April 22, 2006 3

Telefones e email

By in textos, tribuna

publicado na Tribuna da Imprensa

Os chopes não vinham na velocidade habitual. Parecia que os garçons conspiravam contra os dois. Já fora difícil arrumar um lugar bom para sentarem-se e curtir a chuva fina que caía no fim da tarde. Sem as mesas ilegais da calçada, os bares da orla lotam com uma velocidade mercurial. Ali, do lado do banheiro feminino, podiam ao menos avaliar a formação estrutural das moças de vida difícil que transitavam na área buscando refúgio da água que destruía os cabelos armados e alisados com esforço e aproveitavam para sondar um eventual cliente distraído que poderia ter saído de um dos hotéis próximos.

Poeta foi o primeiro a se manifestar.

“Sabe cara, tá difícil voltar a escrever. Eu não consigo mais me inspirar para porra nenhuma. Acho que perdi o dom da coisa.” “É que você fazia o gênero de ‘poeta tuberculoso’, cara. Agora tá feliz e não encontra o caminho antigo das palavras.” “Pode ser isso. Ou então é que as musas, os temas, me fogem. Eu perco as noites e não acho em mim vontade de mais nada.” “Porra, que merda.” “Nem é. Não me lembro de ter estado tão feliz antes. Eu me remexo na cama, coloco uma no sonzinho da cabeceira e não encontro a angústia que me fazia escrever.”

Veio o chope de um e a caipirinha do outro. Romancista comentou seguindo o serviço.

“Eu também tô com ‘bloqueio de escritor’. Ouço as vozes que me contam os contos, que me os sussurram na calada, mas não consigo mais sentar ao computador e escrever palavra. As músicas continuam me prendendo num loop eterno.” “Cinta de Möebius.” “É. Entra a música – a danada da – e não faço mais nada. Tô perdido.” “Tá nada. Tá é apaixonado.” “Pode ser. Mas escrever é paixão e paixão é desequilíbrio. É como andar, um exercício de corte com a queda. Um ensaia o tombo e o pé segura na razão. E assim andamos passo a passo. Palavra a palavra.” “Os versos medidos e desmontados.” “Os parágrafos pensados e encadeados. É isso aí. Mas ela me dá paz e na paz fico amarrado.” “Enforcado.” “É.”

Tinham feito o mesmo curso de tarô vinte anos atrás. Brincavam de “carta favorita” a cada evento de chope. Era como se tirassem as cartas para si mesmos sem precisar do baralho. Poeta retomou o papo depois do silêncio.

“Te contei quem divide a minha cama agora? É a Aline.” “Não brinca? Sério. Porra, cara! Tu não é homem bastante para ela! Tem esse jeito bobo, desengonçado, sem graça!”

Riu da própria piada. O outro não.

“Eu sei. Também acho isso. Eu acordo de noite e fico olhando para ela meio embasbacado. Ela ali, nua. E eu fico medindo a minha sorte. A sorte de um merda de um poeta frustrado e funcionariozinho de uma porra de empresa de webdesign. Webwriter de cú – com acento! – é rôla! Mas é isso que tá me fazendo levantar cada dia e encarar mais um dia de FGTS. É essa a vontade de ser um homem mais merecedor daquela deusa que divide o suor e o gozo comigo. Essa mulher maravilhosa que me dá o prazer de dividir a sua intimidade.”

Romancista riu baixinho, como se entendesse tudo agora.

“Cara, você quebrou a regra número um do artista: não se come a musa.” “Porra cara!” “É sério. Teu motor de inspiração era o amor não resolvido desfiado em tinta e papel. Teus melhores textos eram aqueles que ficavam ali no fio da navalha entre a corte para a conquista, essa de acasalamento moderna, e a punheta da paixão platônica. Era ali, na penumbra, que você se encontrava.”

Poeta ficou meio puto, meio divertido com o comentário.

“Você queria que eu fizesse o quê? Nunca fui bom nessa merda de cantada, de cortejar. Sempre me perdi nesses dois lados do muro. Nunca sabia se pedia o telefone ou email.” “Como é que é?” “Se eu pedisse o telefone, significava que eu já ia para a abordagem, apontava a proa do navio e abalroava a menina. Se eu pedisse o email, era para ficar na cantada insossa, no cerca-lourenço que se convencionou chamar ‘a corte’ hoje em dia.” “Cara, e o meio-termo?” “Te disse, nunca fui bom nisso. Eu acabo que me atiro antes dos sinais de permissão e invado o espaço alheio me fazendo . Só que nem sempre o outro lado tá sabendo das regras do jogo e nunca combina resultado, né?” “Acho que entendo.” “Então. Ela veio, entendeu o jogo antes de eu colocar as regras. Me desarmou, se instalou, tornou-se parte da decoração do meu quarto.” “Que merda de metáfora.” “Tô falando que perdi a mão!”

Ambos riram, pediram um jiló em conserva, saideira e a conta. Chovia menos. Andaram até a de Copacabana e fizeram sinal para um táxi. Partiram para a Tijuca. Um atrás de quem já lhe esperava, outro atrás de algo que havia perdido.

Quando Poeta desceu do carro, virou-se para o amigo.

“Quem tem do fim, não deve nem começar.” “Tu tá bêbado.” “E feliz!”

Fechou a porta, mesclou-se com a paisagem da Praça Vanhargen. Súbito, o que ficou tinha uma história para contar.


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3 Responses to “Telefones e email”

  1. Mayra L. C. says:

    impecável

    abraço, :]

  2. B. says:

    hum…caminhos conhecidos…inspiração nova. Estou certa? Ou o chute foi muito fora? ;)

  3. mark says:

    Rapaz, você se supera a cada escrita. E eu me surpreende a cada acesso ao blog.
    Parabéns. De verdade. Gosto muito de vir aqui… sempre me inspira.

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