texto publicado em LIVinRooom
texto publicado na Tribuna da Imprensa
Elisa recebeu o telefonema logo pela manhã. Mal tinha terminado a profilaxia bucal e já tinha de dar satisfações sobre a troca de saliva do fim de semana recém-encerrado. Após o usual papo de quarenta e cinco minutos, conseguiu se desvencilhar da criatura que a alugava e terminar de se arrumar para o trabalho. No caminho, algum trânsito e devaneio. Parou na Barão da Torre para pegar Ana, que era carona certa e confidente matutina.
Dado momento no caminho para São Conrado, Ana teve de salvar o celular da amiga do suicídio certo. Uma curva mais brusca fez deslizar o telefone pelo painel do carro. Quase que o bichinho tem a sua primeira lição de vôo.
Curiosa, resolve fuxicar nas mensagens da amiga.
“Sexta-feira, 17h43min – Saio do trabalho em meia hora. Passo aí e já emendamos ou espero você ir para casa? Beijos.”
“Quem é o bruto?” “É novidade. Quis brincar de namorado no fim de semana.” “Aprovado?” “Sei não. Talvez. Beija bem.” “Bom sinal.”
Ana estranhou o silêncio da amiga. Bom. Talvez fosse apenas uma fodeca temporária e sem importância. Continuou a fuçar.
“Sexta-feira, 21h24min – Estou na portaria. Beijo.”
“Sábado, 12h02min – Adorei ter amanhecido com você. Cinema hoje? Já com saudades.”
“Sábado, 20h02min – Estou na portaria. Beijo.”
“Domingo, 10h37 – Já tomou café da manhã? Garcia e Rodriguez?”
“Garcia e Rodriguez, amiga?” Ana não conteve o deboche.
“Que que é isso? Não se pode ter mais privacidade?” Elisa riu um bocado.
“Vamos parar no posto para comer alguma coisa? Tô faminta.” “Por mim, ok. Estamos adiantadas mesmo. Aproveita e me conta do bofe.” “Não tenho muito a contar. Ele é bonito. Tem um bom emprego. É asseado.” “Asseado? E isso é qualidade que se atesta no curriculum de alguém?” “Deveria constar. Cansei de homem que não troca as cuecas ou apara os pentelhos. Bom… ele é asseado, beija bem, atencioso, carinhoso. Inteligente. Mas não muito. Culto, sem ser pernóstico. Cavalheiro, sem me subestimar. Enfim: quase perfeito.” “Por que quase? Para mim tá perfeito. Já sei! Péssimo na cama?” “Não.” “Mas o que tem de errado no mancebo, mulher?” “Nada.” “Acho que entendo…” “Pois é. Esse é o pai dos meus filhos.” “Mas você não quer ter filhos, Elisa.” “Exatamente. Não agora. E eis que me aparece o príncipe encantado.” “Que merda!” “Nem tanto. Vou administrando. Se ele se revelar um sapo ou um chato, descarto. Caso contrário…” “Caso contrário o quê, Elisa?” “Caso contrário, me caso com ele, ora.”
Entraram no carro. Ana ligou o rádio e, na mesma hora, o telefone vibrou. Mais uma mensagem de texto.
“Posso ver?” “Claro. Dificilmente ele mandaria algo impróprio para mim.” “E se for uma cafajestagem de um outro qualquer?” “E cafa manda mensagem de texto?” “Ô se manda!” “Pode ver sim.”
“Segunda-feira, 7h46min – Minha linda. Adorei o domingo. Vamos jantar?”
A mensagem decepcionou Ana, que esperava ver algo mais picante. Mas é claro que o homem perfeito não faria essa deselegância com a sua lady. Previsível. Ana olhou a amiga que estava estranhamente compenetrada na direção. No rádio tocava uma músia do Aldir Blanc. Contava a história de uma ex-amante que arruma um bom partido.
“Finalmente teu garoto/ vai ter um pai de primeira/ você mais segurança e um pingüim na geladeira/ na cabeceira um relógio/ a hora mais luminosa/ churrascaria aos domingos/ dois bombons e uma rosa.”
Virou-se de novo para Elisa que catava os óculos escuros ao sair do túnel Zuzu Angel.
“Não há xampu não há creme/ que apague ou que desmarque/ da tua pele o meu beijo/ fedendo a conhaque.”
Elisa reprimiu algo em si e as amigas ficaram em silêncio até o carro ser estacionado. Na saída falou entre soluços.
“Eu não o amo, amiga. Não o amo.”