November 30, 2006 3

O passeio

By zander catta preta in textos

postado em LIVinRooom

Andava sem rumo em plena Visconde de Pirajá. Tomava norte para a Farme, em busca dos bares dúbios e fartos de sexo fácil. Estava acostumado com aquelas esquinas, mas uma sensação de despertencimento lhe vestia dos pés à cabeça. Não reconhecia os rostos dos conhecidos e não se encantava com os olhares lânguidos das meninas perdidas que se amontoavam ali, no baixo Ipanema.

Ao chegar, resolveu subir a rua e tentar um chope no Bofetada. Ali teria uma chance de ficar quieto, mesmo podendo ser assediado pelos estrangeiros que vinham em busca de amores sem preconceitos com os rapazes da área.

Encarou duas geladas e declarou-se derrotado quando pediu uma água sem gás.

Desceu a Vinícius até à Prudente de Moraes e foi seguindo até o Empório. Última chance de diversão descompromissada da noite. À porta, aqueles três manés o desconvidavam a entrar. Ignorou o fato e conseguiu uma mesa perto do DJ.

Para não dar chance à consciência, pediu logo uma água e uma tequila. Na quarta dose já estava amigo íntimo de pessoas que nunca mais veria. Um rosto amável lhe convidou para passar a noite entre lençóis. Ele topou, mas tinha de fazer a dança do acasalamento antes.

Era uma rotina tediosa, essa da corte. Normalmente encarava isso como um esporte, mas o estado etílico presente desaconselhava qualquer tipo de interação que não fosse objetiva. E, batata, a menina pulou fora antes que ele pudesse dar o bote certeiro.

“Cretina!” Soltou sem pensar muito no efeito nas outras fêmeas presentes. “Mulher é assim mesmo. Basta uma não querer que as outras acham que o macho tá podre! Cretinas!”

Ele olhou para os rostos do boteco em busca de simpatia e viu um dos cornos da entrada a lhe chamar. Era o Grande. “Que nome babaca! Quem se dá o desplante de se autodenominar Grande? E Burro? E Gordo? Só faltava ter um Pudim ou um Gambá ali.” Pensou, se controlando para não abrir a boca.

Claudinho não tinha as manias dos outros bêbados de se tornar milionário, poderoso e com carisma infinito. Mas tinha de manter controle cerrado do que costumava falar. A língua lhe crescia em metros quando bebia.

Sentou-se no canto indicado pelo grande e pediu uma água sem gás. Nenhum dos três ostentava a galhofa e a pompa usuais. Pareciam tão ou mais desgraçados que ele. Num segundo se irmanou e viraram amigos de infância.

“Tá perdido na noite, né cara?” “É, Grande, to solto feito pipa voada. Mas tem nada não que daqui a pouco encontro um travesseiro repartido.” “Tu precisa é de uma boceta, Cláudio.” “E tu sabe o que é isso, Gordo? Tá com cara que faz tempo que não vê uma!” “Hahahahaha. Pior, Cláudio. Faz tempo que não vê uma que se ofereça para ele. Tem de apelar para o sexo das primas.” “Cala a boca, Burro! Até parece que tu come alguém sem oferecer emprego ou promoção.”

Grande, como sempre, ficava quieto no canto observando o papo como se colocasse uma distância regulamentar entre os amigos e a si mesmo. Era o que evitava ser dragado pela lama e o abismo moral onde habitavam os companheiros. Ele gostava de se sentir como um turista eventual na putaria. Não o seu habitué.

Claudinho já estava melhorando do porre, mas ainda alto demais para conseguir alguma coisa com alguma mulher no recinto. Pagou a conta da mesa e ensaiou uma saída. Gordo o impediu.

“Vamos pro Devassa. Te pago umas e aproveitamos pra comer algum animal morto gorduroso.” O resto do povo foi no vácuo.

Pela manhã só se lembrava de umas morenas na entrada e de ter pedido umas cachaças especiais do menu. Daí eram flashes de ele entrando no táxi e de ter vomitado num banheiro.

Quando recobrou a consciência, descobriu uma loira oxigenada a seu lado e umas camisinhas abertas. Torceu para a menina não ser conhecida, daí poderia usar o seu script “A noite foi ótima, Princesa” com ela e despachá-la sem mais delongas.

Foi ao banheiro verificar o estado das louças e, aparentemente, tudo em ordem. Só umas lingeries que deveriam pertencer ao projeto de Marilyn Monroe que roncava solenemente.

Ao voltar, reconheceu a figura distinta.

“Ana?” Ela, ainda sonada, apertou os olhos e abriu um sorriso sacana. “Você é mesmo tudo aquilo que falam. Mesmo bêbado.”

Ele desceu a parede com as costas. Sentou-se no chão desolado.

“Merda de vida.”

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3 Responses to “O passeio”

  1. .Hazel. says:

    O destino é irritantemente irônico.

  2. Vivien says:

    Bacana, gosto dos seus textos. Mas eles me deixam deprimida.

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