March 11th, 2010 §
Eu estava há tempos para contar essa.
Um amigo me conta da moça que fez a corte e o arrebatou. Arrebatou naquelas, né? Ela é bonita, inteligente, culta, divertida. Tinha lá os seus quês e senões que toda mulher quando passa dos trinta e cinco amealha pelos homens da vida. Tinha-os e não escondia. Sinal de que sabia onde pisava e que já havia pisado por esse caminho várias e várias vezes. Aí gostou do cara e partiu para a decisão: “bora se querer!“
Obviamente, um homem, do sexo masculino, heterossexual praticante, convicto e disponível não teria como resistir a tal oferta. Foi surpreendido, logo de cara, com a iniciativa da moça. Ela sabia o que queria e – aparentemente – era o mesmo que ele. Daí não teve dúvida, só havia a tecnicidade da coisa. Tinham encaixe, tesão, afinidade, papo mas algo pintava e não havia finalização. Na quinta vez que se pegaram loucamente, uma surpreendente, prematura e indesejável visita de Francisco interrompeu o desejo da moça que não fazia uso de lazer na maré vermelha. Fato, sempre tinha algo para atrapalhar.
A moça começou a achar que era com ela o problema, que era desencanada demais, que ”quem mandou querer dar uma de homem e cantar o moço“ e tal. Ele, que era um azarado, que fazia tempo que a horta dele não chovia tanto e ele ali, amarrado com a moça que não queria descer, mas não dava de jeito e maneira. Aí foram esfriando, esfriando e deixaram a coisa ali de lado.
Mas o moço virava as noites pensando na história que não tinha terminado, nas possibilidades, nos ”e se…“. Certa feita, eles se esbarram nos bares para solteiros com mais de trinta e a tensão era visível. Inadvertidamente, ele pergunta se ela ainda pensava nele. Obviamente, não. A fila anda e o caixa é rápido, né?
E ele foi para casa remoendo mais que antes.
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September 29th, 2009 §

tirei daqui.
Outra coisa que não entendo é esse medo bobo de perder alguém antes mesmo de começar alguma coisa com ela. Algumas amigas se queixam que não entram em um relacionamento porque têm medo de se machucar, que podem se ferir muito no processo e preferem abrir mão disso. E quem disse que relacionar-se tem algo a ver com cintos de segurança, air-bags e limites de velocidade? quem quer segurança, que fique comendo pipoca na frente da TV enquanto sonha com os romances pré-fabricados de Hollywood.
A vida, querida, queridas, é feita de cuspe, sangue, porra, suor e dor. Quem quer se apaixonar tem de ter coragem para levar porrada na cara de quem mais ama. Pior, de quem não ama, mas deseja com um tesão de largar a família e morar no mato. Tesão de abrir mão de emprego, comida na mesa e roupa lavada. De querer morar na rua com esse indigente sentimental por quem você – tadinha, tão princesinha – se apaixonou e se entesou.
A vida, minha amiga, é foda.
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September 15th, 2009 §
pós The Beatles
A música ainda ressoava nos tímpanos quando ele resoveu ligar para a moça. Os The Beatles sempre foram o seu oráculo pessoal quando se tratava de flertar ou não com a colega da faculdade, mandar ou não flores para amiga por quem sentia um tesão especial ou ligar para a ex-foda-fixa que tinha descartado no mês passado.
Bastava ouvir os acordes de “I want you (She’s So Heavy)” que entumecia-se todo ao se lembrar de Marcela. Entumecia-se mesmo. Não tinha nada de paixão ou amor ou de carinho ali. Era um tesão animal, descontrolado. Mas só quando ouvia os mesmos acordes finais da guitarra, baixos, cadentes, marciais e o John falando “she’s so heavy. heavy.”
Ele se lembrava no mesmo momento de calcinhas no chão, de cheiro de perfume caro, de camisinhas apressadas e encaixar coxas à sua cintura. Sentia a umidade permissiva na hora que ouvia as linhas de baixo do Paul e a canção tinha a duração correta para o coito inteiro. Do “oi, tudo bem” ao “deu deu, acabei”. Sete minutos e quarenta e sete segundos. O suficiente para o rapaz ver a menina virar os olhos cheios de desprezo e dizer “nunca mais, viu? nunca mais”.
Aí passava-se mais uma semana, um mês, quarenta e cinco dias, no máximo. Ele colocava Abbey Road no tocador de emipetrês e pronto. Mais uma vez, mais uma vez.
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September 8th, 2009 §
Nunca entendi quem gosta de separar definitivamente, entre dois mundos à parte, duas coisas: amizade e lascívia. Quer dizer, não que ambos venham acompanhados sempre e absolutamente juntos, mas que achem impossível a convivência pacífica dos dois.
Claro que esse problema – na minha humilde opinião – afeta quase que exclusivamente as mulheres. Homens tendem a separar (e misturar) afeto com tesão desde priscas eras. Aliás, somos adestrados a querer sexualmente a outra (ou o outro) pelas revistas de mulé pelada, filmes pornográficos e admiração de calcinhas distraídas que se anunciam debaixo das carteiras do colégio.
Isso talvez se dê pela forma paradoxal que as mulheres se referem ao próprio ato sexual. Na mesma argumentação com um cavalheiro, a dama irá se referir ao ato em si como “apenas sexo” e como “isso aqui” – apontando para as áreas púdicas – “não é para qualquer um”. É a síndrome que eu chamo de buceta cara/buceta barata.
Explico. Uso o termo crasso buceta (ou boceta) para tornar a coisa ridícula porque, em essência, não faz o menor sentido o processo. E uso o binômio cara-barata para ilustrar a contradição em termos.
Ilustro em caso.
Rapaz aborda a menina. Ela é sua conhecida, talvez uma amiga. Há tensão sexual do lado da menina. Há clara e declarada do lado do rapaz. Resolvem sair juntos. Ele aborda a menina. Ela diz “mas você só quer sexo comigo”. Ele diz “como assim sexo é ‘só’ sexo? Sexo nunca é só. É algo mais, é completude, é o carinho definitivo, o beijo mais íntimo e o afago mais descarado. Nunca é pouco.”
Ela pensa, bebe uma cerveja – talvez uma tequila, se o mancebo for ardiloso e inescrupuloso – e diz: “eu não sou qualquer uma. Eu não transo com qualquer um. Eu me valorizo, sabe?”
Quantas vezes não vimos essa cena? Então a menina tem um grande valor e o sexo em si é pouca coisa?
Nunca consegui entender o conceito de “sexo estraga a amizade”. Sé é algo sem valor, então qual a diferença entre um beijo na bochecha e o sexo? Se é algo valiosíssimo, que mantenhemos a virgindade acima de tudo e até o casamento, certo? Mas não é o que se pratica. As moçoilas preferem ser iludidas pelo príncipe em armadura reluzente que se revela um cretino a transar com o amigo que está ali, ouvindo as mazelas diurnas – e noturnas – da outra.
De outro lado, entendo quem não quer nenhum tipo de intimidade com os amigos. Que o limite da intimidade com o alheio é o beijo no rosto. Mas essas não abrem sua necessaire emocional para outros, para o conselho, o desejo e o querer do amigo do lado.
Ou talvez eu esteja redondamente enganado e não passe de um cretino. Mais um cretino.
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July 1st, 2009 §
Escrever sobre o ato é um artifício que o cronista lança para enganar a si e ao seu patrão (o leitor não conta, a função do escritor é iludir quem lê e fazê-lo achar que o seu causo é o mais interessante, o mais relevante, o mais inteligente ou qualquer outro superlativo que lhe venha à mente), mas que vira e mexe temos de fazer uso para garantir a matéria no jornal, a coluna na revista ou o afago do leitor do blogue. Então, para comemorar um mês e uma semana sem atualizar esse espaço, segue a minha enganação da vez.
Afinal de contas, sou uma farsa.
—
Muitas vezes me pergunto o porquê de ainda insistir em escrever. Já disse antes que não é piti de atualizar blogue ou frescurite de writer’s block, mas é que a vida às vezes nos leva para alguns cantos que não esperamos, um retorno não programado à casa, uma tomada ostensiva do teu tempo vago por jogos digitais, listas de discussão que te arroubam a verve, coisas assim.
Uma vez disse que escrevo não porque quero, mas porque é impossível deixar de escrever. Isso foi em outra época – um surto e meio atrás – onde a minha necessidade de me expressar era mais urgente. Uma necessidade de eu me entender comigo mesmo para mim. Saca? Pois bem. Eu não.
Fato é que deixo de escrever hoje facilmente. Passo meses sem ter necessidade. Pelo menos em escrever aqui. Quando penso que tenho dois livros na fila (um iniciado, outro no rascunho), uma peça para finalizar e muita, mas muita coisa para fazer de nove às dezenove, desanimo. Mesmo.
Disse uma vez – não aqui – que ler um livro como “Guerra e Paz” era um ato anacrônico. A vida moderna te rouba tempo demais para que consigamos devorar seiscentas e poucas páginas como se fosse um folhetim. Somos mais diáfanos e efêmeros que nossos bisavós. E somos mais rápidos, lépidos e fagueiros também. “Seiscentas páginas? Só se tiver gráficos e organogramas e mancha de texto com corpo 16 sobre 18”. (Antes que me batam, não acho isso bom. A nossa sociedade precisa reaprender o valor do freio, da marcha-lenta. Mas não vou ser eu que irei ensinar. Deixo para os enfartados aos trinta que aprendam a lição.) Quando me dou conta que ler mil páginas é impossível para mim hoje, penso logo: “Como esse puto (o autor) conseguiu escrever esse calhamaço? E com bico de pena ainda? Ele não trepava?”
Na verdade, não é questão de tempo. Afinal, tempo é apenas uma percepção. Mas é uma questão de culhão. De tesão pela coisa. Sim, o cara não trepava para escrever dez mil páginas. Esse tal de Autor tinha de apontar a pena, conseguir a tinta, descolar o pergaminho e escrever, escrever e escrever para caralho. Pra caralho, inclusive é a metáfora perfeita.
Agora entendo o porque da necessidade anterior de escrever como se não houvesse amanhã. É que escrever, pra mim, era como desnudar uma veia dilatada que ligava a alma aos colhões.
Era o gozo da minha essência imaterial em tinta digital manifestada.
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December 18th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Ando pela cidade debulhando sonhos. No flanar entre os prédios, acordo cada um deles como pesadelos em sobressalto e provo a tessitura ofegante das paredes invisíveis ao meu redor. A realidade é estranha aos meus sentidos e, apesar disso, cerca-me, tolhe-me e norteia, apesar do meu não-querer. Não reconheço ali, nessas muralhas erigidas pelo alheio, o amor, carinho, amizade, conforto, alento ou realização dos despertos. Não entendo os seus desejos de sucesso, grana e poder.
Meus sonhos são bem mais simples.
Eu insisto em acreditar em carros voadores e em três horas de trabalho diários que dignificariam o homem do futuro. Queria eu ser esse homem do futuro, ser do mesmo jeito que me foi prometido um dia. Ter uma casa que voasse e férias em Vênus. Robôs que limpariam os quartos e me passariam as roupas e toda essa parafernália infantil. Eu sonhava com essa vida de preguiça e deslumbre com o próprio homem.
Decido, num espasmo de consciência, fazer uma casa só minha. No meio da cidade, entre os espaços do asfalto e do concreto que racha com o calor tropical. A minha cidade que abriga, nutre e castra. A minha cidade que tem o horizonte tapado pelos sonhos empilhados de vidas fragmentadas. A minha cidade que faz suar e chorar.
A minha casa será feita de sal. Do sal que verte das lágrimas dos frustrados, dos desiludidos, dos conscientes, dos desamados. Do sal que é extraído do suor dos competentes, dos esforçados dos jovens que ainda alentem as esperanças da vida e do porvir. Do soro dos que pensam, dos que sonham, dos que ainda gozam a vida que resta entre o ir e vir e o descanso injusto.
De cada quinhão desse sal, forjo tijolos. E cada tijolo tem um nome de amor perdido, de um sonho desfeito ou de projeto malogrado. Cada tijolo é uma alma remoldada e que grita pela vida que poderia ter tido, mas abandonada pela torrente inexorável da vida. Cada tijolo é um grito. E a cidade que guarda a minha cidade de sal berra em uníssono com ela.
Cada tijolo monta a parede da minha casa de sal. Cada parede, um clã que encontra ali a materialização de seu desespero atávico. Cada esquina, cada canto de sala, um lamento do que nunca será, por conta da vontade alheia. Por conta da falta de força de caráter. Por conta da falta de tesão consigo próprio.
Cada demão de tinta nas salas, nos portais, nas janelas e nos vitrais será de sal.
Sal tirado das placentas dos natimortos, sal tirado do vômito dos iludidos, sal extraído dos corpos dos que ficam pelo caminho. E nós passamos – não negue! – sem nos abalar por esses perdedores que só servem para reforçar a nossa pífia e medíocre jornada pessoal.
O que seria da minha casa sem os que caem pelo caminho?
Pois desses, tiro o couro – que vira cortina, coberta, tapete e estofo – e tiro os ossos - que viram alicerce, umbral, rodapé e porta – e tiro os órgãos – que viram móveis, eletrodomésticos e enfeites de luxo que me decoram a parede de sal e bile.
O que seria de minha cidade se cada tijolo de sal não cobrasse o seu quinhão em suor, lágrima ou desamor?
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November 20th, 2007 §
Distraído, olhava para o prato e não via que ela me cortejava. Cortejava não, que é brega. Me azarava, me secava, me comia com os olhos. Tentava chamar minha atenção com um vai-e-vem de pernas incessante, expunha o decote que mal escondia os peitos fartos.
Esfomeado, pedi a comida e o suco. Ela se contorcia de tesão, falava alto sobre a falta que lhe fazia um pau. Que os caralhos amigos estavam viajando ou enrolados. Que não tinha mais homem nessa cidade, que precisava mandar vir do estrangeiro. Que eles é que sabiam lhe comer de verdade.
Resignado, pedi a sobremesa e a conta. Ela se emputeceu. Veio até à minha mesa e se declarou. Deixou a vergonha e a compostura para as amigas que, divertidas e animadas, pediam mais uma Serramalte para se juntar às tantas outras já esvaziadas. Abriu a calça, passou a mão nos pelos e na boceta e esfregou o seu cheiro na minha cara. Vem me comer, porra! Olha o jeito que estou.
Excitado, paguei a conta.
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August 1st, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Nunca entendi o sentido dos reencontros.
Não que sejam ruins, entenda-me, mas essa vontade de tentar reviver um sentimento passado é estranha para mim. E não que eu não sinta isso vez por outra, muito pelo contrário. Essa é quase uma constante na minha vida.
Sou um saudosista declarado e assumido, ora bolas!
Mas é como uma febre que não abandona um corpo doente. Ou como um cisco que teima em lacrimejar o olho descuidado. É assim que me pego querendo reanimar uma história que já estava morta. E, veja bem, morta não por minha opção ou de qualquer outra das partes envolvidas. Mas porque tinha de ser desse jeito. Nem todos os casos dão certo ou todos os relacionamentos perduram.
Aliás, relacionamentos estão sempre fadados a acabar. Tolo é quem teima em manter vivo o defunto declarado e anunciado como morto.
Por vezes é bom rever as pessoas que, em algum momento de suas vidas, se distanciaram e traçaram os seus próprios caminhos. É uma questão de tentar reaver de onde viemos, de onde pertencemos e traçar paralelos equivocados sobre nossas próprias vidas.
Às vezes o reencontro tem um sabor de café, bolo e papo bom e faz começar uma história nova com os mesmos personagens em outras histórias, com papéis diferentes. Um casal de ex-amantes torna-se amigos e sinceramente preocupados um com o outro, numa forma diferente de amar. Nesse caso o reencontro é apenas pretexto para uma história nova. É a vida se manifestando no momento do culto ao passado.
Porque a vida é isso: é a celebração do porvir, do devir universal. A vida é potência que se manifesta sem traçado aparente.
Mas o humano é o oposto disso. Nós somos reflexo do passado, retrovisores de nossas próprias histórias e gostamos de remoer, ruminar e macerar o que aconteceu há anos passados. Poucos de nós conseguem olhar para o horizonte e enxergar que ali é o seu lugar. Temos a tendência, novamente, equivocada de achar que o passado era melhor, que aos quinze, aos vinte ou aos vinte e cinco é que éramos felizes. Pobres de nós! Nos negamos a felicidade aos trinta, trinta e cinco e aos quarenta.
Mas tergiverso. O caso é que os reencontros são esquisitos. Ex-amantes não sabem onde colocar as mãos ou o tesão, ex-colegas não sabem que confidências são mais pertinentes ou que intimidades o novo código à mesa pede que sejam deixadas para depois da sobremesa. Pessoas que reconhecíamos como os braços e olhos e ouvidos estendidos de nós mesmos agora titubeiam em contar um projeto novo ou em anunciar o filho que está a chegar.
O que entristece nesses reencontros é que as pessoas mudam. Elas envelhecem no mesmo passo que você. Os cabelos brancos podem ser escondidos, mas as rugas da alma são indeléveis. Não há tintura para esconder a carga de passado que cada um carrega. Aquela imagem congelada do passado há muito já não corresponde à realidade e só tu é que não se apercebeu disso.
E eu me pego pedindo para que alguém tenha saudades de mim.
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July 2nd, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Algumas manhãs simplesmente não deveriam existir.
O sol que emoldura os que passam na rua fere a minha retina e amplifica o que a cidade tem de mais sórdido, decadente e desprezível. O ar, cuja umidade faz doer a faringe a cada inspiração, carrega as lembranças das cervejas mijadas nas esquinas e nas pequenas barracas esquecidas. Esse ar de banheiro a céu aberto é o que chamam de diversão os tolos e os incautos que azucrinam a paz das prostitutas e travestis que tentam ganhar a vida da forma mais antiga e honesta. Esses arautos da indústria do entretenimento é que me ensinaram a odiar os homens.
Irritam-me os vadios que comungam com a displicência que aplicam a si mesmos ao se entregar às indulgências hedonistas das noites e garrafas viradas. Não pensam no futuro e se alijam da realidade em torno de si, fugindo da dor que é enxergar o mundo com lucidez. Covardes! Mas me irritam mais os sóbrios que apontam rijos dígitos os pecados que gostariam de estar cometendo naquele exato momento. Irrita-me a inveja que os move a boca, a língua e ao defunto que se supunha estar enterrado dentro de suas cuecas.
Enervam-me os parvos que são incapazes de entender as verdades mais simples, apesar de todos os esforços de se levar à compreensão. Mesmo que o universo viesse em pessoa e lhes ensinasse o bê-á-bá cósmico, esses néscios continuariam a crer nos seus livros datados, nos seus saberes embolorados, nas suas personagens sem vida ou brilho. Porém, não me enervam tanto como os esclarecidos que têm a pachorra de ousar entender os mistérios das coisas, de destruir o encanto do que é arcano, transformando em retórica e lógica estéril uma poesia milenar. Esses ousam ser capazes de resumir o mundo a meia dúzia de linhas e chafurdam no próprio academicismo.
Enfurecem-me os intolerantes. Não entendem o outro lado, não conseguem se dar o benefício da dúvida e são portadores das certezas da vida. Grasnam que, se lhes ouvissem, as coisas dariam certo, funcionariam melhor e o mundo seria um novo Éden. São os donos da razão e nunca se enganam em coisa alguma. Opinam sobre tudo e são absolutos. Contudo, pior são os que não têm certeza alguma, imersos na dúvida. Para esses, o “tanto faz” é o refúgio definitivo do esforço de criticar.
Transtornam-me os artistas que acham que são gênios. Com esses eu sequer argumento já que são incapazes de ver além do palmo à frente de seu ego. Eles não têm a capacidade de entender o outro e o público é que tem de se dobrar para compreendê-los. Esquecem-se que sem a platéia, sua obra é inócua, estéril, anaeróbica. Mas o que me transtorna mais são aqueles artesãos da opinião subreptícia, os mestres dos clichês e da cultura de consumo que ousam chamar de arte a sua cópia de quinta de uma idéia de terceira. Esses ganham prêmios e salários.
Desespero-me com essa corja humana que me cerca, pois enxergo em cada um deles um pedaço íntimo de mim mesmo, como se fossem um retalho de minhas essências. Cacos reflexivos de uma imagem que sofro em negar a cada manhã que não deveria existir. Imagens que não deveriam ser reproduzidas.
Pois eu já quebrei os espelhos da minha casa ao acordar.
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October 27th, 2006 §
publicado em LIVinRooom
publicado na Tribuna da Imprensa.
Chicão era um negro arretado: alto, forte, esguio. Sedutor como poucos, sabia achar o caminho para a alma e as pernas das moçoilas desavisadadas de Ipanema, Leblon e adjacências. Arrebatava corações e demais partes da fisiologia feminina de Tijuca, Estácio, Lins, Rio Comprido e cercanias da Praça da Bandeira. Flertava com as meninas boêmias de Botafogo e Flamengo e encantava as radicais da Lapa e Centro da Cidade. Era desejado pelas putas da Avenida Atlântica e tinha um lugar cativo no coração daquela beldade do Leme.
Apesar de transitar por tal repertório ele era, acima de tudo, um romântico.
“Porra Chicão, tu tá na fossa de novo?” “Deixa o cara, Gordo! Tu não pode ver o negão triste que vai logo tirar uma com a cara dele!” “Aí, Grande! Tu não se mete no meu assunto com Big Chico que fico na moita com aquele probleminha que tu sabe…”
Gordo era um dos amigos mais antigos de Chicão. Uma característica engraçada de Gordo é que ele não dizia, quando chegava o momento, que “tinha amigo(s) negro(s)”. Sabe naquela hora que alguém vai fazer um comentário neo-eugênico ou pró-discriminação e fala: “mas isso não quer dizer que sou racista, eu até tenho amigos negros…” Pois é. Gordo não tinha amigos negros ou viados ou chineses. Tinha amigos. O fato de Chico ser negro ou do Burro ser judeu eram meros complementos. Como o pau pequeno do Grande.
Se conheciam de peladas na praia desde os doze anos. Gordo até fazia um esforço para jogar alguma coisa na adolescência, mas descobriu que ser amigo de Chicão garantiria o efeito desejado sem ter o suadouro de correr sob a Lua de quarenta graus. Saca os abutres que ficam acompanhando os grandes caçadores? Era essa a tática que Gordo usava. Como Chico não podia comer todas ao mesmo tempo, ele ficava com as “sobras” do negócio.
Perderam o contato quando foram para a universidade. Gordo foi para a Cândido enquanto Chico foi para Havard com bolsa pelo desempenho na escola Americana. Depois foi fazer o mestrado em Marketing na UCLA com grana que economizara do seu parco salário de cinco dígitos numa das big five de consultoria. Voltou rico de investimentos feitos na bolha das pontocom e vivia de rendas em Euros no país do Real.
“Falaí Chicão. Que foi dessa vez?” “Pô Gordo, tô na merda.” “E como pode isso?” “Porra cara! Eu não aprendo. Tá ali a menina. Na minha frente. Linda, linda, linda.” “Já sei, cara… conheço bem essa história.” “Que história, galera? Sévys, desce um chope para mim. Escuro. Qual é o assunto da vez?” “Sentaí, Burro, e cale a boca. Chicão tá apaixonado e broxou na hora H.” “Não porra! Quando o negão aqui broxa, tem tsunami no outro lado do mundo!” “Péssimo exemplo, Chico.” “Verdade, Grande. Mas não tem a ver com broxada. Nem com pé na bunda.” “Não?”
Os três olharam embasbacados pro cara.
“Cara, tava tudo perfeitinho: amorzinho, carinhozinho, declarações, paixonite, vontade de ficar junto o tempo todo e tal, tesão de um lado e de outro. Tudo muito certinho, sabe? Mas aí foi, comemo-nos uma, duas, três, quatro…” “Porra, caralho! Não precisa humilhar!” “… cale a boca, Gordo! Cinco vezes. Daí banho, a menina se levanta, pega o telefone e pede a conta.”
Ninguém entendia onde o negão queria chegar
“Eu disse: ‘Poxa bem, fica um pouco comigo, dorme aqui, vamos acordar juntinhos’, E ela disse: ‘Lindão, tô só provando uma teoria.’ Caiu o meu queixo enquanto ela pediu um táxi, pagou a conta do motel e ainda me mandou a rima: ‘Paguei o restante do pernoite, Fica bem, viu?’”
“Putaquepariu! Que nego de sorte!!!” “Porra Burro, tu não tá vendo qual é o problema? A mulher usou o Chico para ser o modelo número dois de homem.” “Cara… tu tava com a Elisa?”
Chicão ficou lívido.
“Era a Elisa sim, Grande.” “Filha da puta! Tu é o tipo de homem número dois.” “Como assim, cara.” “Ela diz que a mulher tem de ter quatro tipos de homem na vida. O segundo é o Negão. O cara com o pau de seis metros e duzentos quilos que lhe dá uma sova de pica e mostra para que o Kama Sutra foi escrito. Saca o ‘Deus de Ébano’ da Fórum? Lembra? Pois é. Ela pegou um que, além de boa-pinta, é resolvido e decidiu te fazer de escravo sexual por uma noite.”
Grande chamou o garçom.
“Desce a garrafa de Nêga Fulô pra mesa que vamos ter muito pra xingar essa vagabunda!” “Puta!” “Canalha!” “Safada!” “Pô… eu não comi a Elisa…” “Porra Burro!”
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