publicado na Tribuna da Imprensa
- pós Hair, the original soundtrack
“É ali, antes de dobrar a esquina, o senhor dá uma paradinha logo após o sinal que a portaria é ali mesmo.” “O senhor não quer que eu manobro?” “Não, obrigado. É melhor o senhor continuar na Nossa Senhora mesmo. A volta é grande.” Na verdade ele queria sair logo dali e se refugiar em casa. Não se continha nem dentro das calças nem no sorriso que explodia em um sorriso bobo, de amarelar os dentes.
Pegou a carteira. Pagou. Ouviu mas são dez reais e cinqüenta. Disse pode ficar com o troco. Guardou a carteira. Arrumou-se para saltar. Saltou. Deu tchau e boa viagem e bom trabalho e boa segunda feira pro motorista. Atravessou os cinco metros e trinta e dois centímetros do meio-fio até a portaria. Entrou. Disse bom dia e que dia lindo vai ser hoje. Ouviu um muxoxo. Não importava. Correu como criança chegando da escola até o fim do corredor e abriu a porta de casa. Fechou-a atrás de si.
Resfolegava como uma chaleira apressada enquanto descia pela porta. Sentou-se no chão despreocupado com a luz apagada da sala. O sol iria iluminar tudo rapidamente. Aliás, ele contava com isso. Estava um pouco atrasado, sabia, mas daria tempo para tudo. Sempre dava.
Guardou as chaves na mesa, no mesmo local de sempre. As chaves, a carteira, o relógio de pulso, o celular que raramente tocava, a câmera digital ultrafina, o que restava das camisinhas. Chutou os sapatos num canto a esmo. Tinha isso como esporte pessoal: arremesso de calçados aleatórios. Por vezes até vibrava quando caiam com a sola para baixo (os dois, sempre, valiam 30 pontos) ou acertava uma lixeira. Ou quando caiam juntinhos de outros calçados. Uma vez pensou em fazer uma tabelinha de pontos pra isso. Desistiu no momento seguinte. Iria tirar a graça de inventar a pontuação.
Massageou primeiro o pé esquerdo, depois o direito. Cheirou-os. Cortou uma unha que encravava displicentemente. Espreguiçou-se e gargalhou rapidamente.
“Puta merda, que noite!” Abriu o laptop e colocou uma música para tocar.
“Ih! Hair! Não podia ser mais perfeito.” Tirou a camisa num solavanco. Cheirou-a. Lembrou-se do cheiro dela misturado ao seu perfume. Madeira. O dela era doce.
“Azzaro? Azzaro não é doce.” Faltavam cinco para as seis. No relógio que já não carregava no pulso.
Dobrou a camisa com carinho e colocou em cima da cadeira da sala. Casa pequena tem disso, cadeira vira cabide com uma facilidade instantânea. Cabide. Criado-mudo. Apoio para a foda. Existe móvel mais versátil que uma cadeira? Tirou as calças, dobrou-as e colocou em cima da camisa. A cueca foi arremessada junto com as meias (sempre as últimas peças a serem despidas). Nu, deixou-se largar no sofá e enrolou mais dois minutos. Dava tempo, sempre dava. Abriu a janela da sala.
O pátio interno era o seu cantinho. Ninguém a essa hora olhava para baixo. Na verdade, ninguém olhava para aquele canto desde que o síndico proibira que pendurassem roupas para secar na parte de dentro do prédio. Não fazia muito sentido, dizia. Não bate sol ali. Mas as donas de casa teimavam. E as roupas secavam direitinho. O macete era pendurar à noitinha e esperar o amanhecer. Não sabiam o porquê. Mas funcionava. Quem nem homeopatia.
Pulou a janela e, debruçado de volta para dentro do quarto, pegou o cigarro. Acendeu-o na mão e sorriu pro céu.
“Ana.” Disse baixinho.
E doze de setembro amanhecia.
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EU não sei o que dizer.

Serve um “WOW”? bem empolgado?
ah, olha lá:
http://embriaguezdesucesso.blogspot.com/
não é pra ser sério, claro.
beijos…
pra variar eu não sei oq dizer.
serve um Adorei? >.