publicado na Tribuna da Imprensa

Fui ao cinema. Tudo bem, não há novidade ou nada excepcional nisso. Costumo ir ao cinema umas três, quatro vezes ao mês. Assisto a filmes infantis com a filhota, a filmes de violência descerebrada com os amigos, e comédias românticas com as demais companhias.

De fato estou indo menos ao cinema que fui dos 15 aos 18 anos. Em parte o preço dos ingressos não estimula a minha ida – me recuso a falsificar a carteirinha de estudante e compactuar com mais uma infração generalizada – e o advento do DVD me mantinham longe das salas escuras e da tela gigante.

Desde que vim para Sampa, eu retomei o hábito de “cinemar” ao menos umas duas vezes ao mês. O fato de eu morar a poucas quadras da maior concentração de salas de cinema do país ajuda um bocado e tenho diversos amigos cinéfilos. Desses que acham um absurdo eu não ir a todas as sessões do festival de cinema de SP ou à mostra de curtas do cinema francês no SESC.

Fato é que, mesmo com hábito que ressuscita, ontem assisti a um filme quase que por acaso. Tinha saído de casa sem pretensão maior de ver um filme leve, comer pipoca e ficar de carinhos no cinema. Um programa quase adolescente, confesso, que me agrada muito quando a companhia é divertida, bonita, carinhosa e inteligente. No caso, sim, sim, sim e muito sim.

Acabamos indo ver Leões e Cordeiros mais por conta do horário que pela escolha do filme em si. No filme, o personagem de Robert Redford é um professor que tenta retirar um aluno do marasmo que ele se encontrava, da vida fácil e rasa que a nossa sociedade do espetáculo tanto oferece, seduzindo, quando nos draga, suga e drena para se manter eternamente rasa. Uma nata fina, tenra e desejada por todos. Não era o mote principal do filme, ele passa por questões mais amplas como o equilíbrio entre audiência e notícia – questões importantes do infotainment moderno – e pelo equilíbrio de forças geopolíticas atual.

Mas o que me moveu de fato foi uma cena rápida. O professor vira-se pro aluno que é brilhante, mas está desestimulado com o que tem pela frente e ele solta a seguinte pérola: O que você é, essa potencialidade tua, essa tua capacidade de realizar agora, nunca mais acontecerá. Você será uma pessoa diferente daqui para a frente e verá que desperdiçou a sua própria capacidade de realizar, de mudar as coisas. Não foi bem com essas palavras, mas foi nesse tom. O menino retruca que de que adianta tentar? Se fizer direito, mudaremos pouco. Se errar, não mudará. Se não tentar, nem um nem outro darão errado.

Nunca fui senhor de meu destino. Minha vida é como uma biruta que vai de acordo com o vagar do vento e, até ontem, isso nunca havia me incomodado. Não pretendo usar esse espaço como depósito de confissões e frustrações, pois elas já ocupam boa parte do tempo dos meus amigos que ainda teimam em me escutar lamuriando e reclamando, mas ontem, definitivamente fiquei abalado.

Não sei mais como encarar a minha filha sem pensar: “o que fiz para tentar melhorar o meu mundo, justamente quando o mundo esperava que eu mudasse?” Que tipo de exemplo ou conselho eu darei para ela? Será que ela sequer vai ter esse tipo de dúvida alguma vez na vida?

Por favor, quem se pegou pensando nisso ou se moveu para mudar as coisas, levante a mão. Já que a minha ficará abaixada.