pensamentos esparsos de uma mente desconexa
7 nov 2007
publicado na Tribuna da Imprensa
Toda história de amor termina.
Não tem jeito. Por mais que tentemos prolongá-la para além de seu curso, como se amarrássemos balões de gás que a impulsionassem mais alto e além de sua própria capacidade de vôo, ele fatalmente perderá o seu viço, a sua força e o seu encanto e se tornará uma rotina cinza e modorrenta. Ou, com sorte, se transformará numa história diferente onde os projetos dos dois se somarão e os votos antigos, já obsoletos, serão queimados diariamente, sendo substituídos por filhos, emprego, a compra da casa, num “não sei o que fazer, eu só me reconheço como parte desse relacionamento” ou qualquer outra hipocrisia que se resolva inventar para manter o que já estava morto.
Obviamente que cada história de amor tem um tempo diferente de vida. Eu costumo dizer que o tempo médio de todo o ciclo de relacionamento (flerte ou paquera, declaração, beijo, cópula, apresentação social, divisão de teto, planos a dois, estranhamento do outro, estresse, separação, ódio e desprezo – não necessariamente nessa ordem) é de dois anos com diversos fatores que aumentam ou diminuem esse prazo. Planos em comum aumentam de seis a doze meses; gostos em comum: quatro; senso critico apurado de um dos membros do casal: menos dezoito meses; um dos membros do casal é um carioca desterrado em São Paulo e se chama Zander: menos vinte e três meses e três semanas.
O que permanece é a lembrança, esse fantasma que faz a humanidade ser o que é. O ser humano vive no fio da navalha entre ser uma criatura de passado e morar num universo onde nem o passado nem o futuro existem de fato. Se, por um lado a lembrança dos fatos passados é o que nos permite erigir prédios e desafiar a natureza com as invenções do banheiro e do ar condicionado – os dois símbolos mais-que-perfeitos da civilização – essa mesma capacidade de lembrar nos atira ao esgoto emocional, à nostalgia improdutiva e à auto-comiseração. Nunca conheci um amnésico que tivesse pena de si mesmo. Também nunca conheci um amnésico, verdade, mas conheci muita gente com memória ruim e esses tendiam a ser mais felizes com a vida que vinha.
Desviei-me um pouco do tema.
O que importa é a lembrança e, principalmente, o que fazemos com ela. Sabe-se que nem tudo pode ser apreendido pelo homem. Muitos detalhes ficam para trás. E a arte do querer bem a quem se ama ou amou é a de reter os detalhes que, recontados centenas e centenas de vezes, ganham um glamour, um encanto que nunca tiveram. A arte de terminar uma história de amor é guardar para si os momentos mundanos e transformá-los em gloriosos. Assim, podemos ter renovada a esperança do romance para os que virão e nos tornarmos repletos de querer bem a quem nos quis bem um dia.
O grande amor é sempre o próximo.
10 comentários for "E você bem que me poderia contar uma história romântica…"
Tudo isso se resume em uma expressão
“Superego Descontrol”
Eu tb concordo….
O grande amor é sempre o próximo.
Otimo texto!
Casa do Zander?
Plágio!!
Aplausos! Aplausos! As histórias se repetem. Todo tempo e o tempo todo. Só mudam as personagens. Começo a achar que isso é o normal e o que pensamos, sonhamos na verdade é utopia…
… tá vendo? tá vendo? o mundo é injusto. absurdo isso da outra lá ter livro maluco que não fez sentido nenhum pra mim, na boa, a não ser uma prosa caótica moderninha com idéias subversivas sugeridas e pensamentos desordenados. isso aí é um texto. um texto m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o, do início ao fim.
pena mesmo é que eu concorde com ele e acho isso o fim do mundo porque eu queria, como você, o dom, não do esquecimento, mas da ignorância. porque quem sabe, acreditando que pode dar certo; e que talvez, apenas talvez, exista alguém tão interessante no mundo que vá se transformando numa proporção mais-ou-menos parecida com a que eu me transformo, que faça com que seja possível se apaixonar e reapaixonar-se algumas vezes por ela.
teu texto tá lindo, garoto, redondo, bacana, inteligente, blá blá blá. e essa sabedoria que tem nele, que nos torna demasiadamente vinicianos, é que é foda de engolir, principalmente porque eu assino embaixo!
ou nos conformamos em tentar o suicídio ad eternum, nos lançando em relacionamentos que fatalmente terminarão; em mudanças feitas, desfeitas; em livros, discos e fotos, em ransos e mágoas ou nos conformamos com a insipidez do cotidiano.
mas eu quero continuar sonhando. venho tomando pílulas de esquecimento diariamente. porque a esperança, sempre é a última que morre, né?
beijo lindo, a-m-e-i.
:*)
Nossa, falei isso hj com uma miga minha, dp de 2 anos, parece, q sei lá, tú explicou bem melhor, vim parar aqui indicada pela Roberta….milher de bom gosto essa, bjos.
Ai, fiquei triste…
hm. eu tive grandes amores. sério. uns me odeiam, eu odeio, mas ainda sao grandes amores.
e eu estou vivendo um grande amor há mais de um ano. sou sortuda ;)
Zander, vou discordar.
De tudo que disse, pouco falou sobre amor. O fogo só tende a aumentar coma INTIMIDADE, pois com o tempo não estamos mais dedicados a um momento, a um contexto, uma circunstância. Se doar é um processo que não tem volta.
Triste mesmo é formar cinzas sem se queimar por inteiro.
Beijos de histórias românticas… (*rs)
As vzs seus textos caem como uma luva para mim, esse é um deles. No momento, preciso fugir das pílulas de esquecimento para lembrar de tudo que o ser amado se transforma com o tempo, e me livrar do amor doentio.
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