publicado na Tribuna da Imprensa.
Novamente era uma mesa de bar. Botecão mesmo, na Augusta. Acho que era o Ibotirama. Já estava bêbado demais para ter certeza dos lugares. À minha frente dois amigos que atravessaram mais de quatrocentos quilômetros para me visitar. Eu estava feliz com aquelas faces tão amigas ali reunidas.
Já tínhamos rodado uma série de lugares de baixo renome atrás de uma Serramalte digna e o sucesso fora marginal, no mínimo. Até o fim de semana terminar, apenas desventuras e programas furados por conta do desconhecimento do terreno de um carioca desterrado em Sampa. Teoricamente eu já deveria ter mapeado todo o submundo da cidade e saber de cor os points de álcool de qualidade. Não o fizera. Como eu iria descobrir mais tarde, a idade tava cobrando uma taxa maior que eu esperava.
Sentamos nas cadeiras de plástico e na mesma hora nos arrependemos de ter abandonado os bancos quentes da Bela Paulista. Tentamos engatar alguns papos sem nexo e parecia que nada rendia. Ou não rendia da mesma maneira que quinze anos atrás. Não era esgotamento do carinho mútuo, pois esse era aparente, mas era mais uma distância que fora construída vida afora.
O que mais se ouvia era o nosso silêncio. Olhei os rostos dos meus amigos como se os encontrasse pela primeira vez. Me surpreendi com as rugas de um e os quilos ganhos de outro. Imaginei que o mesmo acontecia comigo, o tempo não perdoa ninguém. O cansaço da viagem e do dia de trabalho ajudavam a tornar esse silêncio em algo mais imperativo que a vontade de beber e acordar acabado numa sarjeta paulistana.
Na verdade, não havia a vontade de repetir aqueles programas de adolescente desesperado por acabar consigo mesmo ante o mundo adulto que se apresenta para ele. Já temos a certeza de nossos papéis na sociedade e o que temos de desempenhar diariamente para nos afirmarmos como cidadãos produtivos e eficientes. Temos uma história de quarto de século após a fralda cada um. Temos responsabilidades e deveres e somos lembrados deles diariamente. E é isso que nos faz adultos, não é? A ausência de indulgências perante nossas responsabilidades.
Tentamos lembrar de alguns casos do passado ou de pessoas que perdemos o contato. A cerveja – Brahma, nevada, gelada – calava as intenções de continuarmos os assuntos inócuos. Ficamos com o planejamento do sábado e do domingo.
Ainda que eu tentasse amealhar alguma lembrança boa dos três na mesa de bar varando aquela madrugada, era indelével a sensação de derrota perante as minhas mais caras lembranças da vida. Queria que tivesse sido um fim de semana de abraços, gargalhadas, lugares legais a se ver em Sampa e um revival do que era a maior amizade de todo o mundo.
Mas éramos apenas três bêbados a silenciar ante as nossas histórias do passado e anunciando um fim de semana que acabara já na madrugada de sexta-feira.
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