pensamentos esparsos de uma mente desconexa
22 abr 2008
publicado na Tribuna da Imprensa
A moça acordava com o Sol e não se prolongava na cama. Quase nunca, a bem dizer. A cama ficava chamando-a de volta para si, para que a moça não deixasse os lençóis sem viço e vida. Sem a moça, seriam panos sem desejo a serem dobrados, lavados, esticados, secados e guardados depois de passados. E não tem festa ou encanto dentro dos guarda-roupas ou dos baús. A moça trazia festa e diversão quando estava entre os panos e os lençóis tinham a moça no seu embolar e a moça se embolava entre os lençóis.
Enquanto isso, a madrugada, por sua vez, se lançava preguiçosa enquanto a moça não levantava depois de tanta festa e baile. Se esticava e convidava toda a gente para o samba e a seresta e o baile de domingo que só acaba quando o Sol nasce. E dizia-se que, o Sol é quem acordava quando ela abria os olhos, já que a moça era o alvorecer de muita gente. E a moça dormia para a madrugada se esticar ou assim fingia para que o samba, a seresta e o bailinho se durassem até o dia seguinte.
Depois de acordar, a moça se arrumava com vaidade. Calcinha branca de algodão, soutien branco a combinar, vestido rodado solto – podia ser liso, estampado ou não – e uma rasteirinha para andar na rua. Óculos de grau e escova nos cabelos negros como a asa da graúna. Pentear e escovar trinta e seis vezes todos os dias. Escovava os dentes e dizia tchau para o quarto que lançava o olhar de saudades e de querência. Poucos entendem o querer que se vai porta afora sem dar sinal de voltar.
Saindo de casa, a moça ia pelas ruas, encantando as vistas de quem não se dava o desfrute de se ocupar mesmo com o sol a pino. E até os homens de ofício flanavam uns momentos de sua ocupação para ver a moça passar. Pra passar essa moça que, de tão moça, remoçava quem com ela sonhava, fazia festa no quarto e não dormia, pois havia muita festa a ser feita nas noites adentro.
A moça que caminha, apenas por caminhar, olha distraída a felicidade que causa e nem se dá conta que os sorrisos que faz brotar, nascem no olho do outro e morrem entre suas pernas, que insistem em equilibrar as saias que rodavam, impossíveis na cabeça dessa tanta gente.
A moça chega no trabalho e deixa de ser moça: é mulher de negócios, é secretária executiva, é gerente de projetos e de produtos, é lady do marketing, é a dominatrix das contas publicitárias, é a professora doutoranda de alguma ciência importante, é a senhora dos textos dos jornais e revistas e websites e é a dona da banca. Ela manda, os outros obedecem ora por medo, ora por gozo de ouvir sua voz impotente e imperativa.
Depois do trabalho, a senhora volta a ser moça. Encontra os amigos e os amantes e os ex-tudo que talvez sejam ex-futuros novamente e escolhe um deles para lhe acompanhar nos bailes ou mesmo chama a todos para se largar no Democráticos e ver até onde vai a festa, o baile e a noite. Afinal, quem sabe quantas horas cabem numa noite?
E eis que chega uma hora que a moça quer deitar e levar a festa para onde se deita e os rapazes e as moças se eriçam todos esperando um olhar sapeca da moça da saia rodada e das rasteiras e da calcinha de algodão.
E a moça sai só carregando consigo o desejo de todos dentro do bolso só para o seu desfrutar.
Deixe um comentário