Me considero um cara desapegado da vida. Não me entendam mal: não é que eu não goste de viver com conforto, de comprar livros, CDs, DVDs, comer bem (ou bem mal) e consumir produtos divertidos, mas me desapego deles na memsa medida que eles deixam de significar algo.
Se aquele gibi (ou livro, ou revista) me fez encarar o mundo de uma forma diferente, que ele seja passado para frente e -talvez- comova o próximo. Mas isso não me faz me livrar dos gibis do Sandman que guardo há mais de dez anos, ou dos álbuns de luxo do Watchmen. Não por enquanto.
Sou desapegado com a matéria sim e em muitas formas, com as pessoas também.
==
Às vezes eu tenho vontade de fechar todas as portas e passar a chave na fechadura, dar as costas ao que passou e só andar na direção do sol nascente.
Talvez porque eu não consiga ficar imóvel e, contudo, ainda não tenha aprendido a dar os movimentos corretamente, ainda acho que é preferível caminhar sem destino que esperá-lo bater à porta, com o chá à mesa.
==
Tenho pensado em me fechar digitalmente: matar o blogue, matar os flogs, os álbuns de fotos, os tuíteres, listas de discussão, instant messengers e afins. Pela primeira vez penso seriamente em fechar tudo mesmo e cuidar dos meus.
Mas acho que esse é um desapego que ainda não sou capaz de fazer. Não por enquanto.
==
Escrevo menos e menos a cada dia aqui. Não é que tenha desistido de escrever, muito pelo contrário. Participo de um velho hábito digital de discutir em listas de (dã!) discussões. Ali tergiverso sobre política, ciência, filosofia, música, fotografia.
Falo pouco sobre o que sei e muito -muitíssimo- sobre o que sei que não sei. Escrevo tanto que daria para encher uns livros só com a quantidade de asneira petulante destilo nos emails.
Ainda bem que por ali fica, por ali morre. Contexto é tudo.
==
Não me canso de olhar para os céus de São Paulo. Já escrevi sobre isso e não me repetirei.
Não por enquanto.
Textos relacionados
Hoje eu li um texto de um amigo que normalmente escreve umas boas piadas que me pegou na virada da esquina. Normalmente ele disserta sobre política, futebol e nerdices afins com uma verve de humor rara. Sarcasmo e ironia de primeiríssima qualidade saem daquelas páginas virtuais e tinta digital.
Mas o puto me manda um texto desconcertante. Uma narrativa inteligente, brincalhona, excepcional e única. O sinal definitivo que o cretino tem um talento inegável e se ele quiser – apenas se ele quiser – se tornará um dos maiores cronistas/contistas/escritores desse país.
É foda ver algo tão raro acontecer ali, na tua frente, na mesa do boteco. Sentir o cheiro da história acontecendo. É de uma violência incomensurável, como se fosse um tapa na cara que ecoasse por meses a vir.
Mas isso até agora não tem nada a ver com Watchmen, exceto o fato que esse mesmo calhorda não tinha lido os gibis até bem pouco tempo – e ele se dizia fã de HQs – mas foi ver o filme com afã de fã, de quem cresceu lendo Alan Moore e tendo sonhos lisérgicos a partir do mofo acumulado em páginas de quadrinhos da Editora Abril e um paralelo forçado que tento fazer.
Quando Watchmen foi anunciado, eu fiquei com os cabelos do pescoço (e até o rego, confesso) arrepiados de expectativa pela estréia. Era um dos meus ícones quadrinísticos migrando de mídia. Já tinha gostado de V de Vingança, mas o tom lírico-anarquista do gibi havia se perdido. Havia amado a versão do Homem de Ferro e gostado muito do novo Hulk (o último filme, o que se passa no Brasil) e achado que finalmente acertaram o tom nos dois Batmen.
Mas treino é treino e jogo é jogo, né? Watchmen e The Dark Knight Returns são quadrinhos-marco da arte seqüencial e, mesmo tendo outras obras que inovaram mais, tiveram melhores roteiros, melhores artes, venderam mais e etc., essas duas sintetizam tudo aquilo que os quadrinhos deixaram de ser nos anos 80 e passariam a ser nos anos seguintes (até voltarem a ser o que eram nos anos 70, mas isso é outro assunto, outro texto, outro blogue).
Quando um quadrinho (ou peça, ou romance, ou canção) migra de mídia e vira filme/série de televisão/desenho animado é esperado que haja concessões na história, no visual e no ritmo da coisa. No caso, comprimiu-se material suficiente para uma minissérie da HBO em quase três horas de filme e – na minha modesta opinião – tivemos um resultado espetacular.
Humor na hora certa (na mais ridícula possível), referências quadrinísticas mantidas e respeitadas, personagens reconhecíveis até na sombra e o grau de suspensão de realidade necessária para o tema. Mas isso não torna o filme genial ou brilhante. O Watchmen, the movie é apenas um puta filme de heróis que tentam salvar o mundo. As discussões, as viagens, os conflitos emocionais, as nuances suaves? Que fiquem no papel, onde funcionam bem melhor que na tela.
O paralelo? Ah! É quando uma pessoa sai da caixinha para fazer algo diferente corre seus riscos. Corre o risco de ser genial.
Textos relacionados

Eu sei que vou me arrepender, mas me emociono ao saber que – 20 anos depois – meus heróis de papel virarão de carne e osso.
Sem mais: links e fotos.






Textos relacionados