Nostalgia de quinta-feira

January 25th, 2007 § 11

publicado na Tribuna da Imprensa

Eu simplesmente detestei a minha adolescência. Feio, chato e nerd, só não era um fracasso no colégio por conta do meu humor sarcástico e quase non-sense. E também por uma mania suicida que eu tinha de criticar os professores em plena sala de aula.

Isso garantia a minha sobrevida à violência dos recreios.

Música? Não consigo ouvir por mais de dez minutos o que eu escutava à época. Há exceções, é claro. Scorpions (Virgin Killer e In Trance ainda são os melhores discos deles), alguma coisa do Ira, Legião, os roqueiros de Brasília e Sampa em geral, The Cure (Pornography ainda comanda o batatal).

O que sinto saudades mesmo é de ficar nerdando nas lojas de discos da Tijuca e de Copacabana. Principalmente na Sub Som, onde vira e mexe tinham discos bootleg (comprei um do U2 e me arrependo de não ter comprado o picture disc triplo do último show do Led Zeppelin). Bootleg, para quem não sabe, eram os “discos piratas” da época. Eram gravações não-oficiais de shows ou takes de estúdio que eram abandonados pelos artistas e os fãs coletavam. Aquelas lojas eram a internet da minha época. Chegava sempre um maluco com uma fita cassete de uma banda desconhecida e dizia que era o último som do momento. E colocava para todos ouvirem na loja.

Saudade de ficar nerdando na biblioteca da escola e ler toda a coleção de Asterix pela décima vez. E de descobrir “Eu Robô” do Asimov numa estante, de ler “Fundação” sentado no chão do corredor, de passar pelos clássicos de aventura, anotar o nome e depois comprar baratinho nos sebos do centro da cidade. “Moby Dick”, “Da Terra à Lua, todos HG Wells, todo Monteiro Lobato, Kafka. Tenho, em verdade, é saudades de ter tempo de fazer isso. De ter toda uma quinta-feira à tarde para ficar ali lendo.

E as meninas… Queria poder dizer que tenho saudades delas, mas acho que sempre preferi as mulheres feitas. Nunca gostei dos joguinhos de flertes da adolescência. Prefiro a praticidade moderna, madura e adulta… peralá… se bem que muitas mulheres nunca deixam de fazer esses jogos, não é? Mas tenho saudades das minhas paixões platônicas, tão fatais, derradeiras e eternas que só os adolescentes podem ter. Essas eu cultivo com carinho, como quem cuidasse de um filhote perdido. Duas, em especial, me alentam quando estou desesperançado do mundo. Olho algumas fotos e encontro o fiapo de luz escondido no meio do core me dizendo: “Ei, cara. Você pode! Você consegue!”

E os sonhos adolescentes? Mudar o mundo, enriquecer, ser um rock star tupiniquim. Ainda bem que eles se foram. Daí ficaram mudar o próximo pelo seu próprio exemplo, saber o real valor das coisas, ser lembrado pelos amigos e pelas pessoas que te amam. Mais modestos os sonhos, eu sei, mas me dão mais tranqüilidade e acho que consigo viver bem com essas pequenas ambições. Afora isso, uma televisão de plasma de 42″, um LightSaberFX, um iPhone, um MacBook novo e um PCzão da Alien, são gêneros de primeira necessidade, né?

Acho que a única coisa que eu tenho real saudade é da possibilidade de ter tempo jogado fora.

Chegando à beira dos quarenta anos, não tenho tanta nostalgia. Tenho é uma bela coleção de arrependimentos catalogados organizados e que visito regularmente. Uma verdadeira História E Se. E se eu tivesse ficado de boca calada, e se eu tivesse beijado a menina logo de cara, e se eu tivesse tido culhões e peitado o chefe da mesma forma que eu peitava os professores, e se eu tivesse fugido de casa e bancado a minha ida pra Sampa nos idos de 88?

Pra mim, tenho poucas metas até os quarenta anos. Poucas para fazê-las todas.

Uma delas é morar só. Me envergonho de ainda depender de família para teto e sustento básico. Vergonha mesmo. Não tenho mais idade para isso e nem falo do conforto ou (falta de) privacidade mas de hombridade. A cada dia que passo sob o teto de outrem, me sinto menos homem. Emasculado. Tenho de dar um jeito nisso. Ontem.

Outra é começar a juntar algum dinheiro. Não dá mais. A cada hora um aperto aqui, uma coisa inesperada ali, uma festa, uma viagem e pronto. Me ferro sobremaneira no banco, no meu orçamento pessoal. E não consigo alugar o meu apê. Então tá decidido. Vou começar a juntar uns caraminguás regularmente. Só não sei quando começo.

Mais uma é me apaixonar menos. É outra coisa que já deu. Sei que ser blasé é totalmente demodê, mas não tenho mais saúde para essas montanhas russas emocionais. Não nego uma paixão ou um amor, mas menos. Bem menos. Não passar a quarta logo de cara.

A última é me calar mais. Não na mesa de bar, a tagarelice vadia, o conversar de várzea, o papo moleque, a conversa-arte, mas me calar sobre coisas que sei que não serão bem recebidas ou compreendidas de prima. Em síntese: ter menos opinião ou expressá-la da forma veemente que me é habitual. Não sei se isso será possível, dada a minha natureza ariana, mas me evitaria confusões que não me acrescentam em nada. Nem é pelos problemas gerados. Quem me entende sabe como sou, quem não, não me interessa. Mas pelo esforço em domar as paixões.

Aos quarenta, se completados os passos, poderei começar a preparar o meu sossego.

Afinal, nunca achei que chegaria tão longe.

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§ 11 Responses to “Nostalgia de quinta-feira”

  • Gabi says:

    Ah, rapá…. aos quarenta você já vai ter ganho na mega sena.

  • mark says:

    mt bom. mt bom.
    Identificação quase que completa :)

  • Belo texto, Zander, Aliás, achei o link em uma mensagem do Radinho.

    Você mora em São Paulo, né? Fiz o caminho oposto: de SP para o Rio. Mas os arrependimentos, as crises… compartilho-os contigo!

    Abraço

  • Leandro (Giraldi) Medeiros says:

    Tuca, faz tempo que não nos falamos mas de vez em quando dou uma sapeada no seu blog.
    Hoje foi um destes dias.
    Parceiro de abril, temos os mesmos problemas…
    Pois é, ser ariano é foda mas também é uma merda…

    Abraça!

  • Ava Verhaal says:

    “Feio, chato e nerd” você continua sendo Zander…

  • gabi says:

    ainda bem que você chegou bem longe, bêibi.

    (rindo muito do comentário da ava)

  • Vivien says:

    Qual o titulo? “memorias de um geek”?…rs
    Gostei muito do texto.
    Essa coisa de ver os 40 chegando mexe mesmo com a gente. Morar sozinha – ou melhor, com meu filho – eu consegui. Consegui umas outras tantas tb. Mas calar a boca e não me apaixonar como uma idiota, ainda não aprendi.
    Mas isso eu já desisti faz um tempão.

  • Heloisa Trocado says:

    O impressionante no texto é a capacidade de expressar um sentimento solitário que é coletivo. Essa contradição da saudade de um tempo que já naquele tempo a gente não queria. Eu amo o que você escreve. O engraçado é que a gente nem se conheceu no colégio né… Fui descobrir você agora, ainda bem que aquele tempo passou e eu descobri um autor maravilhoso num mundo sem fim do sentimento humano.

    Beijos, isto é a vida por 15 minutos ou 40 anos

  • s1mone says:

    Poxa, este post hoje apareceu hoje nos feeds e jurava que você tinha acabado de escrever. Era mais ou menos este o seu espírito no feriado.

    Se algo poderia ser diferente na minha adolescência, era ter cruzado com os nerds como você. E eu que me via cercada pela futilidade… acabava na melancolia inútil. Tanto para aprender!

    E ontem no Twitter você mandou aquelas mensagens, não deu para responder, mas digo agora: se quiser voltar, volte. Volte porque nós todos aqui te amamos!

    8:*

  • Ângela says:

    eu me lembro das capinhas nas quais vinham os lps da sub som, preta com anjo :)

  • [...] me senti só, isolado ante a turma de semideuses. Cada um de nós era “doutrinado” a ser o melhor dentre os iguais, a ser o mais inteligente, o [...]

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