Crônica do amor seco

March 29th, 2007 § 11

publicado na Tribuna da Imprensa

Te prometo o amor seco e morno. Porque todo calor se dissipa e toda umidade evapora. Só alma permanece. A ti, meu amor, registro as promessas para a eternidade em que passaremos juntos.

Te prometo a traição diária, o flerte compulsivo, a obsessão no outro. Afirmo que o meu amor por ti é tão grande que não cabe em mim. E esse amor me comanda, me domina e me fascina. Ele me faz procurar cantos onde possa guardá-lo e toda alma de coração vazio é receptáculo para essa paixão. Paixão que traz alegria e prazer. E a alegria não se contenta em si só, quer se multiplicar para o outro, dar de si para todos que lhe rodeiam. E levar as pequenas alegrias aos que não têm amor é fazer aumentar a ambos numa torrente infinita de prazer, alegria e amor. A alegria de muitos é a prova do amor que trago para ti.

Te prometo a desculpa vazia, sem vontade, a sinceridade invertida. Pois a verdade acaba com o glamour, destrói o elán que mantém a paixão em ebulição. A verdade castra, castiga e maltrata o amante, o amado e o amor. Pois não foram as mentiras pequenas, sussurradas ao pé de ouvido que lhe trouxeram? Não fora o encanto do impossível, do amor eterno e sublime que te fez despir os seios? Não fora o desejo irreal do gozo perpétuo que te fez voltar à minha casa? Pois temos de manter esse encanto vivo e vívido. A manutenção desse encanto é prova do amor que trago para ti.

Te prometo a pouca atenção nas suas coisas, o desinteresse na tua vida, o muxoxo resignado. Dado que o mundano desencanta mais que a verdade. O cotidiano massacra e torna vulgar o que era belo e raro. Assim como uma foto desbotada de tanto se manipular ou um disco de vinil, arranhado de tanto chorar as canções para ouvidos moucos que se embolavam no sofá da sala e xingavam quando tinham de trocar do lado A para o B. O nosso amor deve ser motivo e razão, início e fim, dos nossos dias. O resto não deverá mais importar. A intensidade dessa paixão é a prova do amor que trago para ti.

Te prometo o eterno adiar das mudanças, dos consertos, de fazer dar certo. Mudar poderia arruinar o que foi conquistado. Pois o passado é perfeito e não permito nada menos que a perfeição para ti. É no mundo estático, finito e imutável que vivemos a nossa história particular e ali é que manteremos a chama que nunca se acabará – apesar do poeta – e que nos aquecerá para todo o sempre. O instante em que nos beijamos pela primeira vez, o primeiro gozo, a primeira refeição, o primeiro acordar, serão sempre os momentos que nos moverão de agora por diante. A manutenção da memória do que fomos e que sempre seremos é a prova de amor que trago para ti.

Te prometo a negação premente, posto que não fui eu, mas o meu desejo a me fazer errar. Negando, te dou a certeza. A certeza traz a segurança. A segurança a manutenção. A manutenção, o elan, o glamour, a paixão e a alergia. Então te negarei tudo: as verdades, as mudanças, as vidas de outrem, a minha dedicação, a atenção, o céu, o universo, a terra e negarei – por fim – até mesmo que te amo. Pois preciso de ti mais que a mim mesmo e te negando o tudo, nego a mim. Só tu me importa. E essa minha dedicação é a prova de amor que trago para ti.

Te prometo a tristeza perene, o desânimo diário, o desesperançar noturno. Pois cada um tem de ser a alegria, a razão suprema e sublime da existência, o motor de alma do outro e, dado o brilho de nossa convivência, o restante do mundo será opaco e sem viço. Então, ao nos separarmos, nada fará sentido, nada terá gosto ou causará espécie. Somos o sal, o vinagre, o azeite e pimenta da vida. E esse tempero é a prova de amor que trago para ti. Somente para ti.

Te prometo o amor seco e morno. Porque todo calor se dissipa e toda umidade evapora. Só a alma permanece.

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§ 11 Responses to “Crônica do amor seco”

  • Lis says:

    Falta de ar, dor no peito, uma sensação atordoante. Seus textos me provocam!
    Bj,

  • Denise says:

    adoro todas suas cronicas , são maravilhosas
    não perco uma no tribuna bis,agora estou aqui te lendo online
    parabéns

  • Denise says:

    oi voltei,
    gostaria de lhe pedir sua permissão para postar esta cronica no meu espaço?
    pode deixar que darei os créditos,kkkkkk
    desde de já fico agradecida bjs e um ótimo findi

  • Denise says:

    Oi acabei de postar seu texto,rs,rs,
    adorei postar ele em meu espaço
    espero sua visita um ótimo dia de muita paz
    escorpianarj

  • Denise says:

    Leu que legal!
    Gostou ou não??? Mande dizer afinal a obra é sua,kkk
    Acabei de ler “Silêncios” muito bom.
    Sabe que as vezes me acontece isso tb.
    Estar no meio de tantos e me fechar ao meu silêncio.
    Gostei parabéns
    Um ótimo dia á vc escorpianarj

  • Tu escreve bem pra caralho. Tenho orgulho de ser sua amiga.

    Beijo

  • Natucha says:

    Bem q a Roberta comentou no blog dela do seu texto, te achei por causa do link dela, parabéns, tdb .

  • [...] para fechar a coisa toda, aquele texto, “Crônica do amor seco”, foi escrito num momento de epifania, quando dei por mim que tenho muito pouco a ofertar às [...]

  • DiegoFerrite says:

    É bem triste, mas é a realidade. Amor cheio de verdades não existe, ou melhor, existe mas ninguém suporta.

  • Libélula says:

    Conclusões não concluídas

    Hoje vejo que estamos evoluindo, é tudo muito engraçado
    antes não me olhava nos olhos, superado isto, me olha bem lá no fundo
    me despindo e lendo minha alma.
    Agora a grande crise é simplesmente meu beijo, seria cômico se não fosse ligeiramente trágico, uma vez que o beijo é a ponte …
    Ponte para grandes sensações, uma grande montanha russa de sentimentos
    seria até muito bom se você não tivesse todo esse medo, todo esse trauma.
    Gostaria muito de entender o que se passa aí dentro de você, até tentei
    com muita clareza e racionalidade, mas não funcionou como já era esperado
    e se por intuição não consegui sequer chegar perto por razão não chagaria
    a lugar nenhum … Você diz que é complexo demais e diz também
    que tudo passa, eu logo te digo que não é tão lógico e fácil assim,
    não como uma brisa ou como uma onda que beija a areia da praia.
    Refere estar sem graça e nega qualquer romantismo,
    romântica eu ? O romantismo veio exclusivamente da sua cabeça …
    E como conclusão, como se fosse algo muito óbvio e não sendo, ficamos do mesmo jeito, sem jeito ouvindo uma fossa qualquer e de muita qualidade confessando versos soltos com significados profundos e inigmáticos de uma situação ou situações
    sem grandes definições …
    Fatos ??? Só o de amanhecermos juntos …
    - Bom Dia !

  • Andre says:

    Li isso em 2007, a paixão por ela acabou, mas a admiração por quem escreveu permanece. Parabéns por tirar as palavras de dentro da caneta na ordem certa.

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