duas vezes na reunião que eu teria às 9h e curtiria aquele momento como se não houvesse amanhã.
Pra que, meu Deus, inventaram manhãs assim?
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November 27th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Todo homem trai.
Se não está traindo de fato, trai em vontade, desejo e projeção. Não conheço homem que nunca cobiçou mulher alheia ou a mais gostosa do mundo da semana da revista do mês. E nem é culpa deles. Há teses sobre a poligamia natural dos grandes primatas, sobre o custo de geração de gametas para o homem e a mulher, da compensação logística de distribuição de genes e tal, mas o que importa mesmo é que somos compelidos à traição.
E falo não apenas da traição do homem versus mulher, marido versus esposa, mas da traição de conceitos, de crenças, de princípios e idéias. (Digressiono um pouco aqui. É engraçado saber que, em inglês, a traição de um casal é chamada de cheating – trapaça – enquanto o termo traição – treason – é usada para crimes de estado. Nós, ibéricos, é que consideramos a quebra do contrato nupcial, um crime de estado.)
Lembro agora de Giordano Bruno – ex-padre, queimado na fogueira da inquisição – que foi fiel aos seus princípios hereges até o fim: a terra girava em torno do Sol, o nosso sistema era um dentre milhares, os padres deveriam se casar, sexo não era pecado, mas algo divino, etc. Poucos hoje sabem quem foi esse italiano libertino. Mas de outro, todos se lembram. Galileu Galilei ainda é lembrado por suas observações astronômicas porque soube trair seus ideais na hora certa. Traiu para poder publicar seus estudos com a anuência do papa e deixar um legado que seria lembrado até hoje.
De certo a figura do mártir que não abre mão de sua fé ou de seus princípios é impressionante e comovente, mas aposto qualquer valor que a tolerância e a “flexibilidade teológica” foram mais importantes para converter a Irlanda Celta e os nativos no Brasil que o ferro e fogo lançados nos gregos, palestinos e itálicos cristianizados nos primeiros séculos da era cristã.
Novamente saí do assunto, mas retorno agora. O homem trai porque tem de estar mudando o tempo todo. Não é de sua natureza ser uma rocha, um objeto inamovível à toa. O homem é flexível moral e eticamente e é assim que tem de ser, pois, cada outro homem que ele encontra na vida é um universo alienígena que tem de ser traduzido, entendido e decodificado para que ambos possam se relacionar. Por vezes tem de assumir que as verdades do outro não são as suas e ou ele trai o seu pré-conceito de mundo ou passa a rotular o próximo. Ou ambas as coisas.
Homem trai porque precisa sobreviver e os intolerantes tendem a ser exterminados por sua própria cria.
Outra coisa que me vem em mente é a falácia que do “jovem tolerante” ou “jovem flexível”. Exceto na parte física – saudades dos meus joelhos e costas – nunca vi um jovem flexível, tolerante ou compreensivo. Muito pelo contrário, normalmente são os primeiros a criarem rótulos, a se tribalizarem ou se engajarem feericamente em alguma causa ou objetivo – nem que seja comer todas as mulheres do bairro, ganhar milhões de reais antes dos trinta anos ou beber toda a cerveja existente na Lapa, quiçá, do mundo – por mais absurdo e utópico que seja.
Especialmente os adolescentes.
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October 19th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
E foi isso: dois beijos e tchau. Aí ele olhou para ela e pediu o telefone. Ela deu. Ele chegou a pretexto de se despedir novamente sob alguma desculpa esfarrapada deu mais dois beijos. Ali no ladinho, derrapando na curva. Ela retribuiu os beijos com um olhar maroto. Ele saiu achando que tinha de ficar. Tomou caminho de casa com a sensação que algo ficara natimorto.
Abriu o livro que o fazia chorar de saudades de casa e das histórias e terminou-o. Reparou que o cheiro dela ficara na camisa. O cheiro de rosas? Cheiro doce e azedo. Cheiro que ficaria bem se misturado ao suor dele e ao atrito do látex e lubrificantes íntimos. Cheiro que combinaria com lençóis limpos em lavanderias industriais e odorizadores de quartos de hotéis de três estrelas.
Chegou em casa, tirou a roupa e tomou um banho. Tonto, por conta da cerveja forte, lavou-se por mais tempo que precisava. Lembrou-se das histórias que sabia da moça e sabia que era insensato insistir naquele curso de ação. Não era sensato, absolutamente. A história já estava escrita e reescrita e ele já errara suficientemente para saber o que fazer. Demorou-se mais que o necessário no banho. A água quente relaxava as costas tensas das semanas ruins que antecederam o evento. Sonhou um pouco com uma fortuna que nunca viria pela mega-sena. Sonhou mais um bocado com sexo com metade das mulheres bonitas que viu no dia.
Enxugou-se e vestiu o moletom centenário que usava como pijama. Fazia tempo que não tinha companhia feminina regular, daí o acúmulo de roupas que mereciam o oblívio no seu guarda-roupas.
Mandou uma mensagem de texto pro celular dela. “Quero te ver. Beijo.”
Colocou um Bob Dylan para ouvir e deitou-se na cama. O cheiro não sumia. Pode ser a camisa, a calça, as meias, a cueca. Levou-as todas para a máquina de lavar roupas e colocou-as em molho. Voltou para o quarto. Não entendia o que o velho Bob cantava, mas estava confortável e agradável. Pegou um livro do Eco e folheou umas dez páginas. Dormiu.
Acordou com Mr. Tamborine Man e viu que cochilara por dez segundos, ou minutos. Sonhou muito no meio do processo. Descobriu uma animação incomum para uma quinta-feira à noite e tomou outro banho. Bebeu água. Colocou Chet Baker para tocar no lugar. My Funny Valentine. Sentiu vontade de tomar um vinho e comer um pão com queijo. O vinho veio fácil, como água. O pão deu mais trabalho. Desistiu e abriu um pacote de batatas fritas de marca americana. Começou a tocar Billy Paul e ele trocou a música. Lembrava de uma moça que ele queria. E que tinha um perfume igual.
Sabia que não iria dormir. Olhou pro celular esperando uma resposta. “Duvido. Deve estar mais bêbada que eu.”
Era verdade.
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