Catinha passou o Dia de Ano comigo. Aliás, comigo não, com a avó com quem tem uma xipofagia afetiva. Tem várias histórias dessas duas, mas é para outra hora. A história de hoje é que a Catinha estava toda cheia de si com o vestido branco novo, feito por encomenda à costureira da casa. Toda prosa, toda princesinha para ver os fogos de Ano Novo à praia de Copacabana.
Dando onze e meia, a mesma rotina anual: xinga-se os elevadores como culpados das pessoas quererem sair no mesmo horário, xinga-se a multidão como se não fosse ela o motivo pelo qual a festa ser cada vez mais bonita e grandiosa, xinga-se a chuva que ameaça e não cai.
“Tá vendo, Catinha? É bom xingar o céu que evita a chuva de cair.” Diz o pai orgulhoso de revelar uma verdade científica para a filha.
“Você é tão bobo, papai.” Responde a filha, desmontando o pai que, de fato, é bobo.
Atravessa-se o mar de pessoas semi-alcoolizadas, desvia-se de cacos de vidro, arruma-se um local à beira-mar para assistir com conforto aos fogos desse ano. Espera-se a contagem regressiva em uma contagem desordenada da população.
“Dez, nove, oito…” Abre, espumante, abre! “sete, seis…” Cacete! A merda da espumante não quer abrir! “cinco, quatro…” POP! DROGA! Estourou antes da hora! “Três, dois, UM!”
Ê!
Daí banho de espuma em todos da família, da bisavó que desvia atrás do tio mais alto, aos “agregados” do ano que começam a cumprimentar a todos em volta.
A avó coloca a neta nos ombros e para que ela veja melhor o show pirotécnico. Daí uns minutos de esporro coordenado e clarões no céu, noto que Catinha está soluçando. Chego perto e ela aos prantos. Desço ela dos ombros da avó preocupada, coloco-a no meu colo.
“Tá com medo dos fogos, minha flor?” Ela faz que não com a cabeça.
“Tá com saudades da mãe, lindinha?” Ela faz que sim.
“Quer que eu ligue para ela?” “Não precisa.”
Tentamos, não conseguimos. Óbvio. Linhas congestionadas na virada do ano é algo com que se pode contar. E com as contas. E com o ausência do arroz-doce na geladeira que a avó-bisa fez para você mas que todos (menos você) da casa comem.
Cruzamos a Avenida Atlântica com ela ainda em prantos. Passamos num camelô que vendia pingentes luminosos de borracha macia.
“Pai, quero um!”
Sabia! Brilhou, é de pendurar no pulso ou no pescoço e tem forma de bicho, Catinha quer. Tentei explicar para ela que tirar dinheiro no meio da rua, àquela hora, era perigoso, que ela ia usar o badulaque por dez minutos e iria jogar fora logo depois, que a teoria da oferta e procura indica que o preço praticado para a aquisição do tal objeto de utilidade discutível seria acima dos limites praticáveis por qualquer pessoa de classe média baixa, bem baixa.
“Pai. Eu quero.” Disse entre soluços e lágrimas.
Comprei. Passei atestado de bobo, burro e molenga mais uma vez. Não tem jeito.
Andamos com cuidado, desviando dos cacos e das poças de líquido não-identificado. Chegamos em casa, lavamos os pés. Esperamos o resto da família chegar, deixei Catinha com a avó e fui para a minha festa de Reveillon.
Dia seguinte, mesmo cansados da noite anterior, enterramos os ossos da ceia e ficamos jiboiando na sala. Eu, no computador, Catinha, avó e bisa em frente à TV. Aliás, ela, suas bonecas, o cavalo alado, as fantasias de rastafari e odalisca. Tudo ao mesmo tempo.
Chega a mãe e o padrasto que cumprimentam a todos. Ela vem de mansinho e me dá um abraço looooooooongo, sem que eu o pedisse. Eu mal viro para o lado – tava matando gente virtual, vocês sabem como é, né? – e ela se vai.
Acabei a fase do jogo. Cadê minha filhota? Foi-se e não vi mais. Iria viajar primeiro para a casa da avó materna, depois para a casa do pai do padrasto, depois para a Lua, Marte e Vênus e só quando estivesse na hora de me apresentar os tataranetos, voltaria para casa.
Três longos dias depois ela manda uma mensagem SMS para mim: “Pai. Te amo e estou com saudades.”
Chegou da farra no meio de janeiro, toda arranhada nas pernas e nos joelhos, mordida de mosquitos e formigas, bronzeada de roça e com um sorriso enorme, cheio de dentes.
Aliás, sorriso diferente. Não era dela, mas lhe caía muito bem.
Foi na médica fazer a revisão com a avó (recomendação da mãe). Médica diz que ela amadureceu muito nesses últimos meses. Não é mais um bebê grande, já é uma mocinha.
Quando chegam, a avó me conta e me dou conta que não sei se disse àquele bebê que eu a amava. Não sei se disse o suficiente. Provavelmente não. De certo que não.
E só fica a lembrança do abraço apertado que eu não soube encarar.
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Hi there!!!
Pois é… eu estava visitando o site da amada amiga diva Tosca e vi um comentário seu, não sei o motivo, mas cliquei e entrei aqui…
Não sei se te conheço e nem fui atrás de pistas para saber quem era o homem atrás do pai…
Well… li seu post (sobre a relaçao pai-filha) e nisso senti coisas que nao sei dizer… me emocionei…
Beijocas,
Fer..
Eu tenho sempre essa sensação.
Tenho uma irmã que só vi duas vezes na vida, um irmão que não dei a mão pela distância, amigos que erraram muito mesmo eu sabendo que iriam errar. Pessoas que me foram importantes e se foram porque eu não soube dizer: “me ajuda a te querer, a te gostar”.
Para alguns casos o silêncio é a melhor solução, ao aprendizado.
Mas no caso da Cacá, cada vez que eu me pego falhando, sinto como se repetisse os erros que cometeram comigo. Meu medo é aprender tarde demais…
Lindo demais… De vez em quando eu tenho essa sensação, de que alguma coisa deicou de ser dita ou que não foi dita o suficiente… A primeira vez que eu tive coisciência disso foi quando a minha bisa morreu… Eu nunca disse para ela que a amava, e fiquei durante muito tempo remoendo essa mágoa, até hoje, quando me lembro de quantas vezes ela me disse que me amava e eu não dizia nada, eu sinto uma dor diferente de qualquer outra coisa… Não passo uma noite sem rezar para ela e dizer o quanto a amo, contar tudo que me aconteceu naquele dia e desejar boa noite… Quando pego no sono antes de fazer isso, acordo na manhã seguinte contando tudo. Diversas vezes eu a sinto do meu lado, olhando por mim, sentindo o que eu sinto, e me sinto egoísta, sinto como se a estivesse prendendo, pois afinal de contas, eu é que preciso dela ali, do meu lado, para o meu benefício, para não me sentir completamente sozinha no mundo, mesmo rodeada de amigos e família. Sei que o dia de revê-la deve estar muito longe, mas sei exatamente o que farei neste dia… eu a abraçarei e só largarei quando tiver dito o suficiente o quanto a amo. Por enquanto eu tenho que aprender a lidar com isso, sou uma pessoa difícil de lidar com os próprios sentimentos, tenho muita dificuldade de falar para as pessoas o quão importantes elas são para mim e o quanto eu gosto delase ao mesmo tempo quero que elas adivinhem tudo o que eu sinto… Muito complicado isso, mas acho que vêm de família, minha vó nunca disse que me ama (a não ser quando forçada pela minha insistência), mas eu não preciso que ela diga para saber que é verdade, minha mãe é praticamente igual, acho que a ouvi dizer que me amava umas 2 vezes na vida, meu pai pior ainda, só em momentos especialíssimos… Enfim, acho que tenho que trabalhar isso e começar a aprender. :-)
Beijinhos
PS: Não consigo me conectar ao messenger!!!