Das chuvas

February 25th, 2010 § 1

A menina fugiu das gotas grossas, se esquivando de poças d’água ardilosas, dos canos que transformam marquises em cataratas e dos rios gorgorejantes das sarjetas. Passou por todos como se corresse risco de perder a vida, ou a escova progressiva. Chegou na salvadora marquise do shopping center aliviada por ter escapado incólume desses perigos urbanos. Era mais uma vítima da massacrante ditadura da estética à qual as mulheres de trinta e muitos anos se submetem para ainda atrair um macho incauto, imaturo e disponível. Lipo, silicone, remoção de estrias e a malfadada chapinha diária. Luzes, esmalte e depilação semanais.

Ele não teve tanta sorte. Viu que seria impossível evitar a água e encarou de frente. Fazia isso com a vida, afinal de contas. Nunca titubeou ante o desconhecido. Daí foi direto para o bar onde haviam marcado o encontro. Sentou-se ensopado e pediu guardanapos, chope e um cardápio.

Ela chegou no tempo certo. Ele já tinha enxugado as partes mais graves (rosto, mãos, suvaco) e confiou na bravura em enfrentar as intempéries como um charme adicional ao de jovem senhor maduro descasado com emprego fixo. Ela, se notou, ficou indiferente. Dois chopes à mesa, já tinham um acordo fechado, mas ainda não declarado. Seis chopes e duas idas ao banheiro, já estavam se atacando no canto do boteco.

Daí a moça vai retocar a maquilagi e ele consulta o celular para ver se havia algum motel na região. A moça, ao voltar, foi certeira: “A duas quadras daqui tem um. É bem barato e bem agradável.” O moço não negou a formação média do homem heterossexual masculino praticante e adicto: se a menina é reconhecível como da espécie humana, é aparentemente saudável e dá intenção de cópula, é de obrigação moral do rapaz conferir o ato.

A chuva não arrefecia. Parecia que o Atlântico estava querendo trocar de endereço naquela hora e escolhera a Tijuca como endereço para a nova moradia. As ruas, como sempre, começaram a encher de tudo que é líquido e sujo, trazendo à tona os restos das histórias dos moradores do entorno da praça Saens Peña e os dois, tesos e com cara de “e agora?” ficaram ali tentando se manter quentes e dispostos. Duas horas e oito chopes depois, eles se atiraram dentro de um carro de praça que deu mole na região e conseguiram chegar no motel.

A chuva, essa maldita chuva, não parara a noite toda e serviu como música de fundo para as patéticas cenas de lascívia e luxúria dos dois e pela manhã, meio envergonhados pelo testemunho da água incessante, os dois estranhos inventaram algumas desculpas esfarrapadas, criaram mentiras novas e prometeram coisas que nunca cumpririam. Exceto o compromisso de se perpetuarem patéticos, solitários, carentes e secos.

Textos relacionados

Doze anos

February 6th, 2010 § 22

Ela me vê e vem correndo com um sorriso dissimulado. Está de pijama ou de roupas de casa ou com unhas pintadas de cores descombinadas ou fez chapinha e levou bronca ou está com mais um furo na orelha ou está macambúzia com as notas baixas ou chororô com o show que não irá. Mas está honestamente feliz, não duvido, e quer um abraço forte, um beijo carinhoso e um presente. Eu dou tudo o que me pede, já que sou dono e responsável por esse vazio impossível. Logo depois volta pro quarto para ver as séries descerebradas ou ficar “papeando”com as amigas pelos tuíteres da vida.

Já pensa em meninos, mas não creio que tenha beijado algum (ao mesmo tempo, acho difícil essa minha crença, mas insisto como dogma inquebrantável). Meu ciúme é só dela. Linda, puxou o que há de melhor da mãe e dos meus pais. Do meu acervo pessoal, só a indolência e a vontade de nada fazer. Quer uma festa do pijama esse ano. Dou graças porque é bem mais em conta.

Pediu um contrabaixo no natal passado. Comprei. Lembrei que precisava de uma capa para proteger o instrumento, de um cabo extra, de um amplificador, de uma faixa para segurar o bicharoco. Ela só se preocupava se ele era bonito ou não. Tonta, pensei. É preto e bonito. Ela ficou feliz. Tonto, todos pensaram.

Cheguei em casa e perguntei do teclado, que havia dado dois anos antes, ela disse que a mãe guardou no alto do guarda-roupas e que ia pedir para ela baixá-lo. Duvidei. Quebrei a cara e ela já está tirando músicas no teclado semi-pro que comprei numa loja do entorno da Galeria do Rock. Disse que ela precisa começar a ouvir a linha de baixo das músicas, para ver onde que entrava o instrumento que ela (e meu eu adolescente!) quer tocar. Ela disse que já fazia isso, há tempos, pai. Sempre ouço a linha de baixo. Por isso quero aprender a tocar. Eu consenti com a cabeça. Ela tem algo meu, afinal de contas.

Levei o lapetope velho, que eu usava até antes do Natal, para ela. Zeradin zeradin de tudo, o bicho deve ter ainda mais uns dois, três anos de vida, se ela souber cuidar. Duvido. O iMac já está com teclado e mouse mortinhos da silva e o monitor mal se vê que está ligado. Não é à toa que ela se atracou com o lepetope e ele virou amigo inseparável. Levo nesse fim de semana um teclado e mouse novos. Se o iMac morrer, o MacBook herda.

Estou devendo uma ida ao cinema com ela.

E um all star.

E uma ida à Paris, França.

E ser um pai melhor.

Recebi, ano passado, um cartão de dia dos pais. “Papai Zander”. Morri naquele momento. Não sou o único pai, né? Tem o padrasto que bem que podia ser um babaca, mas é um cara ótimo, carinhoso, atencioso, inteligente. Talvez melhor pai que eu jamais conseguisse ser. Quiçá, melhor ser humano até. Fazer o quê?

Só consigo ser o melhor zander possível. Nem mais. Nem menos.

Minha relação com ela é sublinhada pelos presentes, pelos gastos, pelos não-ditos, não-feitos. E pela certeza que serei um coadjuvante na sua história, um personagem menor.

Ela já é uma pessoa inteira e tudo que eu posso fazer de hoje para todo o sempre é imaginar como teria sido. Ela já não é mais a minha menina, o meu bebê, a minha criança das histórias. É do mundo. Daí o meu ciumes, o meu pranto. Daí eu ser incapaz de negar alguma coisa – qualquer coisa – que esteja ao meu alcance. É o gesto desesperado de comprar o afeto da – talvez – única coisa que eu tenho certeza que fiz de certo na vida.

Amo e levo-te, hoje, um violão.

Textos relacionados

Parábola

October 18th, 2009 § 0

Era uma vez um mercador que vivia entre as cidades impossíveis levando e trazendo o que não era seu para pessoas que pouco tinham a ver consigo. Ia de Calicute, a cidade dos deuses-elefantes, a Madripor, dos prédios de jade; de Bagdá, dos tapetes voadores, a Mu, a cidade afundada. Pasava por Atlântida, por Eldorado, Zion, Ur e Tiges e carregava suas montarias com âmbar, sílex, bronze, ferrro, linho, seda, mirra, ouro, prata, açúcar, pimenta, cravo, canela e arquivos de emipetrês de bandas dos anos 50.

TInha ciência das rotas pelas estrelas, conhecia os povos pelo seu olhar, as comindas pelas cores, os animais pelos grunhidos e cantares, as pedras preciosas por sua sombra e gosto. Era um homem do mundo, enfim.

Numa dessas viagens, após uma semana de caminhada no deserto, olhou o céu para conferir suas anotações e fazer o horóscopo do mês. Depositou a pena e o pergaminho do lado do saco de dormir e se deixou hipnotizar pela fogueira que morria lentamente. Entre as brasas, encontrou seu teto e entendeu que o seu lar era o caminho entre, o meio. Não possuía nada além de si mesmo, entretanto era amarrado por um destino de horizontes abertos e línguas diferentes, cheiro de cavalos, bois e camelos.

Era essa sua nação.

Textos relacionados

Sobre verdades e mentiras

September 19th, 2009 § 1

Estou viciado em House M.D. desde que “descobri” que o ator principal é o Hugh Laurie, do A Bit of Fry and Laurie, com quem contracenava com o fabuloso Stephan Fry. Era viciado nessa série, que passava no Eurochannel, na TVA, nos idos de 1990 e muitos.

Mas isso não interessa. O que me chamou a atenção é que ele usa um jargão sensacional: “todo mundo mente” e normalmente é a chave para ele desvendar a doença do paciente da semana. Adoro o método de tentativa e erro que eles usam ali, mostrando bem didaticamente o que é o método científico. Afora a quantidade de patadas por centímetro quadrado que ele dá em todo ser vivo falante. Adoro.

E é verdade mesmo: não se pode confiar no alheio. Não que todos sejam canalhas ou pilantras, mas a verdade dificilmente fica na superfície. Nós temos a tendência de ou escolher o caminho mais fácil, aparentemente, ou de ficarmos com a melhor opção de acordo com o nosso viés ideológio, a despeito dos fatos gritantes à nossa frente.

Falo isso por conta de dois fatos recentes na minha vidinha: uma, foi a leitura do livro A Lógica do Consumo, (Buyology) de Martin Lindstron. Como todo livro para executivos e profissionais de marquetingue, ele é bem raso na apresentação de suas idéias, mas o texto claro, abrangente e caloroso, compensa a falta da exposição de dados e estatísticas. Em resumo, o autor fala sobre como a maioria das nossas decisões diárias é baseada em impulso, em falsas lógicas e muito mais na percepção do que temos da realidade que dos fatos brutos em si. Da mesma maneira, como a personificação das marcas e das empresas ajuda (ou atrapalha) suas vendas, a despeito do que a “lógica” diz.

O segundo fato foi uma discussão boba, com uma criatura que insiste em ulular seus vieses. Explico. Eu nem sempre tomo decisões e afirmo fatos que tenho certeza absoluta. Muitas vezes crio minha argumentação on the fly e tento dar uma coerência àquilo que digo, mas, por um outro lado, procuro sempre estar informado sobre o que digo, falo para evitar erros crassos. Em suma, fico orbitando no famoso educated guess e estou confortável assim.

A priori, nao acredito em “certezas absolutas” exceto como força retórica argumentativa. Tudo que eu falo pode ser demonstrado contra ou refutado. Aliás, deve. Adoro uma discussão porque posso ser provado errado e aí aprendo uma coisa nova, um ponto de vista diferente e repenso o meu pensar. E não tem nada mais excitante que entender o outro por um viés diferente, adotar um novo viés.

Mas não dá é para deixar de notar que, quanto mais estapafúrdia a criatura, mais desembasada e mais pedante, a sua argumentação tende a ser mais pedestre. O apelo para o óbvio, quando o óbvio é o oposto. O apelo para “todos sabem” quando todos não foram consultados sobre isso. O apelo para “quem discorda de mim é crasso, vil e torpe, porque eu estou do lado dos príncipes”. Adoro. Pego no pé de gente assim. Mentem porque não têm vontade de conhecer nada que prove o oposto do que acreditam. Aliás, o erro dessa gente é querer acreditar e não querer saber. Mas isso é outra história.

Isso tudo porque – de novo, no banho – me veio à mente que só as Putas têm licença para mentir.

Textos relacionados

I Want You (She’s So Heavy)

September 15th, 2009 § 0

pós The Beatles

A música ainda ressoava nos tímpanos quando ele resoveu ligar para a moça. Os The Beatles sempre foram o seu oráculo pessoal quando se tratava de flertar ou não com a colega da faculdade, mandar ou não flores para amiga por quem sentia um tesão especial ou ligar para a ex-foda-fixa que tinha descartado no mês passado.

Bastava ouvir os acordes de “I want you (She’s So Heavy)” que entumecia-se todo ao se lembrar de Marcela. Entumecia-se mesmo. Não tinha nada de paixão ou amor ou de carinho ali. Era um tesão animal, descontrolado. Mas só quando ouvia os mesmos acordes finais da guitarra, baixos, cadentes, marciais e o John falando “she’s so heavy. heavy.”

Ele se lembrava no mesmo momento de calcinhas no chão, de cheiro de perfume caro, de camisinhas apressadas e encaixar coxas à sua cintura. Sentia a umidade permissiva na hora que ouvia as linhas de baixo do Paul e a canção tinha a duração correta para o coito inteiro. Do “oi, tudo bem” ao “deu deu, acabei”. Sete minutos e quarenta e sete segundos. O suficiente para o rapaz ver a menina virar os olhos cheios de desprezo e dizer “nunca mais, viu? nunca mais”.

Aí passava-se mais uma semana, um mês, quarenta e cinco dias, no máximo. Ele colocava Abbey Road no tocador de emipetrês e pronto. Mais uma vez, mais uma vez.

Textos relacionados

Sobre veias e colhões

July 1st, 2009 § 1

Escrever sobre o ato é um artifício que o cronista lança para enganar a si e ao seu patrão (o leitor não conta, a função do escritor é iludir quem lê e fazê-lo achar que o seu causo é o mais interessante, o mais relevante, o mais inteligente ou qualquer outro superlativo que lhe venha à mente), mas que vira e mexe temos de fazer uso para garantir a matéria no jornal, a coluna na revista ou o afago do leitor do blogue. Então, para comemorar um mês e uma semana sem atualizar esse espaço, segue a minha enganação da vez.

Afinal de contas, sou uma farsa.

Muitas vezes me pergunto o porquê de ainda insistir em escrever. Já disse antes que não é piti de atualizar blogue ou frescurite de writer’s block, mas é que a vida às vezes nos leva para alguns cantos que não esperamos, um retorno não programado à casa, uma tomada ostensiva do teu tempo vago por jogos digitais, listas de discussão que te arroubam a verve, coisas assim.

Uma vez disse que escrevo não porque quero, mas porque é impossível deixar de escrever. Isso foi em outra época – um surto e meio atrás – onde a minha necessidade de me expressar era mais urgente. Uma necessidade de eu me entender comigo mesmo para mim. Saca? Pois bem. Eu não.

Fato é que deixo de escrever hoje facilmente. Passo meses sem ter necessidade. Pelo menos em escrever aqui. Quando penso que tenho dois livros na fila (um iniciado, outro no rascunho), uma peça para finalizar e muita, mas muita coisa para fazer de nove às dezenove, desanimo. Mesmo.

Disse uma vez – não aqui – que ler um livro como “Guerra e Paz” era um ato anacrônico. A vida moderna te rouba tempo demais para que consigamos devorar seiscentas e poucas páginas como se fosse um folhetim. Somos mais diáfanos e efêmeros que nossos bisavós. E somos mais rápidos, lépidos e fagueiros também. “Seiscentas páginas? Só se tiver gráficos e organogramas e mancha de texto com corpo 16 sobre 18”. (Antes que me batam, não acho isso bom. A nossa sociedade precisa reaprender o valor do freio, da marcha-lenta. Mas não vou ser eu que irei ensinar. Deixo para os enfartados aos trinta que aprendam a lição.) Quando me dou conta que ler mil páginas é impossível para mim hoje, penso logo: “Como esse puto (o autor) conseguiu escrever esse calhamaço? E com bico de pena ainda? Ele não trepava?”

Na verdade, não é questão de tempo. Afinal, tempo é apenas uma percepção. Mas é uma questão de culhão. De tesão pela coisa. Sim, o cara não trepava para escrever dez mil páginas. Esse tal de Autor tinha de apontar a pena, conseguir a tinta, descolar o pergaminho e escrever, escrever e escrever para caralho. Pra caralho, inclusive é a metáfora perfeita.

Agora entendo o porque da necessidade anterior de escrever como se não houvesse amanhã. É que escrever, pra mim, era como desnudar uma veia dilatada que ligava a alma aos colhões.

Era o gozo da minha essência imaterial em tinta digital manifestada.

Textos relacionados

condomínio

May 18th, 2009 § 3

A casa da minha alma é pequena. Nela, cabem umas poucas lembranças, um cálice vazio e um farrapo de vontades gastas pelo tempo. A alma ocupa um canto iluminado pelos sóis de inverno. Tem janela para um quintal de grama verde, onde ela pode se deitar e brincar de desenhar nuvens. Por vezes, cochilar na rede que prende às paredes. É onde ela se lembra de onde veio e para onde irá.

A casa dos meus sonhos é um campo aberto. Não é casa ou teto, mas horizonte infinito, sol a pino e nuvens escarradas no ciano cinzento. A casa dos meus sonhos tem um vazio ensimesmado, um nada indefinido, uma ausência de ser. Ela se insinua, mas inexiste. Como um desenho abandonado. Ninguém mora lá.

A casa dos meus desejos é um pássaro migratório. Mora em calendários, pousa em meses, cria ninhos em semanas, cisca nos dias, come nos feriados vermelhos. Ele existe no ir e vir, sempre em movimento. É filho das horas e das efemérides. Eu o alimento com os segundos que roubo do relógio.

A casa do meu futuro foi erigida em nuvens sem pé de feijão. Ela é feita de desenhos animados e de cores acachapantes. Os amigos do futuro são caricaturas de gente e eu os conheço vidas a fio. Eu acredito em suas histórias que me são enviadas em cartas de tarô. Desenho a casa em mapas astrais e traço seus contornos em trígonos, quadraturas e sextis.

A casa do meu exílio tem verão todo dia e inverno para o sono. Tem uma cama quilométrica e uma rede com paisagem de concreto e luzes. Uma lua safada me visita quando chego do trabalho e me ilude com promessas de carinhos. O exílio não é local de carinho.

A casa do meu trabalho é vizinha da alma. Sólida como chumbo, negra como o medo, fria como o beijo de quem não te ama mais. Não tem portas. Não tem janelas. Não tem saídas. Ela é carregada como um casco, uma corcova de gente. Meus dias se passam ali dentro. Algumas noites também.

A casa da minha mãe tem a mãe da mãe e a filha do filho. Já teve minhas lembranças, meus prazeres e o meu acalanto. Hoje tem conversas e uma longa espera pelo fim. É uma casa de cura, ainda que essa venha de forma inesperada. É onde podemos dormir à tarde e sabemos que alguém nos guarda à porta. Ninguém fica com fome na casa da minha mãe.

A casa da minha esposa tem o meu nome prometido e a promessa de um futuro. É feita de paredes arranhadas e a derradeira tentativa de felicidade. Sair dali é entregar-me àquilo que não quero mais ser. Toda semana parto com a esperança de retorno. Toda semana volto com a esperança de ficar.

A casa das minhas casas tem chaves gigantes, seis cores de duração e uma sombra eterna.

Textos relacionados

Amigos

February 9th, 2009 § 3

Idas e vindas estão fazendo parte da minha vida como rotina semanal e, se tudo continuar nesse passo de cágado manco, ainda serão rotina triste durante um bom tempo. A parte boa da rotina é que o querer ir se confunde com o querer voltar. Por conta da regularidade, os reencontros ficam mais raros.

Talvez por ter certeza que estarei na semana que vem de volta, estarei por ali mesmo, descuido dos outros. Descuido de minha filha, descuido dos amigos, descuido de mim por extensão.

Avisaram-me que desistiram de mim. É justo.

Justíssimo.

Textos relacionados

rotina dos fins de semana

January 12th, 2009 § 2

rodoviária carioca pela manhã. táxi. casa. acordo a moça. durmo. acordo. banho. casa da avó. almoço. papo. lanche. shopping. cinema. janto. casa. acordo domingo tarde. banho. almoço na casa da tia. papo. café na casa de amigos. casa. filmes (2). despedida. rodoviária. ônibus. sono. são paulo.

no ínterim, sexo sempre que conveniente.

Textos relacionados

E eis que 2009 se anuncia (ou Sobre a arte de pender sobre o abismo)

December 19th, 2008 § 2

Mais um ano termina e a sensação é – de novo – um milk-shake de alívio com sensação de tempo perdido. Nesse ano que passou a vida me trouxe algumas surpresas. A maioria realmente muito boa, o restante ainda está sob análise da distância emocional que só o tempo dá. 

Vocês já conhecem a velha história, né? O amor que deu errado abre as portas para uma felicidade mais ampla, plena e absoluta (para ambas as partes); o emprego que te dispensou gerou uma reinvenção da maneira que você se colocava perante o mundo; os amigos que te humilharam no passado te fizeram escolher e entender melhor a humanidade. 

Tudo isso só se dá com o passar do tempo.

Viver do passado é a essência da condição humana, racional. É através desse arremesso para o ontem que conseguimos ter certeza que haverá um amanhã. É paradoxal que só consigamos projetar o futuro através do seu oposto mas é assim que o homem funciona. É assim que gosto de ser.

Num papo de almoço dessa semana, falávamos sobre a vida e a morte e o que acontece nesse ínterim. Independente da fé e religião de cada um, a única coisa que me parece certa é que estamos sempre pendendo sobre um enorme abismo que nos devora dia-a-dia, comendo com fastio a essência criativa, a fagulha primeira, mas que é o responsável por nessa geração. É um Urano devorador de sonhos e gerador de monstros bípedes pensantes. Um senhor das chances que deu as condições para nos trazer até aqui apesar da improbabilidade da simples existência – da criação do universo até a chance de nossos pais se encontrarem, tudo é muito raro, único, uma loteria química altamente improvável – e apesar dessa mega-sena cósmica, estamos aqui desafiando as certezas e as firmezas do mundo.

Andamos numa corda-bamba de probabilidades entre o caos completo e o oblívio, entre a inércia e a explosão térmica. E nesse fio de existência criamos, construímos, vivemos, nomeamos, destruímos, esquecemos, amamos, desamamos, geramos, exterminamos, nascemos e morremos e crescemos como nossos pais e avós. Cada um de uma maneira única. Pessoal.

Somos improváveis, paradoxais, imprevisíveis, certos e inexoráveis.

Pois o que espero de 2009, é que ele seja mais humano que nunca, que seja paradoxal, improvável, imprevisível (apesar de certo e inexorável) e que me coloque cada vez mais balançando sobre o abismo que é a existência.

Textos relacionados

Where Am I?

You are currently browsing entries tagged with semana at a casa do zander.

SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline