Sobre histórias que não terminam

March 11th, 2010 § 0

Eu estava há tempos para contar essa.

Um amigo me conta da moça que fez a corte e o arrebatou. Arrebatou naquelas, né? Ela é bonita, inteligente, culta, divertida. Tinha lá os seus quês e senões que toda mulher quando passa dos trinta e cinco amealha pelos homens da vida. Tinha-os e não escondia. Sinal de que sabia onde pisava e que já havia pisado por esse caminho várias e várias vezes. Aí gostou do cara e partiu para a decisão: “bora se querer!“

Obviamente, um homem, do sexo masculino, heterossexual praticante, convicto e disponível não teria como resistir a tal oferta. Foi surpreendido, logo de cara, com a iniciativa da moça. Ela sabia o que queria e – aparentemente – era o mesmo que ele. Daí não teve dúvida, só havia a tecnicidade da coisa. Tinham encaixe, tesão, afinidade, papo mas algo pintava e não havia finalização. Na quinta vez que se pegaram loucamente, uma surpreendente, prematura e indesejável visita de Francisco interrompeu o desejo da moça que não fazia uso de lazer na maré vermelha. Fato, sempre tinha algo para atrapalhar.

A moça começou a achar que era com ela o problema, que era desencanada demais, que ”quem mandou querer dar uma de homem e cantar o moço“ e tal. Ele, que era um azarado, que fazia tempo que a horta dele não chovia tanto e ele ali, amarrado com a moça que não queria descer, mas não dava de jeito e maneira. Aí foram esfriando, esfriando e deixaram a coisa ali de lado.

Mas o moço virava as noites pensando na história que não tinha terminado, nas possibilidades, nos ”e se…“. Certa feita, eles se esbarram nos bares para solteiros com mais de trinta e a tensão era visível. Inadvertidamente, ele pergunta se ela ainda pensava nele. Obviamente, não. A fila anda e o caixa é rápido, né?

E ele foi para casa remoendo mais que antes.

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Ciclos divertidos

November 25th, 2009 § 6

Eu gosto de pensar que a vida é cíclica, que as coisas funcionam de acordo com alguma ordem pitagórica, arcana, e eu costumo ver (ou imaginar) uma repetição em alguns padrões.

Com as fodas, eu gosto de imaginar os ciclos em três noites, três eventos, três coitos.

A primeira foda é a da descoberta. Não tem aviso: nunca se sabe se a moça está de fato a fim de praticar o arcaico esporte bretão ou não. Se é daquelas que sabe bem que sexo é divertido, atlético, lúdico ou se é uma das que gosta de romance, de olhinhos virados pro alto quando o moço diz que escreve poesia e que pinta aquarelas.

Normalmente, essa foda é urgente, desesperada. É pura explosão, desastre, acidente, gozo desvairado, afobado, dedos intrometidos, nãos ditos com vontade de sins, bocas arritimadas e uma sucessiva quebra dos protocolos de decoro público.

Normalmente é maravilhosa ou ridícula. Dificilmente fica no meio-termo.

A segunda trepada (se houver) é aquela combinadinha. “Eu te ligo e depois esticamos” ou “passa aqui em casa, estou meio com preguiça de ir para a rua” ou ainda “eu fiz um prato sensacional hoje, pensei em você para jantar comigo”. Todos ali já sabem o que irá acontecer e a coisa flui num outro ritmo.

A segunda é uma coisa de língua exploradora, mão precisa, toques estratégicos, paciência até chegar ao quarto, dedos melhor colocados, músicas no fundo do ambiente, convesas durante todo o tempo que se consegue articular algo.

Obviamente eles ficam pelados na maior parte do tempo e são discretos até os berros e gemidos exagerados, ao gosto de cada um.

Na terceira é que se decide se haverá a segunda novamente ou não. É a “prova final” do relacionamento que se rascunha. Mas, na norma, é expectativa da próxima vez de um lado, e olhar triste de “finitum est” do outro.

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A dor, o amor e outras rimas ruins

September 11th, 2009 § 1

Amar dói sim. Dói porque sabe-se do fim do amor desde o primeiro momento, o instante inicial.

Na hora em que você olha para aquela pessoa cujo destino você sabe que estará um dia enlaçado com o seu, já imagina o que dirá, como fará a abordagem, como será o primeiro beijo, a pegada, o cheiro, o toque, a temperatura, o gosto o gosto e o gosto, o sexo, o gemer, o gozo, a ligação do dia seguinte, o pedido de namoro, a rotina de cinema-barzinho-festa-motel, a família do outro, o pedido de casamento, a cerimônia, o apartamento novo, a decoração da casa, os filhotes, a briga por conta das mesquinharias diárias, o sexo de pacificação, o girar da roda da vida. Você sabe: é essa a pessoa com quem você quer amarrar seu nome.

Mas o amor sempre acaba em dor. Nem que seja por conta de um dos dois terminando sua historia na Terra. Dói porque sabemos que amar é bom e só se ama a dois. Dói porque o que é bom e sublime não é o nosso normal, é a exceção, a reserva divina que nos mantém maravilhosa e necessariamente insanos ante a brutalidade do amanhã.

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As amigas e o sexo

September 8th, 2009 § 6

Nunca entendi quem gosta de separar definitivamente, entre dois mundos à parte, duas coisas: amizade e lascívia. Quer dizer, não que ambos venham acompanhados sempre e absolutamente juntos, mas que achem impossível a convivência pacífica dos dois.

Claro que esse problema – na minha humilde opinião – afeta quase que exclusivamente as mulheres. Homens tendem a separar (e misturar) afeto com tesão desde priscas eras. Aliás, somos adestrados a querer sexualmente a outra (ou o outro) pelas revistas de mulé pelada, filmes pornográficos e admiração de calcinhas distraídas que se anunciam debaixo das carteiras do colégio.

Isso talvez se dê pela forma paradoxal que as mulheres se referem ao próprio ato sexual. Na mesma argumentação com um cavalheiro, a dama irá se referir ao ato em si como “apenas sexo” e como “isso aqui” – apontando para as áreas púdicas – “não é para qualquer um”. É a síndrome que eu chamo de buceta cara/buceta barata.

Explico. Uso o termo crasso buceta (ou boceta) para tornar a coisa ridícula porque, em essência, não faz o menor sentido o processo. E uso o binômio cara-barata para ilustrar a contradição em termos.

Ilustro em caso.

Rapaz aborda a menina. Ela é sua conhecida, talvez uma amiga. Há tensão sexual do lado da menina. Há clara e declarada do lado do rapaz. Resolvem sair juntos. Ele aborda a menina. Ela diz “mas você só quer sexo comigo”. Ele diz “como assim sexo é ‘só’ sexo? Sexo nunca é só. É algo mais, é completude, é o carinho definitivo, o beijo mais íntimo e o afago mais descarado. Nunca é pouco.”

Ela pensa, bebe uma cerveja – talvez uma tequila, se o mancebo for ardiloso e inescrupuloso – e diz: “eu não sou qualquer uma. Eu não transo com qualquer um. Eu me valorizo, sabe?”

Quantas vezes não vimos essa cena? Então a menina tem um grande valor e o sexo em si é pouca coisa?

Nunca consegui entender o conceito de “sexo estraga a amizade”. Sé é algo sem valor, então qual a diferença entre um beijo na bochecha e o sexo? Se é algo valiosíssimo, que mantenhemos a virgindade acima de tudo e até o casamento, certo? Mas não é o que se pratica. As moçoilas preferem ser iludidas pelo príncipe em armadura reluzente que se revela um cretino a transar com o amigo que está ali, ouvindo as mazelas diurnas – e noturnas – da outra.

De outro lado, entendo quem não quer nenhum tipo de intimidade com os amigos. Que o limite da intimidade com o alheio é o beijo no rosto. Mas essas não abrem sua necessaire emocional para outros, para o conselho, o desejo e o querer do amigo do lado.

Ou talvez eu esteja redondamente enganado e não passe de um cretino. Mais um cretino.

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Da sobrevivência dos derrotados

September 3rd, 2009 § 0

Existe algo intrinsecamente bom em viver. Não sei dizer se é uma questão de sobrevivência, ou de prazer primeiro que carrega o indivíduo por seu breve periódo aqui. Sei que não é o sexo – que há gente que desprefira o carnal pecado – ou o dinheiro, a comida, o ar, a água.

Pois olhem os miseráveis, os desprovidos de tudo: de comida, de fé, de esperança, de prazer, de saber, de angústia ou amor. A miséria e o desprovimento completos não são impeditivos a eles. Algo os amarra e os faz esquivar ante a sombra do fim.

Dá-se um animal selvagem e faminto em ataque furioso e inexorável contra essa legião de rascunhos de civilização e não vê que se armam para lutar por sua pele ou pela perpetuação de uma história pífia, inexistente, irregistrada? Que força é essa que os prende a uma história que não os quer? Não seria melhor deixar-se entregar e encerrar algo que não faz sentido? O mesmo não se aplica às almas sem corpo que habitam as baias das empresas mundo afora? ou aos viciados em seu próprio nome e imagem que inexistem para si mesmo enquanto não são mencionados por outros?

Não entendo, apenas admiro essa capacidade da minha gente em sair das savanas e ganhar as estrelas, de se tornar semi-deuses de si próprios.

E choro por quem perde esse fio de prata que o conduz para o amanhã, quem deixa de sentir esse bem indelével, que desiste de si, o suicida.

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Quem tem urgência…

September 2nd, 2009 § 0

Ele saiu do bar carregando a menina debaixo de seu braço. Equilibrava-se entre sua bebedeira, a menina como contrapeso, a garrafa de cachaça como bússola.

Se jogaram dentro de um taxi que mal ouviu o destinho. Praça da Bandeira, motel Gallant. Mãos, bocas e sexo viraram um no banco de trás do carro de praça. O motorista fez que via e seguia. Vinte reais, de Copa. Mais cinquenta pro pernoite. Seis horas depois, o sol nascia ressacado.

É a vida fazendo sentido.

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rotina dos fins de semana

January 12th, 2009 § 2

rodoviária carioca pela manhã. táxi. casa. acordo a moça. durmo. acordo. banho. casa da avó. almoço. papo. lanche. shopping. cinema. janto. casa. acordo domingo tarde. banho. almoço na casa da tia. papo. café na casa de amigos. casa. filmes (2). despedida. rodoviária. ônibus. sono. são paulo.

no ínterim, sexo sempre que conveniente.

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Das fases do pré-coito

October 31st, 2008 § 7

onde o autor discorre sobre as técnicas e estratégias
de garantir o coito certeiro com as damas em geral.

fase 1. boca

Muitos falam que o beijo é a ante-sala do sexo. Nada mais falso. O beijo é muito mais e maior que o sexo em si. Na verdade, há mais intimidade num beijo -ainda que dado numa micareta, ainda que não se saiba o nome de quem se beijou- que no sexo anal, por exemplo. O beijo é o caminho da expressão da alma. É a fala de quem deseja, de quem quer comer o outro.

Literalmente.

O cavalheiro que sabe realizar a sala, que prepara o terreno para a ação intencionada, prepara a dama para o devir lascivo. No beijo, se tem o gozo antes do gozo, a vontade expressa e explícita em hálitos trocados. É a lingerie antes da nudez.

E nisso há muito mais significado e desejo que dois corpos suando em ritmo cadenciado.

O cavalheiro que sabe preparar o terreno para o coito ininterrupto que se anuncia, promete no beijar que tirará o fôlego da dama até que ela esqueça que está em algum lugar. Em qualquer lugar, pois a tontura que toma conta da moça -parte pela falta de oxigenação, parte por conta da libido que é despertada- atiça tudo aquilo que porventura estava pronto para escapar, os pêlos de ambos se ouriçam, os ferormônios são liberados e a umidade relativa do ar aumenta. 

Ao menos entre o casal.

fase 2. encoxada

Descrição: o cavalheiro põe a mão direita enlaçando a cintura da dama. Posiciona a sua perna direita pra fora da dama e a perna esquerda por dentro, entre as coxas da moça. É uma dança invertida. Uma dança errada. Enquanto isso, a mão esquerda segura a nuca e pega a base do couro cabeludo com firmeza, mas sem machucar. Sem machucar, por enquanto.

Ainda não é hora.

Conseqüência: a dama esquece que há chão e a perna esquerda do cavalheiro -simulacro de membro- vira o seu universo. Torna-se seu centro e sustentáculo primeiro. É o encosto simulado do sexo insinuado que desmonta qualquer máscara de resistência. É o anúncio -prenúncio- daquilo que espera o casal noite afora.

fase 3. o espaço entre os dois.

Apesar de ser um pós-coito, não existe preparação pré-próximo-coito melhor que o desprezo, a distância, o não-te-ligo. Daí o cavalheiro enlouquece a dama em banho-maria. Ela sobe pelas paredes, se enfurece, odeia os homens, o mundo e o sexo e te agarra com ódio quando do retorno e acena para a lembrança do que houve. É a ausência que torna a lembrança indelével. Ninguém se lembra do passado quando ele é presente.

Daí é só beijo, encoxada e a noite dividida novamente

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cooper – o sexto sexo

August 7th, 2008 § 2

dessa moça (moça?) aqui.

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Sobre a arte de dar as mãos

July 11th, 2008 § 9

publicado na Tribuna da Imprensa

Hoje eu li em um blogue de uma amiga (http://simsenhoras.blogspot.com/2008/07/quero-namorar-o-wall-e.html) que ela não vê mais as pessoas simplesmente dando as mãos por aí. Que no arsenal da conquista não se usa mais o singelo gesto de procurar a mão da menina e segurar os dedos entre os dedos num enlace quase que obsceno, mas mais singelo que os olhares que enrubescem. Que não vê mais o gesto em si mesmo gerando o momento mágico.

Eu sou uma criatura de “grude”. Gosto de tocar, abraçar de dar beijos e tal em quem tenho carinho e afeto. Obviamente já passei da fase adolescente onde os futuros adultos arrumam n desculpas para se jogar uns em cima dos outros ou se amontoarem pelos cantos. Algo a ver com os hormônios em ebulição ou uma desculpa esfarrapada para pré-sexo. Dito isto, acho que poderão entender melhor o caso que tenho para contar.

Pois bem.

Um dia, numa das minhas idas profissionais à cidade do dinheiro e à terra da fortuna, eu saí com uma conhecida para podermos materializar o nosso conhecimento mútuo. (Não me entendam mal! A frase anterior é só uma forma pernóstica de dizer que fui conhecer de fato uma pessoa que conhecia pela Internet. É que às vezes conheço mais de fato quem nunca vi de perto. E às vezes conheço menos de perto quem já vi de fato. Fato.) Fomos a uma pizzaria numa praça que só recentemente voltei – e gravei o nome. E obviamente me esqueci novamente, a ponto de não ter sequer referência para citar nessa crônica de quarenta linhas.

A pizzaria era modernosa, com uma decoração bem interessante. Como bom carioca, sempre achei que pizza boa era a que era servida rapidamente. Ali fui introduzido à grande arte de ser fazer Pizzas em Sampa.

Antes mesmo de fazermos o pedido, senti que havia algo no ar. Uma atração definitiva. Da minha parte, claro, por minha amiga. As pizzas não tinham nada a ver com a história. A moça era bonita, charmosa, interessante mesmo. E tinha bom gosto. Afinal de contas, sabia escolher a companhia para o jantar.
Durante o evento inteiro eu não conseguia desgrudar os olhos dos olhos da moça e “dava um jeito” de fazer as mãos delas encontrarem as minhas. Quando ocorria, parecia que eu estava segurando o braço de uma cadeira ou apenas uma maçaneta. Nada. Nem uma fisgada, nem uma alteração na voz da moça. Nadica de nada. Um suspiro ou uma pausa ao menos? Não.

Obviamente achei que não tinha logrado sucesso e tal. Mas são coisas da vida. Se todas as mulheres desejassem todos os homens (e vice-versa), não haveria agenda que desse jeito para tanta fornicação. Ou romance. Fica no teu critério. Fato é que não funcionaria de forma alguma. Há de se ter a rejeição por bem da humanidade.

Mas, como a vida sempre surpreende e desconstrói as primeiras impressões, na saída, a moça me permite um beijo. Obviamente voltei pro Rio sem entender coisa alguma.

Quando mudei em definitivo para Sampalândia, eu entendi que havia um tipo de gente que não se toca, a não ser na intimidade. Que um abraço pode ser sinal de posse e que um pegar em mãos pode ser ostensivo, declaratório e íntimo demais para duas pessoas que apenas se flertam.

Da pior forma, entendi que esse não era o meu tipo de gente.

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