January 18th, 2010 §
Aprendi hoje que, na tradição judaica, a mulher é quem materializa os sonhos do homem. É uma capacidade feminina fazer do ideal, do imaginado, algo palpável, material e real. Tem algo a ver com malkuth (ou algo parecido) e com as naturezas diferentes entre o homem e a mulher.
Não sou do tipo de pessoa que acredita em mandingas e patuás, mas jogo o sal por cima do ombro esquerdo, quando cai acidentalmente na mesa, não pego o saleiro na mão e tampouco coloco tranquilamente a bolsa de comida no chão. Bom, talvez isso eu faça, mas a contragosto.
É uma questão mais de respeitar a tradição por detrás do ato que o ato em si. Não acho que dê azar ou mal agouro pegar o sal na mão do outro ou deixá-lo esparramar na mesa. Mas sei o que isso significa no decurso de alguns milênios de escassez. O sal, pasmem meninos e meninas, não era tão fácil de se ter em casa, dois mil anos atrás. Tampouco o sorvete, mas isso é outra história.
Pois bem, gosto de conhecer a história das coisas, mesmo das coisas inventadas, e respeito a tradição que elas carregam. Podem até ser besteira – leite com manga, espelho quebrado, passar debaixo de escada, deixar o chinelo virado, etc. – mas tudo tem um porquê escondido. Uma história passada de mãe para filha e repetida ad nauseum anos e anos e anos.
Daí, quando esposa me conta isso, tento entender o que está por detrás da história. Entendo um pouquinho mais como os judeus antigos pensavam (ou ainda pensam, sei lá!) e deixo-me levar pelas metáforas das sephiroth, dos trinta e dois caminhos e das energias. Mas não era isso que eu queria contar.
Ela me perguntou quais sonhos eu tenho comigo, guardados no meu core. Não são muitos, conto-lhe. Terminar os estudos é um deles. Meus dois livros e a peça, outro. Engajar num estudo mais aprofundado sobre um assunto que tenho perseguido há alguns anos, mais um. Sonho também com o futuro da minha filha, mas isso não é um projeto “meu”, pelo contrário, é um projeto nosso: eu e ela, tanto mais ela que meu. E só. Ela me olhou um pouco decepcionada, acho, e eu emendei: nunca pensei em durar muito nesse mundo. Sou efêmero, diáfano, transitório. Não quero deixar outras marcas que um filho, umas histórias, umas lembranças. Nada que dure mais que uma, duas gerações para depois que eu partir.
Não tenho esse afã de mudar o mundo mais que cada um de nós já faz quietinho, no dia-a-dia. Não tenho afã de amealhar bens, títulos, glórias, deixar heranças, ruas, parques ou edifícios.
Estou contente em ser um anônimo. Um anônimo com poucos projetos, pouca ambição e vontade infinita de ser nada. E isso dá um trabalho…
Textos relacionados
November 27th, 2009 §

Hoje eu sonhei que morria. Quer dizer, mais ou menos. Sonhei que estava numa empresa – era a atual, mas não era, era com as pessoas com quem trabalho, mas não era… entende? – e as pessoas eram chamadas pelo RH e nunca mais voltavam. Eram demitidas, sabe? Começou pelo meu coordenador, depois minha gerente, meu diretor e a galera que estava em volta de mim.
Daí eu saí da sala para ver o porquê de terem parado de nos chamar e entendi que a empresa para que eu trabalho(ava) tinha deixado de existir uns dez anos já. Não tinha ninguém mais lá.
Acordei descobrindo que estava morto. De novo.
Textos relacionados
November 10th, 2009 §

Charile Brown
E o menino me contou que fazia tempos que não se apaixonava e que o motor de sua vida era a paixão. Não se encantava mais com poer do sol ou o seu renascer, doze horas depois. O verão desanimava-o e o inverno trazia as lembranças de uma infância feliz.
E era essa a chave que cerrava o mistério de seu cenho torto e anguloso: fora uma criança tão bela, tão feliz mesmo nos anos de chumbo, mesmo no calor do méier dos anos setenta, mesmo na pouca grana e nos brinquedos comprados com muito suor pelos pais e avós.
Mesmo na miopia que impedia que soltasse pipas, ele ficava imaginando-as voando e os outros meninos nos telhados correndo por uma aventura de papel, linha e varetas de pau, duelos em pleno céu azul sobre zinco e telhas quentes. Depois o salto para o asfalto e a corrida com chinelos destruídos por conta do chão que turvava o ar. Ele olhava e imaginava e invejava e rezava pelo outono.
E o menino vivia um idílio de céus cianos e amendoeiras e marimbas e piões e bolas de gude. Tinha desenho animado em tevê branco e preto, tinha globinho supercolorido e leite com café e pão molhado. Tinha sorvete em lata redonda e picolé de limão quando ia à praia.
Um certo dia ele entrou na escola e viu a menina de olhos azuis. Naquele momento algo morreu dentro dele e explodiu em sonhos de gente grande. Queria ser pai, marido e cientista. Queria ser inventor, rico e andar de mãos dados com a moça loira de olhos azuis. Apaixonou-se.
Os sóis que nasciam ou se punham não mais faziam sentido, as pipas ficaram turvas e desfocadas, as bolas de gude, bobas e as crianças da rua, enjoadas. A aula ficou mais interessante e a horas se esticavam entre os olhares de soslaio da menina. Que obviamente nunca lhe deu bola.
Mas não importava. O frisson de sentar a uma carteira era o que movia o seu querer dali para frente. Viciou-se em paixão.
Textos relacionados
September 25th, 2009 §
Quando disse que não tenho sonhos, equivoquei-me. Tenho alguns sonhos sim, afinal não controlo meu subconsciente e sabemos todos que somos mais instintivos que racionais, mais emocionais que conscientes, mais sinestésicos que literais. Tenho-os, mas os renego como filhos bastardos (e olhe que eu entendo bem o que é ser um bastardo), como esquecidos e abandonados que é o que são na verdade.
O fato é que não me importo com sonhos, mas com o real. O que é palpável e realizável me é muito mais interessante que o imaginável, que o impossível.
Me espanta a falta de espanto das pessoas com o mundano, o real.
Da mesma forma que não preciso de sonhos, não preciso de deuses, espíritos, anjos, rezas. Entendo o seu porquê, confio em sua prática e na sinceridade de quem pratica. Até estudo com atenção uma ou outra coisa. A forma de pensar, a língua, a mitologia de cada expressão de fé me encanta. Me encanta como realização da vontade, do querer.
Não preciso de sonhos da mesma maneira que não preciso de um Deus. Minha vida é a minha guia. Minha cabeça, minha moral, minha ciência.
Textos relacionados
September 20th, 2009 §
As pessoas olham com dó para mim quando eu digo que não tenho mais sonhos. Eu não sonho, cacete, sonhar é para adolescentes ou para iludidos. Ou eu faço ou deixo quieto, não fantasio. Deixem-me em paz com a minha resignação plácida e a minha morbidez alcóolica.
Arranquei os meus últimos junto com os meus dentes de siso.
Textos relacionados
July 20th, 2009 §
Sete anos atrás escrevi algo sobre reencontros, sobre a estranha emoção que me tomou quando revi aquele punhado de conhecidos que um dia foram meus amigos de convívio diário, das sete da manhã às cinco da tarde. Hoje entendo um pouco melhor o que me tomou ali, misturado às lágrimas e ao álcool quente, choco e abundante.
Era apenas inveja.
Dentre esses meus amigos de outrora, alguns dividiam as dúvidas adolescentes (as minhas e as deles); outros, as conquistas; pouquíssimos, o exemplo; nenhum, a companhia. Mas isso não é incomum. A escola proporcionava a troca exaustiva entre nós, mas nenhuma escola ensina a pegar a mão quando se quer bem a alguém, a comemorar com alegria legítima quando um amigo consegue um feito desejado, a chorar quando um ente querido se vai ou a dar força quando alguém corteja o abismo.
Isso, a vida é quem ensina, nós nos ensinamos.
Vi alguns conhecidos se perderem pro tráfico, pro crime. Outros, ficaram poderosos ou ricos. Um ou dois desapareceram dos nossos radares ou já terminaram sua história entre nós. E a maioria sobrevive nos empregos de classe média alta conseguidos por conta da excelente formação dada pelo CAp UERJ nos proporcionou. Não creio que tenhamos colegas que passem fome ou estejam em situação de dificuldade extrema. Ao menos isso. Mas era esperado, dada a elite que se formou ali
Sempre me senti uma farsa entre esses meus amigos. Nunca fui espetacularmente bom em nada, nunca fui bom aluno, atlético, simpático ou político. Era bobo, fato, e graças a isso sobrevivi a mim mesmo, por não levar a sério o que me rodeava ou a mim mesmo. Assim, podia fazer graça da minha feiúra, da minha magreza, das minhas sucessivas falhas e derrotas.
Sempre me senti só, isolado ante a turma de semideuses. Cada um de nós era “doutrinado” a ser o melhor dentre os iguais, a ser o mais inteligente, o mais culto, o mais interessante. O mundo estava com as portas abertas para nós e iríamos ser os arautos de um mundo novo que se aventava à frente. Éramos os sonhos e esperanças dos nossos professores. Dos nossos mestres. Ou éramos a escória. Sempre me senti mais confortável entre os derrotados, entre os desqueridos. Talvez porque ali a minha parca chama esquentasse um pouco mais o meu enorme ego. Mas me desvio do que pretendia, que era falar do reencontro em si.
No dito evento estavam pessoas com histórias – centenas, milhares de histórias – para contar e eu com tempo nenhum para sentar com cada uma delas e ouvir o que tinham a me dizer, pessoas que eu queria ter tido mais contato ainda no colégio, mas que flanaram na festa – com razão, éramos muitos – e eu não consegui trazer para a teia da minha vida. Enfim, pessoas que já fizeram parte de mim e eu não consigo deixar de sentir um nó no peito ao saber que deixei-as ir embora. Talvez porque seja custoso, muito custoso, admitir que sou uma farsa. E que eu já estou velho demais para rir das minhas máscaras. As velhas, mal ajambradas e desgastadas máscaras da minha vida.
Saí, pois, à francesa para não desmontar no meio do salão.
Textos relacionados
May 18th, 2009 §
A casa da minha alma é pequena. Nela, cabem umas poucas lembranças, um cálice vazio e um farrapo de vontades gastas pelo tempo. A alma ocupa um canto iluminado pelos sóis de inverno. Tem janela para um quintal de grama verde, onde ela pode se deitar e brincar de desenhar nuvens. Por vezes, cochilar na rede que prende às paredes. É onde ela se lembra de onde veio e para onde irá.
A casa dos meus sonhos é um campo aberto. Não é casa ou teto, mas horizonte infinito, sol a pino e nuvens escarradas no ciano cinzento. A casa dos meus sonhos tem um vazio ensimesmado, um nada indefinido, uma ausência de ser. Ela se insinua, mas inexiste. Como um desenho abandonado. Ninguém mora lá.
A casa dos meus desejos é um pássaro migratório. Mora em calendários, pousa em meses, cria ninhos em semanas, cisca nos dias, come nos feriados vermelhos. Ele existe no ir e vir, sempre em movimento. É filho das horas e das efemérides. Eu o alimento com os segundos que roubo do relógio.
A casa do meu futuro foi erigida em nuvens sem pé de feijão. Ela é feita de desenhos animados e de cores acachapantes. Os amigos do futuro são caricaturas de gente e eu os conheço vidas a fio. Eu acredito em suas histórias que me são enviadas em cartas de tarô. Desenho a casa em mapas astrais e traço seus contornos em trígonos, quadraturas e sextis.
A casa do meu exílio tem verão todo dia e inverno para o sono. Tem uma cama quilométrica e uma rede com paisagem de concreto e luzes. Uma lua safada me visita quando chego do trabalho e me ilude com promessas de carinhos. O exílio não é local de carinho.
A casa do meu trabalho é vizinha da alma. Sólida como chumbo, negra como o medo, fria como o beijo de quem não te ama mais. Não tem portas. Não tem janelas. Não tem saídas. Ela é carregada como um casco, uma corcova de gente. Meus dias se passam ali dentro. Algumas noites também.
A casa da minha mãe tem a mãe da mãe e a filha do filho. Já teve minhas lembranças, meus prazeres e o meu acalanto. Hoje tem conversas e uma longa espera pelo fim. É uma casa de cura, ainda que essa venha de forma inesperada. É onde podemos dormir à tarde e sabemos que alguém nos guarda à porta. Ninguém fica com fome na casa da minha mãe.
A casa da minha esposa tem o meu nome prometido e a promessa de um futuro. É feita de paredes arranhadas e a derradeira tentativa de felicidade. Sair dali é entregar-me àquilo que não quero mais ser. Toda semana parto com a esperança de retorno. Toda semana volto com a esperança de ficar.
A casa das minhas casas tem chaves gigantes, seis cores de duração e uma sombra eterna.
Textos relacionados
April 27th, 2009 §

vida besta - galvão
Textos relacionados
April 7th, 2009 §
Hoje eu li um texto de um amigo que normalmente escreve umas boas piadas que me pegou na virada da esquina. Normalmente ele disserta sobre política, futebol e nerdices afins com uma verve de humor rara. Sarcasmo e ironia de primeiríssima qualidade saem daquelas páginas virtuais e tinta digital.
Mas o puto me manda um texto desconcertante. Uma narrativa inteligente, brincalhona, excepcional e única. O sinal definitivo que o cretino tem um talento inegável e se ele quiser – apenas se ele quiser – se tornará um dos maiores cronistas/contistas/escritores desse país.
É foda ver algo tão raro acontecer ali, na tua frente, na mesa do boteco. Sentir o cheiro da história acontecendo. É de uma violência incomensurável, como se fosse um tapa na cara que ecoasse por meses a vir.
Mas isso até agora não tem nada a ver com Watchmen, exceto o fato que esse mesmo calhorda não tinha lido os gibis até bem pouco tempo – e ele se dizia fã de HQs – mas foi ver o filme com afã de fã, de quem cresceu lendo Alan Moore e tendo sonhos lisérgicos a partir do mofo acumulado em páginas de quadrinhos da Editora Abril e um paralelo forçado que tento fazer.
Quando Watchmen foi anunciado, eu fiquei com os cabelos do pescoço (e até o rego, confesso) arrepiados de expectativa pela estréia. Era um dos meus ícones quadrinísticos migrando de mídia. Já tinha gostado de V de Vingança, mas o tom lírico-anarquista do gibi havia se perdido. Havia amado a versão do Homem de Ferro e gostado muito do novo Hulk (o último filme, o que se passa no Brasil) e achado que finalmente acertaram o tom nos dois Batmen.
Mas treino é treino e jogo é jogo, né? Watchmen e The Dark Knight Returns são quadrinhos-marco da arte seqüencial e, mesmo tendo outras obras que inovaram mais, tiveram melhores roteiros, melhores artes, venderam mais e etc., essas duas sintetizam tudo aquilo que os quadrinhos deixaram de ser nos anos 80 e passariam a ser nos anos seguintes (até voltarem a ser o que eram nos anos 70, mas isso é outro assunto, outro texto, outro blogue).
Quando um quadrinho (ou peça, ou romance, ou canção) migra de mídia e vira filme/série de televisão/desenho animado é esperado que haja concessões na história, no visual e no ritmo da coisa. No caso, comprimiu-se material suficiente para uma minissérie da HBO em quase três horas de filme e – na minha modesta opinião – tivemos um resultado espetacular.
Humor na hora certa (na mais ridícula possível), referências quadrinísticas mantidas e respeitadas, personagens reconhecíveis até na sombra e o grau de suspensão de realidade necessária para o tema. Mas isso não torna o filme genial ou brilhante. O Watchmen, the movie é apenas um puta filme de heróis que tentam salvar o mundo. As discussões, as viagens, os conflitos emocionais, as nuances suaves? Que fiquem no papel, onde funcionam bem melhor que na tela.
O paralelo? Ah! É quando uma pessoa sai da caixinha para fazer algo diferente corre seus riscos. Corre o risco de ser genial.
Textos relacionados
January 20th, 2009 §
Eu tinha um sonho, quando tinha dezoito anos. Nos dezoito anos que eu tinha, sonhava em ter trinta e muitos, filhos poucos e histórias. Várias. Eu tinha dezoito anos quando meus sonhos foram devorados.
Hoje tenho o que sobra dos sonhos, o que resta da esperança de vê-los de pé, sorrindo e tomando vento e sol e maresia e dizendo que o mundo é deles. Hoje me sobra o que tenho de lembranças de quando eu era maior e melhor e perfeito e tinha as verdades do mundo dentro de mim.
Textos relacionados