publicado na Tribuna da Imprensa

Você sabe o quão patético é qualquer carta de amor. Especialmente nos nossos dias. Então deixe-me aproveitar o momento em que tenho uma desculpa venal, que o álcool que me corre às veias deixa turvo o meu senso de ridículo e me permite escrever essas linhas digitais, ainda que mal-traçadas na minha cabeça mas indeléveis na minha alma.

Você apareceu na minha vida como um trem sem apito, me abalroando para fora de um curso que eu tinha traçado para mim. Assim como um personagem dos meus contos, eu tinha o meu futuro nas mãos. Fora confirmado pelos astros, pelas cartas, pelas videntes e pelo sangue das aves sacrificadas ante o nome dos que vieram antes de nós. Defronte dessas autoridades inegáveis me foi revelado o destino e você não estava nele.

Ainda assim você me apareceu bela, jovem, inteligente, astuta e inegavelmente sedutora. E meu desejo não coube mais em minhas calças, subiu à mente e tomou conta de minha razão.

Contra tudo em que eu acreditara, larguei mão dos meus valores, das minhas certezas e me entreguei a você. Ok, ok. É certo que você sabia que eu tinha um vínculo emocional que não estava totalmente desfeito, havia um risco, é fato, e você sabia disso. Mas a sua presença, não a de outra mulher, é a que me fez repensar a vida, olhar o futuro e renegar o Império. É sua a parte do desejo que a minha inação fez fazer água no projeto de singrar os mares.

Sim, o álcool e os seus primos me tiram a coordenação e o foco nesse instante, mas quero que saiba: eu não falo nada que não afirme ante o sol a pino ou com o sacro livro ante minha mão. Tudo que relato é de coração aberto. Sempre foi assim. Se te reneguei no passado foi porque eu não me enxergava ante a dor da mudança. Pois é. Toda mudança dói e aquela que é inesperada, marca mais fundo e come a base que sustenta o argumento consciente. A consciência é moldada ante as cascas das feridas que a experiência nos dá. O que é a gravidade senão a consciência do hematoma da queda?

Mas perco o foco e razão. Carta tem de ter relato, início, meio e fim.

Eu acreditei que poderia mudar as pessoas. N’O Filme dizia que o grande erro do homem é exatamente esse: crer que pode mudar as pessoas. As pessoas, em verdade, se deixam ser mudadas e apenas naquilo que acham que lhes é conveniente. Errei. E esse não foi o meu único erro.

Quis dar a distância entre nós para que pudesse te preservar. Mas você não me entendeu o tempo e eu tampouco o te dei para que pudesse me entender. Me negas agora e é justo o teu negar. Não imploro mais o teu querer. Não. Nunca mais. Não mesmo. Nem quero. Como eu te quero. Por favor.

Tem uma cena que imaginei entre nós. É improvável dada os personagens e os fatos, mas é uma cena que me acalanta quando repenso quão imbecil, tolo, fútil, inseguro, insensato, arrogante eu fui para conosco. Matando toda e qualquer chance de que pudéssemos ao menos acordar juntos e dividir uma manhã.

Divago e não falo da cena. Me é cara falar sobre ela.

Sonhei com essa cena na última vez que deixei tua casa, antes dos contos que não falavam sobre nós mas falavam de quem já era passado.

Ei-la:

Imaginei um homem. Talvez eu mesmo, talvez um futuro amante. Ele era incerto e inexato. Exatamente do jeito que eu gosto de pensar as minhas personagens. E sobre ele eu contava a história de um jeito bizantino, como uma trama, dentro da trama, dentro da trama.

Ele tinha um hábito irritante de freqüentar vernissages, noites de autógrafo e outros desses eventos semi-abertos onde se serve o péssimo vinho que importadoras de bebidas que desovam como “patrocínio” ou “apoio cultural”. Chegava a ser uma compulsão, na verdade. Tinha alguns contatos de quarta categoria que se divertiam em enviá-lo para os eventos mais esdrúxulos como a reinauguração da placa do centenário do canhão inaugural do forte de Copacabana ou a noite de autógrafos de um blogueiro qualquer que conseguiu publicar suas crônicas semanais.

O que ele não revelava às pessoas é que a diversão não era o evento em si, mas ficar nos cantos fingindo que conhecia os proto-famosos, dando um acenos com cabeça e com um ar blasé treinado a anos a fio. Outro hobby era ficar ouvindo fragmentos de conversas e tentar ficar adivinhando o papo como um todo. Anotava os fragmentos em guardanapos sujos ou em cadernos-brinde para usar em algum momento importante da sua vida.

Numa estréia teatral, ele pega o papo de um autor de peças de teatro com um engravatado aleatório.

“E, recitando um poema de Florbela Espanca, ele a pega como se fosse beijá-la. Ela se desmonta em suas mãos. Ao terminar o poema, ele se vira para os outros no churrasco e pede uma cerveja. Ela olha meio puta meio pidona para ele e, antes que ela pergunte qualquer coisa ele responde: ‘Beijo não é para ser esperado. É para ser tomado com o consentimento do outro. Beijo é a porta do prazer e se você não tem ciência disso e espera que o prazer lhe seja entregue em bandeja de prata, não merece o gozo’.” “É uma boa cena, mas acho que temos de cortar a parte do poema. Não dá Ibope.” “Mas aí perde todo o sentido. Deixa eu te mostrar o poema.” “Não. Sem poema.”

Ele se dirigiu para o bar para tentar caçar um salgadinho ou mais uma taça de vinho. Quem sabe até teria sorte e coletaria mais alguma história interessante.

A imagem acabava aí. Mas o pranto só começaria depois.

Já tenho o poema em mãos. Já tenho a dor do passado seco e curado. Tenho um vazio que era para você e hoje não quer, com toda a razão.

Mas não sou feito de razões. Estas eu deixo para pagar as minhas contas. O que tenho para o mundo é minha veia aberta, o meu core sangrado e exposto.

Cansei de passar os meus trinta e poucos anos brincando de homem sério e responsável. Ok ok. Nunca fui bom nesse papel. Quero agora chorar em público, brincar de Drama Queen, como bem batizastes, de não ter vergonha dos meus quereres e de olhar para o espelho e me reconhecer, íntegro e paradoxal.

Não quero mais ter as razões do mundo. Quero apenas que o mundo me tenha.

Se isso afeta a tua concha, querida, eu peço desculpas. Me retiro e deixo que as sombras da ribalta guardem o teu descanso. E torço, pouco, para que aches quem te acompanhe nesse teu hibernar. Ele é justo e de teu direito.

Enquanto isso te espero. Meu amar é incondicional.