publicado na Tribuna da Imprensa
Meu caro Chico,
Estou com duas cartas prontas na minha cabeça, mas relutava e reluto em escrevê-las. Escrevo-lhe essa primeira carta porque lhe devo desculpas prementes e desculpar-me é o que farei antes de tudo.
Há um ano você me telefonou e eu reagi de uma forma tosca. É que não sei ouvir um elogio sincero. Nunca soube ser elogiado. Me desconcerta, me quebra de uma forma que me impede de voltar à minha empáfia e arrogância normais.
Sei que você não me conhece ao vivo – pelo telefone não dá para saber como se olha, como o cara se porta, onde coloca as mãos e tal – ou bem o suficiente para poder reconhecer uma pessoa inteira nesses pedaços de gente que deixo antever nos textos. Por agora, apenas acredite que sou uma criatura pra lá de desinibida e com a língua mais rápida do sudoeste. Obviamente, tudo questão de defesa. Não existe pior tímido que o falastrão.
Pela situação esdrúxula e constrangedora, peço desculpas. Mas deixe-me explicar um pouco mais o que acontece nessa cabeça esquisita.
Você me elogiava com sinceridade e eu não sabia onde meter a cara. Elogio sincero – de quem não tem intimidade com a gente – é coisa muito rara. Acho que só fui elogiado assim por um professor de literatura que invadiu a nossa sala num intervalo apenas para falar de um texto meu que estava exposto num mural da escola. De resto, só aquele papo social dos amigos e tal. E você me elogiava justo quando eu escrevia sobre coisas que são difíceis para eu falar até hoje: basicamente sobre os fins e sobre o meu pai.
Mas deixe estar. Provavelmente, quando desencantar o chope entre nós, eu paro com essa babaquice e tudo volta ao normal.
Só para fechar a coisa toda, aquele texto, “Crônica do amor seco”, foi escrito num momento de epifania, quando dei por mim que tenho muito pouco a ofertar às pessoas. Basicamente um sorriso rápido, uma tirada rasteira e uma profundidade de pires. Sabe?
E quando escrevi aquilo eu estava me sentindo como quando Dorian Gray encontra o seu retrato envelhecido e distorcido. Era uma ficha que não precisava ter caído, mas veio redonda numa caminhada triste pela Avenida Paulista. Chegando em casa, precisava vomitar tudo. Daí nasceu um dos meus textos mais redondos, que nasceu sem cortes, sem emendas, sem ajustes. Quase que nem o do nascimento da minha filha, “E assim se passaram sete anos”. Quando escrevi sobre o meu pai, foi um desafio que impus a mim mesmo e o processo é outro, a ser tratado em outra carta.
Mas, rodeios à parte, eu queria te falar dos fins.
Cada vez que começo alguma coisa sinto lá plantado o finzinho dele, sabe? É como se eu sentisse o cheiro da noite cair antes mesmo do sol nascer. Aquela maresia que vem anunciando o por do sol. Eu só fico me lembrando como era bom chegar da aula e ficar na janela sentindo o cheiro do mar anunciando as seis da tarde. Maresia, reza do Ave-Maria e bolo quente.
Sempre me senti confortável com o fim das coisas. A dor da finalização – que indica que a história havia sido verdadeira, do fundo do coração – e a sensação de uma história bem contada sempre me acompanharam.
Obviamente estou romantizando a coisa. A maresia nem era tão forte assim. E muitas vezes tive de engolir amargo um pé-na-bunda. E eu nunca gostei de romper com quem gosta de mim. Especialmente se gosta de verdade de mim. Mas não existe só esse fim, obviamente. Sair de um trabalho é sempre uma emoção interessante. Entregar um trabalho, nem tanto. Enterrar um ente querido, menos ainda.
Quando moleque, li um livro da Coleção Primeiros Passos: O Que é Morte. O livro dizia que a morte – ou o velório, como seu símbolo primeiro – foi migrando do interior da casa, da mesa da sala de jantar, para o hospital, para um lugar-comum de morte e fim.
Com os relacionamentos, a coisa é parecida. Se antes ficávamos adubando relacionamentos findos – que já fediam de tão mortos dentro do quarto, partilhando a mesma cama – hoje eles começam e terminam em um beijo sem nome. Não faço juízo de valor, até porque sou de pouca moral para julgar alguém, mas me espanta a facilidade que temos (que tenho! que tenho!) em virar uma página, chorar o texto que fora escrito e continuar em frente.
Talvez porque sejamos mesmo fadados a seguir em frente, apesar do que tenhamos feito.
Abraços do teu fã.
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publicado em LIVinRooom
Fim de ano.
Comemorações a troco de coisa alguma e um calor de rachar a boa vontade entre os homens e mulheres do Rio de Janeiro. E os amigos aproveitam a pausa na correria diária para dar um sossega leão em si mesmos e botar a casa em ordem.
Para Alan isso significava ligar para todos os pulhas e canalhas que conhecia e as lacraias de dois mangos que chamava de amigos e amigas. Na verdade, essa era a forma carinhosa de tratar a todos que fizeram parte de sua vida torta desde o colégio até o fim da faculdade. Poucos, bem poucos mesmo, eram os amigos do dia-a-dia, mas todos moravam no seu coração. Ao menos no fim do ano. Ao menos uma e única vez por ano.
Como sempre, teve de marcar no centro, apesar do protestos daquele povo que morava na Barra da Tijuca e insistia em se chamar de carioca. Os da Zona Norte eram maioria e, a bem da verdade, a Barra não é lugar para esse tipo de comemoração. As Barbies e Kens de plástico daquela região provavelmente reclamariam desde as calçadas de pedra portuguesa até à escolha do cardápio, passando pelo banheiro (sujo, definitivamente sujo) e pelo atendimento (e desde quando bar bom tem atendimento idem?).
Alan chegou cedo, não queria reservar mesa – de premeditado, organizado e planejado, já bastava o calendário – mas se comprometeu em arrumar lugar para todos. Não era todo dia que juntava tantos ditos amigos num lugar só. Normalmente os eventos de Alan eram resolvíveis numa mesa simples ou, quando a lotação passava a marca histórica de seis pessoas, arrumava-se um capô de carro alheio para servir de mesa e/ou assento. Para o fim do ano era diferente: mais de vinte confirmaram e mesão grande assim na Casa Urich só com lábia e adiantamento de conta. Como ele era cliente preferencial desde os vinte e cinco anos, rolou a “reserva” com pouca relutância da gerência.
Os amigos foram chegando aos poucos. A cada abraço, um comentário de um outro que partiu para o exterior ou para uma outra cidade. Um que casou, outro que virou numa curva errada e beijou um poste, outra que engravidou, outro que teve o sexto filho. As novidades dos amigos repassadas a cada ano. A cada fim de ano.
E a sensação que ainda havia algo a ser feito não passava. Aliás essa tinha sido uma constante em sua vida desde os dezessete anos. Àquela época achava que poderia domar o mundo com a mão esquerda enquanto se masturbava com as restantes.
Frase de Alan, não desse autor.
Certa hora, notou que perto do banheiro tinha uma turminha desanimada, umas sete cabeças, duas meninas. Nossa! Que morena é aquela? Bom, continou o processo de embriagamento e abriu uma nova rodada com um úisque duplo. Sem gelo. Tá certo que o verão queima as pedras portuguesas da Rua São José e o ar parece de verdade com o bafo indelével do centro do Rio, mas uísque tem de ser tomado assim, sem gelo e na valentia.
Novamente, coisa de Alan.
Os chopes sucediam os refrigerantes e as caipirinhas e, determinada hora, a natureza falou mais alto. Alan atravessou a borda da mesa que se estendia por quase todo o comprimento do restaurante e, inevitavelmente, esbarrou trôpego na mesa da morena que não parava de flertá-lo desde o início do fim da tarde. Falou alguma gracinha inócua e inefetiva para fins sexuais e entrou no mictório desesperançado.
Na volta, a mesa vazia. Aliás, todas as mesas vazias. Só um carinha num canto. Mas não tava vazio. Coisa esquisita.
“Puta que pariu! Depois de velho, delirium tremens?”
O carinha fez sinal para Alan se sentar.
“Cara, já sei. Você é a minha consciência e vai me dar um sermão sobre abuso de álcool, sexo e drogas nas terças-feiras.” “Calaboca e escuta.” “…!” “Olha ali no canto” – apontou para a mesa onde estaria a morena – “e me diga o que você vê.” “Porra tem nada ali.” Levou um cascudo seguido de um pescotapa.
“Olha direito, caralho” “Tá bom, cacete! Doeu isso!” Apertou os olhos míopes e o mundo rodou mais devagar por um momento. Enfim viu.
“Bom. Ali tem uma morena fantástica numa ponta, uma outra lindinha da silva mais mignonzinha, dois coroas, um viado marombado, senhor publicitário na outra ponta e um nerd fotógrafo no canto.” “Não aprendeu porra nenhuma. E eu com esperanças em você.”
Acordou abraçado na privada com uma das meninas a lhe acordar.
“Tive de dizer pro gerente que era sua namorada. Tu tá legal?” “Tô não, Vivien. Deixa eu voltar para a mesa e pagar a conta.”
Estranhamente se sentiu mais sóbrio que nunca ao caminhar entre as mesas. Sinal claro, óbvio e ululante de alcoolismo em estado extremo. Ao sentar, pediu a atenção de todos. Discursou sobre o fim do ano, o fim do salário, o fim da história e do comunismo, o fim dos tempos. Todos riam quando ele trocou de tom e, falando através de si, começou.
“Existem quatro tipos de mulheres que um homem tem de ter: a musa, a puta, a mãe e a amiga.” E continuou falando, ensinando as verdades essenciais, enquanto as nuvens de chuva anunciavam que as comemorações iriam continuar noite adentro.
O povo se calou. Alan não era do tipo de cagar regra.
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