Cibelle e Pedro

October 18th, 2006 § 2

“Vem cá.” Ele a puxou pelo pulso sem fazer força mas com a firmeza de quem já tinha decidido o fim da noite. “Não vá embora agora. O povo vai sair daqui para comemorar o aniversário do Jorge.”

Meia verdade. Era ele o homenageado mas também era o aniversário do editor. Caía bem juntar as duas comemorações. A noite de autógrafos do primeiro livro do fotógrafo talentoso e o aniversário do sexagenário chefe de fotografia daquela famosa revista semanal.

“Não quero ir. O Alex tá me esperando em casa.” Ela disse sem convicção. “Mas você não tinha se separado dele? Não foi isso que você me disse há pouco?” “Nos separamos sim. Não estamos mais casados.” “Então?” “Mas ainda temos uma casa juntos. E quem mora no mesmo teto deve, no mínimo, respeito.”

Ele a soltou. Ela não moveu centímetro para arredar pé dali.

“Vem comigo.” “Foi um erro eu ter vindo.” “Concordo. Mas a merda tá feita.” “Sempre há tempo para se corrigir um erro.” Ele se virou para as caixas do estoque e chutou uma delas. Doeu o pé, mas ele não iria demonstrar. Doeu muito. Ele não segurou a careta. Nem ela o sorriso de deboche.

“Acho melhor eu voltar para a loja. Não fica bem eu ficar trancada contigo na tua noite de autógrafos, né? E nem você ficar aqui dentro isolado. O povo lá fora quer te ver, te bajular e paparicar.” Ela abriu a porta da saleta e saiu deixando um olhar e um meio sorriso.

Ele levou uns segundos para digerir os dois.

Tinha uns dez anos que ele entrara no curso de teatro. Entrara de onda, só para ficar mais perto do mulherio. “Esse povinho de teatro dá feito chuchu na horta.” Dizia para os amigos de farra e de cursinho pré-vestibular. Mas comer gente, que era bom, necas de pitibiriba. Secura total.

Inscreveu-se, fez um ano e meio de curso e duas peças. Ao mesmo tempo aprendeu a fotografar na oficina da faculdade de jornalismo. Tirou todas as fotos de pré-produção das peças e passou a acompanhar a companhia de teatro Brasil afora registrando as demais. Trancou a faculdade nos três anos de turnê e começou a tomar gosto pelas paisagens humanas. Ah! Comeu gente no processo. Na verdade, acreditava que o teatro não tinha nada a ver com o seu sucesso em levar gente para a cama. O fato de ter deixado de ser um adolescente histérico e desesperado e passado a ser um homem de fato interessante, era mais plausível.

Um dia, cansou-se da vida mambembe e dura.

Voltando para casa, sabia que tinha um bom portfólio nas mãos. Preparou uma edição das melhores fotos com uns amigos e bateu em algumas editoras atrás de frilas. Deu sorte de uma cópia do book ter parado no colo do Jorge Oliva. Pintou a vaga de correspondente internacional. Topou e ganhou o mundo. Rodou África, Ásia, Europa e América Central. Mais de cem mil fotos tiradas. Há dois anos ouviu o conselho do mestre. “Publica isso, moleque. Não dá dinheiro, mas dá prestígio. E prestígio, tu sabe…” “Sei sim. É metade da equação.”

Ele chiou sozinho um pouco mais e saiu mancando do estoque. Abriu um sorriso amarelo quando viu a quantidade de gente que olhava com cara de sacana para ele. Notou Cibelle no meio deles. Ela tinha tirado o sorriso divertido e usava um parecido com o dele, cheio de ‘ai meu Deus, que estou sem-graça’. Jorge veio salvá-lo.

“Bora pro chope que meus dias estão contados. Vocês que são jovens podem esperar. O Véio aqui tem de encher a cara enquanto pode!” Meia dúzia riu e outra meia dúzia se dirigiu para a saída. Ela estava entre eles.

Ele abriu mais um sorriso e foi acertar as contas com o gerente. Vendeu mais que esperava apesar de ter ido pouca gente. “Assim é que é bom, Carlinhos. Pouca muvuca e boa grana. Se toda noite de autógrafos fosse assim eu nem cobrava para usar o espaço.” “Valeu mesmo!” Deu um abraço no amigo e partiu para as libações.

Há doze anos ele era um adolescente espinhudo, desengonçado, duro e desesperado. Há doze anos atrás ele estudava num pré-vestibular da moda cheio de patricinhas malhadíssimas e maurícios empertigados. No meio de futuros engenheiros, advogados, publicitários e marqueteiros ele sumia como pedra de sal no meio da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Depois de não lograr êxito em despertar interesse de cópula com nenhuma das fêmeas disponíveis daquele ecossistema, ele tentou uma estratégia que costumava funcionar em festinhas suburbanas: começou a sondar as feias e as apagadas. Era uma tática perigosa. Caso levasse toco de alguma, sabia que a notícia iria se espalhar por toda a manada e a chance dele praticar sexo com alguma delas seria adiada para todo o sempre. Também não podia arriscar ‘relacionamento’ com nenhuma delas. O efeito era parecido, e moralmente pior. Tinha de alçar mira no alvo correto e abater de primeira.

Uma tática boa era fazer a dança do acasalamento para uma que fosse extremamente discreta e não tão feia assim. O truque era ir se aproximando aos poucos, com cuidado para não espantar a presa. Depois de pesquisa árdua, achou um possível alvo. Dois braços, duas pernas, duas orelhas e olhos. Bunda pequena, mas parecia durinha. Seios médios, discretos. Uma boca. Um nariz. Cabelos negros, pele alva. Olhos cor de mel. Magrinha. Baixinha. Voz macia. Doce. Inteligente. Culta. Simpática. Sorriso encantador. Perfume ácido, mas suave. Usava Aquamarine para lavar os cabelos. Virgem com ascendente em Escorpião. Puta merda, tava apaixonado!

Caiu no velho truque da selva. Era ela quem caçava, não ele. Cibelle.

Chegou no bar com algum atraso, o que era esperado. Jorge tinha separado um local à mesa do seu lado e um chope esquentava com o seu nome. Procurou-a por entre os amigos mas encontrou um ‘nada consta’. Relaxou no oitavo chope e contou causos, de Adis Abeba, Guaiaqui e Bagdá. Jorge assumiu a mesa no ínterim e ele ficou livre para pensar no ocorrido há pouco.

Do outro lado da Bolívar, quase na Aires Saldanha, ele a vê saltando do táxi. Linda. Linda. Simplesmente linda.

Ela não estava só.

De uma hora para outra, um desespero se apossou da sua fleuma e ele ensaiou uma ida para casa. Os protestos foram mais altos que a coragem e ele se congelou na cadeira. Ela entrou no Belmonte com Alex que não disfarçava o desgosto de estar ali. Foram apresentados desnecessariamente. Ele desprezava o homem que regularmente tinha intimidades com a sua maior paixão. O outro querendo ir embora para cumprir com o dever matrimonial de entediar o cônjuge até à morte. Ela se ajeitou no meio da turba com o esposo.

Quando partiu com a companhia de teatro, ele elencou para si mesmo uma centena e meia de motivos racionais, lógicos e plausíveis para tal. Todos para servir como cortina de fumaça do motivo real.

Ela nunca o quis como o seu homem.

Dizia para ele que queria ser só amiga. Que se pudesse escolher por quem se apaixonar, ele seria o homem da vida dela. Que ele tinha entendido tudo errado. Que era um erro ele insistir. Que ela estava saindo com um outro cara. Que estava apaixonada por ele. Que o nome dele era Alex e ele era mais velho, mas não muito; mais bonito, apesar de um pouco estrábico e ser um calvo aos vinte e sete; bem-sucedido, afinal era empresário desde os vinte; que a respeitava, apesar de fazê-la ir ao tedioso futebol de domingo; que sabia ouvir um não e se conformava quando perdia uma batalha. Que iria se casar em quatro meses. Que estava grávida. Que iria colocar o nome do pai na criança. Que não iria se chamar Alex. Que ele não poderia ver o filho. Que estava tendo complicações no parto. Que não pode enterrar o filho. Que não poderia ter mais nenhum filho. Que o odiava. Que o amava. Adeus.

No bar, mais seis rodadas de chopes já removiam o que havia de civilidade entre os presentes e estranhos já confabulavam como se fossem amigos de centenas de anos. Uns resolviam os problemas do Brasil e do Mundo entre os pastéis de camarão e as casquinhas de siri. Outros confessavam o inconfessável para os ossos do frango à passarinho. Ele emudecera há muito, mas nunca fora de tagarelar. Jorge, mais experiente, já levantava o acampamento e pedia a conta.

“Meu aniversário, conta minha.”

Na confusão da saída, uns programavam a esticada, outros já chamavam o táxi na própria Bolívar para ir para casa. Alex já se confundia com a turba, apesar da careca reluzente, e partiu só.

Ele ficou a sós com Cibelle.

“Quer ir lá para casa?” “Não acho uma boa.” “Ci, o que é ‘uma boa’? Você aparecer no meio da noite de autógrafos e me dizer que se separou? Você medrar na hora que te chamei no canto? Você trazer o mané para cá? Qual dessas idéias foi ‘uma boa’ até agora? Me explica porque estou perdidinho da silva.” “Não faz isso comigo. Tá sendo difícil para mim também.”

O pé ainda doía. Provavelmente ele encravara a unha quando chutara a caixa.

“Vamos dar uma caminhada na praia?” “Eu topo.”

Copacabana é testemunha de diversas histórias e as areias da praia são o seu palco principal. Parece que existe uma mágica que emana do elán que prende os grãos brancos e imundos daquele pedaço de chão entre o Atlântico e a Atlântica. Talvez porque a areia, a maresia e o soar das ondas não julguem os homens. Parece que há uma inteligência natural que entende que a vida não é preta e branca. As nuances de gris moral são o sal de prata desse mar de vidas que inunda aqueles cinco quilômetros de terra encurralada.

Eles amanheceram no Arpoador e nunca mais se viram de novo.

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