publicado na Tribuna da Imprensa

Num boteco de quinta.

“Olá, o senhor é o Zander Catta Preta?”

“Sim, eu mesmo.”

“O senhor é o que se diz um farsante?”

“Exatamente, farsa é o que eu faço, farsante é o que sou.”

“O senhor poderia me explicar um pouco melhor?”

“Depende. É de interesse profissional ou pessoal?”

“Um pouco de cada. É que não sei bem o que fazer da vida e pensei em entrar nessa área. O senhor tem muita competição?”

“Na verdade, não. O problema são os falsos farsantes. Os que farseam o dia inteiro e se travestem de outras coisas. Eles tomam todo o mercado das farsas e são, hoje, um empecilho para aumentar a lucrabilidade e rentabilidade da farsa produzida honestamente.

“Entendo. E são muitos esses falsos farsantes.”

“São legiões deles. Pior! Se vendem por qualquer ninharia.”

“O senhor não?”

“Só aceito euros. E adiantado.”

“Nossa! O senhor deve ser um farsante conhecido!”

“Farsante conhecido sim, conhecidamente farsante, não. É essa a dica que te dou. Não deixem os outros saberem que é uma farsa, mas faça que os outros te conheçam.”

“Mas como funciona isso? Assim… tem escola para farsante? Tem faculdade disso?”

“Ter, tem. Mas eles colocam outros nomes nas faculdades. É como o Rotary e o Lions. Todo mundo sabe que eles são sociedades secretas que têm planos de conquista globais, mas se disfarçam de senhores cristãos de meia-idade que engordam nos eventos do clube.”

“Entendo… entendo… mas o senhor pode falar um pouco mais desse negócio de farsa? Tem que passar nota? Tem contrato?”

“Olha. É bom sempre deixar tudo por escrito, né? Tem muito pilantra que dá o cano depois da farsa pronta.”

“Mas o pilantra…”

“Esse você tem que aprender a evitar. Nunca confunda o canalha com o pilantra nem com o biltre. Esse tipo de vilania está fora do nosso escopo, da nossa arte de farsear.”

“E há diferença entre um e outro?”

“Não é clara, límpida e translúcida a diferença?”

“Não consigo ver, não é claro.”

“Se não é claro, é farsa. E se obviamente é uma farsa, na verdade é uma vilania dessas aí. Uma farsa nunca é clara ou óbvia. Mesmo quando é claro e óbvio que se trata de um farsante.”

“Mas eu ainda não entendo.”

“É bem por aí. A farsa não é para ser entendida. Quando há compreensão, ela se morre.”

“Mas isso não é o ilusionismo? A mágica de palco?”

“Isso, menino. O farsante é o mágico das palavras.”

Beberam o chope e pagaram a conta.