November 10th, 2009 §

Charile Brown
E o menino me contou que fazia tempos que não se apaixonava e que o motor de sua vida era a paixão. Não se encantava mais com poer do sol ou o seu renascer, doze horas depois. O verão desanimava-o e o inverno trazia as lembranças de uma infância feliz.
E era essa a chave que cerrava o mistério de seu cenho torto e anguloso: fora uma criança tão bela, tão feliz mesmo nos anos de chumbo, mesmo no calor do méier dos anos setenta, mesmo na pouca grana e nos brinquedos comprados com muito suor pelos pais e avós.
Mesmo na miopia que impedia que soltasse pipas, ele ficava imaginando-as voando e os outros meninos nos telhados correndo por uma aventura de papel, linha e varetas de pau, duelos em pleno céu azul sobre zinco e telhas quentes. Depois o salto para o asfalto e a corrida com chinelos destruídos por conta do chão que turvava o ar. Ele olhava e imaginava e invejava e rezava pelo outono.
E o menino vivia um idílio de céus cianos e amendoeiras e marimbas e piões e bolas de gude. Tinha desenho animado em tevê branco e preto, tinha globinho supercolorido e leite com café e pão molhado. Tinha sorvete em lata redonda e picolé de limão quando ia à praia.
Um certo dia ele entrou na escola e viu a menina de olhos azuis. Naquele momento algo morreu dentro dele e explodiu em sonhos de gente grande. Queria ser pai, marido e cientista. Queria ser inventor, rico e andar de mãos dados com a moça loira de olhos azuis. Apaixonou-se.
Os sóis que nasciam ou se punham não mais faziam sentido, as pipas ficaram turvas e desfocadas, as bolas de gude, bobas e as crianças da rua, enjoadas. A aula ficou mais interessante e a horas se esticavam entre os olhares de soslaio da menina. Que obviamente nunca lhe deu bola.
Mas não importava. O frisson de sentar a uma carteira era o que movia o seu querer dali para frente. Viciou-se em paixão.
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October 19th, 2009 §
Eu não gosto de Jazz. Minto. Adoro Jazz. Não gosto é de quem arrota Jazz como se fosse atestado de nobreza urbana ou de quem diz que adora o estilo e vomita nomes, discos, movimentos e músicas como se mijasse uma linha intelectual que separa os geniais e a mediocridade mundana média regular. Obviamente, se colocando no lado de lá. É o mesmo povo que gosta de desbancar os standards, os gênios consagrados apenas pelo choque ou para se destacar da “massa ignara” ou da massa de manobra cultural.
Se confundem a esses os “apreciadores de charutos cubanos” que gostam de ostentar os caros cilindros de tabaco enrolado em locais inusitados, como botecos apertados e caixas de supermercado, ignorando que há local, hora e sentido para prazeres caros e que os maiores e mais deliciosos tendem a ser praticados no isolamento de seus lares, sem atentar ao acinte que é brandir para um transeunte – normalmente um empregado do recinto – uma fortuna virando fumaça ante os olhos tristes de quem ganha o bom e velho salário mínimo.
Não gosto de Jazzistas, de charuteiros, de enólogos, cinéfilos, teóricos de teatro, críticos de cinema, de teatro, de tevê, publicitários, marqueteiros, fãs de quadrinhos, de errepegê, de mídas sociais, de internet e nerdices, de filmes de animação, de mangazeiros, fanzineiros, não gosto, não gosto, desgosto.
Essa gente toda que deveria sair de casa num sábado e caminhar na chuva de verão, andar descalço no chão molhado, chapinhando a sola do pé no asfalto que transpira a água recém-chegada ou correr até se estabacar na grama úmida, ensopada de tanto céu na terra. E depois se levantar sorrindo, dos arranhões no joelho e vendo que a vida é feita de dor e de cheiro de ozônio e de cabelos desgrenhados e suor, muito suor, e com as Quatro Estações, de Vivaldi, como trilha sonora.
Na verdade, na verdade mesmo, eu não gosto é de gente que não anda de bicicleta com medo de cair.
O resto é rabugice minha.
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September 17th, 2009 §
Nunca mais houve um verão como aquele. As chuvas alagaram o inalagável, transformando a Avenida Atlântica num rio caudaloso e poluído. E foram dias e carnaval de chuva torrencial onde gente morria a balde (desculpem o trocadilho) e chorava os desabamentos em plena Zona Sul da Maravilhosa Cidade de São Sebastião.
Era no governo Brizola, amado e odiado por legiões, e serviu de desculpas para campanhas difamatórias e uma ação de solidariedade da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Eu estudava num colégio católico em Ipanema e me lembro vagamente das pessoas se mobilizando para arrecadar alimento e roupas, tudo sob as bênçãos de João de Deus, o Paulo II.
Da minha parte, eu me divertia era em ver as pessoas procurando abrigo nos cantos de calçada secos, como se a chuva carregasse algo mais que os restos de vida civilizada maré afora. “Essa água tem doença”, minha avó dizia, “não vai na rua que tá tudo alagado”. Eu descia para o play – sim, sou moleque de prédio, criado em pleigraundi – para andar de bicicleta, fazer guerra com garrafas e pistolas d’água e jogar Super Trunfo com as outras crianças.
Quando chove forte no verão (ou no inverno, tanto faz) me voltam as boas e felizes memórias de um refresco no calor louco do Rio, de um tempo em que as coisas pareciam ser mais simples e resolvíveis num par ou ímpar, num zero-ou-um. Que o meu anseio maior era ter uma bicicleta Brandaine e saber se o UltraSeven era melhor que o Spectreman.
Apesar das mortes e das varejeiras que vinham do morro atrás do meu prédio. As vidas que iam, as tragédias, vindas da mesma fonte da minha alegria. Da mesma fonte, alegria e tragédia, ventura e desgraça.
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May 18th, 2009 §
A casa da minha alma é pequena. Nela, cabem umas poucas lembranças, um cálice vazio e um farrapo de vontades gastas pelo tempo. A alma ocupa um canto iluminado pelos sóis de inverno. Tem janela para um quintal de grama verde, onde ela pode se deitar e brincar de desenhar nuvens. Por vezes, cochilar na rede que prende às paredes. É onde ela se lembra de onde veio e para onde irá.
A casa dos meus sonhos é um campo aberto. Não é casa ou teto, mas horizonte infinito, sol a pino e nuvens escarradas no ciano cinzento. A casa dos meus sonhos tem um vazio ensimesmado, um nada indefinido, uma ausência de ser. Ela se insinua, mas inexiste. Como um desenho abandonado. Ninguém mora lá.
A casa dos meus desejos é um pássaro migratório. Mora em calendários, pousa em meses, cria ninhos em semanas, cisca nos dias, come nos feriados vermelhos. Ele existe no ir e vir, sempre em movimento. É filho das horas e das efemérides. Eu o alimento com os segundos que roubo do relógio.
A casa do meu futuro foi erigida em nuvens sem pé de feijão. Ela é feita de desenhos animados e de cores acachapantes. Os amigos do futuro são caricaturas de gente e eu os conheço vidas a fio. Eu acredito em suas histórias que me são enviadas em cartas de tarô. Desenho a casa em mapas astrais e traço seus contornos em trígonos, quadraturas e sextis.
A casa do meu exílio tem verão todo dia e inverno para o sono. Tem uma cama quilométrica e uma rede com paisagem de concreto e luzes. Uma lua safada me visita quando chego do trabalho e me ilude com promessas de carinhos. O exílio não é local de carinho.
A casa do meu trabalho é vizinha da alma. Sólida como chumbo, negra como o medo, fria como o beijo de quem não te ama mais. Não tem portas. Não tem janelas. Não tem saídas. Ela é carregada como um casco, uma corcova de gente. Meus dias se passam ali dentro. Algumas noites também.
A casa da minha mãe tem a mãe da mãe e a filha do filho. Já teve minhas lembranças, meus prazeres e o meu acalanto. Hoje tem conversas e uma longa espera pelo fim. É uma casa de cura, ainda que essa venha de forma inesperada. É onde podemos dormir à tarde e sabemos que alguém nos guarda à porta. Ninguém fica com fome na casa da minha mãe.
A casa da minha esposa tem o meu nome prometido e a promessa de um futuro. É feita de paredes arranhadas e a derradeira tentativa de felicidade. Sair dali é entregar-me àquilo que não quero mais ser. Toda semana parto com a esperança de retorno. Toda semana volto com a esperança de ficar.
A casa das minhas casas tem chaves gigantes, seis cores de duração e uma sombra eterna.
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January 22nd, 2008 §
publicado da Tribuna da Imprensa
Costumo acordar relativamente cedo às segundas-feiras.
É algo já bem enraizado na minha personalidade que não consigo apagar, mesmo com o hábito de nerdar até tarde com joguinhos de computador ou em mensageiros instantâneos que me mantém em contato com os amigos e, principalmente, as amigas daqui e do Rio. Não sei quando esse mau hábito nasceu, mas acho que tem algo a ver com o meu desinteresse pelo Fantástico e o fato de eu ter de acordar às 5h da matina para ir ao colégio ainda no milênio passado.
Além desse hábito desagradável, tenho a estranha mania masoquista de insistir em sentir saudades das pessoas que passaram na minha vida. Pior. Tenho saudades de quem sequer se lembrará de mim na próxima ida ao cinema ou tomar um chope num quiosque no calçadão de Copacabana. Mas não os culpo. Como bom ariano, o meu gostar é egoísta: eu não espero que elas gostem – ou se lembrem – de mim, faço-o por minha conta e pronto! Nunca tive essa coisa de esperar retribuição de carinho, querer ou amar. Eu careço, quero e amo incondicionalmente. Nunca aprendi a agir diferente e não vai ser agora, na virada do cabo da boa esperança, que eu vou mudar o meu jeitão esquisitão de ser.
Estou com outra mania detestável. Essa, mais chique e tecnológica, me isola do mundo e dos ruídos do trânsito paulistano que me estressavam antes mesmo do expediente começar. Explico: no fim do ano troquei o meu lapetope Apple e comprei um iPod. Daí, posso agora escrever com muito mais tecnologia e processadores múltiplos as mesmas letras que escrevia antes no meu antigo iBook e a minha vida tem trilha sonora. Uma vasta, enorme e peripatética trilha sonora.
Outra coisa que estou criando nessa terra esquisita é um gostar do calor. Não estou dizendo que gosto de ver uns trinta e cinco graus nos termômetros espalhados pela cidade, mas, diabos, é verão afinal de contas! Como assim acordar segunda-feira, às 6h30min da manhã, com uma temperatura de treze graus? É insalubre isso!
Esse preâmbulo todo foi para dizer que eu estava escutando Chico no meu iPod, no táxi, indo para o trabalho, numa manhã fria de segunda-feira e resolvi tirar os olhos do meu livro do Mário Prata – Cem Melhores Crônicas – para olhar o céu e, putaquepariu, que céu! Que céu!
Como uma desgraça só nunca vem sozinha, o Chico me sussurra “Pedaço de Mim” ao pé do ouvido. Batata! Começo a soluçar como uma menina de seis anos que se perdeu dos pais e descobre que ser independente não é tão legal assim. É assustador, na verdade.
Me lembrei das pessoas que ficaram para trás na vida e eu não disse adeus. Daquelas que eu queria que estivessem do meu lado naquele momento, sentindo a brisa fria e luminosa da Faria Lima, que estivessem do meu lado – mesmo a mais de quatrocentos quilômetros de distancia – e com os mesmos projetos divididos, na minha filha que mais me ensina e que mal acompanhei os centímetros que viraram metro e sessenta e que provavelmente não verei chegar ao seu metro e oitenta.
Chorei porque eu não podia – juro! Por tudo que é mais sagrado! – descer do carro naquele instante, às 6h55min da manhã, tirar os sapatos, sentar na grama com orvalho, encostar-me numa árvore ou numa pedra e apenas curtir o céu azul de São Paulo. Chorei porque morreu dentro de mim alguém que faria isso sem pensar duas vezes na reunião que eu teria às 9h e curtiria aquele momento como se não houvesse amanhã.
Pra que, meu Deus, inventaram manhãs assim?
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January 7th, 2008 §
O carioca, além das mazelas normais dos nativos de qualquer metrópole moderna e das agruras dos brasileiros em geral, vive uma sina cruel e ímpar às demais cidades do mundo: é condenado a viver com um cenário tão maravilhoso que o torna insensível às diversas nuances da beleza.
É como se nos alimentássemos dos mais maravilhosos pratos de restaurantes da mais alta gastronomia e não conseguíssemos mais encarar o prazer de um misto quente no pão francês.
Ou algo assim.
É uma sina porque cada cidadão fica insensível ao mediano, ao mundano, ao medíocre e subitamente este se torna intolerável. Como aceitar que o máximo que teremos é uma vida mediana, uma posição mediana, um desempenho mediano? Outras cidades também impelem seus habitantes a uma frustração prévia, mas o Rio de Janeiro tem uma característica à parte.
Mais que sucesso, o carioca quer ser belo, belíssimo.
Como conseqüência, temos as legiões de barrigas de tanques e braços hipertrofiados saídos das academias que deveriam primar pela saúde e integridade física de seus associados e suas peles galvanizadas em bronze, dada a contínua exposição da cútis nas praias.
Mas até aí, os únicos que correm o risco de se ferrar nessa busca da perfeição física é o próprio estagiário de Apolo ou Afrodite. Porém a coisa é pior e mais sutil que isso.
Ante essa busca da beleza, as opções ficam limitadas. Excluindo-se o mediano, não é mais possível ter uma pele alva, ainda que saudável, e ser belo ou uma barriga expoente, ainda que feliz, e ser saudável. E torna-se heresia maior ostentar ambas em pleno verão.
O leitor pode até achar que isso é ranhetice do cronista nerd e branquelo. Mas entenda que não me magoa mais, do alto da minha meia-vida, que os meus concidadãos ainda tenham esse desejo de serem Apolos ou Afrodites e não entenderem atavicamente quem não compartilha dos mesmos princípios. Já me acostumei.
Para falar a verdade, acho até bem louvável que cada indivíduo desenvolva uma vaidade no prazer de se olhar no espelho e refletir a sua força de vontade expressa em formas que decidira conscientemente. Como um atleta que sabe que precisa de pouquíssima gordura no corpo para agüentar uma maratona ou nenhum pelo para nadar mais rapidamente.
Porém, a questão aí é a da consciência.
Novamente não culpo os demiurgos que se apresentam pontualmente às academias para as sessões de modelagem corporal. Eles são vítimas do seu meio.
Uma cidade que apresenta ao seu morador um horizonte na natureza do espelho d’água da Lagoa Rodrigo de Freitas, da enseada de Botafogo, do pôr-do-sol do Posto Nove, massacra o seu cidadão a ponto de entender que a única possibilidade de se tornar digno da – ou suportável à – beleza acachapante diária a que é submetido é se tornando espelho dela mesma.
Ou seja, o Rio transforma o seu cidadão à sua imagem e semelhança.
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September 22nd, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Eu sonhei com uma casa. Uma casa pequena, que tivesse trepadeiras de folhas verdes cobrindo toda a parede de frente. As raízes das trepadeiras carcomeriam os tijolos em que elas se apoiavam e entre seus ramos deixariam as moscas, lagartixas, aranhas, caracóis e outros animais de jardim morar. Elas também guardariam um pouco de seu frescor para liberar nos dias mais quentes de verão e amenizar o sofrimento do velho ranzinza que sentaria à sua frente com jornais que não foram lidos pela manhã e seriam a moldura e pando de fundo ideal para a cadeira de vime que teria a fôrma das ancas imensas e dos braços pesados do mau humor centenário. A cadeira e o reconheceria diariamente emitindo gemidos de aceite quando ele derramaria o seu cansaço milenar sobre o branco descascado de seu trançado.
Eu também sonhei com um labrador que eu viria crescer desde filhote. Ele corria nos quintais das casas da vila em que a casa com trepadeiras na entrada morava. Por vezes ele incomodaria o velho cansado com o seu ganir e quando a porta da casa com trepadeiras na entrada se abria, o abraço e o afago e a festinha acalentavam o cão que lambia as rugas solitárias do velho. Um prato de água e outro de ração estariam sempre no quintal que existia depois da última porta da cozinha. Mas a cozinha não teria trepadeiras. Nem o quintal. O cão sumiria entre as portas da casa e o velho retornaria à varanda da entrada da casa com trepadeiras.
Na vila não existiriam outras casas com trepadeiras, mas a rua entre as casas seria povoada por amendoeiras de copas largas, à semelhança daquelas que eu convivi quando morava em uma vila, em uma casa sem trepadeiras na entrada. As amendoeiras têm folhas largas, boas para se fazer marimbas e as crianças subiriam nos telhados para jogar as marimbas nos fios das pipas que se digladiariam no céu ensolarado de verão. As mães dessas crianças se desesperariam quando as vissem tão alto, tão entretidas, tão longe de si mesmas, tão perto dos sonhos. E as trariam para o chão sob ameaças de puxões de orelha, sovas e restrições alimentares. E não adiantaria muito, pois enquanto houvesse verão, amendoeiras e pipas, as crianças subiriam nos telhados e guerreariam com suas marimbas.
As disputas de bolas de gude e corridas de tampinhas de garrafa seriam os esportes nacionais da vila em que sonhei a casa com trepadeiras na entrada. Depois da troca de figurinhas, das peladas vadias, dos jogos de pião, das corridas de pegar, das cirandas e cantigas de roda, de ver o sol se por num telhado sem pipa ou marimba. E nos campeonatos teria sempre aquele que iria organizar tudo, o que desistiria no meio, propondo uma nova brincadeira, o que acharia chato tudo aquilo e a menina que iria propor andar de bicicleta e o menino que iria descer a ladeira da rua da vila no seu carrinho de rolimã.
Haveria também os vizinhos que deixariam as mazelas da vida adulta ao sentar nas suas varandas e respirariam o ar úmido e pesado do verão. Entre eles, o velho na cadeira de vime que ficaria na varanda da casa com trepadeiras na entrada, se lembraria da infância no subúrbio e que se lembraria que um dia sonhou com uma casa que tivesse as lembranças que amealhou nos milhares de anos de sua vida.
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March 29th, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
Te prometo o amor seco e morno. Porque todo calor se dissipa e toda umidade evapora. Só alma permanece. A ti, meu amor, registro as promessas para a eternidade em que passaremos juntos.
Te prometo a traição diária, o flerte compulsivo, a obsessão no outro. Afirmo que o meu amor por ti é tão grande que não cabe em mim. E esse amor me comanda, me domina e me fascina. Ele me faz procurar cantos onde possa guardá-lo e toda alma de coração vazio é receptáculo para essa paixão. Paixão que traz alegria e prazer. E a alegria não se contenta em si só, quer se multiplicar para o outro, dar de si para todos que lhe rodeiam. E levar as pequenas alegrias aos que não têm amor é fazer aumentar a ambos numa torrente infinita de prazer, alegria e amor. A alegria de muitos é a prova do amor que trago para ti.
Te prometo a desculpa vazia, sem vontade, a sinceridade invertida. Pois a verdade acaba com o glamour, destrói o elán que mantém a paixão em ebulição. A verdade castra, castiga e maltrata o amante, o amado e o amor. Pois não foram as mentiras pequenas, sussurradas ao pé de ouvido que lhe trouxeram? Não fora o encanto do impossível, do amor eterno e sublime que te fez despir os seios? Não fora o desejo irreal do gozo perpétuo que te fez voltar à minha casa? Pois temos de manter esse encanto vivo e vívido. A manutenção desse encanto é prova do amor que trago para ti.
Te prometo a pouca atenção nas suas coisas, o desinteresse na tua vida, o muxoxo resignado. Dado que o mundano desencanta mais que a verdade. O cotidiano massacra e torna vulgar o que era belo e raro. Assim como uma foto desbotada de tanto se manipular ou um disco de vinil, arranhado de tanto chorar as canções para ouvidos moucos que se embolavam no sofá da sala e xingavam quando tinham de trocar do lado A para o B. O nosso amor deve ser motivo e razão, início e fim, dos nossos dias. O resto não deverá mais importar. A intensidade dessa paixão é a prova do amor que trago para ti.
Te prometo o eterno adiar das mudanças, dos consertos, de fazer dar certo. Mudar poderia arruinar o que foi conquistado. Pois o passado é perfeito e não permito nada menos que a perfeição para ti. É no mundo estático, finito e imutável que vivemos a nossa história particular e ali é que manteremos a chama que nunca se acabará – apesar do poeta – e que nos aquecerá para todo o sempre. O instante em que nos beijamos pela primeira vez, o primeiro gozo, a primeira refeição, o primeiro acordar, serão sempre os momentos que nos moverão de agora por diante. A manutenção da memória do que fomos e que sempre seremos é a prova de amor que trago para ti.
Te prometo a negação premente, posto que não fui eu, mas o meu desejo a me fazer errar. Negando, te dou a certeza. A certeza traz a segurança. A segurança a manutenção. A manutenção, o elan, o glamour, a paixão e a alergia. Então te negarei tudo: as verdades, as mudanças, as vidas de outrem, a minha dedicação, a atenção, o céu, o universo, a terra e negarei – por fim – até mesmo que te amo. Pois preciso de ti mais que a mim mesmo e te negando o tudo, nego a mim. Só tu me importa. E essa minha dedicação é a prova de amor que trago para ti.
Te prometo a tristeza perene, o desânimo diário, o desesperançar noturno. Pois cada um tem de ser a alegria, a razão suprema e sublime da existência, o motor de alma do outro e, dado o brilho de nossa convivência, o restante do mundo será opaco e sem viço. Então, ao nos separarmos, nada fará sentido, nada terá gosto ou causará espécie. Somos o sal, o vinagre, o azeite e pimenta da vida. E esse tempero é a prova de amor que trago para ti. Somente para ti.
Te prometo o amor seco e morno. Porque todo calor se dissipa e toda umidade evapora. Só a alma permanece.
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February 23rd, 2007 §
publicado na Tribuna da Imprensa
“Mas eu não entendo o porquê de você ficar assim tão macambúzio, rapaz. Afinal de contas, é Carnaval!”
Bruno deixou escapar um sorriso amarelo e, dentre os dentes, respondeu que estava de ressaca da noite anterior. O Carnaval para ele era apenas mais um feriado quente no início do ano e que, eventualmente, coincidia com o Ano Novo chinês. Inclusive, era esse o caso.
De certa forma, podia-se dizer que ele estava enchendo a cara desde o ano passado. Achava um saco essa coisa de desfile de escolas de samba e só tinha simpatia pelos blocos que ficam só na “concentração”. Como eram poucos – e bons – o seu circuito carnavalístico era bem limitado.
Anderson já era o oposto. Só parava no boteco para recarregar as baterias e colocar em dia a lista de foliãs abatidas pelos amigos. Já estava se preparando para levantar e partir pro Bip-bip quando viu que Claudinho se aproximava.
Alan era um moderado. Não dispensava uma farra, mas não morria de amores pelas aglomerações que o Carnaval estimulava. Decerto, as fêmeas em fúria uterina e a cerveja farta eram atrativos que o mantinham na atividade, a despeito do calor senegalês que o Rio de Janeiro é submetido no fim do verão.
“Desce uma gelada, Juvenal. Qual é o babado, rapaziada? Bruno, que cara de cu é essa? Ainda com dor de corno?”
Dessa vez ele engoliu o sorriso amarelo para mostrar os dentes brancos bem desenhados. Custaram uma fortuna, dissera uma vez, mas derretem o coração de qualquer menina desavisada do canalha devorador de gente que morava atrás da arcada.
“Dessa vez, não. Chicão nos dará a honra da sua presença? Ou está enrolado com uma qualquer por aí?” “Provavelmente, cara. Aliás, decerto”. “E Claudinho, Alan? Ainda em lua-de-mel com Elisa? E os nerds dos infernos? Quais as novas da galera?” “Sem novas. Sim, Claudinho tá lá marcando o território. Gordo foi pra França, Burro tá trabalhando”. “Se ferrou o mané!”. “Pois é, Bruno. E o Grande tá em Petrópolis. Eu, dado o interesse manifesto de vossas senhorias, estou em guerra ampla, geral e irrestrita”.
Os três riram e brindaram aos amigos ausentes. Aos “vencidos” na batalha dos sexos, aos que partiram do exército dos solteiros e se alistaram na tropa dos casados, enrolados, amarrados e afins. Fizeram um brinde, mais tímido, aos que “trocaram de time” efetivamente, aumentando as chances de cada macho disponível e praticante do heterossexo de, de fato, fazê-lo.
Bruno, findas as libações, cerrou o cenho novamente e se fechou em copas. “Bruno, o que há?” Olhou para a cara de Alan. Olhou para o relógio. Lembrou das bebidas da noite passada e lembrou que a única ressaca que tinha, naquele momento, era a moral. Virara a madrugada entre as pernas de uma menina quinze anos mais nova e, apesar do troféu conquistado, sentia-se impuro. Como se tivesse cruzado uma linha amoral.
“Qual a idade da menina, afinal?” “Vinte e um, Anderson. Vinte e um aninhos.” “Já era mulher?” “Sim, e como.” “Então? Qual o problema?” “Eu nunca mais terei vinte e um. É esse o problema.”
Dito isso, olhou novamente para o relógio e viu que uma linda moça, de cabelos negros, olhos amendoados e verdes – sempre os verdes olhos – se aproximava. Se beijaram. Os colegas saudaram a chegada da beleza que a Quaresma anunciava.
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January 12th, 2007 §
publicado em LIVinRooom
Fim de ano.
Comemorações a troco de coisa alguma e um calor de rachar a boa vontade entre os homens e mulheres do Rio de Janeiro. E os amigos aproveitam a pausa na correria diária para dar um sossega leão em si mesmos e botar a casa em ordem.
Para Alan isso significava ligar para todos os pulhas e canalhas que conhecia e as lacraias de dois mangos que chamava de amigos e amigas. Na verdade, essa era a forma carinhosa de tratar a todos que fizeram parte de sua vida torta desde o colégio até o fim da faculdade. Poucos, bem poucos mesmo, eram os amigos do dia-a-dia, mas todos moravam no seu coração. Ao menos no fim do ano. Ao menos uma e única vez por ano.
Como sempre, teve de marcar no centro, apesar do protestos daquele povo que morava na Barra da Tijuca e insistia em se chamar de carioca. Os da Zona Norte eram maioria e, a bem da verdade, a Barra não é lugar para esse tipo de comemoração. As Barbies e Kens de plástico daquela região provavelmente reclamariam desde as calçadas de pedra portuguesa até à escolha do cardápio, passando pelo banheiro (sujo, definitivamente sujo) e pelo atendimento (e desde quando bar bom tem atendimento idem?).
Alan chegou cedo, não queria reservar mesa – de premeditado, organizado e planejado, já bastava o calendário – mas se comprometeu em arrumar lugar para todos. Não era todo dia que juntava tantos ditos amigos num lugar só. Normalmente os eventos de Alan eram resolvíveis numa mesa simples ou, quando a lotação passava a marca histórica de seis pessoas, arrumava-se um capô de carro alheio para servir de mesa e/ou assento. Para o fim do ano era diferente: mais de vinte confirmaram e mesão grande assim na Casa Urich só com lábia e adiantamento de conta. Como ele era cliente preferencial desde os vinte e cinco anos, rolou a “reserva” com pouca relutância da gerência.
Os amigos foram chegando aos poucos. A cada abraço, um comentário de um outro que partiu para o exterior ou para uma outra cidade. Um que casou, outro que virou numa curva errada e beijou um poste, outra que engravidou, outro que teve o sexto filho. As novidades dos amigos repassadas a cada ano. A cada fim de ano.
E a sensação que ainda havia algo a ser feito não passava. Aliás essa tinha sido uma constante em sua vida desde os dezessete anos. Àquela época achava que poderia domar o mundo com a mão esquerda enquanto se masturbava com as restantes.
Frase de Alan, não desse autor.
Certa hora, notou que perto do banheiro tinha uma turminha desanimada, umas sete cabeças, duas meninas. Nossa! Que morena é aquela? Bom, continou o processo de embriagamento e abriu uma nova rodada com um úisque duplo. Sem gelo. Tá certo que o verão queima as pedras portuguesas da Rua São José e o ar parece de verdade com o bafo indelével do centro do Rio, mas uísque tem de ser tomado assim, sem gelo e na valentia.
Novamente, coisa de Alan.
Os chopes sucediam os refrigerantes e as caipirinhas e, determinada hora, a natureza falou mais alto. Alan atravessou a borda da mesa que se estendia por quase todo o comprimento do restaurante e, inevitavelmente, esbarrou trôpego na mesa da morena que não parava de flertá-lo desde o início do fim da tarde. Falou alguma gracinha inócua e inefetiva para fins sexuais e entrou no mictório desesperançado.
Na volta, a mesa vazia. Aliás, todas as mesas vazias. Só um carinha num canto. Mas não tava vazio. Coisa esquisita.
“Puta que pariu! Depois de velho, delirium tremens?”
O carinha fez sinal para Alan se sentar.
“Cara, já sei. Você é a minha consciência e vai me dar um sermão sobre abuso de álcool, sexo e drogas nas terças-feiras.” “Calaboca e escuta.” “…!” “Olha ali no canto” – apontou para a mesa onde estaria a morena – “e me diga o que você vê.” “Porra tem nada ali.” Levou um cascudo seguido de um pescotapa.
“Olha direito, caralho” “Tá bom, cacete! Doeu isso!” Apertou os olhos míopes e o mundo rodou mais devagar por um momento. Enfim viu.
“Bom. Ali tem uma morena fantástica numa ponta, uma outra lindinha da silva mais mignonzinha, dois coroas, um viado marombado, senhor publicitário na outra ponta e um nerd fotógrafo no canto.” “Não aprendeu porra nenhuma. E eu com esperanças em você.”
Acordou abraçado na privada com uma das meninas a lhe acordar.
“Tive de dizer pro gerente que era sua namorada. Tu tá legal?” “Tô não, Vivien. Deixa eu voltar para a mesa e pagar a conta.”
Estranhamente se sentiu mais sóbrio que nunca ao caminhar entre as mesas. Sinal claro, óbvio e ululante de alcoolismo em estado extremo. Ao sentar, pediu a atenção de todos. Discursou sobre o fim do ano, o fim do salário, o fim da história e do comunismo, o fim dos tempos. Todos riam quando ele trocou de tom e, falando através de si, começou.
“Existem quatro tipos de mulheres que um homem tem de ter: a musa, a puta, a mãe e a amiga.” E continuou falando, ensinando as verdades essenciais, enquanto as nuvens de chuva anunciavam que as comemorações iriam continuar noite adentro.
O povo se calou. Alan não era do tipo de cagar regra.
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