Hormones

Na paulista…

publicado na Tribuna da Imprensa

…costumava ser uma expressão usada na faculdade para o ato de passar a brenfa, marofa, canha, baseado, doizinho, pega, a maconha – enfim – com velocidade que, a priori, não deveria ser própria de quem está consumindo um entorpecente relaxador. Ou seja, o cara pega, puxa, traga, e passa sem ter tempo de contemplar o ato, de curtir o momento, e só espera que a onda bata logo. Obviamente pegar a bagana, a vela, a maria-joana, o fumo, o cigarro e ficar contemplando o mundo enquanto ficava olhando a parada queimar lentamente para o nada era chamado de “na carioca”.

Hoje fico pensando se não existe algo mais nessa comparação que a falsa calma do carioca e da pressa inequívoca do paulistano.

Antes que me processem por apologia ao narcotráfico, aviso: nunca fui adepto do uso da cannabis sativa – jamais consegui dar mais que dois tapas e não desmaiar em seqüência – mas curtia ficar com o pessoal na vila dos diretórios acadêmicos da PUC-RJ, na chamada esquina da esquadrilha da fumaça, a quina formada pelas casinhas do povo de desenho industrial, de filosofia e geografia e era completada pela casa do CA de Direito que, diga-se de passagem, o único que tentava fazer algo que lembrava remotamente um movimento estudantil naquela época pós-caras pintadas, pós-reabertura política, pós-ideologias, pós-juventude.

Gostava porque a maioria ouvia o bom e velho rock’n’roll – apesar de um reggae ocasional me torturar a paciência – e todos gostavam de quadrinhos e de alguma literatura. Além disso era o pit-stop obrigatório no caminho do boteco. Esse sim, fornecedor do meu elemento de entorpecimento favorito.

Desculpem se tergiverso um bocado, mas é que me lembrei disso hoje ao andar na Avenida Paulista.

Chovia de um jeito que é cada vez mais raro em São Paulo – chuva fina, tempo frio, vento cortante – e eu ia da Consolação ao Paraíso. Da rua Augusta à rua Brigadeiro Luiz Antônio. Na calçada, a fauna de costume: casais gays na altura do Conjunto Nacional – e da Frei Caneca – jovens executivos entre a Freica e o Trianon, alguns rapazes perdidos no parque, estudantes nos botecos até a Joaquim Eugênio de Lima, mais jovens executivos que foram estudantes há pouco nos mesmos botecos com mesas e cadeiras em plena calçada, hippies/mendigos na altura daquela casa branca que estava abandonada e que fora um MacDonalds até um tempo atrás.

No passar da turba, uma cena insólita. Como sou muito míope, as imagens me vêem aos poucos, sendo construídas no meio da minha falta de foco. Primeiro, um engravatado carregando algo pesado. Depois, consegui ver o portador de terno completo e gravata com mais nitidez. Ele carregava um monitor velho de computador, daqueles de tubo, de umas quinze polegadas, com algum esforço, mas andava com energia e determinação. Mais uns cinco metros consegui ver a face. Barba por fazer, cabelos desgrenhados e loiros, olhar injetado de fúria e os braços de terno sem camisa.

Passou por mim como se não existisse chuva ou destino. Na paulista.

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2 Responses to “Na paulista…”

  1. Srta. Rosa Says:

    Dez o texto, quase vi o loirinho passando como se chuva não existisse. Mas aposto que você postou esse texto correndo de um lugar pro outro, comeste umas 3 letras aí no meio das palavras, amore…
    Mas parabéns, bela crônica… eu também sempre tive a turma dos emaconhados, e fumo tanto – ou menos – quanto você; depois de um tapa eu sinto sono e fome, não necessariamente nessa ordem, e nada demais me acontece…. rsrsrs…
    Boa semana!

  2. Sabine Says:

    e eu, mesmo não sabendo quais são todas as ruas citadas, consegui relembrar com saudades de alguns pontos que conheci..

    ;)

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